Ilustração de Marlon Anjos
Ilustração de Marlon Anjos

A geração que educou seus educadores

Rejane Carolina Hoeveler

Já são mais de 200 as escolas ocupadas desde que foi anunciado pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) o projeto de “reorganização” escolar no estado de São Paulo. A proposta, que inclui o fechamento de 94 escolas, é contestada por diversos especialistas e condenada pelas faculdades de educação da USP, Unicamp, Unifesp e Federal do ABC[1].

O projeto de “reorganização”, como entendeu o promotor do Ministério Público Estadual Luiz Antonio Miguel Ferreira – que entrou com ação contra o decreto, publicado nesta terça (1) no Diário Oficial – é uma reforma administrativa visando reduzir gastos com a educação, e não uma reorganização visando à melhoria da educação na rede estadual.[2] O Decreto, curtíssimo, nada especifica sobre a proposta.[3]

Trata-se de mais um ataque neoliberal à educação pública disfarçado de medida “técnica”, e não é casual que não tenha sido amplamente discutido com a comunidade escolar. Note-se ainda que no modelo aplicado em São Paulo, e também em escala nacional pelo governo federal, os “ajustes” atingem sempre as áreas sociais na mesma medida em que o Estado penal se amplia. Os presídios seguem sendo construídos enquanto a educação sofre seguidos cortes orçamentários – que já foram grandes em 2015 e que em 2016 aumentarão em pelo menos 6,5%, diminuindo a proporção do orçamento estadual destinada à pasta.[4] “Mais escolas, menos prisões”, portanto, é muito mais do que um slogan bonito.

A guerra de Alckmin: um, dois, três…vários Pinheirinhos

É mesmo como criminosos que o governo vem tratando estudantes ocupados nas suas próprias escolas. Desde o início das ocupações, Polícia Militar e diretores de ensino vêm se utilizando de diversas táticas de intimidação, desinformação e repressão direta. Na Escola Estadual Honório Monteiro, na região do Jardim Angela (Zona Sul da capital), a PM bateu e deteve estudantes menores de idade, assim como na E. E. Gavião Peixoto, em Perus. Em Caraguatatuba, região litorânea do estado, a diretora da E.E. Colônia dos Pescadores fez soar o alarme durante a madrugada toda para incomodar os estudantes ocupados. Em diversas escolas, cortou-se água e luz para que não pudessem funcionar.

O grau de articulação entre a secretaria de educação, a polícia, uma parte dos diretores e a juventude do PSDB ficou patente na gravação vazada pelos Jornalistas Livres no último sábado (29), na qual é possível ouvir grande parte de uma reunião ocorrida no mesmo dia entre Fernando Padula Novaes, chefe de gabinete do secretário Herman Voorwald, e cerca de 40 dirigentes de escolas.[5] Padula cita diversas “ações exitosas” da PM, como a de fotografar carros estacionados dentro das escolas ocupadas, (entre eles os da Apeoesp), e de retirar faixas colocadas pelos alunos. Na ocasião, foram traçadas recomendações para a realização de reuniões com pais e realização de listas de escolas onde seria mais fácil realizar logo a desocupação e a transferência de alunos, deixando as escolas mais “radicalizadas” pra depois.

A estratégia é clara nas palavras de Padula: “de um lado, desqualificar o movimento”, dizer que “o movimento é político, é partidário”; e que “a radicalização está do lado de lá”, e que os estudantes “não têm reivindicação, só querem protesto”. “Tem que fazer a guerra da informação, porque isso (sic) você vai desmobilizando esse pessoal e criando as agendas positivas”, disse ele.

De outro lado, caberia acenar para os alunos com concessões mínimas, “sem abrir mão da reorganização, sem abrir mão da disponibilização de prédio” – isto é, sem ceder em nada no que possa dizer respeito à principal reivindicação dos alunos, que é o fim do projeto de “reorganização”. A semelhança com Junho de 2013 não é casual: notou-se que a estratégia funciona.

