Fotografia de Luana Kava
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Avaliando a social-democracia revolucionária: uma resposta a Duncan Hart

Eric Blanc

(Traduzido por Marcio Lauria Monteiro)

Antes de tudo, gostaria de agradecer ao camarada Duncan Hart por sua contribuição “Lições da Finlândia: Responda a Eric Blanc” [1]. Embora eu não compartilhe da sua análise, concordo que uma discussão séria sobre a Revolução Finlandesa é útil para os marxistas hoje. Embora algumas das críticas de Hart ao Partido Social-Democrata finlandês (SDP) sejam bem fundamentadas, argumentarei aqui que seu texto caracteriza de forma fundamentalmente equivocada a posição política do SDP e de seus líderes social-democratas revolucionários.

Dessa forma, o artigo de Hart não nos ajuda a fazer uma análise mais clara do marxismo “ortodoxo” finlandês (e alemão), da revolução finlandesa de 1917-18, ou das lições que podemos aprender com essa história. O meu próximo livro aborda essas questões em detalhes; aqui, alguns comentários terão que bastar.

Ao contrário do que Hart sugere, nunca argumentei que a abordagem da liderança do SDP – ou a estratégia política de Karl Kautsky – deveria ser “imitada” hoje. De fato, minhas “A Revolução na Finlândia” [2] conscientemente e explicitamente destaca não apenas os pontos fortes, mas também as limitações reais da social-democracia revolucionária, a saber, uma subestimação da ação de massas, uma tendência a se curvar a socialistas moderados, e um foco excessivo na arena parlamentar.

Na minha opinião, não há contradição entre fazer uma avaliação equilibrada e matizada do marxismo “ortodoxo” da Segunda Internacional e defender as melhores tradições políticas do bolchevismo. Minha esperança é que, uma vez que camaradas como Hart e outros passem pelos mitos predominantes e examinem criticamente a posição real do início da social-democracia revolucionária, eles verão que as diferenças entre essa estratégia e a de Lenin, Trotsky e da Internacional Comunista pré-stalinista são muito menores do que estes inicialmente assumiram.

O texto do camarada Hart faz várias afirmações infundadas sobre a política dos social-democratas revolucionários finlandeses (que ele de forma um tanto quanto equivocada caracteriza como a ala de “centro” do partido) e a sua estratégia política. Em nenhum momento ele nos apresenta citações dos escritos ou discursos dos líderes do SDP durante a revolução. Em vez disso, como o próprio Hart enfatiza, ele reitera a análise de uma breve polêmica de agosto de 1918, escrita por Otto Kuusinen, o ex-líder da ala esquerda “ortodoxa” do SDP, que posteriormente se tornou um fundador do comunismo finlandês.

Embora algumas informações importantes possam ser obtidas através do texto de 1918 de Kussinen, é fundamental ter em mente que esta foi uma polêmica unilateral, publicada para ganhar quadros para um novo Partido Comunista. Além disso, foi escrito em um momento em que Kuusinen aderiu ao comunismo de esquerda (que ele equivocadamente equiparou ao bolchevismo). Em agosto de 1918, Kuusinen rejeitou a atividade parlamentar, o trabalho sindical, as demandas imediatas e democráticas e os compromissos táticos. Em vez disso, ele insistiu que todo o trabalho marxista deveria se concentrar na luta armada para a ditadura do proletariado.

No que diz respeito ao programa fundacional do Partido Comunista finlandês – também escrito por Kuusinen, em agosto de 1918 – o historiador Anthony Upton aponta que o “observador marxista também perceberá que este documento está cifrado com o que Lenin definiu mais tarde como ‘infantilismo de esquerda’”. Upton explica que o Partido Comunista finlandês mais tarde reconheceu que “foi um erro ter condenado a democracia nesses termos e ter rejeitado todas as formas de atividade não revolucionária; o erro seria então uma reação exagerada à experiência da derrota e à compreensão ainda muito imperfeita dos membros acerca da ideologia bolchevique” [3]. Dessa forma, não há necessidade de os socialistas basearem hoje sua crítica da revolução da Finlândia na polêmica ultra-esquerdista de Kuusinen, em agosto de 1918.

