Ilustração de Antônio Máximo
Ilustração de Antônio Máximo

A contribuição de Losurdo à crítica da historiografia revisionista

Demian Melo

Nesse ano do centenário da Revolução Russa, a editora Boitempo disponibilizou ao público brasileiro uma das mais importantes contribuições à crítica da historiografia revisionista das revoluções, Guerra e Revolução (LOSURDO, 2017), do filósofo italiano Domenico Losurdo. O livro em tela foi originalmente publicado em 1996 com o título de Il revisionismo storico: problemi e miti (LOSURDO, 1996), mas recebeu em inglês uma nova edição ampliada em 2015 (LOSURDO, 2015), sendo esta a base da edição brasileira, onde constam dois novos capítulos.

Autor conhecido do público brasileiro, a contribuição de Losurdo à crítica da historiografia revisionista ainda é pouco visitada em nosso país. É verdade que o debate propriamente sobre o revisionismo não nos é inédito, como, por exemplo, a crítica demolidora de Eric Hobsbawm ao revisionismo de François Furet sobre a Revolução Francesa, foi publicada no Brasil em 1996 (HOBSBAWM, 1996), ou antes a controvérsia da historiografia alemã (Historikerstreit) da década de 1980.[1] Contudo, e aí está a riqueza da crítica de Losurdo, este autor realiza a articulação dessas duas controvérsias historiográficas num grande debate, qual seja, aquele sobre a revolução socialista no século XX, permitindo identificar as enormes afinidades e circulação entre diferentes contextos revisionistas.

Além disso, Losurdo articula com desenvoltura a historiografia revisionista com o pensamento de autores neoliberais, assinalando as inúmeras semelhanças entre as proposições de Furet, Ernst Nolte, Richard Pipes e autores como Ludwig von Mises e Friedrich von Hayek. No caso de Pipes, o detrator da Revolução Russa, a menção à von Mises é direta: a atração dos intelectuais pelo anticapitalismo seria um sintoma de sua pouca relevância, mas perigosamente estaria por trás de grandes barbáries. Enquanto são mais sutis as concordâncias de Furet a respeito da posição de Hayek quanto aos “sonhos de engenharia social” como o responsável pela aceleração da violência política. Em certa medida, aponta também para as diferenças entre os historiadores revisionistas e os autores neoliberais, já que estes últimos costumam ser mais extravagantes no espancamento das evidencias empíricas. Trata-se assim de uma obra em que o autor é capaz de localizar o lugar da historiografia revisionista no interior do debate intelectual contemporâneo.

Uma ideia permite-lhe articular os revisionismos: o propósito de liquidar a tradição revolucionária, ou melhor, o ciclo revolucionário que vai de 1789 a 1917. O resultado são desabamentos em cadeia, ou um “efeito dominó”,[2] em que a desqualificação de eventos como as revoluções francesa e russa colocam em xeque a compreensão de outros processos históricos e percepções políticas contemporâneos.

“Sem a Revolução Francesa não se pode compreender o Risorgimento italiano, claramente influenciado pelo movimento de 1848, pela experiência napoleônica e, antes ainda, pela Revolução Napolitana de 1799.” (LOSURDO, 2017: 14)

Em suma, como entender a via da construção do Estado moderno italiano sem a compreesão do caso clássico de revolução burguesa ocorrido na França no final do século XVIII? A mesma observação pode ser dirigida ao resultado da desqualificação da Revolução Russa de 1917 representados na historiografia por Pipes, Nolte e Furet:

“Por sua vez, a queda do ‘mito’ do Outubro bolchevique lança uma sombra inevitável sobre a Resistencia antifascista que se desenvolveu internacionalmente, no âmbito da qual exerceram papel preponderante as forças políticas e sociais explicitamente influenciadas pelo bolchevismo. E uma sombra ainda mais inquietante acaba por envolver o movimento revolucionário anticolonial, desde suas origens estimulado e fortemente condicionado pela agitação e pela presença comunista. Autores que não professam explicitamente o revisionismo, embora possam ser nele enquadrados, saúdam com ardor o ‘revival do colonialismo’: junto ao país nascido da Revolução de Outubro, desmoronaram também suas ‘crenças ideológicas’ e o seu ‘cânone sagrado’ de que fazia parte o opúsculo de Lenin dedicado à denúncia do imperialismo.” (LOSURDO, 2017: 15)

