Ilustração de João Paulo
Pereira de Carvalho
Ilustração de João Paulo Pereira de Carvalho

A parábola do pós-modernismo

Alvaro Bianchi

Como corrente cultural o pós-modernismo encontra suas primeiras manifestações no início do segundo terço do século XX. Perry Anderson indicou claramente que o primeiro a utilizar a expressão foi um espanhol, no início dos anos 1930, Federico de Onís, o qual acreditava que o pós-modernismo era uma corrente literária que representava “um refluxo conservador dentro do próprio modernismo” (ANDERSON, 1999, p. 10). Foi também nesse sentido cultural que o poeta progressista norte-americano Charles Olson a utilizou no anos 1950.

Apenas com C. Wright Mills, pós-modernismo passou a designar uma época histórica. O sociólogo norte-americano apresentou primeiramente a ideia de uma época pós-moderna em suas  University Lectures in Sociology apresentadas na London School of Economics (LSE) em janeiro de 1959. Nelas expôs uma visão crítica desvastadora a respeito da sociedade moderna e, particularmente, da maneira como esta se expressava nos Estados Unidos e na União Soviética. O discurso de Wright Mills atentava contra os fundamentos da ideologia da guerra fria. Ambos os países representavam as mesmas tendências políticas. A emergência de um poder burocrático e totalitário:

“As condições clássicas da democracia, em suma, não florescem exatamente nas sociedades sobredesenvolvidas; as formações democráticas não estão ascendendo nas estruturas de poder dos Estados Unidos e da União Soviética. Em ambas as decisões historicamente importantes e a falta de decisões são virtualmente monopolizadas pelas elites que tem acesso as meios materiais e culturais por meio dos quais a história é agora, poderosamente conformada” (MILLS; SUMMERS, 2008, p. 199).

A conclusão do sociólogo era devastadora. A “época pós-moderna” era a expressão de um mundo no qual o liberalismo norte-americano e o socialismo da União Soviética stalinista tinham falido, a razão teria se separado do ideal de liberdade e forças econômicas, políticas e sociais incontroláveis teriam sido concentradas nas mãos de poucos, subjugando os cidadãos comuns:

“Na moderna sociedade industrial, os meios de produção econômica estão desenvolvidos e centralizados – assim como os camponeses e artesãos são substituídos por corporações privadas e pelas industrias do governo. Na moderna nação-Estado, os meios de violência e administração policial sofrem evolução similar – os reis controlam os nobres e os cavalheiros armados por conta própria são substituídos por exércitos permanentes e agora por assustadoras máquinas de guerra. O clímax pós-moderno desses três desenvolvimentos – na economia, na política e na violência –está ocorrendo hoje, da maneira mais dramática nos Estados Unidos e na União Soviética” (MILLS; SUMMERS, 2008, p. 200)

Essas conferências forneceram alguns capítulos fundamentais de The sociological imagination, uma pequena obra-prima da sociologia contemporânea (MILLS, 1959). Wright Mills havia interagido fortemente nos anos precedentes com a new left inglesa e situava-se evidentemente no interior da tradição política radical de larga trajetória nos Estados Unidos. Seus estudos sobre a elite do poder tinham forte motivação política e embasavam uma consistente denúncia da enorme concentração de recursos econômicos, políticos e militares em seu país. As páginas finais de The sociological imagination expressam esse radicalismo, mas ao mesmo tempo, um profundo ceticismo com a evolução do mundo moderno. Sua morte precoce, em 1962, impediu que essas ideias fossem desenvolvidas, mas é evidente que sua visão sobre a “época pós-moderna” estava muito longe de ser apologética.

Ápice

No começo dos anos 1970 a noção de pós-modernismo se tornou mais frequente nos estudos literários. Primeiro com a fundação da revista boundary 2, que tinha o subtítulo “a journal of postmodern literature” e rendia homenagem a Charles Olson. Esta iniciativa estava vinculada a emergência da contracultura e dos experimentalismos estéticos que tinham lugar nela e possuía um caráter original fortemente progressivo. Uma posição diferente era, entretanto, a de Ihab Habib Hassan, filho de um governador egípcio que havia promovido forte repressão aos nacionalistas de seu país. Hassan distinguiu-se nesse contexto procurando estender  a noção de pós-modernismo em direção à vida social. Na obra de Hassan já sobressai aquela recusa do marxismo e das distinções entre esquerda e direita, base e superestrutura, materialismo e idealismo que caracterizará a fase madura do pensamento pós-moderno. Particularmente notável em seus ensaios é o virulento ataque que desfere contra “as limitações do marxismo, para não dizer sua profunda irrelvância” (HASSAN, 1995, p. 145)