Nem Hart e nem Kuusinen citam quaisquer fontes primárias para sustentar suas afirmações de que a esquerda do SDP defendeu uma estratégia reformista, fatalista e gradualista de transformação socialista. Isso não é surpreendente, uma vez que o registro histórico não sustenta tais afirmações. A “posição ortodoxa” do marxismo quanto ao Estado foi muito mais radical – e mais próxima em letra e espírito ao O Estado e a Revolução, de Lênin, do que se costuma assumir. Em um artigo de outubro de 2016, escrito para o blog de John Riddell [4], mostrei em detalhes as verdadeiras posições sobre o Estado e a revolução compartilhadas pela social-democracia revolucionária finlandesa e por Karl Kautsky, antes de sua mudança gradual para a direita, a partir de 1910 em diante. (Por razões de espaço, não fui capaz, em “A Revolução na Finlândia”, de aprofundar a distinção crítica entre a política de Kautsky antes e depois de 1910, mas é preciso ressaltar que era a “ortodoxia” revolucionária inicial e não a abordagem moderada posterior que a esquerda do SDP defendia.)

Ao invés de reiterar os pontos do meu artigo anterior, vou limitar-me aqui a apontar alguns dos erros factuais mais significativos cometidos pelo camarada Hart. Baseando-se em Kuusinen, Hart afirma que o SDP defendia táticas puramente pacíficas e se opunha ao axioma “através de meios pacíficos, se possível, mas violentos, se necessário”. Na verdade, a última posição era literalmente a posição explícita e de longa data da esquerda do SDP. De muitas citações similares, considere-se o seguinte caso levantado pelo principal jornal do SDP, Kansan Lehti, em 11 de novembro de 1917:

“Os trabalhadores sociais-democratas conscientes nunca admiraram ocorrências violentas. Para nós, a guerra civil é particularmente terrível. Mas a social-democracia não pode proibir seus membros de realizar atividades armadas quando as coisas não podem mais ser resolvidas de outra forma” [5].

O fato de o SDP não estar comprometido com meios puramente pacíficos ficou óbvio, não apenas por seu impulso à insurreição armada em janeiro de 1918, mas também por sua iniciativa bem sucedida anterior, em outubro de 1917, para estabelecer uma organização nacional da Guarda Vermelha. Citando o radicalismo das Guardas Vermelhas, Hart não menciona que esses corpos estavam afiliados ao SDP e aos sindicatos, que eram compostos principalmente por membros e quadros do partido, e (apesar de algumas reais diferenças organizacionais e políticas em curso entre as Guardas) foram ativamente defendidas pelos principais líderes “ortodoxos” do SDP, contra a direita do SDP e a burguesia finlandesa.

O camarada Hart afirma que “o SDP era hostil à revolução”. Na verdade, os líderes da esquerda do SDP argumentaram, ao longo de 1917-18, que uma revolução na Finlândia se tornaria uma possibilidade imediata e uma necessidade, uma vez que os meios pacíficos e parlamentares já não fossem adequados. Mesmo o líder do SDP, Oskar Tokoi, (que pertencia ao centro vacilante do partido, em vez da esquerda “ortodoxa”) declarou, em um discurso de meados de outubro, que os trabalhadores têm “outros meios de poder além da votação para trazer suas reivindicações. Era necessário manter-se firme e lutar pela vitória da revolução quando chegasse o momento certo” [6].

Uma das razões para o SDP ter focado particularmente no trabalho parlamentar durante grande parte de 1917 foi que a Revolução de Fevereiro tinha destruído completamente qualquer aparelho armado burguês da elite finlandesa. Devido a esse contexto bastante excepcional, combinado com a maioria parlamentar do SDP, parecia ser possível utilizar a legitimidade e o poder do parlamento existente para impulsionar reformas econômicas e democráticas urgentes.