Losurdo não se limita a criticar a historiografia revisionista e traz contribuições importantes no que toca à dinâmica da revolução burguesa na Inglaterra, o país pioneiro do capitalismo. Seria necessário entender o processo de transição ao capitalismo como resultando de três revoluções: a Reforma anglicana, a Revolução de 1640 e a chamada Revolução Gloriosa de 1688 (Idem: 54-57). Desta, desdobra-se a tese, já conhecida e enunciada por vários autores, da revolução americana em duas etapas (p.ex. MOORE JR., 1983), o processo Da Revolução Americana (1776-1783) e a Guerra Civil (1861-1865) respectivamente, seguidas pelo período da chamada Reconstrução (1865-1876), como constitutivos da ordem social capitalista. A ampliação do escopo da análise numa perspectiva mais global poderia permitir a Losurdo entender como a própria expansão colonial inglesa e constituição do sistema escravista colonial foram partes fundamentais desta dinâmica de constituição do capitalismo (p. ex. LINEBAUGH & REDIKER, 2008; WOOD, 2014), mas sua ideia de articular os três processos como constituvos da revolução burguesa na Inglaterra já é uma contribuição importante.

As teses centrais da operação revisionista

Reproduzindo uma espécie de leitura canônica do liberalismo conservador sobre 1789, Furet já desde a década de 1960 cunhou a noção de dèrapage [derrapagem] para se referir à fase jacobina da Revolução Francesa, o período do Terror. No livro que escreveu com Denis Richet, Furet apresentou a tese da dèrapage e a noção de que o processo de liberalização já havia se iniciado sob o Ancien Régime, e que a Revolução devia ser entendida mais como uma espécie de acidente.

Além de resgatar a própria condenação contemporânea da Revolução, do whig irlandês Edmund Burke, Furet incorpora a leitura de autores como Benjamin Constant para a censura interna do processo revolucionário, onde são exorcizados os propósitos igualitaristas associados a obra de Rousseau e aos jacobinos. Ora, o interlocutor de Hayek que assinaria embaixo de tal revisionismo de Furet é Jacob Talmon, que vê em Rousseau uma espécie de esquizóide totalitário.[3] Pois então qual seria mesmo o problema em observar que na operação revisionista furetiana organiza-se tão somente uma espécie de “catecismo contrarrevolucionário” de uma corrente cultural e política da direita? O que seria a última obra de Furet, O passado de uma ilusão (1995), senão o coroamento desse catecismo escrito ao longo de décadas em livros como Pensando a Revolução Francesa (1989 [1978]) e o seu co-organizado (pretensioso e falho em inúmeros aspectos) Dicionário crítico da Revolução Francesa (1989)?[4]

A comparação básica feita pelo revisionismo em relação às revoluções inglesa, americana e francesa visa particularizar o “Terror” como um fenômeno essencialmente francês derivado da ideologia rousseauniana encampada pelos jacobinos. A verdade é que tal proposição é absolutamente ideológica e bem ao gosto do pensamento anticomunista que herda da literatura reacionária da Revolução francesa o conspiracionismo, uma visão simplista calcada na noção de que a influência maléfica de intelectuais organizados em sociedades secretas estariam por trás do “Terror”. Losurdo desmonta essa narrativa demonstrando como, ao contrária das imagens idílicas, as revoluções inglesa e americana assistiram a episódios de grande violência.

Quanto a Nolte, sua leitura de que o extermínio de judeus praticado pelos nazistas seria uma “cópia” da “violência asiática” dos comunistas russos (NOLTE, 1986), inscreve no horizonte a reabilitação do nazismo, ou sua normalização. Nolte parte do pressuposto de que se poderia colocar em pé de igualdade uma ideologia que prega o extermínio de um povo (“raça”) dos judeus com a que prega o fim do capitalismo. Antes de mais nada, vale assinalar que o trabalho nolteano é calcado numa perspectiva que dá às ideias um papel demiurgo do real, e ainda que deva ser observado que as ideologias que conquistam o assentimento das massas devam ser tomadas como forças materiais, uma interpretação de qualquer fenômeno histórico baseada apenas nesse terreno será sempre unilateral. Mas, vejamos alguns dos problemas e fragilidades internas da argumentação nolteana.

Em primeiro lugar por sugerir que, à maneira da crítica burkeana à Revolução Francesa, se deva derivar a violência do regime stalinista do marxismo. Em segundo, há um problema quanto ao mérito da comparação entre uma proposta política que defende o fim de uma relação social (e por suposto da existencia das classes sociais que lhe dá suporte) de um determinado modo de produção daquela que defendeu o extermínio físico dos judeus, ciganos e a escradião dos eslavos.

