Fotografia de Adria Meira
Fotografia de Adria Meira

Aquarius e o “Fora Temer”

Paulo Gajanigo

Antes de Aquarius chegar aos cinemas brasileiros, o debate sobre seu caráter político se adiantou com a manifestação do elenco do filme no Festival de Cannes. Sua estreia no Brasil em primeiro de setembro, um dia depois da aprovação do impeachment de Dilma no Senado, aumentou o sentimento de que a obra significava um martelo contra o golpe e pela democracia. Há inúmeros relatos de gritos em coro de “Fora Temer” ao final das exibições. Se muitos vão ver o filme como um chamamento político, eles parecem politicamente satisfeitos ao final.

A intensa energia que envolve o filme poderia encobrir as leituras. Pensá-lo como um filme “Fora Temer” parece simplismo, fundamentalmente, pois ele foi escrito entre 2012 e 2013. Mas abstrair esse impacto político, ao mesmo tempo, seria encobrir o que o filme provoca. Por isso, pode ser interessante pensar o que o filme pode revelar sobre o “Fora Temer” a partir do que o “Fora Temer” pode revelar sobre o filme. Ou seja, o que tem servido, na fruição do filme, para dar esse caráter político e como esse aspecto pode ajudar numa leitura sobre o próprio filme, sem isola-lo de seu contexto e de sua recepção.

O ponto de contato entre o atual contexto e o filme parece ser a empatia com Clara, a protagonista. A mulher madura oferece a imagem da resistência, nenhuma provocação a vence. Há um prazer em observar a incorruptível Clara. Essa resistência, que, a partir de 2003, perdeu espaço para uma postura conciliatória, agora ressurge. O pacto social realizado durante os governos do PT fortaleceu as saídas negociadas, deixando a postura intransigente mais ligada à imagem de uma radicalidade estéril. O filme foi escrito exatamente no período de desgaste da conciliação. As manifestações de junho de 2013 foi um ponto de virada na reorganização desses valores. A conciliação aparece, então, como um limite para a democratização, mais próxima dos conchavos do Congresso do que da articulação ampla para um programa popular. Kleber Mendonça Filho encontra o desejo pela inflexibilidade em gestação. Nesse sentido, podemos dizer que não foi Dilma que inspirou Clara, mas talvez o contrário. Foi o desejo social por Clara que mostrou um espaço para um reposicionamento de Dilma que foi modulando seu discurso realçando sua história de resistência.

O filme, a meu ver, está profundamente vinculado ao contexto de fim do pacto social. A mudança para uma postura de resistência arrasta contradições que o filme registra. Se sob o pacto parecia mais fácil articular interesses no sentido tanto de uma democratização quanto de uma modernização da sociedade, hoje parece difícil que os conflitos não entrem nos poros dos que resistem. Clara luta contra a força impessoal e insensível do capital imobiliário. Quer manter seu apartamento como um espaço que a indeniza pelas suas perdas, como disse Walter Benjamin, provocados pela modernização da sociedade brasileira.

Diego tenta sensibilizar e constranger Clara afirmando que a obra parada deixa operários sem emprego. Clara ignora. Tenta provoca-la incentivando uma suruba no andar de cima, Clara não expulsa de si os desejos que aquilo lhe inspirou. Não tem sucesso quando fez do apartamento de cima uma Igreja. O filme desenha a conexão que o capital fez com povo – o uso da sexualização, da religiosidade e da violência. A classe média, ao resistir, se vê no dilema. Ou luta contra o povo, condena suas práticas e atribui o inferno em que pensa estar vivendo a isso, ou faz como Clara que se recusa a culpar o povo. O que impressiona em sua resistência é a identificação irredutível do inimigo. A dificuldade está, no entanto, no tipo de aliança que Clara pode fazer. O diretor realça essa dificuldade na cena onde a empregada Ladjane mostra a foto do filho morto numa reunião familiar de Clara. A classe média e seu círculo fechado de afeto.

