Ilustração de Adria Meira
Ilustração de Adria Meira

A alvorada de Outubro

China Mieville

(Tradução de Heci Regina Candiani)

A alvorada do dia 25 se aproximava. Desesperado, Keriénski emitiu um apelo aos cossacos “em nome da liberdade, da honra e da glória de nossa terra natal […] ajam para ajudar o Comitê Executivo Central do Soviete, a democracia revolucionária e o governo provisório e salvar o Estado russo em perigo”.

Mas os cossacos queriam saber se a infantaria ia para as ruas. Quando o governo deu uma resposta ambígua, todos – menos um pequeno número de ultralegalistas – responderam que não estavam dispostos a agir sozinhos, para “servir de alvo vivo”.

Várias vezes, e com facilidade, o Milrevcom[1] desarmou guardas legalistas em diversos pontos da cidade e lhes disse para voltar para casa. Na maior parte das vezes, era o que eles faziam. Os insurgentes ocuparam o Palácio dos Engenheiros simplesmente entrando pela porta. Eles entravam e se sentavam, enquanto aqueles que estavam lá sentados se levantavam e iam embora”, diz uma reminiscência. Às seis da manhã, quarenta marinheiros revolucionários se aproximaram do Banco Estatal de Petrogrado. Os guardas do Regimento Semenóvski que faziam a vigilância do prédio haviam prometido neutralidade: defenderiam o banco de ladrões e saqueadores, mas não tomariam partido entre reação e revolução. Nem interviriam. Eles se afastaram e deixaram o CMR assumir.

Uma hora depois, quando a aguada luz de inverno lavava a cidade, um destacamento do Regimento Keksgólmski comandado por Zakhárov, um cadete atípico da Escola Militar, juntou-se à revolução, dirigindo-se à Central Telefônica. Zakhárov tinha trabalhado lá e sabia como funcionava a segurança. Quando chegou, não teve dificuldade em dirigir suas tropas para isolar e desarmar os mal-humorados e impotentes cadetes de plantão. Os revolucionários desligaram as linhas do governo.

Esqueceram-se de duas. Com elas, os ministros do gabinete – escondidos e amontoados sobre dois receptores que ficavam entre as pilastras, as filigranas brancas e douradas e os candelabros da Sala Malaquita do Palácio de Inverno – mantinham contato com suas escassas forças. Eles emitiam instruções inúteis, brigando em voz baixa enquanto Keriénski olhava para o nada.

Meio da manhã. Em Kronstadt, assim como fizeram antes, marinheiros armados embarcavam em tudo o que conseguissem achar e fosse navegável. De Helsingfors, partiram em cinco destróieres e um patrulheiro, todos enfeitados com bandeiras revolucionárias. Por toda Petrogrado, os revolucionários esvaziaram mais uma vez as prisões.

No Smolni, uma figura desmazelada invadiu a sala de operações bolchevique. Os ativistas olharam desconcertados para o recém-chegado, até que finalmente Vladímir Bontch-Bruiévitch gritou e correu para a frente com os braços abertos: “Vladímir Ilitch, nosso pai! Não reconheci você, meu querido!”.

Lênin se sentou para redigir uma proclamação. Ele estava se contorcendo de ansiedade, desesperado para que a queda do governo estivesse finalizada quando o II Congresso se iniciasse. Ele conhecia bem a força de um fato consumado.

“Aos cidadãos da Rússia. O governo provisório foi derrubado. O poder do Estado passou às mãos do órgão do Soviete de Deputados Operários e Soldados de Petrogrado, o Comitê Revolucionário Militar, que está no comando do proletariado e da guarnição de Petrogrado.

A causa pela qual o povo tem lutado – a proposta imediata de paz democrática, eliminação da propriedade sobre a terra, controle dos trabalhadores sobre a produção, criação de um governo dos sovietes –, o triunfo dessa causa foi assegurado.

Viva a revolução dos trabalhadores, dos soldados e dos camponeses!”

A esta altura já bastante convencido da utilidade do Milrevcom, Lênin não assinou pelos bolcheviques, mas em nome desse corpo “não partidário”. A proclamação foi impressa rapidamente em negrito, ao qual o cirílico se presta bem. Tão rápido quanto as cópias podiam ser distribuídas, elas foram coladas em muitos muros. Os operadores transmitiram suas palavras pelos fios telegráficos.

De fato, não era uma verdade, mas uma aspiração.

No Palácio de Inverno, Keriénski usou seus últimos canais de comunicação para se juntar às tropas que se dirigiam para a capital. No entanto, comunicar-se com elas não seria nada fácil. Ele podia fugir, mas o CMR controlava as estações.