A leitura de Nolte se baseia numa falácia. Afinal, a transposição da tese nolteana para o século XIX levaria a que o movimento pela abolição da escravatura fosse tomado como “exterminacionista” tal como o nazismo, embora fosse evidente que, pretendendo abolir uma relação social como a escravidão os abolicionistas pretendiam liquidar as classes sociais que lhes são subjacentes, senhores de escravos e os próprios escravos. Comparar a proposta de abolição do capital (e da escravidão assalariada que é seu corolário) com o extermínio de judeus é sem dúvida desonesto.

A verdade é que, para Losurdo, o próprio Terceiro Reich pode ser lido como “uma pavorosa onda contrarrevolucionária em relação àquela revolução abolicionista iniciada com o decreto da Convenção jacobina que põe fim à escravatura nas colônias francesas” (LOSURDO, 2017: 17). Numa abordagem notadamente influenciada por Lukács de A destruição da razão (1954), Losurdo entende o regime nazista como “um Antigo Regime ou uma Vedeia de dimensões internacionais” (Idem: 18). Oposta a isso, ao buscar equivalência entre revolução e contrarrevolução, comunismo e nazismo, a operação revisionista de Nolte desqualifica a própria noção de revolução, e nisso se encontra no mesmo terreno de Furet.

Na desqualificação do conceito de revolução (cujo coroamento talvez seja a atribuição de uma natureza “revolucionária” aos fascismos históricos)[5] encontra lugar importante na noção de totalitarismo (Cf. LOFF, 2014). Recuperando a dinâmica interna da obra da filósofa alemã Hannah Arendt, cujo livro Origens do totalitarismo (1949) é um marco importante nessa discussão, Losurdo lembra como nesse livro a autora ainda fazia questão de diferenciar a ditadura revolucionária de Lenin do regime terrorista e totalitário de Stalin, distinção que irá desaparecer em sua obra posterior, Da Revolução (1963).[6] Nesse livro, Arendt vai juntar-se definitivamente à onda revisionista.

Lembra também como, entre as determinações históricas do fenômeno presente na obra de 1949 o tema dos massacres coloniais é fundamental. Ora, é justamente o tema colonial e especialmente das lutas anticoloniais que são esquecidas e desqualificadas na historiografia revisionista, certamente pela dificuldade de nesse terreno dá continuidade à desqualificação da tradição revolucionária de 1789-1917. Como é possível, por exemplo, descolar a única revolução de escravos vitoriosa na história da humanidade, aquela realizada em São Domingos (atual Haiti) entre o final do XVIII e início do XIX, e a tradição igualitária jacobina? Como descolar o vasto movimento anticolonialista ocorrido na Ásia e na África no século XX sem contabilizar a influência do chamado à autodeterminação dos povos presentes na obra de Lenin, no apelo para a transformação da guerra imperialista (a Primeira Guerra Mundial) numa guerra civil revolucionária, nas primeiras resoluções da Internacional Comunista a respeito da questão colonial e do próprio papel da URSS no apoio aos movimentos de libertação colonial?

O passado como campo de batalhas

Como demonstra Losurdo, a comparação da questão colonial demole o propósito revisionista de igualar a URSS com o Terceiro Reich. A admiração que Hitler tinha para com o modelo do Império Colonial Britânico é em geral recalcado na historiografia revisionista.

“O modelo de Hitler se baseia no império colonial da Inglaterra, cuja função e missão civilizadora ele leva em altíssima consideração: ‘desde o fim do Sacro Império Romano não houve na Europa um Estado superior ao da Inglaterra’. No momento do triunfo do Eixo [1942], Hitler se mostra bastante preocupado com o ‘estado de anarquia que persistirá na Índia quando da partida dos ingleses'; a Ucrânia é o ‘novo Império das Índias’, e seus habitantes, assim como os da Europa oriental em geral, são insistentemente definidos como ‘indígenas'; o fürher adverte até mesmo os italianos para que se atenham ao modelo colonial inglês no Egito e na África.” (LOSURDO, 2017: 120)

Em Guerra e Revolução o autor mostra como figuras como Winston Churchill e Henry Ford vinculavam a Revolução soviética a uma suposta “conspiração judaica” (Idem, 222). E embora seja um truísmo menciona que Churchill viu com bons olhos à ascensão de Mussolini e Hitler para conter o comunismo, e que Ford tenha sido financiador do movimento nazista, tais elementos são comumente negligenciados na historiografia revisionista que prefere encontrar uma suposta “raíz jacobina no comunismo e no fascismo”, como o fazem Furet, Nolte e consortes. Em uma palavra, o que é recalcado na historiografia revisionista é a relação do capitalismo com o fascismo. E como bem disse Horkheimer, “quem não quiser falar de capitalismo deverá também calar-se no que diz respeito ao fascismo”.

