Colagem de Singh Bean
Colagem de Singh Bean

A vingança do riso

Daniela Mussi

“As definições que tendem a fazer do cômico uma relação abstrata percebida pelo espírito entre as ideias, ‘contraste intelectual’, ‘absurdo sensível’, etc., mesmo convenientes realmente à todas as formas do cômico, não explicam em nada por que o cômico nos faz rir. De onde viria, com efeito, esta relação lógica particular, tão evidente, que nos contrai, nos dilata, nos sacode, enquanto todas as outras deixam nossos corpos indiferentes? (…) Para compreender o riso, é preciso devolvê-lo ao seu habitat natural, que é a sociedade; é preciso, sobretudo, determinar sua função útil, que é uma função social.” (Henri Bergson. Le rire, 1900)

“Oh juventude heroica do mundo! Com que alegria pródiga ela versa seu sangue na terra miserável. (…) Destas guerras, eu sei, os chefes de Estado, que são seus autores criminosos, não ousam aceitar a responsabilidade; cada um se esforça furtivamente para empurrar a carga ao adversário.” (Romain Rolland. “Au-dessus de la mêlée”, 1914)

Na virada do século XIX para o XX, Henri Bergson dedicou alguns artigos, depois reunidos em um livro, ao tema do riso. Pormenorizado para a maioria dos filósofos, o “cômico” ganhava importância para o filósofo francês por sua natureza específica e verdadeiramente humana: “não há nada cômico fora daquilo que é verdadeiramente humano. Uma paisagem pode ser bela, graciosa, sublime, insignificante ou feia; ela não será nunca risível” (BERGSON, 1919, p. 3). A capacidade de rir e de fazer rir revelaria um momento particularmente sublime, capaz de diferenciar a humanidade de qualquer outra espécie animal e, justamente por isso, deveria adquirir importância central na reflexão filosófica.

Para entender o riso, dizia Bergson, seria preciso, ainda, compreender a insensibilidade que o acompanha (idem, p. 4-5). O filósofo colocava o riso ao nível da “inteligência pura”, em que toda realidade pode ser estranhada, o momento em que todo e qualquer drama pode se converter em comédia. Por isso, dizia, “não há maior inimigo para o riso do que a emoção” (p. 4-5). A emoção faz as pessoas mesclarem sua inteligência ao “uníssono da vida, onde todos os acontecimentos se prolongam em ressonância sentimental” e, assim, a perderem a capacidade de se diferenciar da própria realidade e, portanto, de rir dela. Assim, com o avançar da inteligência, o choro se extinguiria, mas o riso não (idem, ibidem). A equivalência entre riso e inteligência, para Bergson, se associava ao convite ao espectador para exercitar um olhar desinteressado, indiferente, o único capaz de “transformar os dramas em comédia” (idem, p. 5).

Esta “anestesia momentânea do coração”, porém, seria ainda insuficiente para o alcance do riso, já que “não é possível gozar o cômico em uma situação de isolamento” (idem, p. 6). Para Bergson o riso é humano e inteligente, mas é também, e principalmente, coletivo. O caráter relacional do cômico, destacado pelo filosófico, revelava as dimensões proporcional e funcional deste. Afinal, a inteligência é uma condição essencial para o riso, mas não suficiente. É preciso olhar para o público que ri – ou que não ri – para entender o cômico, localizá-lo socialmente, culturalmente e politicamente.

Charlie Hebdo

A reflexão proposta por Bergson, em oposição a uma leitura psicológica ou obscurantista, do riso ajuda a pensar o papel de uma série de atividades culturais, a dimensioná-las quanto ao seu público e contexto social e político. Surgida em 1960, a revista satírica parisiense Hara Kiri – journal bête et mechant [Hara Kiri. Revista estúpida e malvada] fez parte do ambiente cultural que preparou as lutas de maio de 1968: fortemente libertário, “antipolítico” (no sentido de antiestatal e fortemente crítico aos partidos e instituições) e anticlerical. Muitos de seus colaboradores possuíam vínculos políticos com organizações de esquerda e libertárias. Seu caráter polêmico rendeu algumas proibições ao longo dos anos 1960 e uma proibição permanente em 1970, quando a revista publicou uma capa em que satirizava a morte de Charles De Gaulle.

