Ilustração Flora Próspero
Ilustração Flora Próspero

A luta das mulheres, a esfera pública e a proibição das bebidas nos Estados Unidos

Henrique Carneiro

A esfera pública moderna nasce no âmbito do consumo partilhado de drogas entre homens: bebidas alcoólicas em tavernas nas classes populares e café na sociedade civil burguesa. O filósofo Jurgen Habermas ressaltou esse espaço de lazer e de troca de opiniões entre iguais como a origem da imprensa e da opinião pública. O tabaco também, a partir do século XVII, permeava todas as classes com seu apelo de fumaça e, entre o clero e a aristocracia, de inalação de rapé. Todas estas práticas, entretanto, tinham uma característica comum: eram privilégios masculinos. Nas coffee-houses burguesas assim como nas tavernas operárias o café, o tabaco e as bebidas alcoólicas permaneciam exclusivamente masculinas no seu uso público.

O chá, assim como antes o chocolate, teve uma difusão doméstica bastante feminina, mas beber cerveja ou gim não era algo considerado digno do gênero feminino.

Os efeitos de dissipação dos salários em bebidas, assim como de comportamentos violentos ou luxuriosos provocados pela embriaguez desenvolveram, assim, uma atitude feminina fortemente abstinentista, especialmente a partir do século XIX.

O movimento em defesa dos direitos das mulheres teve uma evolução pouco conhecida em sua origem estadunidense nesse período de sua formação. Além do sufragismo, a luta pelo direito do voto feminino, houve outra campanha que se associou muito às mulheres que foi a da proibição das bebidas alcoólicas. Também o vegetarianismo, o pacifismo e o abolicionismo tiveram um lugar importante na definição dos primeiros movimentos de mulheres. Havia uma relação suposta entre o consumo de álcool, de carne e a prática da luxúria que seriam atributos masculinos.

Os direitos civis e políticos eram subtraídos às mulheres tanto na vida pública, como no âmbito do acesso aos consumos conspícuos de drogas masculinas. O espaço masculino, tanto entre as elites como em camadas subalternas se constituiu na vida urbana e industrial em torno a restrições para as mulheres que não deviam frequentar tavernas, cafés ou reuniões políticas.

Essa exclusão feminina de direito a votar, a beber, a fumar, a ter vida social segregava o espaço público como privilégio dos homens e relegava as mulheres ao âmbito doméstico.

O movimento pela temperança nasceu entre homens evangélicos, mas logo se tornou o eixo central de confluência de diversos anseios por reforma social nos Estados Unidos do século XIX, como o movimento abolicionista da escravidão e o sufragista pelo voto feminino.

Numa sociedade que valorizava a submissão, tanto das mulheres aos homens como de todos diante de Deus, a única esfera em que as mulheres podiam criticar os homens era quanto à sua pouca religiosidade. E isso se refletia, sobretudo, na crítica ao consumo alcoólico, que os levava para longe do lar e da igreja.

A “defesa do lar” (home protection) foi, assim, o eixo de arregimentação da participação cívica feminina numa luta social contra as bebidas alcoólicas.

O movimento pela temperança da primeira metade do século XIX não aceitava o protagonismo feminino, assim como não aceitara a presença negra e a conjunção da luta abolicionista com a luta contra o álcool ou, como se dizia à época, a luta contra as “duas escravidões”.

Se no primeiro congresso mundial pela temperança, em Londres, em 1846, a participação do ativista abolicionista negro estadunidense Frederick Douglass foi questionada pelo reverendo Samuel Cox, sete anos depois, no segundo congresso, em Nova York, em 1853, Antoinette Brown e Susan B. Anthony foram impedidas de se pronunciar por serem mulheres.

A defesa do espaço doméstico, contraditoriamente, acabou por justificar o engajamento militante das mulheres na vida pública. Esta “política da domesticidade” levou a uma confluência do evangelismo, da temperança e dos primeiros movimentos de ação pública feminina.