A certa altura da reunião, Padula apresentou aos dirigentes escolares um membro da juventude “Ação Popular” (juventude do PSDB) que estaria “acompanhando” as ocupações das escolas. De fato, a juventude tucana tem visitado escolas com objetivo de encontrar estudantes que sejam contrários às ocupações, ganhando bastante espaço na mídia.[6] Tentaram emplacar um movimento intitulado “Devolve minha escola”, usando argumentos pseudo-críticos e oportunistas, por exemplo o de que “não só os ricos podem ter direito ao ciclo único” (em referência ao Colégio Bandeirantes) e cinicamente se apropriando da exclamação “fascistas não passarão”. A idéia básica aqui é reduzir tudo à oposição eleitoral petista, como se não existisse movimento social no Brasil que não fosse conspirativamente orquestrado pelo PT (que por sua vez eles devem acham que é comunista, junto com o Foro de São Paulo, tsc).

“Teremos jovens apoiando nas diversas regiões”, afirmava Padula. “Também tem um grupo de fora com jovens fazendo essa guerra da ação”. Trata-se de uma “guerra de guerrilhas”. Essas foram suas palavras na reunião, que em tudo lembram o vocabulário da contra-insurgência utilizado pelos agentes da repressão durante as ditaduras militares latino-americanas nos anos 1960 e 1970. Nada que espante a população que vivenciou o massacre do Pinheirinho, em 2012, quando, autorizada pelo governo, a polícia militar de SP “desocupou” uma ocupação popular com requintes de crueldade.

De fato, desde domingo (29), muitas escolas ocupadas têm sido alvo de atos de terrorismo e assaltos. Em Sorocaba, cidade em que foi decretada a reintegração de posse de diversas escolas ocupadas, os alunos que ocupavam a escola Guiomar Camolesi Souza foram rendidos a mão armada.[7] Na escola ocupada Henrique Fernando Gomes Estudante, em Barueri, uma bomba estourou às 00h30 ao lado da sala onde os estudantes dormiam. Na E.E. República do Suriname, no Itaim, estudantes contra a ocupação depredaram a escola e ameaçaram tacar fogo, para que a culpa recaísse sobre os ocupantes. Padula esteve pessoalmente na escola Maria José, na Bela Vista, onde, em seguida à sua visita, a PM invadiu a escola e expulsou os jornalistas que estavam presentes.

Um dos casos mais graves até o momento aconteceu em Osasco[8]. A escola Coronel Antonio Paiva Sampaio, no bairro de Quitaúna – uma das escolas que serão fechadas segundo o plano de “reorganização” – foi depredada e saqueada na tarde de segunda (30). Segundo relatos de testemunhas, um grupo de pessoas de fora invadiu a ocupação e começou a quebrar toda a escola, roubando diversos materiais e aterrorizando os estudantes que ali estavam. Logo em seguida, a PM chegou jogando bombas dentro da escola. Ainda assim, houve estudantes que permaneceram e tentaram se reunir no pátio para decidir o que fazer. Mas, em seguida, a escola foi novamente invadida pelos fundos e incendiada, com a presença da PM servindo, na prática, como escolta para a ação.[9]

À prometida ação dos eufemísticos “grupos de fora” somou-se a “guerra de informação” de que falava Padula, o qual prontamente compareceu no local para dar entrevista para a televisão dizendo que aquilo era “ação de grupos políticos”. “Certamente isso aqui não é coisa de aluno, isso aqui é coisa de movimentos políticos e que visam fazer isso aqui a destruição do patrimônio público. Depredação, vandalismo, é um ato crimoso”, afirmou ele em rede nacional. Fato!

Trata-se aqui de uma ação efetuada por um grupo para-estatal com a cobertura das forças oficiais, contra um movimento social (nesse sentido, uma ação tipicamente fascista), literalmente acobertada pela mídia, que, ciente de sua posição, cumpre o papel que lhe é designado na articulação entre coerção e consenso que, neste caso, é deliberadamente planejada. Tão seguros que estão de sua posição de força que puseram o plano em prática mesmo após o vazamento do áudio da reunião!

Tal como em junho de 2013, esse tipo de ação só funciona mesmo com o papel da grande mídia na disseminação de mentiras. Embora nenhum estudante da escola tenha sido entrevistado até então, o apresentador do Bom Dia SP, da Globo, ainda afirmava pela manhã de terça que era “o vandalismo no meio do protesto”, claramente insinuando que foram os alunos os responsáveis.[10] A versão foi comprada por todos os grandes meios de comunicação e repetida à exaustão: “cenas de vandalismo em protesto”; “protesto termina em vandalismo”; etc.