Assim, enquanto a liderança SDP estava com uma prática orientada para o parlamento, simultaneamente, desde fevereiro de 1917, ela lutou contra todas as tentativas das classes dominantes da Finlândia para se rearmarem. O próprio Kuusinen notou essa dinâmica excepcional em seu texto de 1918: “Neste momento, o caminho da democracia parlamentar parecia desimpedido de forma extraordinária e amplas perspectivas se abriram diante do nosso movimento da classe trabalhadora” [7]. Foi precisamente para escapar dessa situação perigosa que a burguesia finlandesa convenceu com sucesso o Governo Provisório russo, no verão, para dissolver o parlamento democraticamente eleito da Finlândia, com o apoio dos socialistas moderados na Rússia.

O camarada Hart afirma que o SDP aderiu a uma “atitude passiva e fatalista para avançar a luta de classes”. Mas, de fato, o fatalismo político foi explicitamente rejeitado pela liderança do SDP e por Kautsky. A social-democracia finlandesa aderiu à estratégia “experimentada e testada” da “ortodoxia” marxista, na qual o partido acumularia força para a batalha final principalmente através da difusão da mensagem socialista e construção de organizações proletárias. Como observei em meu texto “A Revolução na Finlândia”, esta estratégia implicava, de forma problemática, priorizar a educação e a organização mais do que a ação de massas. Mas dificilmente era uma abordagem “passiva”.

Além disso, o SDP finlandês – ao contrário da burocratizada social-democracia alemã – realmente iniciou e apoiou ações de massas em momentos críticos ao longo de 1917-18. Além de construir várias manifestações de massas, os líderes do SDP chamaram a greve geral de novembro, que levou os trabalhadores à beira de tomarem o poder. O chamado à greve declarou que era necessário que os trabalhadores tomassem “a via da ação de massas” para conquistar suas demandas [8]. Como Rosa Luxemburg argumentou justificadamente desde 1905, a postura de um partido socialista diante de greves de massas era um teste crítico de suas credenciais revolucionárias. Não vejo como se pode equacionar de forma plausível que o SDP tenha lançado uma greve geral em novembro e um levante armado em janeiro de 1918 (discutido abaixo), com argumentos acerca do suposto fatalismo do partido.

A única e principal evidência sólida que Hart apresenta para sustentar a sua crítica é que o SDP não tomou o poder em novembro de 1917. Eu também destaquei no meu artigo que essa foi uma oportunidade perdida. Mas, como sempre, é necessário um sentido de contexto e equilíbrio crítico. Uma vez que, tanto o meu texto “A Revolução na Finlândia”, quanto a contribuição de Hart, discutem porquê novembro foi provavelmente o melhor momento para a revolução, aqui é mais útil apresentar algumas das razões pelas quais a esquerda do SDP não tentou tomar o poder durante a greve geral [9].

O quanto a hesitação dos líderes “ortodoxos” do SDP em novembro estava enraizada em suas concepções estratégicas é difícil de medir com precisão. O foco da esquerda do SDP no parlamento e a sua relativa falta de tradições de ação de massas certamente contribuíram para uma tendência a permanecer na arena parlamentar num momento em que isso provavelmente era politicamente anacrônico. Mas havia outros fatores contextuais e conjunturais importantes que pesavam tanto quanto.

Muitas das hesitações da ala esquerda de Kuusinen na liderança do partido refletiam um desejo de impedir uma cisão potencialmente debilitante no partido. Ao contrário do que afirma Hart, os social-democratas revolucionários não tinham uma maioria decisiva na liderança do partido. Entre a esquerda ortodoxa e a minoria intransigente da direita, havia um centro amplo e vacilante. No final de outubro e início de novembro, Kuusinen levantou a possibilidade de assumir o poder, mas ele recuou temporariamente frente à oposição estridente de mais de metade da liderança do partido. Dado esse fato, Kuusinen sentiu, durante a greve geral de novembro, que era prematuro tentar tomar o poder, já que isso certamente resultaria em uma divisão do partido. Em sua opinião, tal ruptura organizacional seria potencialmente fatal para o levante proletário, levando a ala mais radicalizada de trabalhadores a confrontar a burguesia sem o apoio do resto do movimento operário organizado.

