Ilustração de Flora Próspero
Ilustração de Flora Próspero

Anti-intelectualismo e subalternidade

Alvaro Bianchi

Um dos traços mais persistentes na história da esquerda brasileira é seu anti-intelectualismo. As exceções foram episódicas e heterogêneas: a Liga Comunista Internacionalista (LCI), na década de 1930; a Organização Revolucionária Marxista Política Operária (Polop), entre 1961 e 1964; os “reformadores” do Partido Comunista brasileiro, no final dos anos 1970 e início dos 1980. Mas tais exceções foram breves interregnos em uma história na qual a ação foi mais valorizada do que a reflexão. Passados esses breves veranicos, o que predominou foi a perseguição, as acusações, os processos disciplinares, a marginalização, o ostracismo, ou a simples instrumentalização dos intelectuais, reduzidos à função de figuras decorativas exibidas para a opinião pública.

O pressuposto mais notável desse anti-intelectualismo é a separação entre teoria e prática, que passam a ser tratadas como duas atividades independentes e até mesmo opostas. Concebidas separadamente a prática é o simples ato, expressão imediata da experiência irrefletida, manifestação instintiva da existência. A teoria, por sua vez, passa a ser a criação da realidade na mente humana. O ato de separar teoria e prática oscila paradoxalmente entre o naturalismo sensualista e o idealismo solipsista, sem encontrar um meio termo. Mas o que pode uma prática que não é refletida? Ou uma teoria que não nasce de uma prática e não almeja orienta-la? A separação e oposição dessas duas formas da atividade humana impossibilita não apenas uma ação consciente, como também um pensar realista.

Talvez este seja o motivo pelo qual o anti-intelectualismo não suporta o pessimismo do intelecto. Ele só pode conviver com um otimismo da vontade que se exerça sem contrapesos racionais. Sem poder olhar para o futuro, o anti-intelectualismo só se justifica no presente. Por isso necessita difundir a ideia de que o momento atual favorece apenas a ação, que a situação é pré-revolucionária, que a maioria está na próxima esquina. Só dessa maneira justifica sua própria existência. Quem discordar é um obstáculo à própria ação, um inimigo, portanto.

A separação entre teoria e prática é seguida da subordinação do pensamento à ação. A teoria deve justificar-se por sua utilidade imediata. E essa utilidade só pode significar favorecer ação previamente definida. Nessa perspectiva a teoria é apenas a forma ideal da justificação. Serva da ação, a teoria se converte em escrava do aparelho. Foi em nome da vida prática e contra as abstrações e ilusões da oposição que a burocracia soviética implantou seu regime de terror. O anti-intelectualismo subordina as ideias à realpolitik e, em última instância, aos desígnios do burocrata, aquele em condições de agir de maneira efetiva, sem se contaminar pelas ilusões.

“A prática é o critério da verdade”, festejam afoitos alguns, sem se darem conta que essa apologia do empirismo conspira contra suas próprias utopias e não apenas contra a dos outros. O primado da prática condena o movimento ao presente. O futuro só pode ser imaginação. Ele nasce da reflexão teórica e torna-se um futuro possível na medida em que é capaz de orientar uma prática adequada. Mas é justamente essa imaginação que o primado da prática impede. Eis porque a desvalorização da teoria é, também, uma renúncia à estratégia. O bordão reformista de Edouard Bernstein, “o movimento é tudo, o objetivo final não é nada”, é a forma política da subordinação da teoria à prática. Aqui está o problema. O anti-intelectualismo é o álibi do reformismo.

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O sindicalismo econômico-corporativo e o possibilismo parlamentar, as duas principais tendências políticas da esquerda brasileira, mantêm uma afinidade eletiva com o anti-intelectualismo. A trajetória do Partido dos Trabalhadores (PT), o último que conseguiu fundir essas duas tendências, ilustra essa afinidade. A consolidação de sua corrente majoritária na direção do partido, no começo dos anos 1980, foi feita em uma acirrada luta contra as “vanguardas” e os “iluminados”, dois inimigos explicitamente nomeados no famoso Manifesto dos 113.

Nessa trajetória o PT hipotecou o futuro para pagar as prestações da administração do presente. Emaranhado nas teias do Estado, o Partido dos Trabalhadores revelou-se incapaz de ir além dele e terminou por renunciar até mesmo a um discurso socialista, o qual não comparece mais nem nos dias de festa. Não foi o anti-intelectualismo a força motriz dessa trajetória, mas ele foi, sem dúvida, o pretexto que permitiu expurgar as vozes dissidentes ou condená-las à marginalidade. Mesmo aqueles intelectuais que fascinados com “as bases” se somaram a essa empreitada em nome da “autonomia”, terminaram por serem vitimados. Gradativamente perderam importância no interior do partido até melancolicamente desaparecerem.

Não é muito diferente o que se verifica na esquerda pós-petista. Os poucos intelectuais que nelas se organizam têm funções decorativas ou de cabos eleitorais. A função de intelectual coletivo dessa esquerda encontra-se atrofiada. Não se pensa o passado nem o futuro. Não se investiga a formação social brasileira sobre a qual se ergue a correlação de forças atual, nem se indaga sobre as condições para a emergência de uma nova ordem. Não se publicam revistas que sirvam par agregar opiniões, não se editam livros que formem novos intelectuais, não se investe na formação dos ativistas. Alheia ao que já passou, a esquerda pós-petista é também estranha ao que virá. Vive presa aos calendários das campanhas sindicais e eleitorais. O anti-intelectualismo a condena à pequena política.

Não há aqui diferenças notáveis entre aqueles que privilegiam o sindicalismo e aqueles que apostam no parlamentarismo. Seus conflitos se manifestam sempre no terreno da tática. O ativismo sindical pode ser muito combativo na defesa das reivindicações imediata da classe trabalhadora. A ação parlamentar pode ser muito engajada na luta por direitos fundamentais. Necessárias no presente essas tendências perdem sua importância para o futuro.

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Pode se afirmar que o anti-intelectualismo foi o ponto de encontro da direita e da esquerda brasileira. Ele está presente na crítica de Oliveira Vianna aos liberais, mas também pode ser lido nos capítulos finais de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Hollanda. Foi ideologia de Estado durante o varguismo e concomitantemente ideologia de partido entre os comunistas. Esteve presente no ódio que os militares nutriram contra os intelectuais durante a ditadura que se inaugurou em 1964, mas se manifestava igualmente no voluntarismo dos grupos guerrilheiros que lhe faziam a resistência.

Mas o anti-intelectualismo das classes dominantes é funcional à manutenção da própria ordem, pois seu horizonte é o presente atual. É por isso que o pensamento conservador sempre se apresenta como a encarnação do realismo e avesso a idealizações; inimigo dos philosophes e dos revolucionários; expressão da experiência vivida e não das abstrações universalizantes. Longe de serem passadistas, os conservadores são presentistas.

Mas para a esquerda o anti-intelectualismo não faz sentido. Ele representa sua autocondenação à subalternidade, sua subordinação àquela ordem burguesa. Sem organizar seus próprios intelectuais e destilar uma concepção de mundo abrangente própria só lhe resta partilhar de modo subalterno o espírito burguês da época. Torna-se, assim, incapaz de afirmar sua própria hegemonia e de assumir a direção intelectual e moral da sociedade. Uma reinvenção estratégica da esquerda pós-petista passa pela solução da questão política dos intelectuais. Só dessa maneira ela poderá ser relevante para o futuro.