A primeira reação do nascente movimento das mulheres foi o de lutar contra aquilo que era caracteristicamente um privilégio masculino propondo a sua supressão para toda a sociedade por meio da abstinência das bebidas alcoólicas e do tabaco (e, em alguns casos, até mesmo do consumo de carne ou de qualquer estimulante). Não era o igualitarismo o ponto de unidade, mas o antagonismo a uma cultura masculina vista como imoral por ser inimiga da vida doméstica.

O apoio feminino à proibição das bebidas se associava, assim, a defesa do seu direito de voto, para poderem influenciar nessa decisão. O escritor Jack London, em suas “memórias alcoólicas” relatou que foi votar a favor do sufrágio feminino, no plebiscito que ocorreu na Califórnia, porque, assim, as mulheres votariam pela Lei Seca. Por isso, em 1911, quando se formou uma organização para combater o sufrágio feminino, a NAOWS, seus maiores financiadores eram da indústria de bebidas.

Em 1870, a 15ª Emenda à Constituição permitiu o voto dos homens negros, levando a uma cisão entre Frederick Douglass e as sufragistas. A emenda pelo voto feminino, a 19ª, apresentada em 1878, só será aprovada em 1920, um ano após a votação da 18ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos, em 1919, que proibiu a fabricação e o comércio de bebidas.

O álcool era visto como o grande mal, causa de todos os problemas, crimes e doenças, mas havia uma forte vertente puritana que associava todas as tentações que desviavam do caminho do bem e propunha abster-se de todas elas: as bebidas, mas também o açúcar, o chocolate, o café, o chá, o tabaco, as especiarias, a farinha refinada, e a carne dos animais.

A “cruzada das mulheres”, em 1873, foi um exemplo desse movimento religiosos puritano, por meio do qual as mulheres, pela primeira vez, protagonizaram uma ação pública de protesto. Nele se celebrizou Carrie A. Nation, que fazia piquetes de orações diante das tavernas e atacava barris de bebida à machadadas. Cerca de mil saloons ou tavernas, especialmente no Ohio, foram atacados nessa campanha.

Mais tarde, a União pela Temperança da Mulher Cristã (WCTU), fundada em 1874, foi uma organização que teve, pela primeira vez, uma predominância feminina numa atividade política. A palavra temperança transformou-se, do seu sentido original de moderação, para a ideia da abstinência, que de voluntária também passou a ser compulsória, com a defesa das leis secas.

Frances Willard, a presidente da WCTU desde 1879 até sua morte em 1898, foi uma cristã com inclinação social, ligada à causa trabalhista, tendo chegado a manter contato com socialistas fabianos em viagens à Grã-Bretanha. Ela expressava uma atitude assimilacionista e não necessariamente proibicionista, com ênfase na persuasão e não na coerção.

Ao final do século XIX, contudo, a criação da Liga Anti-Saloon, que em 1896 se tornou o lobby mais bem financiado, em especial por grandes industriais, deu à causa proibicionista do álcool cada vez mais um tom de exigência de leis pela abstinência compulsória, com ênfase na denúncia da corrupção moral provocada pelo álcool, especialmente no ambiente dos saloons, como síntese do vício e do pecado.

No início do século XX, a vertente mais reformista do movimento pela Lei Seca, defensora da persuasão, foi suplantada pelo discurso religioso, xenófobo e racista que defendia a imposição compulsória da abstinência por meio da lei da Proibição. O início da Primeira Guerra Mundial deu os motivos da economia de recursos, do resguardo da “fibra moral” e do fim das cervejarias alemãs para, num surto patriótico anti-alcoólico, se conseguir a aprovação da 18ª Emenda, em janeiro de 1919, para entrar em vigor um ano depois.

Os treze anos seguintes de vigência da Proibição desencadearam uma das maiores fases de emancipação feminina do ponto de vista cultural e da conquista do seu direito ampliado de participação na esfera pública, e não só como eleitoras.