Em sua maior parte, penso que a tendência de Kuusinen a comprometer-se politicamente os socialistas moderados, para preservar a unidade organizacional, foi um erro. Dito isto, deve ser reconhecido que uma divisão do SDP, em um momento de insurreição, poderia, de fato, ter impedido que os trabalhadores finlandeses tomassem e/ou mantivessem o poder. Nós nunca saberemos. E, embora esteja longe de ser evidente que os benefícios de evitar uma ruptura no partido superaram os custos de atrasar a revolução, a plausibilidade da abordagem da esquerda do SDP, no entanto, se manifestou durante os dois meses após a greve geral. Em um contexto político que se polarizava rapidamente, a ala de Kuusinen isolou a direita do SDP no final de janeiro de 1918, conquistou o centro e cimentou uma aliança com as Guardas Vermelhas. Ao fazê-lo, a esquerda “ortodoxa” conseguiu conquistar o partido e os sindicatos como um todo para lutar pelo poder.

Além disso, é importante ressaltar que muitas das hesitações do centro e da esquerda do SDP em novembro estavam enraizadas em incertezas sensatas sobre a situação política que estava em rápida evolução. Um debate análogo e que merece menção arruinou os bolcheviques no outono de 1917 em Petrogrado. Os bolcheviques procuraram evitar em vários momentos, ao longo de em 1917, o que consideravam ser uma tomada prematura do poder. E em muitas partes do império, os bolcheviques não tentaram tomar medidas revolucionárias em outubro, tendo em vista o que consideravam como condições ainda não maduras – em Baku, por exemplo, o partido esperou até março de 1918 para tomar o poder. A ideologia, neste sentido, era necessariamente apenas um dos fatores determinantes das práticas marxistas como em qualquer momento. Não importa o quão revolucionária fosse a sua política, apostar no momento mais oportuno para a insurreição era uma tarefa extremamente desafiadora.

À parte das questões acima mencionadas sobre unidade partidária, das questões que pesavam nas mentes de todos os quadros do partido finlandês que consideravam seriamente as perspectivas da revolução, as seguintes foram as mais proeminentes: como os soldados russos estacionados reagiriam a uma revolta dos trabalhadores finlandeses? Os trabalhadores da Finlândia têm armas suficientes para assumir o poder e mantê-lo? Se a Finlândia seguisse pela via revolucionária, o governo alemão iria intervir ou invadir? O novo governo soviético em Petrogrado pode durar mais de alguns dias ou semanas? E seria capaz de fornecer apoio armado para os trabalhadores finlandeses? Claro, as respostas que os líderes do SDP deram a essas questões foram moldadas por suas perspectivas políticas particulares. No entanto, a dificuldade de ler a – e apostar na – situação empírica concreta certamente não era menos importante. O curso sangrento da Guerra Civil da Finlândia demonstraria que muitas dessas questões diziam respeito a desafios sociais e políticos muito reais, que não eram tão facilmente superáveis.

Embora eu concorde que (em retrospectiva), o mês de novembro de 1917 foi o momento mais favorável para a insurreição na Finlândia, Hart exagera a medida em que este foi de fato o caso. Alguns pontos a ter em mente: nos meses de novembro e nos seguintes, a maioria esmagadora dos soldados russos se opunha a participar diretamente da revolução da Finlândia; a sua presença, de uma forma ou de outra, não foi sempre um fator decisivo. Da mesma forma, a primeira grande derrota militar dos Vermelhos finlandeses (a “Batalha de Tampere”, de março de 1918), um ponto crítico na Guerra Civil, ocorreu antes da invasão da Alemanha, em abril de 1918.

