Ilustração de Jaime Prades
Ilustração de Jaime Prades

A melancolia da esquerda fragmentada

Sabrina Fernandes

A esquerda fragmentada sofre a lógica da cisão: quando não há acordo, se separa. Novas organizações são fundadas e respectivos manifestos são lançados. Uma nova labuta se inicia para auto-sustentação, e o recrutamento de militantes suficientes para a sobrevivência e sustentabilidade do novo projeto. Novo; porém, nem sempre. A prevalência da lógica da cisão negativiza o desgaste organizativo como insustentável, mesmo sendo que o desgaste, por vezes, é inevitável na formação de sínteses em conjunturas desfavoráveis. Se a relação está difícil, deve ser porque não há mais nada produtivo que justifique sua existência. A tormenta do processo dialético acaba sendo romantizada, personalizada, e individualizada. Essas três transformações contribuem então para o desgaste pessoal, cartada definitiva na história de cisões. Ressentimento figura como um fator central nas tentativas de composição pós-cisão, e o diálogo, o qual necessita uma posição tão menos ofensiva quanto menos defensiva, perde o sentido.

Sentimentos como o ressentimento, o rancor, e a ansiedade predominam no presente fragmentado da esquerda. É imprescindível notar que a esquerda é feita por pessoas e assim a esquerda é um fluxo objetivo-subjetivo que necessita de análises que vão além de fatores objetivos para entendimentos mais reflexivos – afinal, se falamos tanto da necessidade de auto-crítica, precisamos compreender que a auto-crítica pressupõe a reflexidade.

No exercício de reflexidade, se torna necessário compreender a situação da esquerda fragmentada sob uma análise da sua melancolia. Este breve artigo se dispõe a introduzir a análise da melancolia[i] da esquerda brasileira atual, compreendida como uma parte moderada e uma radical, inspirada pela proposição de Walter Benjamin e sua exegese por Jodi Dean, e instigada por atuais debates que beiram o entendimento de melancolia, como a questão do luto na esquerda lastimada por suas derrotas. Melancolia é apresentada aqui menos como conceito psicanalítico e mais como uma expressão sociológica coletiva das intersecções entre esperanças perdidas e desejos aprisionados no interregnum argumentado por Antonio Gramsci que se encontra entre o que está morrendo e o que ainda não está pronto para nascer.

A noção da presença de melancolia na esquerda dialoga com o problema da lógica da cisão em um contexto em que certas cisões são mais que necessárias. Por mais que o desejo de superar a fragmentação alimente o desejo por unidade como um oposto, a não-linearidade das sínteses talvez requeira novas cisões antes de outras fusões, e mais fragmentação antes que uma recomposição seja possível. Ocorre que a lógica pertence ao conjunto da crise de práxis da esquerda que precisa ser resolvida para que possa ser superada. Deste modo, a fragmentação opera como uma consequência e sintoma dessa crise e sugere que o oposto de uma esquerda recomposta e unida não é necessariamente uma esquerda em que há ausência de fragmentação, mas sim onde a práxis está coesa e alinhada à reconciliação das consciências práticas e teóricas (em contradição sob o capital) do povo. O dilema se configura em avaliar quais cisões são necessárias, quais deveriam ser evitadas com mais esforço, e o porque se de separar e propor algo entre o novo e o semi-novo. A melancolia influencia tal dilema de modo que falsas vitórias e unidades sejam celebradas ao mesmo tempo que cisões danosas sejam levadas a cabo pela necessidade de auto-afirmação (além do tradicional sectarismo) e uma busca por novas propostas e alternativas assombradas por ansiedade e saudosismo.

Essa influência da melancolia se manifesta mais propriamente na esquerda radical, cuja existência em si configura a consequência de uma cisão geral necessária. A esquerda moderada, todavia, também é melancólica, especialmente no sentido atribuído por Benjamin à melancolia de esquerda. Neste caso, a melancolia do PT e suas organizações aliadas, por exemplo, consiste de um estado de complacência decorrente da desistência do objeto perdido em uma movimentação não-revolucionária. Essa melancolia se traduz em acordos politicamente obscenos e a capitulação à ordem burguesa justificados pela suposta perda do potencial revolucionário sob uma também suposta impossível correlação de forças. Tal melancolia representa uma traição dos ideais de classe e se manifesta em casos de transformismo como o do PT. Mesmo quando a transformação em partido da ordem retira esse partido da ordem por conta de uma renovação hegemônica de sentido reacionário, a melancolia permanece como autojustificativa (impedindo iniciativas concretas de auto-crítica) e incide sobre o contínuo desejo de hegemonizar espaços políticos na base de que só sua leitura e sua “flexibilidade tática” refletem as fronteiras do possível frente a ordem burguesa.

Já na esquerda radical, a melancolia se desenvolve não como capitulação, mas como impedimentos à síntese que possuem conteúdo saudosista e que afetam negativamente perspectivas de agitação e propaganda, balanços concretos sobre vitórias e derrotas, e a dificuldade de se posicionar como alternativa sob a contínua, mesmo que desgastada, sombra da esquerda moderada. Isso cria um cenário em que a esquerda radical se vê forçada a responder a conjuntura sem haver desenvolvido respostas concretas, resultando em uma rotina de erros e acertos e na repetição de táticas que contraditoriamente repetem elementos da trajetória do PT devido à melancolia da associação do PT de outrora com um estágio menos fragmentado da esquerda brasileira no passado recente.