Ele precisava de ajuda. O Estado-Maior fez uma longa busca, cada vez mais frenética, até finalmente encontrar um carro adequado. Implorando, conseguiram garantir mais um carro, o da embaixada dos EUA – um veículo com convenientes placas diplomáticas.

Por volta das onze horas da manhã do dia 25, exatamente quando a proclamação prefigurativa de Lênin começou a circular, os dois veículos passaram acelerados pelas barreiras do CMR, mais entusiasmadas do que eficientes. Um Keriénski arruinado fugiu da cidade com uma pequena comitiva para ir ao encontro de soldados leais.

Para muitos cidadãos, apesar da agitação, aquele parecia um dia quase normal em Petrogrado. Havia barulho e desordem, é claro, e era impossível ignorá-los, mas relativamente poucas pessoas estavam envolvidas na luta, e apenas em pontos-chave. Enquanto os combatentes se ocupavam do trabalho insurrecional ou contrarrevolucionário, reconfigurando o mundo, a maioria dos bondes estava em operação e a maioria das lojas estava aberta.

Ao meio-dia, soldados e marinheiros revolucionários armados chegaram ao Palácio Mariínski. Os pré-parlamentaristas, que discutiam ansiosamente o drama que se desenrolava, estavam prestes a se tornar atores dele.

Um comissário do CMR entrou na sala de surpresa. Ordenou que o presidente do Pré-Parlamento, Avkséntiev, evacuasse o palácio. De armas na mão, soldados e marinheiros abriram caminho e dispersaram os aterrorizados deputados. Atordoado, Avkséntiev reuniu rapidamente o maior número possível de integrantes do comitê. Eles sabiam que resistir seria inútil, mas partiram sob protestos e com tanta formalidade quanto era possível, comprometendo-se a se reunir novamente o mais rápido que pudessem.

Quando saíram no frio cortante, os novos guardas do prédio verificaram seus documentos, mas não os detiveram. O lamentável Pré-Parlamento não era o prêmio que, para a exasperação enlouquecida de Lênin, ainda lhes escapava.

Esse prêmio era o Palácio de Inverno, agora sem a presença de Keriénski. Lá, com o mundo desmoronando, as lúgubres brasas do governo provisório ainda ardiam.

Ao meio-dia, na grande Sala Malaquita, o magnata do ramo têxtil e kadet Konoválov reuniu o gabinete.

“Não sei por que esta sessão foi convocada”, murmurou o almirante Verderiévski, ministro da Marinha. “Não temos nenhuma força militar tangível e, consequentemente, somos incapazes de tomar qualquer atitude.” Talvez, postulou, eles devessem ter se reunido com o Pré-Parlamento – e, no mesmo momento em que falava, chegou a notícia da dissolução do órgão.

Os ministros recebiam relatórios e emitiam apelos a seus interlocutores cada vez menos numerosos. Aqueles que não eram afligidos pelo triste realismo de Verderiévski prolongavam as fantasias. Com os últimos resquícios de poder se esvaindo, eles sonhavam com uma nova autoridade.

Com toda a seriedade do mundo, como se fossem fósforos queimados contando histórias sinistras de incêndios que provocariam em breve, as cinzas do governo provisório da Rússia discutiam entre si a criação de um ditador.

Dessa vez, as forças de Kronstadt alcançaram as águas de Petrogrado em um antigo iate de lazer, dois navios lança-minas, um navio de treinamento, um antigo navio de guerra e uma falange de pequenas barcaças. Outra flotilha maluca.

Perto de onde o gabinete fantasiava sobre uma ditadura revolucionária, os marinheiros tomaram o Almirantado e prenderam o alto-comando naval. O Regimento Pávlovski montou guarda nas pontes. O Regimento Keksgólmski assumiu o controle ao norte do rio Moika.

O horário originalmente previsto para a tomada do Palácio de Inverno, meio-dia, tinha chegado e passado. O prazo foi adiado para as três horas, o que implicava a prisão do governo para depois das duas horas da tarde, horário de abertura do Congresso dos Sovietes – exatamente o que Lênin queria evitar. A abertura do congresso foi adiada.

Mas o salão do Smolni agora fervilhava de delegados dos sovietes da capital e das províncias. Eles exigiam notícias. Não podiam adiar as atividades para sempre.

Assim, às 2h35 da tarde, Trótski abriu uma sessão de emergência do Soviete de Petrogrado. “Em nome do Comitê Militar Revolucionário”, exclamou, “declaro que o governo provisório não existe mais.”

