0322_Maximo 2017

Belchior: poeta plebeu

 

André Rodrigues

Belchior, nascido em Sobral, Ceará, no dia 26 de outubro de 1946, morto em Santa Cruz do Sul, Rio Grande do Sul (“Pois o que pesa no norte, pela lei da gravidade / Disso Newton já sabia: cai no sul, grande cidade”), em 30 de abril de 2017, talvez seja o poeta brasileiro que melhor formulou uma lírica plebeia. O semanário dominical da TV Globo, que possui o irônico (talvez cínico) título de “Fantástico”, foi novamente fiel a suas práticas de falsificação da história e mistificação do real e, para isso, acionou os serviços da jornalista Sônia Bridi, escalada para elaborar o obituário do poeta. A jornalista já havia, em 2009, protagonizado uma reportagem especial, no mesmo programa, na qual desempenha uma busca por um Belchior desaparecido. Ela refez seus passos como o caçador em busca da caça e encontrou Belchior hospedado em uma pousada no interior do Uruguai. No trajeto, expôs na reportagem supostas dívidas de Belchior e mostrou, inclusive, um automóvel que seria dele e que estava abandonado. Sonia Bridi montou acampamento na porta da pousada, insistiu aos gritos diante da janela fechada até que a companheira do poeta a atendeu e informou que ele não desejava dar entrevista. A jornalista não recuou até que, constrangido, Belchior aceitou, já à noite, sair para falar. Resumo da ópera: uma sequência de perguntas desrespeitosas que foram todas respondidas como a afirmação de que se tratavam de temas da vida pessoal do poeta e que não diziam respeito a ninguém que não participasse de suas intimidades. No obituário de 2017, Bridi reexibiu trecho da reportagem de 2009; por orgulho, deformação moral, ou submissão às indigências jornalísticas do semanário televisivo, a jornalista decidiu relembrar seus insultos a Belchior no dia em que deveria lamentar sua ausência e exaltar sua memória. O que o obituário do “Fantástico” omitiu da trajetória de Belchior é que sua saída da cena pública significou um gesto completamente coerente com aquilo que sua obra afirma. Deixemos de lado, então, as infâmias do mal jornalismo – sempre corrosivo e degradante – e falemos de um poeta que merece ser lembrado.

O elemento mais constante da poética presente nas canções de Belchior talvez seja a vida comum como tema. Mas não se trata de um minimalismo pequeno burguês que no fim das contas só pretende extrair do cotidiano – com tonalidades blasé – o saneamento moral de um estilo de vida por vezes repugnante. Belchior cantou a dimensão concreta da vida das pessoas comuns e, por isso, compôs uma poética plebeia e anti-épica. Suas canções evitam as metáforas e descrevem estados interiores através de cenas narradas de modo árido e com o vigor de sua voz singular e rasgada, sem firulas, sem vibrato, sem empostação, preciso e seco como Graciliano Ramos.

Por que uma poética plebeia é importante? Há duas pulsões literárias aristocráticas de longa duração que se espalham por variados modos de narrar o real e que reafirmam a validade de arranjos sociais baseados na distinção e na hierarquia: A épica e o pessimismo.

A épica narra acontecimentos fundadores, mede os feitos e a estatura dos que são dignos de serem lembrados e, por consequência, define o desaparecimento dos que devem esquecidos. É um instrumento de verdade fundamentalmente aristocrático. Aos heróis, a história, aos demais, o esquecimento. É um modo narrativo das aristocracias e oligarquias antigas e foi atualizado modernamente pelo poeta Ezra Pound. Os modelos morais que dela resultam têm em comum o desprezo pela vida ordinária. Ela é, portanto, incompatível com qualquer narrativa igualitária.

