Ilustração de Marlon Anjos
Ilustração de Marlon Anjos

A resistência improvável, a ocupação impossível

Renato Teixeira

São semanas confusas as que se vivem, por estes dias, no Oriente Médio, um território que tem pago caro as aventuras das potências que aí jogam, sem nenhum pudor, os seus interesses, à custa de elementares direitos humanos. Aqui todos sabem bem que ao aumento da confusão corresponde mais sangue derramado, sempre por aqueles que menos condições têm para se defender. O povo palestino vive desde o início da Nakba – tragédia; expulsão e extermínio dos palestinos para a fundação e aprofundamento do Estado de Israel – uma violência sem paralelo, numa desproporção obscena relativamente a quem é vitima e agressor, levada a cabo por um projeto colonial já com 70 anos, e que se transformou numa das feridas que mantém todo o Oriente Médio em carne viva. Os palestinos defendem-se levando a revolta a todas as esferas da vida onde o colonialismo israelita, sem memória e sem misericórdia, avança.

A noite cai em Jerusalém ao som das sirenes das ambulâncias, do latir generalizado dos cães, que nunca se habituam ao alvoroço dos disparos ocasionais dos militares. O dia acorda da mesmíssima maneira. Aqui e ali, do caminho que faço a pé ao longo da estrada de Damasco até à cidade velha, um palestino é revistado pela polícia, duas ambulâncias passam, mas pouco a pouco os sobressaltos vão dando lugar ao som da cidade. O eterno barril de pólvora parece mais cheio que nunca e isso sente-se no ar em cada esquina, desde que se aterra no Aeroporto Internacional de Telavive, uma das poucas passagens para quem quer chegar à Palestina.

Contrariando tudo o que foi escrito nos sucessivos acordos de paz, Israel continua sem definir as suas fronteiras, numa cavalgada permanente sobre os poucos quilômetros quadrados que sobram à Palestina. Do lado palestino, cada dia que passa é sinônimo que o país ficou mais pequeno. Ano após ano, acordo atrás de acordo, a realidade prova que a aventura colonial de Israel avança e a Palestina mantém-se incapaz de reunir o que precisa para ser um país soberano e independente. Olhar a evolução do mapa dá-nos uma visão avassaladora. A Palestina está circunscrita a cerca de 15% do seu território histórico, com todas as suas cidades praticamente sem contiguidade, no queijo suíço em que foi transformada a Cisjordânia. Gaza, cercada pelo muro de onde poucos entram e saem, foi convertida num gueto, uma prisão a céu aberto, onde até os poucos palmos de mar só podem ser usados consoante o humor de Israel e onde, a Sul, o Egito há muito alienou a sua soberania e cuja fronteira está fechada há 500 dias. Desde 2008, e sobretudo desde o massacre do ano passado, são raros os que conseguem entrar e muito poucos os que conseguem sair.

A rotina da violência colonial é arrasadora e chegou a todos os momentos da vida, a todas as horas do dia. O caminho das crianças para a escola, apedrejadas por colonos ou acossadas pelo gás, as revistas e os tiros das colunas militares, muitas delas feitas pela noite dentro, as sistemáticas demolições de casas e o inferno dos checkpoints, são exemplos que mostram bem que não há um minuto de sossego para quem vive ocupado. As sucessivas revoltas não são filhas de nenhum radicalismo. São a única maneira de sobreviver com dignidade.

Intifadas sem número

Todos negam a terceira intifada e ao mesmo tempo ela parece estar em toda a parte. Todos dizem que numerar intifadas é um exercício disparatado, mas todos levam a intifada a todas as esferas da vida. Não podia ser de outra maneira e todos parecem ter alguma razão no ponto de vista. Há revoltas a cada vaga colonial israelita, pelo que as duas que se celebrizaram como as maiores estão longe de ser as únicas e, esta que alguns dizem ser a terceira é muito diferente de todas as outras. Desta feita, ao contrário das duas grandes revoltas não há uma direção política definida, uma intenção, uma pauta reivindicativa concertada das organizações do campo palestino para fazer frente ao avanço colonial israelita.

A atravessar uma gigantesca crise de liderança e de sobrevivência, as organizações políticas que fizeram a história do campo palestino nos últimos 70 anos estão agora isoladas, sobretudo se estivermos a falar do seu prestígio junto da juventude radicalizada, daqueles que, já tendo perdido quase tudo, não conseguem perceber o horizonte que lhes é dado pelas organizações no terreno, ora esmagadas pela ocupação e pela clandestinidade, ora comprometidas, elas mesmas, com o colonialismo.

A natureza espontânea desta terceira grande revolta além da falta de direção política está entregue ora ao voluntarismo ora ao desespero de quem já nada tem a perder, mas essa característica também a dota de um grau de imprevisibilidade que deixa Israel, mas também o campo institucional palestino, à deriva. Esta imprevisibilidade fere Israel como poucas outras revoltas, algo que se percebe pelo aumento do rácio de baixas israelitas face às palestinas, que apesar de continuar desequilibrado tem uma assimetria com uma distância menor do que nos anteriores levantamentos. Esta capacidade, até ver, teve no entanto a proeza de dar ao lado palestino a certeza que, independentemente da ferocidade de Israel e do grau de falência das suas organizações políticas, a ocupação enfrentará resistência até ao último ser humano, no lugar e na hora que menos se espera. Não é uma revolta reprimível como eram as outras, uma vez que ela se identifica bem além das linhas das barricadas.