Quando fechávamos este artigo, a polícia reprimia com violência uma manifestação dos estudantes, em sua maioria menores de idade, na Av. Nove de Julho, com bombas e balas de borracha, indicando que a nova orientação é pra valer.

No entanto, a disposição de luta dos estudantes é enorme, e a coisa não vai ser tão simples para Alckmin. Na verdade, muito mais do que Alckmin e seu projeto, o que esses estudantes estão provando pela primeira vez é o gosto pela luta social. E isso, como eles mesmos dizem, não vai acabar nessa batalha.

“Mesmo que aconteça a ‘desorganização’, a nossa luta não vai parar aqui”

No último dia 29, visitamos uma escola vizinha do Coronel A. P. Sampaio, a escola Profª Heloísa de Assunção, ocupada desde o dia 12 de novembro. É a escola que receberá os alunos do agora depredado Coronel Sampaio, se implementada a “reorganização”. Colada na Autonomistas, a principal avenida de Osasco, os estudantes ali ocupados estavam conversando alegremente na tarde chuvosa de domingo, rodeados por faixas com os dizeres “reorganize seu governo, não nossas escolas”; “Alckmin destruidor da educação”; e “não começou em Diadema e não acaba aqui”, entre outras.

Nos reunimos numa pequena tenda montada na entrada da escola[11]. Alguns deles participaram das manifestações de 2013, “do passe livre”, como disse o aluno do 9º ano que nos recebeu de avental de cozinha e touca, simpaticamente nos oferecendo uma torta de frango que estava sendo preparada. Segundo ele, todos os alunos vão sofrer com a “desorganização” e com a hiperlotação. “A nossa escola não vai fechar, mas o coronel Sampaio vai, e nossa escola vai receber alunos do ensino médio; para muitos alunos que estudam lá vai ficar longe pra vir pra cá”, afirmaram.

A ocupação é organizada por comissões (limpeza, segurança, alimento, porta-vozes etc). “A gente consegue fazer dar certo lá dentro e é legal”, disse ela. Saraus, oficinas de maracatu, samba, debates sobre educação, política e sociedade, incluindo um evento no dia da consciência negra, foram algumas das iniciativas da ocupação. “Cada um aqui a gente se ajuda; às vezes quando tem escolas que não tem fogão pra cozinhar então eles vêm cozinhar aqui, nós estamos ajudando as outras escolas no que podemos”, afirmou. “A gente sabe o que passa e o que é melhor pra gente; então a gente conversa e vê, no que a pessoa tem aptidão, ela faz”, explicou o cozinheiro do dia.

“Pra falar a verdade, eu acho que a escola está sendo mais bem cuidada agora. Por exemplo, a gente tinha aqui uma privada e uma pia entupidas; e não tinha nem um cartaz indicando que estava entupido. Tinha também uma outra pia que estava com o cano entupido e vazando água. Pra economizar água colocamos um balde, e usamos essa água para lavar o pátio e outras coisas. As lixeiras não tinham indicação de coleta seletiva, e a gente colocou a indicação para separar recicláveis de orgânico, etc. (….) Antes era a nossa segunda casa, agora está sendo a primeira, então a gente tem que zelar pelo nosso lar”.

Na divisão de tarefas, não há uma separação sexual, e isso é uma das principais preocupações deles. Quando perguntamos sobre como eles pensam a questão de gênero e sobre a proibição da discussão de gênero nas escolas, o estudante do 9º ano foi enfático: “nós aqui somos totalmente contra que não possa ser falado; tem que ser falado! É importante divulgar a luta das pessoas transgêneras, porque eu acho que é uma luta que também é nossa; estão lutando contra o sistema, contra a opressão, e estão com a gente”. Para a porta-voz, isso é uma realidade gritante nas escolas, principalmente nas públicas; mas não é muito discutido pelos professores.

Segundo ela, “alguns movimentos e entidades tentam tomar a frente do nosso movimento, mas nós deixamos claro que nós somos os protagonistas da nossa luta”, e que não querem entidades que queiram falar por eles – o que indica uma autonomia desse movimento em relação a entidades tradicionais do movimento estudantil. Sobre a mídia, a estudante afirmou que “a mídia esquece a gente bastante; mas acho que a mídia também manipula muita coisa; então a gente não faz questão de chamar uma atenção especial da mídia se for pra manipular”. A luta, segundo eles, não pode ser apenas para manter a escola como está. Na verdade, a luta tem que ser muito mais ampla. “Toda luta da classe trabalhadora é importante”, disseram.

