Ilustração Marlon Anjos
Ilustração Marlon Anjos

A memória da ditadura militar e as lutas do presente

Marcello Felisberto Morais de Assunção

Sem muita atenção midiática no dia 24 de Julho o acervo digital da Comissão Nacional da Verdade foi incorporado ao já monumental Arquivo da Ditadura, acessível para toda a sociedade civil no Arquivo Nacional, em Brasília. Tal fato deve ser celebrado por todos que lutaram e lutam por um Brasil verdadeiramente democrático (na sua acepção radical e participativa, ou seja, para além do jogo institucional) que se atenta a uma política de valorização do passado e de sua memória. Ao lado do relatório final da Comissão Nacional da Verdade, e de outras iniciativas mais antigas como o Brasil Nunca Mais, estes documentos são uma arma contra qualquer discurso ufanista ou/e revisionista sobre a ditadura militar, tão em voga por aqueles que levantam cartazes em sua nostalgia esquizofrênica do período da Ditadura Militar

Cada vez mais essas memórias subterrâneas e resquícios tenebrosos do passado recente tornam-se acessíveis, e estes documentos agora incorporados são uma lembrança importante dos tempos da barbárie institucionalizada. Eles também expõem a resistência e o combate clandestino de tantos brasileiros jogados ao véu do esquecimento. Como ex-analista de pesquisa da CNV, tenho orgulho de ter tido o privilegio do acesso àquela monumental base de dados organizada pelo projeto “memórias reveladas”, hoje de acesso livre para todos.

Nestes podemos perceber também a amplitude do aparato instituicional que perseguia instituições e indivíduos de todas as matizes e vertentes num espectro político e social tão grande que seria muito difícil citar todos que estavam sobre a mira da repressão. Qualquer organização e pessoa que se colocasse contra o ufanismo sintetizado no lema “ame-o ou deixo-o” era tratada como inimigo da nação, e, portanto, alvo em potencial da vigília esquizofrênica do regime. Diante disto, estes arquivos são uma lição prática de como o terror e a barbárie podem se instaurar em cada instancia quando o poder militar atravessa a sua esfera de ação e alcança as instituições da sociedade civil. Entretanto, se queremos reavaliar criticamente a ditadura e a sua transição para a democracia, temos que pensar como atualmente procedimentos análogos de perseguição são usados sem o menor pudor por agentes repressivos, que não passaram por uma política concreta de desmilitarização desde o processo de redemocratização.

Não é preciso ir longe para podermos comparar essas permanências. No período da Copa do Mundo, as desocupações e o tratamento de manifestantes como inimigos é mais do que suficiente para percebermos essas contradições que a distensão pelo alto fez questão de perpetuar. A intimidação, perseguição e mesmo prisão de militantes dos movimentos sociais vem tornando-se prática rotineira com as prisões preventivas e tratamento de qualquer manifestante como vândalo, bandido e/ou “terrorista”.

O que nos resta é olharmos bem para esse passado, em sua vinculação com o presente, para assim criarmos um projeto coletivo contra-hegemônico que deve se materializar nas ruas, para que evitemos a possível ascensão da barbárie. Para isso, é preciso que as esquerdas dêem respostas objetivas, confrontando cotidianamente as visões regressivas sobre o mundo, superando, portanto, as lutas fratricidas. Desta forma, o estudo dessas memórias disponíveis no Arquivo Nacional e desse passado recente devem servir como arma para que continuemos, no presente, a criticar os resquícios do autoritarismo ainda vivos de um processo de democratização entrecortado por uma transição gradual e pelo “alto”.

Esta digitalização e abertura de arquivos é somente o primeiro passo para que possamos contribuir para a revivificação deste momento histórico, para que assim possamos dialogar com as novas gerações, buscando fazer o possível para que esse passado não se repita. Tal como pensou o filosofo marxista Theodor Adorno, no pós-guerra, sobre Auschwitz, mais do que simplesmente lembrar o passado, temos que confrontar os fatores e condições que geram a regressão à barbárie e, para isto, é preciso que tenhamos em mente que seria preciso muitas outras Comissões da Verdade e milhares de arquivos para documentar a barbárie que continua a ser feita pelas polícias militarizadas nas periferias e subterrâneos deste Brasil de cidadania seletiva.