Ilustração de Amalyn Malix
Ilustração de Amalyn Malix

20 anos sem Renato Russo: o que a sua estreia com a Legião Urbana tem a dizer hoje para a política

 

Romulo Mattos

No contexto do vigésimo aniversário de morte de Renato Russo, verifica-se um forte avanço conservador no Brasil. Oposta a qualquer tipo de conservadorismo era a sua visão política, expressa em letras de música e em depoimentos concedidos à imprensa. Este texto trata da estreia de Renato Russo no mercado fonográfico, por meio do disco Legião Urbana (1985), no qual apresentou parte expressiva de sua abordagem politizada, que fez história do rock brasileiro, e promoveu ideias comuns à esquerda.

I

Gravado na segunda metade de 1984 e lançado apenas a 14 de fevereiro de 1985, para não ter a sua publicidade diminuída pelo Rock in Rio, o primeiro álbum da Legião Urbana foi bem recebido pela crítica, que em geral elogiou as letras pessoais e políticas de Renato Russo, e ressaltou a abertura de novos caminhos para o panorama roqueiro do país. O público também aprovou o trabalho da banda brasiliense, tendo comprado, até o lançamento do Dois (1986), cerca de 90 mil cópias – com o tempo, ganhou disco de diamante, com 1 milhão de exemplares comercializados. O single que puxou as vendagens do LP foi “Será”, na opinião do compositor, um dos dois megassucessos da Legião Urbana, ao lado de “Pais e Filhos”. Certa vez, declarou que, assim como “Andrea Doria”, do segundo álbum, “Será” seria sobre “(…) um jovem que quer mudar o mundo, porque está tudo horrível (…)”.[1] No seu entender, “Será é imbatível. Acho que tudo o que a gente vai falar na vida está naquela música”.[2]

Já “A dança” tem uma relação estrutural entre o título e a música, cuja levada da bateria eletrônica é acelerada, enquanto a linha de baixo é funkeada. Essa foi originalmente criada por Renato Russo, que a tocava desde os festivais estudantis de Brasília, em 1983. Porém, no disco, certas partes foram redefinas pelo baixista Renato Rocha – que contribuiu para o arranjo e acabou sendo incluído na autoria da música, ao lado dos outros colegas de banda. A letra critica a promoção generalizada do preconceito e, mais especificamente, do sexismo entre os jovens da época, por esse motivo considerados ultrapassados pelo narrador: “Não sei o que é direito/ Só vejo preconceito/ E a sua roupa nova/ É só uma roupa nova/ Você não tem ideias/ P’rá acompanhar a moda/ Tratando as meninas/ Como se fossem lixo/ Ou então espécie rara/ Só a você pertence/ Ou então espécie rara/ Que você não respeita/ Ou então espécie rara/ Que é só um objeto/ P’rá usar e jogar fora/ Depois de ter prazer”.

A letra alerta para o jovem que se acha moderno, mas é igual aos pais, ter cuidado, se um dia ele “dançar”, por causa de suas certezas. Na atual conjuntura, em que é possível observar o recrudescimento da luta pela igualdade de gênero, assim como o das reações ao movimento pelos direitos da mulher, a mensagem política de “A dança” é potencializada.

Essa música estava na fita demo gravada pela Legião Urbana nos estúdios da EMI, quando os seus integrantes ainda tinham a perspectiva de gravar um compacto, o que não ocorreu, em virtude de a gravadora ter optado pelo formato do LP. As outras duas eram “Ainda é Cedo” (escrita em 1983 para uma menina que ele não gostaria de rever “na sua frente”[3]) e “Geração Coca-Cola”. Sobre a primeira, Renato Russo declarou que foi influenciado pelo atual vencedor do Prêmio Nobel de literatura: “Eu sempre gostei de Bob Dylan, desse tipo de compositor que, mesmo quando está falando do social, do que quer que seja, passa isso por um prisma psicológico-afetivo-emocional-íntimo, sei lá…”. A segunda foi composta na época do governo Geisel, e integrava o repertório do Aborto Elétrico, a primeira banda punk de Brasília. No entanto, a sua gravação é mais conduzida pelo violão de Renato Russo do que pela guitarra de Dado Villa-Lobos. Isso se explica, por um lado, pela proposta do diretor artístico da EMI, Jorge Davison, no sentido de produzir uma abordagem mais folk; por outro, pela realidade de que pedal de distorção naquele contexto era quase proibido pelas empresas fonográficas (para os seus executivos, as rádios não tocariam música com guitarra distorcida).[4] A perda de peso instrumental foi, em parte, compensada pela agressividade do vocal.

