Colagem de Singh Bean
Colagem de Singh Bean

As múltiplas capturas do 8 de março

Rejane Carolina Hoeveler

“Todos os caminhos levam a Roma. Toda análise verdadeiramente marxista de uma parte importante da superestrutura ideológica da sociedade ou de um fenômeno social importante deve conduzir á análise da ordem burguesa e de sua base, a propriedade privada; cada uma dessas análises deve conduzir a esta conclusão; ‘É preciso destruir Cartago’”. (Clara Zetkin, 1920)[1]

Desde 1975, o dia 8 de março é reconhecido pela UNESCO como Dia Internacional da Mulher. O sentido atribuído a esta data desde sua controversa origem tem variado e sido objeto de disputas ao longo da história. A primeira delas diz respeito ao papel das mulheres socialistas em suas origens; e a segunda tem a ver com os formatos mais recentes daquilo que chamaremos de captura do 8 de março. Em primeiro lugar, mostraremos como a data foi sugerida pelas mulheres socialistas, no início do século XX, e não devido a um incêndio (nunca comprovado) em 1857, como a memória hegemônica no movimento feminista, por inúmeros motivos, consolidou. Em segundo lugar, discutiremos porque, nos últimos anos, um deslocamento muito mais pernicioso vem acontecendo: o apagamento do Dia Internacional como uma data de luta das mulheres.

Socialistas e feministas 

Desde o século XIX, era tradicional que socialistas e anarquistas celebrassem datas, normalmente aos domingos, para marcar determinadas lutas. O mais comum era que tais datas variassem, de acordo com as possibilidades de unir o maior número de pessoas.

Segundo Temma Kaplan, o primeiro Dia Nacional das Mulheres ocorreu nos Estados Unidos, em 23 de fevereiro de 1909, dois anos antes de um grande incêndio em uma indústria têxtil em Nova York, no qual morreram 129 mulheres – entre elas, algumas crianças – e 17 homens. Este incêndio, acontecido em 25 de março de 1911, embora não tenha sido proposital, foi um dos mais trágicos exemplos das condições em que trabalhavam os operários no início do século nos maiores centros capitalistas do mundo, em especial as mulheres nas têxteis.

O que se tem por certo, no entanto, é que as dirigentes alemãs Clara Zetkin e Luise Zietz, ambas militantes do Partido Social-Democrata alemão, a maior organização operária da Europa de então, organizaram uma reunião de mulheres socialistas em 17 de agosto de 1907, pouco antes de um encontro da Internacional Socialista na Alemanha. Nessa reunião, as mulheres reivindicaram que a luta pela igualdade das mulheres deveria ser travada em todos os aspectos da vida.

A militância de Zetkin e suas companheiras foi fundamental dentro do movimento socialista internacional. Foi somente no Congresso de 1907 que a Internacional finalmente aprovou o apoio dos socialistas a luta pelo voto feminino, até então vista como uma luta das mulheres burguesas. Como é sabido, Zetkin teve um papel fundamental em convencer os delegados presentes de que essa era uma luta do proletariado de conjunto.

De acordo com Kaplan, as sufragistas americanas e as socialistas participaram juntas de uma grande manifestação pelo voto feminino ainda em 8 de março de 1908. No entanto, não havia ainda naquela altura de 1908 nenhuma referência a um Dia da Mulher. Assim, teria sido mesmo em 1909 que as socialistas americanas firmaram o último domingo de fevereiro como o Dia Nacional da Mulher, celebrando-o em 23 de fevereiro de 1909, e, no ano seguinte, em 27 de fevereiro.

Segundo Kaplan, foi no Encontro de Mulheres da Internacional Socialista (que precedeu o encontro geral da Segunda Internacional em Copenhagem, em 1910), que Luise Zietz teria sugerido um Dia Internacional da Mulher, sem especificar uma data, mas a ser marcado para o ano seguinte. A proposta teria sido enfaticamente apoiada por Zetkin. O primeiro Dia Internacional da Mulher na Europa teria então sido realizado no dia 18 de março, em Viena, marcando também o aniversário de quarenta anos da Comuna de Paris.

Mas certamente a mais dramática celebração do Dia Internacional da Mulher ocorreu por uma coincidência na Rússia, em 1917, no dia 23 de fevereiro – no calendário gregoriano, e 8 de março no calendário ocidental – quando uma manifestação das operárias em Petrogrado iniciou o fim do czarismo. As mulheres russas lideraram um levante contra o custo de vida, que culminaria na precipitação da revolução de fevereiro e da destituição do Czar. Não por acaso, o governo provisório instalado após a queda do czar, apesar de muitas vacilações, foi obrigado a garantir as mulheres russas o direito ao voto.