Ao deixarmos os ocupantes, que já se preparavam para outra entrevista[12], percebemos como rebelam-se não apenas contra a possibilidade de uma piora significativa das condições daquela escola. É muito mais do que isso. Trata-se de uma experiência extraordinária de auto-organização, da possibilidade de vislumbrar outro tipo de sociedade e de educação, não dirigida pela apatia e pela mera obediência. Trata-se de atingir aquilo que é, no papel, um dos objetivos básicos da própria educação pública: a construção de um pensamento crítico, que olhe para a sociedade como um todo, para suas desigualdades, para as condições do mundo em que vivemos. Infelizmente, para muitos, essa orientação, presente em tantos documentos educacionais nacionais, fica mesmo apenas no papel.

São jovens que, ao contrário do que procuram taxar os verdadeiros inimigos da educação pública, querem estudar e aprender. Todos almejam completar seus estudos e cultivam o desejo de estudar em uma universidade pública, apesar das muitas, sabidas, dificuldades. E demonstraram que podem aprender muito rápido. Em primeiro lugar, aprendem quem são seus aliados e quem são seus adversários. Independentemente dos resultados desta batalha, uma coisa é inegável: se forma uma nova geração de lutadores.

Notas: 

[1]Paulo Saldaña; Victor Vieira. Análise de universidade federal contesta reorganização escolar. O Estado de S. Paulo, 1 dez. Disponível em: http://bit.ly/1Sw6TTl. Uma refutação das manobras estatísticas do governo estadual pode ser encontrada em: Governo Alckmin faz manobra estatística em estudo que justifica fechamento de escola. Portal Aprendiz, 1 dez 2015. Disponível em: http://bit.ly/1ODItX9. Sobram dúvidas acerca da futura ocupação dos prédios das escolas, alguns deles, como o da escola Fernão Dias, em Pinheiros, há muito cobiçados pela iniciativa privada. Na verdade, entre os defensores do projeto encontram-se muito mais figuras como Mauro de Salles Aguiar, dono do tradicional colégio particular Bandeirantes, do que propriamente especialistas em gestão escolar. Mauro de Salles Aguiar. Reorganização da Rede Pública de Ensino. Blog Colégio Bandeirantes. 20 out. 2015 . Disponível em: http://bit.ly/1PuIeku.

[2] Fábio Takahashi. Promotor vai à Justiça contra reforma de ciclos de Alckmin. Folha de S. Paulo, 01 dez. 2015. Disponível em: http://bit.ly/1Tun9oP

[3] Laura Capriglione. Sai o decreto da vergonha. Jornalistas Livres , 30 dez. 2015. Disponível em: http://bit.ly/1IoAJJ0.

[4]Alckmin reduz pelo 2º ano consecutivo parte da educação no orçamento. Uol Educação, 28 nov. 2015. Disponível em: http://bit.ly/1YHklrk

[5] Secretaria de Educação prepara “guerra” contra as escolas em luta! Jornalistas Livres, 29 nov. 2015. Disponíviel em: http://bit.ly/1MNZfSJ.

[6]Luiz Fernando Toledo. Grupo promove ação ‘antiocupação’ nas escolas. O Estado de S. Paulo, 26 nov. 2015. Disponível em: http://bit.ly/1XxIsLR

[7] Sidney Gonçalves do Carmo; Zanone Fraissat. Escolas ocupadas em Paraisópolis têm tumulto e ofensas a alunos. Folha de S. Paulo, 30 nov. 2015. Disponível em: http://bit.ly/1TghmlU.

[8] Cidade que em agosto foi palco, junto com Barueri, de uma das maiores chacinas nos últimos tempos, com 19 mortos, toque de recolher e irregularidades na investigação de seus suspeitos, policiais militares.

[9] Ainda segundo estes relatos, dois estudantes ficaram feridos, um cortado pelos pedaços de vidro no chão, e outro que passou mal devido à fumaça. Um estudante que estava na ocupação conseguiu recuperar um tablet que fora roubado e trouxe de volta à escola.

[11] Omitiremos por precaução seus nomes.

[12] Certamente nos próximos dias levantamentos mais extensos serão publicados, já que, felizmente, muitas pessoas têm visitado e escutado os estudantes.