Embora tenha sido criada na segunda metade dos anos 1970, e de ter se tornado um hino dos anos 1980, “Geração Coca-Cola” foi cantada em movimentos sociais de esquerda em épocas mais recentes, como as Jornadas de Junho e as ocupações de escolas públicas por adolescentes. O refrão menciona o protagonismo político dos “filhos da revolução”, uma irônica referência àqueles que, como Renato Russo, foram criados e (des)educados durante a ditadura militar. Claramente influenciado pela audição dessa canção, Antonio Carlos Miguel escreveu no Jornal da Tarde que as letras do disco em questão conseguem “traçar um contundente perfil da juventude que cresceu sob a sombra do regime de 64”[5]. Renato Russo canta: “Somos os filhos da revolução/ Somos burgueses sem religião/ Somos o futuro da nação/ Geração Coca-Cola”.

Seguindo a análise de Érica Magi, a primeira estrofe revela que esses jovens integravam uma geração que vivera a consolidação da indústria cultural – tendo seus produtos submetidos à razão dos governos ditatoriais –, e que pretendia, na conjuntura da abertura política, “cuspir de volta todo o lixo” consumido dos meios de comunicação. A cientista social completa: “Contudo, a letra soa altamente irônica: O que se poderia esperar de uma geração denominada Coca-Cola – um ícone do consumo global – que cresceu alimentada pela produção cultural permitida pela censura, na qual incluía os ‘enlatados de USA’?”.[6] Eis os versos comentados: “Quando nascemos fomos programados/ A receber o que vocês/ Nos empurraram com os enlatados dos USA, de 9 às 6/ Desde pequenos nós comemos lixo/ Comercial e industrial/ Mas agora chegou nossa vez/ Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês”.

Se a ideia de revolução aparece pela primeira vez atrelada ao golpe de 1964, em uma adoção – irônica, como foi mencionado – da nomenclatura oficial dos militares, na última estrofe ela ganha um sentido ameaçador à ordem, uma vez que a ditadura (tratada como um “jogo sujo”) seria derrubada pela própria “Geração Coca-Cola”: “Depois de vinte anos na escola/ Não é difícil aprender/ Todas as manhas do seu jogo sujo/ Não é assim que tem que ser?/ Vamos fazer nosso dever de casa/ E aí então, vocês vão ver/ Suas crianças derrubando reis/ Fazer comédia no cinema com as suas leis”.

Para o biógrafo Carlos Marcelo, “Geração Coca-Cola” é uma gravação que “deixa transparecer um duplo acerto de conta: com o tempo, com a história”.[7] Nos dias de hoje, essa letra de Renato Russo pode ser ressignificada por aqueles que acreditam na necessidade de construção de um movimento político de esquerda forte para, de um lado, derrubar projetos autoritários (como não lembrar a forma com que Temer chegou ao poder e a maneira pela qual suas reformas antipopulares vêm sendo implantadas?); de outro, transformar as estruturas de um regime sustentado pelo “jogo sujo” do grande capital.

No trecho anteriormente citado de “Geração Coca-Cola”, há uma rápida crítica à escola como uma instituição conservadora e mantenedora da ordem. Vale lembrar que o projeto escolar criticado pelo roqueiro é aquele imposto pelos militares, que utilizaram o Aparelho de Ensino como estratégia de hegemonia. A insatisfação com tal abordagem educacional, que serviu como um invólucro mistificador do projeto “Brasil Grande Potência”, aparece na primeira estrofe de “O Reggae”: “Ainda me lembro aos três anos de idade/ O meu primeiro contato com as grades/ O meu primeiro dia na escola/ Como eu senti vontade de ir embora/ Fazia tudo que eles quisessem/ Acreditava em tudo que eles me dissessem/ Me pediram para ter paciência/ Falhei/ Então gritaram: – Cresça e apareça! (…)”.