Foi apenas, entretanto, com a publicação da obra de Jean-François Lyotard, La condition postmoderne, que começou a  verdadeira história da corrente pós-moderna e que esta se lançou à conquista de corações e mentes (LYOTARD, 2000 [1979]). Lyotard parecia talhado para uma nova cruzada contra o marxismo iniciada por Hassan. Na juventude havia pertencido ao grupo revolucionário Socialisme ou barbarie juntamente com Cornelius Castoriadis, mas nos anos 1970 o antistalinismo juvenil já havia se transformado em um anticomunismo militante, um percurso seguido por muitos intelectuais, como o conhecido James Burnham. Foi em nome desse anticomunismo que decidiu apoiar da candidatura presidencial de Giscard D’Estaing para impedir que socialistas e comunistas vencessem as eleições.

O filósofo francês escreveu La condition postmoderne a pedido do governo da província de Quebec, depois da vitória eleitoral do nacionalista René Levesque (LYOTARD, 2000 [1979], p. xvii). O objetivo era estabelecer “posição do saber nas sociedades mais desenvolvidas” (LYOTARD, 2000 [1979], p. xv). Foi atendendo uma encomenda governamental que o filósofo desenvolveu sua crítica às chamadas metanarrativas que legitimariam o conhecimento. A primeira dessas metanarrativas, a qual teria se expressado nos ideais da Revolução Francesa, considerava que livre dos padres e dos tiranos o povo poderia ser o sujeito do saber científico e a humanidade assumir a figura heroica da liberdade. Na segunda delas, o sujeito do saber era o espírito especulativo,  o qual se encarnava no sistema filosófico como no idealismo alemão  (LYOTARD, 2000 [1979], p. 58-61). Mas o alvo principal de Lyotard era o marxismo, o qual reuniria em si essas duas narrativas.

O objetivo do texto de Lyotard se revela quando propõe um novo critério de legitimação para os saberes: o mercado. Não mais o povo ou o espírito absoluto, mas o deus dinheiro:

“A perspectiva de um vasto mercado de competências operacionais está aberta. Os detentores desta espécie de saber são e serão objeto de ofertas e mesmo motivo de disputa de políticas de sedução. Deste ponto de vista, não é o fim do saber que se anuncia, e sim o contrário. A enciclopédia de amanhã são os bancos de dados. Eles excedem a capacidade de cada usuário. Eles são a ‘natureza’ para o homem pós-moderno.” (LYOTARD, 2000 [1979], p. 93)

Chama a atenção em La condition postmoderne a superficialidade do argumento. O próprio Lyotard afirmou mais tarde de maneira irônica que ele não havia lido muitos dos livros citados: “é simplesmente o pior dos meus livros, que são quase todos muito ruins; mas este é o pior” (apud ANDERSON, 1999, p. 56). A crítica de Lyotard às metanarrativas era muito seletiva. Ele deixava de lado, por exemplo, a legitimação dos saberes por meio do cálculo racional de indivíduos maximizadores de utilidades, os quais operando no mercado de ideias e conhecimentos por meio da avaliação de custos  e benefícios legitimariam os bens culturais. Encarnada no deus dinheiro, essa metanarrativa saia  incólume do discurso de Lyotard e era ela, no final das contas que salvava o saber científico e o redimia. Este seria um caminho interessante para explorar na crítica ao pós-modernismo, seu vínculo profundo com o mercado e sua função de denunciou.

Em um contexto cultural marcado pela profunda crise do stalinismo e do Estado de bem-estar, o pós-modernismo se revelou não apenas uma atraente crítica cultural da sociedade contemporânea,. A emergência de novos movimentos sociais, os quais se reconheciam como fragmentos e renunciavam a uma vocação totalizadora permitiu que o pós-modernismo servisse como base para um pensamento político radical no qual as identidades particulares eram valorizadas. Principalmente nos campi norte-americanos proliferaram  Black Studies, Women Studies, Queer Studies, Asian Studies, etc. ocupando o lugar que antes pertencia à história social e à sociologia e a ciência política críticas.

Mas rapidamente tornou-se evidente o projeto político conservador que animava os arautos do pós-moderno. Uma pesada artilharia contra ele foi disparada seja pelos remanescentes da teoria critica, Habermas à frente, seja, pelos marxistas, os quais denunciaram que este não passava de uma ideologia, ou, como Frederic jameson denunciou,  uma lógica cultural do capitalismo tardio (JAMESON, 1996).[1] E não foi necessário muito tempo para que pesquisadores engajados naqueles novos empreendimentos disciplinares se afastassem das ideias pós-modernas.