Suas palavras provocaram uma tempestade de alegria. As principais instituições estavam nas mãos do CMR, Trótski continuou, em meio à comoção. O Palácio de Inverno cairia “em instantes”. Outra grande aclamação: Lênin estava entrando no salão.

“Viva o camarada Lênin”, gritou Trótski, “conosco novamente!”

A primeira aparição pública de Lênin desde julho foi breve e exultante.

Ele não ofereceu detalhes, mas anunciou “o início de um novo período” e exortou: “Viva a revolução socialista mundial”.

A maioria dos presentes respondeu com prazer, mas houve dissidências.

“Você está antecipando a vontade do II Congresso dos Sovietes”, gritou alguém.

“A vontade do II Congresso dos Sovietes foi predeterminada pelo fato de que os trabalhadores e os soldados se insurgiram”, replicou Trótski. “Agora só temos de levar adiante esse triunfo.”

Mas, entre proclamações de Volodárski, Zinóviev e Lunatchárski, um pequeno número de moderados, na maioria mencheviques, se retirou dos órgãos executivos do Soviete. Eles alertaram sobre as terríveis consequências dessa conspiração.

Os revolucionários haviam cometido erros de comédia-pastelão. Os marinheiros do Báltico chegaram atrasados aos seus postos. Alguns foram abandonados em um campo além da cidade finlandesa de Vyborg, graças a um chefe de estação legalista que forneceu um trem não confiável.

Às três horas da tarde, o ataque reprogramado ao governo provisório foi adiado novamente. Lênin ficou furioso com o CMR. Ele estava, recordou Podvóiski, “como um leão em uma jaula […], pronto para pular em cima de nós”. No próprio Palácio de Inverno, quando o moral dos cerca de 3 mil soldados famintos desmoronou, o gabinete se isolou e continuou a imaginar a história do futuro. Dan e Gots, do Pré-Parlamento, decidiram excluir os kadets de seu governo planejado; mas agora, em uma afronta epicamente insignificante para os mencheviques, o gabinete determinou que o novo líder seria do Kadet: o ex-ministro do Bem-Estar, Nikolai Mikháilovitch Kishkin.

Pouco depois das quatro horas da tarde, ele foi formalmente empossado. Assim começou o breve reinado do ditador Kishkin, todo-poderoso governante de um conjunto de salas palacianas e uns poucos edifícios periféricos.

O ditador Kishkin correu à sede militar para assumir o comando. Sua primeira ação foi demitir o chefe do Estado-Maior, Polkóvnikov, e substituí-lo por Bagratuni. Isso provocou a primeira fissura em sua autoridade absoluta: milagrosamente resistentes ao temível poder de Kishkin, os companheiros de Polkóvnikov renunciaram em massa para protestar contra o fato de ele ter sido feito de bode expiatório.

Alguns conseguiram passar pela esburacada defesa do CMR e voltaram melancolicamente para casa. Alguns se sentaram e ficaram olhando pelas janelas.

Seis horas. A chuva fria caía junto com a escuridão. Outro prazo do CMR para atacar o palácio havia terminado. A Guarda Vermelha observava com leve consternação enquanto, na Praça do Palácio, cadetes erguiam suas próprias barricadas.

De tempos em tempos algum revolucionário mais exaltado, ou coisa assim, disparava um tiro, apenas para ser repreendido por seus camaradas. Lênin enviou notas furiosas aos líderes do CMR, exigindo que dessem continuidade à operação.

Às 6h15, um grupo de cadetes de tamanho considerável decidiu que não tinha apetite para sacrifícios inúteis, particularmente de si mesmos, e escapuliu do Palácio de Inverno, levando seus rifles de grande porte. Os ministros se retiraram para os aposentos privativos de Keriénski para jantar. Borche, peixe, alcachofra.

Na Fortaleza de Pedro e Paulo, o comissário do CMR Blagonrávov decidiu que já era hora de atacar. Ele enviou dois ciclistas ao Estado-Maior com um ultimato: o canhão da fortaleza e as armas do Aurora e de sua embarcação irmã, Amur, disparariam em vinte minutos, a menos que o governo se rendesse.

Blagonrávov estava blefando. Ele havia descoberto que as grandes armas da fortaleza apontadas para o palácio eram inúteis: estavam muito sujas para disparar. Suas substitutas menores foram posicionadas às pressas, mas aí ele percebeu que elas não estavam carregadas. E ele não tinha munição adequada.

Os generais foram rapidamente ao gabinete para retransmitir a mensagem do CMR. O último telegrafista do Estado-Maior informou a Pskov que o prédio estava perdido. “Estou abandonando o trabalho”, acrescentou, “e dando o fora.”

