Fotografia de Lyn Nascimento
Fotografia de Lyn Nascimento

8M, a luta das mulheres e o nó que não desata

Bárbara Castro

Este texto não se propõe a realizar uma análise exaustiva do 8M, a greve internacional de mulheres organizada no dia internacional da mulher, em 2017. A reflexão aqui compartilhada tem origem na observação restrita às imagens e discursos que circularam esta semana, na participação em um ato específico (o de Campinas-SP) e na observação acumulada de outras manifestações feministas (ou protagonizadas por mulheres). Essas imagens, discursos e dinâmicas, ainda que não sejam fruto de uma pesquisa sistemática, estão cotejadas por preocupações teóricas feministas e de gênero nas quais venho trabalhando nos últimos anos. É deste lugar, portanto, que escrevo.

Gostaria de iniciar esta reflexão partindo de duas chaves, nada indissociáveis: a do destaque de uma perspectiva classista em uma manifestação de base ampla feminista; e o da radicalidade em tratar da fronteira borrada para as mulheres entre trabalho pago e não pago (ou produtivo e reprodutivo).

Sobre a perspectiva classista falo aqui de destaque e não de (re)incorporação ou retomada para evitar repor um olhar que cega aos movimentos de mulheres que não necessariamente se reconhecem feministas (em muitas das vezes, justamente por não se reconhecerem nas pautas do feminismo mainstream), mas que se formam a partir de questões que suas experiências de classe, gênero e raça, articuladas, lhes colocam. Falo aqui dos movimentos de mulheres (ou no qual elas atuam com enorme protagonismo interno) organizados nas periferias, no campo e na luta por moradia nos grandes centros urbanos. Nestes casos, as condições de classe, articuladas às desigualdades de gênero, organizam os motes das lutas e se traduzem em uma política radicalmente feminista porque não prescindem (ao não poderem prescindir, e é disso que se trata), de uma luta que não separa trabalho pago e não pago. É o trabalho do cuidar, social e historicamente construído como responsabilidade das mulheres, o lugar do qual se parte para se construir essas lutas: ter terra para (re)produzir; ter creches, escolas, merenda, saneamento básico, saúde pública para (re)produzir; ter casa para ter condições mínimas para (re)produzir.

Se as feministas hoje repensam o papel de suas lutas no chamado momento da Segunda Onda pensando nas consequências de um feminismo de Estado ou de ONGs[1], convido-as também a repensar essa crítica. Essa autocrítica radical, que busca reconciliar-se com um projeto feminista identitário e classista[2], é um movimento generoso, embora pareça novamente muito voltado para si. Se um dos problemas levantados é o de que foram as elites de mulheres que compuseram governos, secretarias e organizaram políticas públicas, é importante lembrar que os movimentos sociais nunca deixaram de lutar suas batalhas. A titularidade da terra e a documentação de mulheres rurais, conquistadas nos últimos anos no Brasil, são fruto da organização de mulheres do campo que não deixaram de pressionar governos compostos pela “elite” do feminismo nacional. Essa articulação sempre esteve presente. A “elite” do feminismo sabe que nunca esteve sozinha ocupando esses lugares.

No entanto, a despeito de uma perspectiva classista ter composto uma série de movimentos de mulheres, ela muitas vezes pareceu e esteve distante do discurso e prática feminista mainstream. E essa parece ser, embora essa hipótese possa ser um pouco apressada, a novidade que compõe as manifestações feministas dos últimos anos. A crise econômica e política que atravessamos no Brasil e no mundo é a chave de análise mais imediata que alcançamos para explicar essa novidade. As “elites” da classe trabalhadora novamente partilham da experiência de insegurança e instabilidade que o capitalismo neoliberal instaurou na vida cotidiana da classe trabalhadora mais pauperizada. A precariedade do trabalho, antes realidade explícita restrita a ela, alcança massivamente o topo da pirâmide econômica, que passa a partilhar tanto do desmanche de direitos trabalhistas e previdenciários, no caso brasileiro, quanto da inseguridade de seus empregos e do desalento do desemprego. Aqui, cabe destacar um dado. Na última PNAD contínua divulgada pelo IBGE, um em cada quatro jovens brasileiro encontra-se desempregado[3].

A luta feminista não poderia deixar de ser afetada por essas questões. Se o renascimento do feminismo como um movimento de base ampliada parece ser puxado por uma maioria de mulheres jovens, não há como as preocupações que compõe o seu cotidiano e seus projetos de futuro não serem trazidas ao centro de suas lutas. Falar sobre o lugar que as mulheres ocupam na sociedade é falar sobre o lugar que elas ocupam no mundo do trabalho.