Declínio

A parábola do pós-modernismo foi breve e seu declínio rápido e acentuado. Quando se utiliza um conceito adequado do pós-modernismo torna-se evidente que atualmente ele sobrevive apenas em alguns departamentos de estudos literários ou estudos pós-coloniais.[2]

O declínio do pós-modernismo foi provocado por alguns daqueles eventos que que lhe deram seu impulso inicial: o colapso da União Soviética e a crise do estado de bem-estar, os quais criaram as condições para uma contraofensiva ideológica do liberalismo. Foi justamente a metanarrativa que Lyotard havia escondido a que se armou e conquistou a cultura contemporânea derrotando as ideias socialistas e keynesianas. A obra que simboliza essa contraofensiva é o medíocre livro de Francis Fukuyama, The end of history and the last man(FUKUYAMA, 1992). Este autor, assessor de Ronald Reagan e um dos expoentes do pensamento neoconservador norte-americano, justificou a vitória do liberalismo nos anos 1980-1990 em termos estritamente hegelianos os quais assumiam a forma de uma hiper-metanarrativa: a “democracia liberal deve constituir o ‘ponto final da evolução ideológica da espécie humana’ e a ‘forma final do governo humano’, como tal ela constitui o fim da história” (FUKUYAMA, 1992, p. 11). Dificilmente seria possível pensar um discurso político tão oposto à imaginação pós-moderna.

A partir de 1990, quando o imperialismo se lançou ao ataque, bombardeado o Iraque, primeiro, e depois Somália, Bósnia, Kossovo, Afeganistão, mais uma vez o Iraque, Líbia e Síria o livrinho de Lyotard contra as metanarrativas já não servia para mais nada. As ideias que buscavam conferir legitimidade a essas operações provinham do arsenal do pensamento neoconservador, do qual Fukuyama foi um de seus expoentes: a necessidade de universalizar os valores da democracia liberal e de estabelecer nesses países “a forma final do governo humano”. Uma nova metanarrativa se afirmava de maneira hegemônica. Nela o Ocidente afirmava sua vocação civilizatória e defendia-se necessidade dos Estados Unidos afirmarem-se como um império universal benevolente capaz de garantir a paz, proteger a propriedade e assegurar a prosperidade dos mercados.

Os efeitos dessa ofensiva política não deixaram de se manifestar na cultura contemporânea. O adversário que se ergueu perante o pensamento crítico é muito mais forte e mobiliza mais recursos do que aquele que representava o pós-modernismo. Se o pensamento crítico quer lutar pela sua sobrevivência é com essa nova metanarrativa neoconservadora que ele precisa terçar armas. Chutar um cachorro morto não é só perda de tempo. É algo muito pior: é conceder um armistício ao neoconservadorismo hegemônico.

Referências bibliográficas

ANDERSON, Perry. As origens da pós-modernidade.  Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.

EAGLETON, Terry. As ilusões do pos-modernismo.  Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

FUKUYAMA, Francis. The end of history and the last man.  New York: Free Press, 1992.

HARVEY, David. A condição pós-moderna.  São Paulo: Loyola, 1992.

HASSAN, Ihab Habib. Rumors of change : essays of five decades.  Tuscaloosa: University of Alabama Press, 1995.

JAMESON, Frederic. Pos-modernismo: a logica cultural do capitalismo tardio.  São Paulo: Ática, 1996.

LYOTARD, Jean-François. A condição pós-moderna.  Rio de Janeiro: José Olympio, 2000 [1979].

MILLS, C. Wright. The sociological imagination.  New York: Oxford University Press, 1959.

MILLS, C. Wright; SUMMERS, John. The politics of truth : selected writings of C. Wright Mills.  New York: Oxford University Press, 2008.

Notas

[1] Ver também ANDERSON (1999); EAGLETON (1998); HARVEY (1992).

[2] A menos que se inclua arbitrariamente as correntes nascidas com os giros linguísticos e culturais no âmbito do pós-modernismo este deve ser considerado em todo o mundo, a partir dos anos 1990, como uma tendência intelectual completamente marginal. Acontece que essas correntes não recusam as metanarrativas, como o pensamento pós-moderno. Elas apenas consideram que existe no mundo da cultura um permanente conflito entre diferentes narrativas e que só é possível uma compreensão adequada do real quando essas diferentes narrativas são reveladas.