O pessimismo, por seu turno, é uma pulsão aristocrática iluminista. Ele enfoca os abismos interiores das aristocracias modernas e ignora os aspectos concretos das dores decorrentes das condições de vida das classes trabalhadoras. Thomas Mann foi um dos que notou o nexo entre pessimismo e espírito aristocrático em seu comentário sobre Schopenhauer. Apesar de Mann não argumentar nesses termos, sua interpretação nos leva a perceber o pessimismo como postura aristocrática ao considerarmos aos que dependem de sua força de trabalho para sobreviver não se reserva o luxo do pessimismo, necessitam levantar todos os dias para ganhar seu pão.

Belchior, por sua recusa da épica e do pessimismo, se alinha a escritores como Górki. Este último se manteve distante das afetações subjetivistas da prosa burguesa para afirmar uma narrativa centrada nas condições de vida das classes que vivem de sua força de trabalho. Isso está presente, de modo bastante significativo, em seus escritos autobiográficos intitulados de “Infância”, “Ganhando meu pão” e “Minhas universidades”. Ali Górki narra sua vida marcada pelo trabalho – e, principalmente, pelos trabalhadores – e pelos livros. Os personagens centrais desses livros são seus companheiros nas atividades navais – de mãos e rostos cobertos pelo carvão das caldeiras dos navios – e das oficinas de ícones religiosos, as prostitutas, e, sobretudo, sua avó. Daí emerge na prosa de Górki uma poética plebeia que se opõe às pulsões burguesas presentes em Flaubert e às narrativas oligárquicas dos czares. Os sujeitos presentes em sua biografia estão em permanente oposição com os patrões, agiotas, senhores e senhorios.

O poeta de Sobral se junta também a Lima Barreto na constituição de dramas que realinham o lugar dos vilões. A etimologia desse termo associa o pertencimento às camadas populares a marcadores de degradação moral. O vilão seria o oposto do homem da corte. Tanto em Belchior quanto em Lima Barreto, tudo se estrutura de outra forma: são os dramas da vida concreta dos personagens marginais a fonte das virtudes que se contrapõem à cupidez, à indigência intelectual, à ganância e à arrogância das classes dominantes.

São muitas as canções de Belchior que trazem essas características. Como convite ao leitor a essa obra poética e fonográfica fundamental, falemos duas ou três palavras sobre duas delas: “Alucinação” e “Fotografia 3 x 4”.

“Alucinação

Eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais
Nem em tinta pro meu rosto
Ou oba oba, ou melodia
Para acompanhar bocejos
Sonhos matinais

Eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Nem nessas coisas do oriente
Romances astrais
A minha alucinação
É suportar o dia-a-dia
E meu delírio
É a experiência
Com coisas reais

Um preto, um pobre
Uma estudante
Uma mulher sozinha
Blue jeans e motocicletas
Pessoas cinzas normais
Garotas dentro da noite
Revólver: cheira cachorro
Os humilhados do parque
Com os seus jornais

Carneiros, mesa, trabalho
Meu corpo que cai do oitavo andar
E a solidão das pessoas
Dessas capitais
A violência da noite
O movimento do tráfego
Um rapaz delicado e alegre
Que canta e requebra
É demais!

Cravos, espinhas no rosto
Rock, Hot Dog
Play it cool, baby
Doze Jovens Coloridos
Dois Policiais
Cumprindo o seu duro dever
E defendendo o seu amor
E nossa vida
Cumprindo o seu duro dever
E defendendo o seu amor
E nossa vida

Mas eu não estou interessado
Em nenhuma teoria
Em nenhuma fantasia
Nem no algo mais
Longe o profeta do terror
Que a laranja mecânica anuncia
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais
Amar e mudar as coisas
Amar e mudar as coisas
Me interessa mais”

Na primeira e na segunda estrofes dessa canção Belchior contrapõe elementos metafísicos à experiência do real: a fantasia e as teorias, de um lado, uma uma vivência alucinatória pautada no mergulho nas coisas reais. Nas três estrofes subsequentes, há um elenco de personagens da vida comum. Esses elementos enumerados de modo sincopado no canto do artista e em seu metro irregular, pungente, definem a vertigem essa experiência e seu caráter alucinatório. Suportar o real é viver essa alucinação. Mas o caráter agônico desse mergulho na dimensão vivida da existência não resulta em pessimismo, em abismo metafísico, em niilismo, em negação do real. Qual a saída dessa vertigem? A refutação do profeta do terror na distopia presente no filme “Laranja Mecânica” de Kubrick: amar e mudar as coisas, isso interessa mais.