A forma como os palestinianos resistem foi-se diversificando e esta capacidade parece ter sido a chave para tornar a resistência insuperável por parte de quem ocupa. Se a ocupação se identifica em todo o lado, a resistência parece ser capaz de ter sempre uma resposta. Estejamos a falar da abertura de um túnel em Gaza à vaga de greves na Cisjordânia, estejamos a falar dos sistemáticos castigos militares de Israel até à segregação dos árabes com cidadania israelita. À ocupação absoluta dos israelitas, os palestinos responderam com a intifada infinita.

Ocupações sem fim

Ali é palestino com cidadania israelita, o que o coloca no fim da cadeia alimentar da cidadania. Israel é um mosaico racista com muitos graus de direito (ou falta dele), consoante a identidade de quem se apresenta aos olhos do Estado e da Justiça. “A natureza segregacionista é evidente e facilmente comprovável nas escolas, nos hospitais, em todo o lado”. A todo o tempo, no que sobra de espaços mistos ou contíguos, os palestinos são apedrejados e violentados, com particular gravidade nas ofensas comprovadas contra idosos, mulheres e crianças. Mesmo entre os judeus há os de primeira e os de segunda, sendo que aqueles que se opõem a Israel são imediatamente classificados de ‘self-hating jew’. Por exemplo, para os judeus etíopes, a terra não é tão prometida como para os judeus americanos, europeus ou russos, e uma vez chegados em Israel por ali ficam a fazer os trabalhos que outrora eram para os palestinos e nenhum outro judeu aceita fazer. São o exército de mão-de-obra barata que acabou com o aumento da segregação dos árabes palestinos.

Ali é um estudioso do Islã político e não tem dúvidas de que há uma revolta em curso, à qual prefere chamar de “intifada 2.0”, sublinhando o aspecto digital (ligado às redes sociais) e informal (sem direção política) deste novo levantamento, que ganhou dimensão com a soma das provocações dos colonos na Al-Aqsa, que se somaram às demais violações quotidianas que a ocupação impõe. “Ao contrário das outras intifadas esta não tem nenhuma organização política palestina na retaguarda”, conta, confirmando que as ações são levadas a cabo quase sempre por jovens de vinte anos, que agem por sua conta e risco, e no lugar das pedras usam facas ou canivetes para atacar os colonos. “As ordens de Israel são para matar”, garante Ali, “o que dá origem a que os colonos matem primeiro e perguntem depois, não raras vezes plantando uma faca junto ao corpo da vítima”. Entre os ataques verdadeiros e os semeados há registro deles todos os dias num processo de revolta que, por não ser politicamente enquadrado, levanta toda a espécie de problemas a Israel.

Podem matar quem os comete, mas não podem comprar nenhuma liderança política por um punhado de dólares, como em boa medida aconteceu para domarem as duas primeiras revoltas palestinianas.

A lista de execuções sumárias não pára de aumentar e quem as registra corre risco de vida. Assim aconteceu com o foto-jornalista brasileiro, Marcel Leme, Observador dos Direitos Humanos, que teve que sair à pressa de Israel perante as ameaças de morte que recebeu depois de fotografar um soldado das IDF a fuzilar Hadeel al-Hashlamon, estudante palestina de 18 anos, num checkpoint de Hebron. A viralização das imagens de Marcel Leme deixou as autoridades israelitas em polvorosa, mas o seu relato foi demolidor ao denunciar a política que vigora nas forças militares: “a mulher aproximou-se de um posto de controle militar em Hebron, tentou abrir sua bolsa para mostrar que nada tinha. Assustado, um soldado teria disparado e, na sequência, outro oficial da IDF teria dado outro tiro.” O brasileiro permaneceu no local, fotografando, até que foi abordado por um soldado de forma intimidatória, acabando por sair de Israel temendo pela sua segurança.

Outra história, igualmente reveladora, é a tentativa de alguns, em Israel, de processar Imad Abu Shamsiya por ter filmado, em Al-Khalil, a execução de um jovem palestino já ferido e prostado no chão, sem que oferecesse qualquer ameaça aos soldados presentes. Em causa, a indignação gerada não só pelo fuzilamento, mas também pela frase que se ouve no vídeo onde um médico israelita dá a ordem ao soldado que executa a execução: “He’s Not Dead, Shoot Him In The Head”. Em Israel, para que se perceba bem o isolamento em que vivem as franjas progressivas, houve manifestações apoiadas por Avigdor Lieberman, com centenas de pessoas contra o castigo e em homenagem ao soldado que executou Abdul-Fattah al-Sharif.

Estes incidentes não são ocasionais, mesmo que seja ocasional a capacidade de os provar sem que sobrem dúvidas, em registo fotográfico ou em vídeo. Eles são testemunhas desta etapa do processo colonial de Israel, que com fatos no terreno deixam perceber um conjunto de práticas coerentes com a limpeza étnica, não só de Jerusalém como de todo o lado onde Israel não teve força para expurgar a Palestina e a resistência dos palestinianos.

Leia a reportagem na íntegra aqui: http://bit.ly/1SM5niC