É um exagero afirmar que “a burguesia estava inteiramente na defensiva em novembro de 1917” – a greve geral em si foi iniciada principalmente em resposta às atividades cada vez mais intensas da burguesia finlandesa para construir um novo aparelho militar. Em janeiro de 1918, as classes dominantes sem dúvidas tiveram mais tempo para dar coerência às suas forças armadas, mas também o tiveram os trabalhadores (cujas Guardas Vermelhas estavam bastante mal organizadas em novembro). Ao contrário de novembro, o partido e as organizações de massas dos trabalhadores foram esmagadoramente a favor da revolução em janeiro de 1918. Nesse ínterim, no entanto, os trabalhadores certamente perderam algum impulso significativo e a burguesia ganhou algum (além de mais armas e coesão organizacional).

No geral, enquanto novembro provavelmente era o momento mais favorável para a revolução, isso não deve ser enfatizado de forma exagerada. De qualquer forma, tais desenvolvimentos políticos são muito mais claros do ponto de vista de hoje do que naquele momento. Não havia forma de saber, durante a greve geral de novembro, se um momento mais favorável para assumir o poder poderia se apresentar posteriormente.

Que os Vermelhos tenham perdido a Guerra Civil da Finlândia não constitui, como tal, “uma contundente condenação” dos social-democratas “ortodoxos” finlandeses ou da social-democracia revolucionária em geral. Por este critério, também deveríamos condenar o bolchevismo, uma vez que seus governos de 1917-18 na Letónia, Estônia e em Baku foram igualmente derrotados. Além disso, os bolcheviques como um todo foram eventualmente vencidos pela contrarrevolução stalinista. Aderir à política revolucionária, infelizmente, não garante automaticamente a vitória política.

Um ponto final: é impreciso que o camarada Hart afirme que o supostamente não-revolucionário SDP foi “impulsionado” pelas circunstâncias a fazer uma revolução para garantir sua “autopreservação”. A “situação única” da “falta de penetração nas instituições do Estado” pelo SDP não foi um acidente da História, mas o resultado direto de anos de intransigência de classe do marxismo “ortodoxo” contra o projeto corporativista do nacionalismo finlandês. Em 1917, isso assumiu a forma de iniciativas revolucionárias específicas: no verão de 1917, a esquerda do SDP colocou em movimento a dissolução do governo da Frente Popular Finlandesa, tomando o passo revolucionário de declarar unilateralmente a Finlândia como soberana contra o regime russo. Na sequência deste choque (e da subsequente dissolução finlandesa-russa do parlamento), o SDP ordenou aos seus Ministros da direita e do centro que deixassem o governo finlandês; logo depois, o SDP e seus sindicatos associados começaram a construir as Guardas Vermelhas para combater a ofensiva burguesa. Sem essas ações, a situação no final de 1917 teria sido completamente diferente.

Ao longo do outono de 1917 e do início de 1918, ainda havia numerosas oportunidades para a liderança do SDP reverter o curso e retirar-se da revolução. A “autopreservação” foi aquilo que a direita do SDP exigiu rigorosamente do partido a partir de novembro: condenar a violência/anarquia das Guardas Vermelhas e restabelecer um bloco socialista-liberal, de modo a evitar uma ruptura anticapitalista. Os social-democratas revolucionários finlandeses, não sem uma vacilação significativa ao longo do caminho, rejeitaram conscientemente esta posição e, em vez disso, travaram uma difícil batalha fracional em dezembro e janeiro para isolar a ala parlamentar moderada do SDP, fazer uma aliança com os radicais das Guardas Vermelhas (a quem incorporaram com sucesso no topo da liderança do partido em janeiro) e tomar o poder. Nada sobre este resultado foi inevitável.