A analogia entre escola e prisão é reveladora de uma instância que, ao invés de promover a autonomia, favorecia o controle. Saltando para a conjuntura de 2016, por um lado, vemos a repentina reforma escolar de Temer, que sacrifica as disciplinas de formação humana e recupera o caráter tecnicista da época da ditadura; por outro, o movimento “Escola sem Partido” avançando na Câmara dos Deputados, com o intuito de promover uma educação sem pensamento crítico, isolando qualquer átomo que contenha a possibilidade de transformação da sociedade. Nesse aspecto, o pensamento que Renato Russo manifestou em “O Reggae” se mostra poderoso e atual.

O título dessa gravação encontra tradução musical no estilo escolhido para a música. Surgido nos guetos jamaicanos, o reggae sempre se caracterizou por expressar questões sociais. Na música da Legião, não é diferente. O narrador é um desviante que se vê como vítima do sistema social vigente. É também uma vítima do sistema policial, que se diz perdedor de uma batalha, mas afirma que a guerra ainda não está definida: “Beberam meu sangue e não me deixam viver/ Têm o meu destino pronto e não me deixam escolher/ Vem falar de liberdade pra depois me prender/ Pedem identidade pra depois me bater/ Tiram todas minhas armas/ Como posso me defender?/ Vocês venceram esta batalha/ Quanto à guerra, Vamos ver”.

Um dos avaliadores que censuraram a composição em 1984 a considerou uma “Uma ameaça declarada”.[8] Em poucas palavras, a mensagem de resistência ao sistema social contida em “O Reggae” pode ser um alento para um cenário político nebuloso, marcado pelas derrotas impostas aos trabalhadores pelo governo golpista de Temer.

Outra composição que merece atenção mais demorada é “Baader-Meinhof Blues”, título que cita o grupo alemão de esquerda que promovia uma guerrilha urbana revolucionária contra um Estado que vinha intensificando a sua faceta coercitiva contra os setores rebeldes. Ironicamente, quem a definiu muito bem foi o censor que defendeu sua não liberação, em 1984:

“A presente letra musical fala da insensibilidade ante a violência, como característica comportamental do mundo moderno, em um meio social urbano de grandes centros, bem como fala da escassez do espírito de fraternidade nos dias de hoje, das falhas humanas refletidas na Justiça e do processo de alienação e massificação cultural, gerado pela televisão”.

Renato Russo não definiria melhor o conteúdo poético de “Badder-Meinhoff Blues” (nem mesmo o autor deste texto). “A violência é tão fascinante/ E nossas vidas são tão normais/ E você passa de noite e sempre vê/ Apartamentos acesos/ Tudo parece ser tão real/ Mas você viu esse filme também/ (…) “E essa justiça desafinada/ É tão humana e tão errada/ Nós assistimos televisão também/ Qual é a diferença?”.

Vale lembrar que a violência urbana foi um dos principais problemas sociais apontados pelos participantes das Jornadas de Junho. A espetacularização midiática em torno desse tema chega ao seu cume em programas televisivos como o Brasil Urgente, comandando pelo bufão José Luiz Datena, e o Cidade Alerta, apresentado pelo também pouco auspicioso Marcelo Rezende. Aqui a poesia de Renato Russo novamente ganha fôlego renovado. Outra crítica realizada em “Badder-Meihoff Blues”, conforme apontado pelo ilustrado censor, diz respeito à Justiça. Também ela nos parece atual. No momento em que este texto é escrito, vive-se no Brasil uma ditadura do Judiciário, cuja atuação sem limites pode legitimar o golpe contra um governo eleito, anular o júri do Massacre do Carandiru (o que proporcionará a absolvição dos policiais envolvidos), ou ainda prender arbitrariamente políticos de um projeto político tratado como rival.

Por fim, “Soldados” também contribui para a variedade política do disco de estreia da Legião Urbana. O guitarrista Dado Villa-Lobos já a definiu como um “mantra antiguerra de duas notas”[9], além de considerá-la um das poucas músicas do álbum que tiveram um registro de guitarra satisfatório (as outras são “Teorema” e “Baader-Meinhof Blues”). De fato, a letra de “Soldados” promove uma mensagem pacifista, nítida em versos como: “Somos soldados/ Pedindo esmola/ E a gente não queria lutar”. Em shows, às vezes Renato Russo a dedicava àqueles que não queriam prestar o serviço militar – para a sua insatisfação, quando ele cantava esse último trecho, chovia moeda no palco. A sua pregação antibelicista reaparece em “Plantas embaixo do aquário”, do Dois, e é aprofundada na “Canção do Senhor da Guerra”, incluída na trilha sonora do especial infantil A Era dos Halley, da Rede Globo, em 1985.

