Ilustração de Marlon Anjos
Ilustração de Marlon Anjos

A condição humana: um relato pessoal

Luiz Belmiro 

Ultimamente tenho iniciado meus textos a partir de reflexões sobre minha trajetória individual enquanto militante, não sei se por algum traço personalista ou pela idade, mas este olhar voltado pra trás tem sido cada vez mais recorrente. Sou militante de esquerda desde os 21 anos, e o fato é que foi no massacre promovido pelo governador Beto Richa e seus deputados em 29 de abril de 2015 que pela primeira vez na vida me dei conta da minha própria mortalidade. Esta não foi a primeira vez que participei de alguma ação direta como forma de manifestação e protesto, estive na ocupação da Assembleia Legislativa do Paraná contra a privatização da COPEL em 2001, já bloquei a BR que corta Curitiba em protesto, ocupei a Reitoria da Universidade Federal do Paraná, impedi o falecido Ministro da Educação Paulo Renato de falar em uma conferência, e participei das manifestações contra a reforma da previdência em Brasília no ano de 2003. Mas a única vez em que me senti realmente ameaçado foi no ano passado na Praça Nossa Senhora de Salete, sem saber se meus amigos e amigas, companheiros de luta, haviam sido atingidos por alguma bala ou se estavam sendo espancados pelos policiais envolvidos na operação. Consegui fugir desviando de bombas e em meio à fumaça do gás lacrimogêneo, juntamente de algumas pessoas que estavam mais próximos enquanto perdi os demais de vista. Foram horas de aflição e angústia até saber que todos estavam ao menos vivos, feridos, mas vivos. As imagens que circularam nos dias seguintes dos feridos, inclusive dos meus próprios amigos, me trouxeram imensa tristeza, revolta e indignação.

Mas em nenhum momento eu pensei em recuar, em desistir, ou aceitar as coisas como são. Não se trata de coragem, ousadia ou ingênuo idealismo. O que fez com que os sentimentos que senti aquele dia superassem a barreira individual foi a consciência de classe, ou melhor, a tomada dessa consciência. Em Marx e Engels vemos que a percepção de pertencimento a uma classe específica não significa apenas compreender a relação de exploração existente sob o capitalismo, mas acima de tudo, tomar a consciência do papel histórico que todos temos enquanto membros da classe operária. Neste sentido, vale a máxima de Lênin, “o dever de todo revolucionário é fazer a revolução”. O que não quer dizer que só devemos executar ações que levem inevitavelmente à revolução e consequentemente a uma sociedade comunista, mas que devemos sempre trabalhar para isso, conscientes do alcance de nossos atos.

Personalismo aqui seria achar que nossa geração é a predestinada a viver em uma nova sociedade, a derrubar o capitalismo, como se todos devessem nos saudar e reconhecer nosso protagonismo. Não devemos trabalhar pela revolução apenas na perspectiva de sermos a vanguarda revolucionária, de que seremos para sempre lembrados e reverenciados, e que as gerações futuras serão nossas eternas devedoras. Pelo contrário, nós é que somos devedores, de todos aqueles que lutaram antes de nós, que contribuíram com o movimento desde seu princípio, pois esta é uma luta de acumulo de forças, de tomada de posições, e cada nova posição conquistada é um passo a mais no caminho para um novo mundo.

E a consciência de classe não é sinônimo de humildade, antes disso ela se revela uma forma de desafiar, de transcender a condição humana. Essa é a tônica de um dos principais romances do século XX, A condição humana, obra-prima do francês André Malraux. A história acompanha a tentativa frustrada de revolução na China em 1927, do ponto de vista de quatro militantes do Partido Comunista Chinês. Mesmo antevendo seu destino infeliz, de morrer pelo pelotão de fuzilamento do Partido Nacionalista Chinês, eles obedecem às ordens do Comitê Central em Moscou, que os mandava recuar “estrategicamente” na perspectiva de construir o socialismo de forma gradual. Durante os dias que se seguem os quatro protagonistas se deparam com dilemas extremos, matar ou morrer, amar ou desistir, a vingança ou a resignação. Afinal, no ponto de vista do autor, quem procura superar a condição humana e busca pelo absoluto (no caso a revolução), pelo imortal, está se aproximando da morte, a procurando.

A escolha de Malraux por abordar a condição humana a partir de militantes comunistas não é gratuita, nos confrontamos diariamente em nossas lutas com nossas próprias limitações, sonhos, amores e frustrações. Enfrentamos inimigos em condições adversas, mesmo sabendo que não há correlação de forças, como no massacre do 29 de abril. A única certeza que temos, se é que podemos chama-la assim, é sobre a justeza de nossa luta. Daí se estamos sendo ultrapassados, estreitos, radicais demais para nossos dias, se estamos andando entre dinossauros que ainda professam o marxismo, se ainda insistimos em acreditar e lutar por um mundo diferente do que nos está posto, mesmo quando parece que tudo e todos estão contra nós, a consciência de classe nos faz seguir adiante. Da mesma forma que Richa e Francischini passarão para a história como covardes, e como é certo que o capitalismo será enfim superado por outra forma de organização social, nós também seremos sucedidos por outras pessoas dispostas a lutar a nossa luta, a fazer a roda da história continuar a girar.

Por isso, o 29 de abril de 2015 não deve ser lembrado apenas como um dia de derrota, de sangue e lágrimas, mas deve ser lembrado sim como mais um dia em que mostramos a fascistas fantasiados de democratas que sempre enfrentarão resistência. Mostramos que não podem cometer seus atos imorais e cínicos impunemente, sem revelar sua essência cruel e autoritária, expondo a sua face mais abominável. Nós podemos e ousamos sair em campo aberto com a única coisa que possuímos para nos defender, nossa consciência de classe.