A euforia quanto ao filme parece vir do mesmo lugar que alimentou o sucesso de Que horas ela volta?. A subjetividade configurada no pacto social busca sobrevida. No filme de Anna Muylaert, essa subjetividade desenha um conflito simplificado de classe.[1] Em Aquarius, Clara expressa essa subjetividade, mas o filme a localiza e busca seus limites a partir dos outros personagens. Daí talvez a diferença fundamental entre os dois filmes: mais do que o próprio filme, é Clara quem ganha a empatia. Em Que horas ela volta? é a própria perspectiva do filme o que é gera empatia.

Aquarius nos abre para o futuro exatamente por apresentar o mundo do pacto social já deslocado. Seu mapa afetivo é rico e afeito aos conflitos. O filme vai bem além de ser uma palavra de ordem. Mas não é curioso é que ele esteja sendo recebido dessa forma. Existe uma visível duplicidade narrativa no filme que oscila entre um olhar etnográfico para os conflitos (marca do filme anterior O som ao redor) e uma narrativa heroica. Portanto, a empatia por Clara vai além de um desejo do expectador por uma heroína. O próprio diretor parece ter se encantado. O desfecho é clássico. Clara se vinga do inimigo. Consegue demonstrar que a empreiteira tem mal de origem na corrupção. O mais estranho é que a cena também é uma pactuação com os outros personagens. Todos ajudam e apoiam Clara.

O estranho desfecho, nada estranho para uma narrativa de entretenimento, parece ser sintoma do núcleo de nossa condição. Talvez ficasse mais claro o problema se imaginássemos uma brincadeira cinematográfica. E se a empregada fosse na verdade Val? Bom, ficaríamos num círculo infinito de identificações. Clara resiste, é forte, luta contra os grandes interesses econômicos, mas é patroa. E se ambos os filmes nos satisfazem, talvez haja algo que estejamos calando em nós. O desejo pelo pacto social nos alimenta e nos faz esquecer que Clara, nossa heroína, ficaria constrangida se Val mostrasse a foto de Jéssica morta.

As autoridades pediam aos compositores, durante período stalinista, músicas alegres e que ressaltassem as conquistas. Em geral, recomendava-se uma narrativa heroica, com final triunfal. O compositor Dimitri Shostakovich, figura nada fácil de caracterizar politicamente, mantinha-se num espaço tenso sem uma adesão completa nem uma oposição clara. Em 1937, quando o sofrimento pelas prisões nos campos de concentração na Sibéria já marcava parte da experiência social na URSS, Shostakovich compôs a sua 5ª sinfonia. Em sua execução, as autoridades elogiaram bastante a obra, gostaram do seu aspecto triunfal. Mas o episódio é descrito por intelectuais e artistas como uma apresentação tocante, que tinha conectado fortemente com a experiência social da repressão do regime. A 5ª sinfonia, em seu movimento final, apresenta um tom triunfal, termina com sopros e tambor como mandava o figurino. Mas os violinos insistiam num agudo intermitente. Esses agudos não chamaram atenção das autoridades, lhes eram insignificantes, ouviam apenas sopros e tambor. Mas a dor sentida pela perda de amigos e colegas deu outra sensibilidade aos ouvintes que sentiram os violinos gemendo sob o ar triunfal.

Kleber Mendonça Filho parece ter feito uma obra profundamente ambígua e, tal como a 5ª sinfonia de Shostakovich, nossa intepretação revela bastante sobre nós mesmo. O desfecho no filme parece ter se conectado com um forte desejo social, de forma que redimensionou a narrativa do filme, sublinhando certos significados. O desejo de que a mesma subjetividade configurada no pacto social possa servir de fundamento para a luta e resistência contra as forças conservadoras ressaltou os elementos heroicos do filme.

O “Fora Temer” está configurando uma aliança ampla. Nele encontramos tanto os manifestantes de Junho de 2013, com sua crítica radical de uma democracia só formal, quanto os que defenderam a possibilidade de um caminho gradual e não conflituoso de popularização do país. Subjetividades diversas que marcam a ambiguidade de Aquarius. Nesse sentido, os gritos de “Fora Temer” parecem dar uma chave de leitura para a ambiguidade do filme e não ser véu que o encobre.

[1] Paulo Gajanigo. O pacto social e estética em Que horas ela volta? Blog Junho, 24 set. 2015. Disponível em: http://bit.ly/2cRLppc