Este foi um marco que ficou por muito tempo na memória operária européia. Cerca de três mil mulheres austríacas, no ano seguinte, fariam seu Dia Internacional em protesto contra a guerra no dia 8 de março, lembrando as russas. Com a ajuda de Clara Zetkin, a União Soviética estabeleceu, em 1922, o dia 8 de março como um feriado comunista. Ainda nos anos 1930 essa memória parece ter perdurado, pois na Espanha, após a vitória da Frente Popular, a líder comunista Isidora Dolores Ibárruri Gómez (também conhecida como “La Pasionaria”), co-liderou uma grande manifestação pelo Dia Internacional da Mulher em 8 de março de 1936, na qual se reivindicava a proteção da república contra o fascismo.

Hoje, são poucas as mulheres, mesmo entre as feministas, que conhecem o papel do movimento socialista organizado, através de um partido, e da figura de Zetkin e suas companheiras, na criação do Dia Internacional da Mulher. Há algumas explicações possíveis para o apagamento das socialistas nessa história.[2] Certamente o anti-comunismo que se espalhou pelo mundo desde 1917, com peso ainda maior no pós-Segunda Guerra Mundial, foi um fator fundamental. Nas palavras de Kandel e Picq, era oportuno “separar o Dia Internacional da Mulher da história soviética de forma a dar-lhe uma origem mais internacional, anterior ao bolchevismo, e mais espontânea do que uma decisão de um Congresso ou iniciativa das mulheres afiliadas ao Partido (…)”.[3]

Outro aspecto fundamental a considerar é a posição absolutamente conservadora do ponto de vista moral e o machismo entranhado dentro dos partidos comunistas stalinizados na altura do surgimento da geração feminista dos anos 1960; além, é claro, dos diversos retrocessos em relação aos direitos das mulheres dentro da própria União Soviética.

Controvérsias historiográficas à parte, ao longo de todo o século XX, no entanto, o dia 8 de março nunca deixou de ser um dia de luta. Foi um desenvolvimento histórico relativamente recente a captura publicitária e oficialista dessa data.

O que as lentes das câmeras capturam

O uso comercial do 8 de março é o que mais salta aos olhos quando se trata de desvirtuar a data como uma lembrança de um passado combatente. Aqui, longe da idéia de um dia de luta, o que vemos é um reforço de estereótipos que oprimem as mulheres, vistas basicamente como consumidoras. Em sua maioria esmagadora, essas propagandas e “homenagens” reforçam a naturalização do papel natural de mãe e esposa da mulher; ou de como elas adoram ficar bonitas para os homens. Não por acaso, reinam absolutas nessas “homenagens” as indústrias de vestuário e cosméticos, de produtos de depilação a maquiagem, sabonetes, cremes, e um longo etc.

Um ponto muito perceptível em todas as propagandas dirigidas as mulheres é que as mulheres que os estrelam são sempre altas, magras, brancas e consideradas belas. Em março de 2014, um revoltante comercial da marca Riachuelo em homenagem ao Dia Internacional da Mulher trazia uma mulher branca sendo servida por uma mulher negra. Mas vale lembrar que mesmo quando as propagandas incluem as negras e outras etnias como potenciais consumidoras, o que as lentes capturam são personagens plastificados, modelos inalcançáveis de sucesso que são associados ao consumo daqueles produtos, e que só servem para trazer frustração as mulheres reais.

A idéia da mulher maravilha acaba romantizando o sofrimento das mulheres que cumprem dupla e tripla jornada, reforçando a imagem da felicidade feminina como a obtenção de sucesso pleno em todos os aspectos da vida.

Quando se trata da programação sobre a data na televisão aberta, o cenário é ainda mais deprimente. No último domingo, 06 o “Domingão do Faustão”, da Rede Globo, apresentou uma homenagem ao Dia Internacional da Mulher intitulada “A beleza da mulher brasileira”. Tratava-se do trabalho de um fotógrafo espanhol que clicou diversas mulheres brasileiras, em sua maioria brancas e em posições sensuais. Como de costume, a mulher aparece no papel passivo de “musa”, de “bela” a ser capturada no clique; enquanto o sujeito ativo – o verdadeiro homenageado, no caso – é o homem. Também não foram poucas as vezes em que, indo ainda mais longe, o programa comandado por Luciana Gimenez, na Rede TV!, executou a brilhante idéia de fazer como homenagem ao Dia Internacional das Mulheres um…desfile de lingerie.

