Ilustração de D. Muste
Ilustração de D. Muste

A fortaleza letal da Europa

Richard Seymour

(Tradução: Daniela Mussi)

Minhas redes sociais estão repletas de crianças mortas. Pequenos corpos deixados pelo mar nas areias de praias mediterrâneas. Por que são carregados até ali? A vantagem de culpar os traficantes é que isso libera os governos para implementar medidas ainda mais repressivas. Mas os traficantes só estão ali para faturar em um sistema que os governos europeus criaram. É extremamente difícil entrar na “fortaleza Europa” sendo um refugiado. Fora os obstáculos legais, de acordo com o Conselho Europeu de Refugiados de Exilados, mesmo os refugiados enfrentam a política da “reação ilegal”, quando as forças do governo grego usam de violência ilegítima e ameaças para evitar que aqueles que buscam asilo – muitos vindos da Síria e Turquia – entrem na União Europeia.

Se eles viajam pela Bulgária, são emprisionados em “campos”, sobrevivem em condições miseráveis e se alimentam de ração, o que a Anistia Internacional tem chamado de condições cruéis e inumanas, além de viver com medo dos ataques racistas. Se tentam cruzar pelo Marrocos até a Espanha, ou pela Líbia para a Itália, correm o risco de morrerem afogados no meio do Mar Mediterrâneo. Este é o contexto no qual existe uma emergência no mar. Como mostra a Organização Internacional de Migração, existe um aumento drástico do controle de fronteiras, especialmente marítimas, na Europa, em particular por meio da operação Tritão – uma medida repressiva de contra-imigração frequentemente descrita erroneamente como operação de busca e resgate.

Isso explica parcialmente por que o número de mortes aumentou drasticamente no Mediterrâneo, ao mesmo tempo em que decresceu em outras partes do mundo. Na medida em que não podem viajar de outra forma, ou entrar legalmente como refugiados, os migrantes embarcam. Em um barco frágil, navegando em condições precárias e sob circunstâncias de vigilância terríveis. Como Al Jazeera relatou no ano passado, o número de mortes no Mar Mediterrâneo aumenta – mais de 3 mil nos primeiros meses de 2014, o pior cenário desde o início do século, somadas ao total de 40 mil mortes desde 2000, conforme anunciado pela CNN. Uma catástrofe humanitária. A maioria dos corpos não chega até a costa. A maioria sequer é recuperada; os que são, normalmente não possuem documentos. Não é possível saber quem são, ou mesmo o gênero em muitos casos.

Finalmente vivemos um momento de retração deste processo. As pessoas podem se sentir atraídas pela propaganda racista, mas ninguém gosta de pensar em si mesmo como tão desumano a ponto se satisfazer com a morte de crianças afogadas no mar. Os governos europeus estão sendo instigados a aceitar alguns refugiados, ainda que o governo britânico permaneça intransigente. O Financial Times relata que “durante as negociações para realocar 40 mil refugiados neste verão, um diplomata da União Europeia comentou que os burocratas britânicos brincavam entre si que assumiriam zero pessoas “e que poderiam dobrar esse número se realmente fossem obrigados”.

Mas é importante dizer que estes refugiados apenas constituem uma minoria dos imigrantes que se deslocam para a União Europeia. O sucesso do racismo anti-imigrante depende de aceitar a ideia de que a Europa “não pode aguentar” tantos imigrantes. Mas o fato é que a maioria dos imigrantes europeus chega pelos céus, com vistos de trabalho. Quando vemos as estatísticas anunciando um grande número de “imigrantes ilegais”, a maioria deles tiveram o visto vencido enquanto trabalhavam.

Além disso, não é o caso que a Europa não pode “aguentar” o número de imigrantes que chega. O fato é que as economias europeias precisam e dependem da chegada dos imigrantes. A determinação da União Europeia em manter uma “fortaleza” não tem a ver com o fardo econômico que os imigrantes colocam para estes Estados, mas sim com uma politica de manejo da força de trabalho. Ao colocar os não-nacionais como parasitas, como fardo, como usurpadores dos recursos naturais, etc., os governos europeus e sua mídia fiel estão construindo uma fantasia política perigosa.

Em último caso, se os imigrantes vindos para a Europa são um problema, então aqueles que já estão aqui (a primeira, segunda, ou terceira geração, dependendo de como alguém é racialmente codificado) também são. Não interessa se possuem cidadania, o mero fato de colocar a questão do “fardo”, nesta lógica, é o sinal de “nossa” benevolência, generosidade e tolerância.

Mas o que pode ser concluído até aqui, e em momentos de crise, quando a economia está em depressão, quando os jornais nos dizem que a Europa caminha para uma guerra civil por conta da imigração, quando a diversidade cultural não é mais um brando xibolete multicultural, mas uma linguagem de luta… bem, se “eles” são um problema, não seria melhora se nós pudéssemos, de alguma forma, não ter mais que conviver com “eles”? Essa é a fantasia que, em última análise, oferece a base de apoio para o Faragismo, Trumpismo e, no pior dos casos, para Marine Le Pen e a Aurora Dourada.

Essa é também a limitação do humanitarismo nesta situação. Em minha opinião, não é o caso de que alguns valores básicos, fundamentais, de simpatia humana entraram em campo apesar de todo o racismo e xenofobia. Ao contrário, o que vemos acontecer é o que o velho termo marxista chamaria de “contradições da ideologia dominante”. O elemento liberal-humanitário da ideologia europeia entrou em completo e óbvio conflito com seus elementos nacionalistas e racistas.

É bom que o reflexo liberal-humanitário prevaleça neste momento. Isso dá aos antirracistas um certo fôlego e ângulo para poder atacar a “fortaleza”: por agora, a palavra de ordem “Refugiados são bem vindos aqui” possui uma clara ressonância. Mas ela não afeta por si mesma as coordenadas ideológicas subjacentes segundo as quais os imigrantes são um fardo, uma ameaça e uma população-problema que precisa ser controlada.

Não devemos esperar que o choque momentâneo, reação à devastação e ao desastre, faça o trabalho político por nós.

(Publicado originalmente no blog da revista Jacobin.)