A censura estatal à revista da Hara Kiri foi o contexto em que surgiu a Charlie Hebdo. Para sobreviver editorialmente, esta emprestou o nome de outra revista da época, a Charlie Mensuel, nascida em 1969 e também dedicada à caricatura libertária, responsável por introduzir pela primeira vez na França as tirinhas e personagens de Penauts, do americano Charles Schulz. A partir de então, a Charlie Hebdo circulou até 1981, quando foi fechada por falta de recursos para ser retomada em 1992.

Esta “nova geração” da Charlie Hebdo envolveu a participação de antigos e novos cartunistas. Esse foi o contexto da entrada do cartunista Stéphane Charbonnier na revista Charlie Hebdo. Charb, como é conhecido, então com vinte e poucos anos, vinha de uma trajetória no interior do Partido Comunista Francês, cuja afinidade parece ter mantido até o final da vida. Em todo o caso, esta retomada não pode se manter alheia à queda do Muro de Berlim e ao fim da União Soviética. Apesar da vitória popular sobre o estalinismo, a rápida restauração capitalista e a crise das organizações de esquerda e ativistas radicais ao redor do mundo impactou profundamente também a Charlie Hebdo.

A escalada do anticlericalismo de sua linha editorial é acompanhada de um forte elitismo, um isolamento crescente que se expressa na relação com seu público: cada vez mais “invisível”, não identificável. Charlie diz rejeitar qualquer “ponto de vista”, ao mesmo tempo em que certas pressões ideológicas e administrativas ganham espaço na revista, especialmente depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, em Nova Iorque. Seus representantes não aceitam falar de “islamofobia”, já que suas charges que retratam a religião mulçumana são, nas palavras de Philippe Val, em uma entrevista na televisão, “ideias fortes para fazer rir”.

O humor contra os poderosos

Se retomamos as ideias de Bergson a respeito do riso, podemos facilmente justificar o “humor” de Charlie Hebdo. Ele se insere em uma tradição bastante específica, fortemente libertária e erudita, em busca incessante por um ambiente no qual todo riso possa ser possível. Porém, como notara Bergson, o riso não pode ser “todo riso”, já que é nunca “infinito” (idem, p. 7). Ele se insere em um ambiente circular, limitado pelo público para o qual se direcionava. O riso funciona como um eco, reverberado em uma plateia precisa. Justamente por isso, em termos sociais sua função é sempre diferencial, conflitiva.

O que ecoava a revista Charlie Hebdo? Quem ria de seu conteúdo? Quem não ria? E por que? Boas respostas a estes problemas precisam evidenciar contradições, já que o riso não é senão o sintoma “humano”, como notou Bergson, da conformação estratificada dos grupos sociais. O riso/falta de riso de Charlie não divide a sociedade em “dois”, como pensam alguns, mas revela uma série de cisões e sobreposições sociais, culturais e políticas, inclusive aquelas pertinente aos seus colaboradores.

O assassinato da quase totalidade de sua atual equipe de redação dia 7 de janeiro de 2015 foi um momento trágico da profunda crise vivida pelos países europeus e, de certa forma, por todos os países capitalistas. Uma crise que revela o real racismo, a islamofobia e o antissemitismo como armas de Estado contra o povo em todos estes países. Em nome de Charlie, os governos francês espanhol, alemão, italiano e britânico se reuniram ao representante do Estado racista de Israel, que menos de um ano antes implementou uma das maiores carnificinas da história da Palestina. Em nome de Charlie, todos os jornais falaram em antissemitismo, mas não em islamofobia. Em nome de Charlie, os chefes de Estado europeus puderam reivindicar para si a bandeira da liberdade, com a qual nunca realmente se comprometeram, seja com os imigrantes, seja diante das massas trabalhadoras que há anos pagam com seus direitos por uma crise que não é sua.

O governo francês, combinado à grande mídia e ao policiamento massivo, buscou, desde o dia dos ataques, um uníssono argumento no qual as “emoções” derrotaram a inteligência e convertem a morte de Charlie em um espetáculo melodramático macabro. Para que o riso vingue a morte, o humor deverá novamente voltar-se contra os poderosos e a sátira política reencontrar seus verdadeiros inimigos: Hollande, Le Pen, Merkel, Rajoy, Cameron, Netanyahu e Abbas.

Referências

BERGSON, Henri. Le rire. Essai sur la signification du comique. Paris: Librarie Félix-Alcan, 1919.

ROLLAND, Romain. Au-dessus de la mêlée. Librairie Paul Ollendorff, 1915.