Guerra e Revolução vem em boa hora no debate intelectual brasileiro e pode ajudar a iluminar outros debates importantes entre historiadores brasileiros, particularmente aquele centrado nos estudos sobre a ditadura militar. Como campo de batalha, a memória sobre o século XX encontra-se sobre forte ofensiva no front revisionista. E como esse “inimigo não cessa de vencer”, será necessário “atiçar no passado a centelha da esperança”, pois “nem os mortos estarão seguros se o inimigo vencer” (BENJAMIN, 2012: 12).

Referências bibliográficas

BENJAMIN, Walter. O anjo da história. Belo Horizonte, 2012.

CARDOSO, Ciro Flamarion. História e poder: uma nova história política? In. CARDOSO, C. F. & VAINFAS, R. (org.). Novos domínios da história. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.

FURET, François. Pensando a Revolução Francesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989 [1978].

______. O passado de uma ilusão. São Paulo: Siciliano, 1995.

FURET; François; OZOUF, Mona (org.). Dicionário crítico da Revolução Francesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.

HOBSBAWM, Eric. Dois séculos revêem a Revolução Francesa. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

MERQUIOR, José Guilherme. Rousseau e Weber. Rio de Janeiro: Guanabara, 1990.

LINEBAUGH, Peter & REDIKER, Marcus. A hidra de muitas cabeças. Marinheiros, escravos, plebeus e a história oculta do Atlântico revolucionário. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

LOFF, Manuel. Depois da Revolução?… Revisionismo histórico e anatemização da Revolução. In. MELO, Demian Bezerra de (org.). A miséria da historiografia: uma crítica ao revisionismo contemporâneo. Rio de Janeiro: Consequência, 2014, p.53-65.

LOSURDO, Domenico. Il revisionismo storico: problemi e miti. Roma-Bari: Laterza, 1996.

_________. Stálin: história crítica de uma lenda negra. Rio de Janeiro: Revan, 2010.

_________. War and Revolution: Rethinking the 20th Century. Londres: Verso, 2015.

_________. Guerra e Revolução: o mundo um século após Outubro de 1917. São Paulo: Boitempo, 2017.

NOLTE, Ernst. O passado que não quer passar. Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, n.25, p.10-15, 1989.

______. La Guerra Civil Europea 1917-1945. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2001.

TRAVERSO, Enzo. Interpretar el fascismo. Notas sobre George L. Mosse, Zeev Sternhell y Emilio Gentile. Ayer, Madrid, n.60, p.227-258, 2005.

WOLFREYS. Jim.Twilight

Revolution: François Furet and the Manufacturing of Consensus. In. WOLFREYS, Jim; HAYNES, Mike (org.). History and Revolution: Refuting Revisionism. Londres: Verso, 2007, p.50-70.

WOOD, Ellen M. O império do capital. São Paulo: Boitempo, 2014.

[1]
[1] Os dois artigos que iniciaram essa controvérsia, de Ernst Nolte e Jürgen Habermas, foram publicados no Brasil em Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, n.25, 1989.

[2]
[2] Como na tradução brasileira.

[3]
Para uma crítica interessante por parte de um autor liberal, ver Merquior (1990: 38).

[4] Outra crítica ao revisionismo de Furet que conflui nesse mesmo sentido pode ser lida em Wolfreys (2007). Sobre os problemas do Dicionário, o saudoso Ciro Flamarion Cardoso escreveu que Furet teve a “audácia de ignorar de todo a obra de Albert Soboul, um historiador marxista que, pelo contrário e sem dúvida alguma, era um especialista da Revolução Francesa com abundante pesquisa baseada em fontes primárias” (CARDOSO, 2012: 48).

[5] Os problemas advindos do uso da noção de revolução para o entendimento do fascismo, ver Traverso (2005).

[6] Esse ponto é emblemático da fase da obra de Losurdo quando escreveu o livro aqui comentado, já que na década de 1990, no contexto de crise e tentantiva de refundar o comunismo italiano, tinha uma lavra mais ecumênica em relação à tradição marxista, mecionando, por exemplo, a figura de Leon Trotsky em chave positiva, e pouca disposição de defender Stálin. Uma postura muito distante dessa encontra-se na obra posterior de Losurdo, culminando na hagiografia que escreveu sobre o ex-dirigente soviético. Nesta a liquidação do antigo grupo dirigente do partido bolchevique, entre os quais Trotsky e Bukharin, é referida como uma “terceira guerra civil”. Como bem disse um amigo virtuoso, uma “estranha guerra civil onde só um lado morre”. (Cf. LOSURDO, 2010).