Embora não seja necessário colocar um sinal de igual entre as duas revoluções e as suas lideranças políticas, o fato é que a Revolução de Outubro também foi em grande parte um ato defensivo contra a contrarrevolução – na verdade, era enquadrado como tal pelos bolcheviques e amplamente apoiado a partir de baixo por esses motivos [10]. Na luta de classes, como na guerra, a linha entre ações defensivas e ofensivas, se é que existe de fato, geralmente encontra-se extremamente opaca. Culpar a burguesia pelo início da guerra civil era correto, mas também uma tática inteligente para conquistar esses trabalhadores hesitantes (e quadros vacilantes) em apoiar uma insurreição revolucionária. Aderir a tal abordagem não significava que o SDP finlandês tivesse sido conduzido involuntariamente pelas circunstâncias para fazer uma revolução contra sua vontade.

Com a crítica de Hart sobre o “fatalismo”, é irônico que ele afirme que um SDP “passivo” poderia ser “impulsionado” pelo contexto objetivo a derrubar o Estado capitalista. Uma análise tão profundamente fatalista ignora a importância decisiva da liderança revolucionária, do fator subjetivo da intervenção partidária, em tornar possível a tomada do poder pelos trabalhadores. O papel geral dos social-democratas colaboradores de classe e das burocracias sindicais historicamente tem sido o de prevenir ativamente as rupturas anticapitalistas, não liderá-las passivamente. Na Alemanha, o SPD esmagou a revolução dos trabalhadores – na Finlândia, os social-democratas revolucionários os lideraram.

Explicar como e por que o SDP finlandês guiou os trabalhadores ao poder em 1917-1918 exige que entendamos a verdadeira política do marxismo “ortodoxo” da Segundo Internacional, com todos os seus pontos fortes e fracos. Parece-me já estar mais do que na hora de reconhecer que a social-democracia revolucionária era politicamente muito mais próxima da posição do bolchevismo e dos primeiros anos da Comintern do que da colaboração de classes da liderança do SPD alemão e dos seus colegas burocráticos em toda a Europa. Em outras palavras, os “primos” políticos dos social-democratas finlandeses eram os bolcheviques, e não – como Hart afirma – os reformistas ocidentais.

Notas

[1] Ver HART, Duncan. Lições da Finlândia: resposta a Eric Blanc. Blog Junho, 9 ago. 2017. Disponível em: http://bit.ly/2w06mqK

[2] Ver BLANC, Eric. A revolução na Finlândia. Blog Junho, 5 jun. 2017. Disponível em: http://bit.ly/2vO2CsY

[3] UPTON, Anthony F. The Communist Parties of Scandinavia and Finland. London: Weidenfeld & Nicolson, 1973, p. 116.

[4] Ver BLANC, ERIC. The roots of 1917: Kautsky, the state, and revolution in Imperial Russia. John Riddell, 13 Oct. 2016. Disponível em: http://bit.ly/2uzK3oj

[5] Citado em SUODENJOKI, Sami and PELTOLA, Jarmo. Köyhä Suomen kansa katkoo kahleitansa: luokka, liike ja yhteiskunta 1880-1918. Tampere: Tampere University Press, 2007, p. 244.

[6] Citado em SÖDERHJELM, Henning. The Red Insurrection in Finland in 1918. Translated by A. I. Fausbøll. London: Harrison & Sons, 1919, p. 30.

[7] KUUSINEN, Otto. The Finnish Revolution: A Self-Criticism. London: Workers’ Socialist Federation, 1919, p. 2.

[8] Citado em SUODENJOKI and PELTOLA, p. 246.

[9] Os leitores interessados em um relato crítico e extremamente detalhado acerca da esquerda do SDP durante a greve de novembro, e a revolução em geral, podem consultar CARREZ, Maurice. La fabrique d’un révolutionnaire, Otto Wilhelm Kuusinen: 1881-1918: reflexions sur l’engagement politique d’un dirigeant social-démocrate finlandais. Toulouse: Université de Toulouse le Mirail, 2008.

[10] Ver, por exemplo, WADE, Rex A. “All Power to the Soviets’: The Bolsheviks Take Power”, in Revolutionary Russia: New Approaches. New York: Routledge, 2004.