E é aqui que os pontos que destaquei para reflexão no início desse texto se encontram. A palavra de luta da greve internacional das mulheres é de uma radicalidade feminista ímpar: “Se nossas vidas não importam, que produzam sem nós!”. Retomam, com isso, a preocupação em reconhecer a hierarquização entre os trabalhos pago e não pago, e partem do princípio caro ao feminismo classista da indissociabilidade do par produção e reprodução[4]. Ao fazer dessas palavras seu mote, as mulheres convidam o conjunto da sociedade a pensar no quanto a maneira como a produção capitalista é organizada atravessa os corpos das mulheres de maneira distinta, produzindo efeitos reais e brutais em seu cotidiano. Esses efeitos não se restringem à esfera meramente econômica. Esses efeitos se traduzem também na hierarquização dos corpos, pois ao traçarmos uma hierarquia entre os trabalhos que importam e não importam, que valhem mais ou menos, repomos essas hierarquias sobre os corpos das mulheres. E elas tornam-se alvo das mais brutais formas de violência. Partir, portanto, de uma pauta política que coloque a questão da indissociabilidade dos trabalhos produtivo e reprodutivo, é a fórmula mais radical de pensar um projeto de uma outra sociedade.

Além do mote, cito rapidamente o convite à participação que partia também dessa chave. Nas sugestões de como aderir à greve, contemplava-se parar as tarefas de cuidado por um dia[5] e convidava-se os homens a cuidarem dos filhos e dessas tarefas para que as mulheres pudessem participar. O cuidar e a sua invisibilidade foi a perspectiva de saída da organização do 8M.

Encerro o texto em uma chave otimista, mas com muito cuidado, porque me toca fundo ver novamente nas ruas, nas salas de aula, nos debates intelectuais acadêmicos e não acadêmicos, uma articulação entre classe, gênero e raça e, para lembrar Nancy Fraser, uma articulação entre redistribuição, reconhecimento e representação como um nó que não desata por princípio. Obviamente que o 8M não deixou de ter falhas de classe, gênero e raça. E isso ficou explícito nas cobranças que circulavam em cartazes, na minha universidade, e nas redes sociais: “Quem é que pode, efetivamente, parar?”. A pergunta, que vale para toda e qualquer ato, paralisação ou greve, aliás, deve sempre nos acompanhar, para revelar as desigualdades e opressões que muitas vezes se constituem como invisíveis para as que tem as condições materiais e simbólicas de fazer uma pauta política circular. Os desafios são perenes porque, como assistimos em nosso atual contexto, a luta por direitos é também a luta pela manutenção dos direitos conquistados. A pauta só avança com uma postura política sempre alerta. Mas essa capacidade de resposta imediata aos problemas constitutivos de nossa conjuntura, as mulheres brasileiras estão conseguindo ter. E com uma qualidade prática e discursiva potente. Ter uma perspectiva que leva o cuidar e a interseccionalidade como princípios políticos massificados não é pouco. É uma conquista a se comemorar. Nosso trabalho deve ser, sempre, o de permanecer vigilantes, e cuidar para não deixar vencer a tentação de fazer esse nó desatar.

Notas

[1] Sobre isso, ver: ALVAREZ, Sonia E.. Para além da sociedade civilreflexões sobre o campo feminista. Cad. Pagu [online]. 2014, n.43, pp.13-56; MATOS, Marlise. Movimento e teoria feminista: é possível reconstruir a teoria feminista a partir do Sul global?. Rev. Sociol. Polit.,  Curitiba ,  v. 18, n. 36, p. 67-92,  June  2010 .   Available from < http://bit.ly/2mXdfoC >. access on  12  Mar.  2017.

[2] Sobre isso, ver o debate entre Judith Butler e Nancy Fraser sobre a classificação, por parte da esquerda marxista, dos chamados novos movimentos sociais como “meramente culturais”. BUTLER, Judith (1997). “Merely Cultural.” Social Text, no. 52/53, 1997, pp. 265–277. www.jstor.org/stable/466744. FRASER, Nancy (1998). “Heterosexism, Misrecognition and Capitalism: a Response to Judith Butler.” NLR, I/228, Mar./Apr. 1998. p. 140-149.

[3] Fonte: RODRIGUES, Fernando. Desemprego entre jovens até 24 anos é recorde e vai a 25,7%, diz IBGE. Uol, 22 nov. 2016. Disp[onível em: http://bit.ly/2mA59S6

[4] Indissociabilidade esta debatida há décadas por teóricas que se dedicam à análise articulada entre gênero e trabalho. Um ótimo livro para se iniciar neste debate é “O sexo do trabalho”, organizado por Andrée Bulport-Kartchevsy.

[5] https://media.giphy.com/media/3o84U2ApSrIfUj0dVe/source.gif