Mas caberia lembrar outra noção que vem crescendo nos últimos anos, no Brasil e nos Estados Unidos: a idéia, muito difundida na internet por setores da extrema-direita, de que o Dia Internacional da Mulher é uma excrescência a ser combatida. Agora não se repete a velha baboseira do “Dia do Homem”, mas se ataca a própria idéia de que seja admissível qualquer luta pela igualdade.

Aqui, um fenômeno curioso acontece. As pesquisas históricas que mostraram a inexistência do incêndio de 1857 são usadas para “provar” que tudo relacionado a um Dia Internacional da Mulher é uma grande conspiração comunista para fazer “lavagem cerebral” nas mulheres. Nesses sites, podemos ler que “até mesmo os esquerdistas admitem” que o “8 de março é um mito”. Numa inusitada manobra, as explicações que demoliram o mito de 1857 e colocaram as socialistas de volta ao centro da origem do Dia Internacional são usadas para dizer que, afinal, não há motivo para comemorar um Dia para as mulheres, pois tudo não teria passado de invencionismo “comunista-aborteiro” e “esquerdopata”…

A ofensiva conservadora de saias

Quem assistiu ao “Domingão no Faustão” neste domingo também teve a oportunidade de ver, nos intervalos do programa, a propaganda política do recém-fundado PMB, o “Partido da Mulher Brasileira”. Nesta vinheta, o PMB trouxe uma homenagem ao Dia Internacional da Mulher contando a versão do incêndio em 8 de março de 1857. A reivindicação principal na propaganda era a maior participação das mulheres na política.

No entanto, as lideranças do PMB se dizem anti-feministas, são contra a descriminalização do aborto e reproduzem a velha idéia machista e conservadora de que ser a favor do “feminino” não é ser “feminista”. O mais hilário, se não fosse trágico, é que dos 21 parlamentares atuantes pelo PMB, atraídos de outras legendas em cinco meses, apenas dois são mulheres.[4] Entre seus quadros encontramos ninguém menos que o pastor evangélico Ezequiel Teixeira, que enquanto secretário de direitos humanos do estado do Rio de Janeiro, suspendeu o programa Rio sem homofobia, tendo declarado diversas vezes ser a favor da “cura gay”.

A advogada e ex-diretora da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) Denise Abreu, que vai se candidatar a prefeitura de São Paulo pelo PMB, chegou a escrever em seu Twitter que o PMB “é a resposta necessária para reposicionar a mulher em seu devido lugar, um lugar especial como centro aglutinador da família”. O curioso aqui é que trata-se de uma legenda oportunista e de direita, mas que entra na disputa política e ideológica contra o movimento feminista, a partir da defesa de uma bandeira historicamente compartilhada por este – a maior participação das mulheres na política. Podemos dizer que o PMB é o último capítulo da luta conservadora contra a unidade entre socialismo e feminismo no Brasil.

O Dia Internacional da Mulher continua sendo uma data em disputa em todo o mundo. Muito mais do que um dia no calendário, a luta premente para as socialistas é por um feminismo capaz de escapar as múltiplas armadilhas em seu caminho.

Notas

[1] ZETKIN, C. Lenin e o movimento feminino. In LENIN, V.I. O socialismo e a emancipação da mulher. Ed. Vitória, 1956. Disponível em http://bit.ly/1YpeiXR.

[2] Ainda segundo Kaplan, teria sido no meio comunista francês, em meados dos anos 1950, que começou a circular a idéia de que a origem do 8 de março estava em um protesto feito em 1907. Nunca se encontraram evidencias acerca do incêndio em 1857 ou dessa celebração em 1907. KAPLAN, Temma. “On the socialist origins of International Women’s Day”. Feminist Studies, n.01, 1985, p.163-171. Agradeço a Alvaro Bianchi pela referência.

[3] KANDEL, Liliane e PICQ, Françoise. “Le mythe des origines, à propos de la journée internationale des femmes”. La Revue d’en face, n. 12, 1982, p. 67-80. Disponível em: http://bit.ly/1YpgT3X

[4] MELO, Débora. A que veio o Partido da Mulher Brasileira? Carta Capital, 23 de fevereiro de 2016. Disponível em http://bit.ly/1oHgi1E.