Uma parte considerativa da esquerda radical provém de cisões anteriores do PT mediante sinais de seu transformismo e capitulação. Militantes históricos da esquerda radical já foram um dia também militantes históricos do PT e/ou organizações aliadas dentro da esquerda moderada. Essa trajetória implica em uma forte leitura da história do PT como uma história de traição da militância e da base. Como o PT continua disputando espaços de hegemonia da esquerda sem qualquer auto-crítica e com forte oportunismo em espaços de luta fortalecidos por Junho de 2013, mesmo militantes de uma nova geração na esquerda radical passam a se identificar com essa leitura. A leitura da traição gera ressentimento além de justificado receio quanto à esquerda moderada. Ela é também melancólica porque implica no balanço de que o objeto de desejo da esquerda radical um dia foi de alcance do PT e logo descartado através de sua degeneração. O PT não soube aproveitar o presente que tinha de uma base politizada e a oportunidade de executar reformas básicas fundamentais, ou na verdade se aproveitou desse presente para garantir seus interesses capitulados de outra qualidade melancólica. O ressentimento quanto a essa traição é ainda mais forte porque o PT, apesar do antipetismo como catalizador do sentimento antiesquerda além da ofensiva conservadora, continua a ocupar o espaço de maior símbolo da esquerda no Brasil nos âmbitos históricos e de senso popular. A situação é pior quando o partido se aproveita do seu simbolismo, a base que lhe resta (mesmo que demasiadamente instrumentalizada e eleitoral), e sua posse de aparato político para sabotar ações autênticas de esquerda quando não as coopta diretamente afim de perpetuar aspectos da despolitização de massas que sustentam tal simbolismo e a possibilidade de um retorno do PT ao poder.

Vale considerar se parte da melancolia da esquerda radical leva a idealizar o potencial do PT e sua unidade no período pré-governo e se essa avaliação prejudica a esquerda radical ao pressupor a necessidade de unidade antes que qualquer coisa possa ser feita em larga escala. Isso resulta em alguns exercícios de aliança e fusões que ocorrem ansiosamente sem as devidas sínteses e filtros, levando a uma política de frentes pontuais e mecânicas, com disputas internas por hegemonia de conteúdo antidialógico, e ao potencial de futura implosão em cisões geradas a partir de desgaste contínuo. Apesar de que alguns desses experimentos possam ter impactos importantes para a recomposição, nem que seja pelo aprendizado, a normalização do desgaste mina a criatividade política e provoca uma esquize entre a implementação de novas táticas sem avaliação concreta de seu potencial transformador ou contraditório e a repetição de táticas tradicionais pelo conforto fornecido pelo espaço já conquistado dentro delas. Um exemplo dessa repetição é a contínua dependência de muitas organizações em aparatos como carros de som e trio elétrico para a organização de atos de rua, mesmo quando a estética dos atos mais massificados dessa geração se pôs contrária aos discursos auto-afirmativos, autocongratulatórios, e repetitivos feito de cima para os de baixo como se a linha política de uma manifestação massificada ou com potencial massificador pudesse ser ditada dessa maneira num contexto de despolitização além do confinamento da vanguarda militante. A disputa se resume à rotina fratricida interna – reproduzindo o erro de que a recomposição será liderada por uma organização específica e que campos políticos precisam ser hegemonizados como o PT se atenta a fazer – em vez da disputa de consciência da classe também fragmentada.

Não colabora o fato de que o PT e a esquerda moderada continuam reforçando tais práticas através do peso de seu próprio aparato. Muitas vezes, organizações se somam em um processo apenas por receio de ficarem de fora e/ou serem engolidas por ele. A avaliação sobre o processo estar errado ou se seus rumos podem realmente ser disputados ocorre secundariamente ou de forma a justificar a participação em primeiro lugar. Assim, esforços que aparentam ser focados na recomposição da esquerda podem muito bem estar centrados na política de sobrevivência e na melancolia relacionada ao medo da exclusão caso o processo seja ao menos marginalmente visível e representativo.

Discursivamente, o resultado é a instrumentalização da agitação e propaganda não para politizar, mas sim para justificar processos, amaciar egos, e/ou prover consolo quanto ao esforço expendido. Atos de 7 mil pessoas são contabilizados como de 15 mil e divulgados assim para comunicar sucesso e instigar adesão na base do que é popular e não no que é necessariamente construído organicamente como apoio popular. A balada com a fila de entrada mais longa pode parecer mais atrativa, mas quantidade, ainda mais exagerada, e qualidade não se confundem nem em eventos sociais nem em políticos.

Por último, se estabelece que a melancolia da esquerda radical tem raízes na dificuldade de formar uma síntese coletiva e conclusiva sobre o problema histórico e presente do PT na esquerda. Propor que o PT hoje é de direita, ou que nada presta no PT, ou que sua base migrará para a esquerda radical quando se tornar entendida a respeito da traição petista cria contradições próprias que não correspondem ao ideal de síntese que levaria a uma práxis coesa na esquerda radical. Por mais que se queira disputar a base do PT, uma síntese do partido também implica em uma síntese de sua base. Tal síntese seria construída fora da influência da melancolia que leva a crer em uma migração linear, sugerindo que a base que deve ser desejada não é a base do PT hoje, mas sim uma base transformada e interpelada pela esquerda radical através da politização (o que é o caso da base minoritária que já migrou gradativamente).

Quando a melancolia captura o objeto de desejo, ele se reduz a uma visão romântica do passado. A necessidade da síntese conclusiva (mesmo que dialeticamente não-permanente) recupera o objeto de desejo para a conjuntura e desafios atuais. Ela considera a construção de um novo sujeito capaz de regastar uma base da fragmentação rumo também à sua própria recomposição. Essa luta pelo (re)estabelecimento da práxis caminha rumo à formação de um bloco histórico capaz de construir uma nova hegemonia além dos esforços cíclicos contra-hegêmonicos comuns ao caráter defensivo da esquerda fragmentada.

Nota

[i] Essa análise é exercida em detalhe na minha tese de doutorado disponível até então somente em inglês aqui.