A cultura urbana da bebida clandestina deu maior acesso das mulheres tanto ao álcool quanto ao tabaco. Surgiram também movimentos anti-proibicionistas femininos, como a WONPR, Women´s Organization for National Prohibition Reform que, no ano da Revogação, em 1932, revindicava um milhão e meio de membros, o triplo do que tinha a WCTU. Sua líder, Pauline Sabin, era parte da alta burguesia e havia, inicialmente, apoiado a proibição.

Da ideia de que havia coisas que eram privilégios masculinos e seriam “moralmente más” e precisariam ser proibidas para toda a sociedade, passou-se para a reivindicação de que cabia a todos, inclusive às mulheres, o acesso a esses bens moralmente condenados por alguns.

O fim da Lei Seca encerrou a era do saloon, espaço masculino onde a frequência feminia era igualada à prostituição, para uma regulamentação igualitária, em que a idade adulta dava acesso à compra de álcool e tabaco na condição de consumidores.

O tabaco, aliás, foi veiculado numa intensa campanha publicitária dirigida para mulheres como algo que substituía uma guloseima, não engordava e era charmoso. O grande pioneiro das Relações Públicas e do marketing científico e sobrinho de Freud, Edward Bernays, a serviço da American Tobacco Company realizou uma aparição pública de mulheres fumando tabaco na Quinta Avenida em N. York em 1929, e convocou a imprensa para esse ato denominando-o de “tochas da liberdade”.

As restrições de acesso feminino aos prazeres de exclusividade masculina praticamente acabaram e o âmbito das drogas lícitas se tornou um direito de consumo sem tabus de gênero, embora, em geral, os índices de consumo alcoólico e tabagista ainda sejam predominantemente masculinos.

Os movimentos de mulheres, poderíamos chamar de proto-feministas, tiveram um enorme papel na luta contra o álcool e, depois da proibição, também foram as mulheres um vetor central da luta pela sua revogação. As atitudes anti-alcoólicas em nome da “defesa do lar” foram substituídas pela defesa dos direitos iguais, inclusive nos consumos de drogas características anteriormente apenas da esfera pública masculina.

A gestão das ingestões continua sendo aplicada de forma estratificada conforme padrões de classe, gênero e posição social. O tabaco se mantém com um consumo majoritário nos Estados Unidos entre os homens (17,2%) do que entre as mulheres (14,24%).[1] No total da população 16,8% são fumantes, enquanto, em 1965, era de 42%, o que demonstra uma queda contínua do tabagismo.

A maior indústria de bebidas continua a ser a da cerveja, cujo consumo entre mulheres cresceu. O padrão da publicidade da cerveja, no entanto, é o de uma sexualidade excessivamente masculina associada ao seu consumo. Nas drogas ilícitas também há maior consumo masculino, mas, paradoxalmente, a proporção de mulheres encarceradas por drogas é muito maior que a masculina (cerca de 20% dos homens e 70% das mulheres presas). Das drogas lícitas farmacêuticas, também há claros perfis de gênero, com benzodiazepínicos liderando vendas entre o público feminino. As políticas de drogas continuam a discriminar entre substâncias lícitas e outras ilícitas, agravando também os resultados de violência associados ao tráfico clandestino, no qual, embora morram mais homens, é encarcerado um número proporcionalmente maior de mulheres.

Referências bibliográficas

EPSTEIN, Barbara Leslie, The Politics of Domesticity. Women, Evangelism, and Temperance in Nineteenth-Century America, Middletown, Wesleyan University Press, 1981.

GUSFIELD, Joseph, Symbolic Crusade. Status Politics and the American Temperance Movement, Urbana-Champaign, University of Illinoi Press, 1963.

HABERMAS, Jurgen, The Structural Transformation of the Public Sphere: An Inquiry into a Category of Bourgeois Society, Cambridge, MIT Press, 1963.

KROUT, John Allen, The Origins of Prohibition, Nova York, Alfred A. Knopf, 1925.

WARNER, Jessica, All or Nothing: A Short History of Abstinence in America, Toronto, McClelland and Stewart, 2008.

Nota

[1] Ver http://www.tobaccoatlas.org/