Mas “Soldados” tem um duplo sentido; nas entrelinhas, aborda a questão da homossexualidade, sendo suficiente como exemplo a primeira estrofe: “Nossas meninas estão longe daqui/ Não temos com quem chorar e nem pra onde ir/ Se lembra quando era só brincadeira/ Fingir ser soldado a tarde inteira?/ Mas agora a coragem que temos no coração/ Parece medo da morte mas não era então./ Tenho medo de lhe dizer o que eu quero tanto/ Tenho medo e eu sei por quê:/ Estamos esperando”.

A temática gay reaparece menos cifrada em “Daniel na cova dos leões”, do segundo LP, e de forma transparente em “Meninos e meninas”, de As quatro estações (1989). O disco solo de Renato Russo, The Stonewall Celebration Concert (1994), traz no título a homenagem aos vinte e cinco anos da rebelião nova-iorquina que levou ao movimento moderno de libertação gay e à luta pelos direitos LGBT nos EUA. “Soldados” ganha fôlego renovado neste contexto de reunião de forças para o combate à homofobia no Brasil, que é incentivada, inclusive, por parlamentares campeões de voto.

II

Com letras de caráter político e existencial, o álbum “Legião Urbana” é o cartão de visitas de Renato Russo na música brasileira. Rápidas críticas sociais também são encontradas em “Petróleo do Futuro”, que lembra os “Agricultores famintos/ Desaparecendo embaixo dos arquivos” em um de seus versos. Além disso, essa canção trata da identidade nacional, sendo capaz de mostrar que o compositor se colocava do lado oposto ao dos vitoriosos da República: “Sou brasileiro errado/ Vivendo em separado/ Contando os vencidos/ De todos os lados”.

Este texto apresenta elementos suficientes para que Renato Russo seja reivindicado pela esquerda brasileira, sem maiores resistências: trata-se de um compositor que comunicou política progressista por meio das letras de suas canções, desde a sua estreia em disco. Vale lembrar que, para fazer essa afirmação, o autor deste artigo nem precisou citar as canções de protesto mais conhecidas do artista, como “Que país é esse” (1987), ou a sua abordagem política não panfletária, de imenso sucesso, em “Tempo perdido” e “Índios” (sendo as duas de 1986). Se não bastasse, em entrevistas, Renato Russo criticou os saudosistas da ditadura, os simpatizantes do fascismo, e manifestou intenção de voto em Roberto Freire, nas eleições presidenciais de 1989, quando esse dizia que era importante saber quantos eram os eleitores simpatizantes do comunismo no Brasil e que a sua candidatura era um palanque importante para a defesa das teses do PCB. Em 1994, anunciou que votaria em Lula, na disputa com Fernando Henrique Cardoso, numa época em que o PT ainda era fortemente identificado com os trabalhadores e mesmo com a defesa do socialismo.

No aniversário de 20 anos da morte de Renato Russo, essa dimensão do poeta deve ser lembrada pela esquerda em fase de reorganização, em detrimento da incoerente vinculação de sua obra musical-política com as passeatas coxinhas. “Será que vamos conseguir vencer?”.

Notas

[1] ASSAD, Simone. Renato Russo de A a ZAs Ideias do Líder da Legião Urbana. Campo Grande: Letra Livre, 1997. p. 27.

[2] ibid. p. 134.

[3] ibid. p. 192. Próxima citação: ibid. p. 130.

[4] VILLA-LOBOS, Dado, DEMIER, Felipe Abraches, MATTOS, Romulo Costa. Dado Villa-Lobos: memórias de um legionário. Rio de Janeiro: Mauad X, 2015. p. 70-1.

[5] ibid. p. 299.

[6] MAGI, Érica Ribeiro. Rock and roll é o nosso trabalho: a Legião Urbana do underground ao mainstream. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista, 2011. p. 39.

[7] MARCELO, Carlos. Renato Russo: o filho da revolução. Rio de Janeiro: Agir, 2012. p. 281.

[8] ibid. p. 284.

[9] VILLA-LOBOS, Dado, DEMIER, Felipe Abranches, MATTOS, Romulo Costa. op. cit. p. 73.