Alguém quis saber o que aconteceria se o Aurora disparasse. “O palácio”, disse Verderiévski expressivamente, “vai virar um monte de ruínas.”

O ditador Kishkin apressou-se a implorar a alguns poucos cadetes trêmulos que ficassem. O gabinete, considerando que era seu dever não se retirar até o último momento possível, emitiu um último telegrama.

“Para todos, todos, todos! O Soviete de Petrogrado” – significativamente não os bolcheviques – “declarou derrubado o governo provisório e exige que o poder seja cedido sob ameaça de bombardeio […]. Decidimos não nos render e nos colocamos sob a proteção do povo.”

Às oito horas da noite foi a vez de duzentos cossacos abandonarem seus postos. Bagratuni renunciou e também saiu. No palácio, o restante das forças legalistas esperava a morte fumando morosamente sob a tapeçaria.

Um flanco estava mal guardado. Com determinação e sorte, qualquer um passaria pelos guardas nos corredores parcialmente defendidos. Uma série de revolucionários como Dachkiévitch e repórteres como John Reed iam e vinham, em nome da curiosidade, da solidariedade, do jornalismo. Tchudnóvski foi convidado a entrar por cadetes desesperados para sair dali, mas com receio e negociando sua própria segurança.

Os ministros desocuparam a Sala Malaquita e foram para um escritório menos vulnerável – onde havia um telefone que, milagrosamente, ainda estava funcionando. Os homens telefonaram para a Duma Municipal e pediram ajuda ao prefeito de Petrogrado, Grigori Shréider.

A Duma se reuniu imediatamente em sessão de emergência e enviou mediadores para o Aurora, o Smolni e o Palácio de Inverno. Mas os mediadores foram barrados pelo CMR ao se aproximarem do navio e rechaçados pelas pessoas que cercavam o palácio. Como a bandeira branca que carregavam não era suficientemente visível, foram recebidos a tiros pelos últimos defensores do palácio, em nome do qual estavam ali. No Smolni, Kámeniev os recebeu com cortesia e lhes ofereceu uma passagem segura até o palácio, mas o grupo escoltado não teve mais sorte do que aquele que seguiu direto para lá.

Foi mais ou menos nessa hora que Keriénski conseguiu chegar ao front.

Blagonrávov estava tentando se preparar e percebeu com alívio que as armas de seis polegadas da Fortaleza de Pedro e Paulo estavam em condições de atirar, no final das contas. Mas as ridículas dificuldades que teve de enfrentar não haviam acabado. Os revolucionários concordaram que o ataque final ao Palácio de Inverno começaria quando os homens içassem uma lanterna vermelha no mastro da fortaleza – e ninguém, ele veio a saber, tinha tal lanterna.

Caçando uma lanterna nas dependências sombrias da fortaleza, Blagonrávov acabou caindo em um poço de lama. Quando, sujo e encharcado, finalmente encontrou uma luz adequada e voltou para erguê-la, descobriu, quase fora de si de tanta frustração, que “era extremamente difícil fixá-la no mastro”. Foi só depois das 9h40 da noite, quase dez horas depois do prazo original, que ele superou os obstáculos e, finalmente, conseguiu sinalizar para que o Aurora disparasse.

O primeiro tiro do navio foi sem projétil. A explosão produziu um som sem fúria, mas bem mais alto do que o da munição viva. Um estrondo cataclísmico sacudiu Petrogrado.

À beira do rio, os espectadores curiosos se jogaram no chão, aterrorizados, e taparam os ouvidos. Atordoados e trêmulos com os relatos, dezenas de defensores do palácio perderam a confiança e abandonaram seus postos, deixando para trás apenas um núcleo duro engajado, corajoso, paralisado, exausto, estúpido ou medroso demais para fugir.

O ministro Semion Maslov, da direita SR, gritou ao telefone para um representante da Duma, que transmitiu suas palavras para a casa silenciosa.

A democracia nos pôs no governo provisório: não queríamos a nomeação, mas tivemos de aceitá-la. No entanto, agora […] quando atiram em nós, não somos apoiados […]. É claro que vamos morrer. Mas minhas palavras finais serão: “Desprezo e danação à democracia que soube nos nomear, mas não conseguiu nos defender”.

(Este artigo foi extraído do capítulo 10, “Outubro vermelho” de China Miéville, Outubro: história da Revolução Russa. São Paulo: Boitempo, 2017, p. 275-283.)

Nota

[1] Comitê Militar Revolucionário. N.E.