Operação semelhante ocorre em “Fotografia 3 x 4”, dessa vez, a partir do recurso autobiográfico. Ali, como em Górki, está presente uma trajetória de pertencimento às classes populares e uma experiência poética e literária do mundo. A história é a do jovem que sai do nordeste para o sul brasileiros:

“Fotografia 3 x 4 

Eu me lembro muito bem do dia em que eu cheguei
Jovem que desce do norte pra cidade grande
Os pés cansados e feridos de andar légua tirana
De lágrimas nos olhos de ler o Pessoa
E de ver o verde da cana 

Em cada esquina que eu passava um guarda me parava
Pedia os meus documentos e depois sorria
Examinando o 3×4 da fotografia
E estranhando o nome do lugar de onde eu vinha 

Pois o que pesa no norte, pela lei da gravidade
Disso Newton já sabia: cai no sul, grande cidade
São Paulo violento, corre o Rio que me engana
Copacabana, zona norte e os cabarés da Lapa onde eu morei
Mesmo vivendo assim, não me esqueci de amar
Que o homem é pra mulher e o coração pra gente dar
Mas a mulher, a mulher que eu amei
Não pode me seguir não

Esses casos de família e de dinheiro eu nunca entendi bem
Veloso, o sol não é tão bonito pra quem vem do norte e vai viver na rua
A noite fria me ensinou a amar mais o meu dia
E pela dor eu descobri o poder da alegria
E a certeza de que tenho coisas novas
Coisas novas pra dizer 

A minha história é talvez
É talvez igual a tua, jovem que desceu do norte
Que no sul viveu na rua
Que ficou desnorteado, como é comum no seu tempo
Que ficou desapontado, como é comum no seu tempo
Que ficou apaixonado e violento como você
Eu sou como você
Eu sou como você
Eu sou como você que me ouve agora
Eu sou como você
Como você”

Lemos no texto e ouvimos na voz do cantor as cores intensas da vida dura do nordestino que vem para o sudeste. A referência ao Pessoa e ao verde da cana no trajeto dão a atmosfera poética dessa experiência, uma vida que é também uma narrativa literária, dramática e bela. Novamente, essa aridez do real não se configura em beco se saída: a noite fria ensina a amar o dia. A mulher deixada para traz e a légua tirana do caminho não recai em drama solipsista: trata-se de uma circunstância coletiva. Viver na rua, restar desnorteado (assinale-se a beleza da relação desse termo com o percurso geográfico descrito), desapontado, apaixonado e violento é circunstância comum em seu tempo. A própria percepção do caráter coletivo dessa experiência é a solução para que ela não acione abismos pessimistas: eu sou como você, diz o poeta ao leitor-ouvinte.

A obra de Belchior se inscreve, portanto, no campo de uma poética anti-aristocrática, uma poética plebeia que recusa simultaneamente a épica e o pessimismo. Essa poética retira, assim, a vida das classes populares de um esquecimento histórico, reeduca as Musas no sentido de inspirarem as narrativas sobre aqueles que realmente devem ser lembrados, os que fazem a história e giram o mundo. O cidadão comum é, finalmente, cantado; não como personagem subalterno, mas como figura de exaltação, como fonte das virtudes.

Esse é um legado fundamental de Belchior, aspecto central de sua memória. Sem essa poética não se pode engendrar um mundo que anule as pulsões aristocráticas e distintivas, que ative a igualdade como valor fundador.

Viva Belchior!