Fotografia de Adria Meira
Fotografia de Adria Meira

Bernie Sanders, as tradições radicais nos Estados Unidos e a aposta na política

 Tiago Coelho Fernandes

A surpreendente ascensão de Bernie Sanders na disputa pela candidatura presidencial do Partido Democrata dos Estados Unidos gerou uma expectativa nas semanas anteriores ao início das primárias. Com o início do intricado processo eleitoral, o veterano senador de Vermont provou ser capaz de ir além do improvável e se colocou competindo ponto a ponto no embate com Hillary Clinton, a candidata que se apresenta como o canal seguro entre os interesses das grandes corporações e a continuidade democrata.

A essa altura, o fenômeno Bernie Sanders já ultrapassa a curiosidade pitoresca e desperta um interesse mais próximo sobre o seu significado. Sua campanha foi capaz confrontar abertamente os termos e os métodos tradicionais da política institucional, apresentando-se como “socialista democrático” independente e mesclando bandeiras tradicionais dos setores progressistas e da esquerda estadunidense com reivindicações de movimentos mais recentes como o Occupy Wall Street e Black Lives Matter. Mobilizou novas gerações de ativistas para além das redes sociais, com grandes comícios, comitês de base e sustentado prioritariamente por contribuições individuais.

Neste breve ensaio, não pretendo apresentar uma análise geral da conjuntura norte-americana, nem uma crítica detalhada do programa de Sanders, mas sugerir algumas reflexões a partir de um diálogo bastante instigante e inusitado à primeira vista. Proponho duas chaves de leitura desse processo: a primeira é de que ele tem raízes mais profundas que os movimentos que se expandiram a partir da crise de 2008, fundando-se em tradições populares e radicais que remetem à revolução de independência e atravessam os séculos XIX e XX; a segunda é que, independente de suas limitações presentes e futuras, a aposta de Sanders de retomar certas orientações básicas de uma ação política de esquerda (que incluem a referência às tradições), buscando dar consistência a um discurso radicalizado para o contexto em que surge, traz importantes contribuições para uma campanha majoritária progressista, num espaço hegemônico extremamente adverso a qualquer viés de discurso antissistêmico. Para isso partirei de uma referência literária que dá alguns traços dessa cultura política radical norte-americana e em seguida analisarei alguns trechos da entrevista que considero importantes para ajudarem a compreender os alinhamentos políticos e as perspectivas abertas pelo candidato autoproclamado socialista.

Ser radical nos Estados Unidos?

Em sua obra Casei com um comunista,[i] Philip Roth apresenta um enredo de relações que vão da lealdade e a defesa apaixonada de princípios às traições, intrigas e perseguições políticas no contexto do macarthismo. A história se desenvolve a partir da aproximação entre o estudante secundarista Nathan Zuckerman, alter ego de Roth, com o protagonista Ira Ringold, ex-soldado, operário e sindicalista que se tornou uma estrela do rádio por sua “voz bravia e arrebatadora” e seu irmão Murray Ringold, professor da rede pública que perdeu seu emprego por não colaborar com o Comitê de Atividades Antiamericanas. Ali é possível acompanhar um retrato da rede de intrigas e perseguições tramada pelo Comitê no pós-guerra, que levaria Ira ao ostracismo e à miséria, mas também os traços de um aspecto da política norte-americana que geralmente nos passa desapercebido: uma tradição (ou um arco de tradições) popular, radical, antioligárquica, democrática de base, que é geralmente marginalizada pelos relatos históricos oficiais e pelas idealizações do consenso forjado em torno aos “valores americanos”.[ii]

Nathan tem em Murray um daqueles professores que se tornam inspiração constante, apaixonadamente descrito como alguém que “trazia para a sala de aula uma carga de espontaneidade visceral que representava uma revelação para garotos submissos, domesticados, que ainda não haviam compreendido que obedecer às regras de decoro de um professor nada tinha a ver com o desenvolvimento mental”. Através de um encontro fortuito surge a oportunidade de conhecer seu irmão mais novo, apelidado Iron [Aço] Rinn, militante do Partido Comunista que encenava passagens de discursos abolicionistas de Abraham Lincoln em escolas e sindicatos. Através dos diálogos entre o jovem estudante e os irmãos Ringold o leitor acompanha, mais que a trajetória particular dos personagens, a transmissão geracional dessas tradições radicais marginalizadas.

Logo em seu primeiro contato com o artista de rádio, o rapaz conta orgulhoso que assistira sua apresentação na escola e que incitara a vaia ao deputado escravista que duelava com Lincoln. Numa conversa que foi das esquetes sobre o abolicionismo ao boxe e ao baseball, chegando a comentários sobre o “sacana reacionário e cão de guerra” Winston Churchill, emerge a figura de Tom Paine. Zuckerman acabara de ler um romance histórico sobre a trajetória do panfletário radical do processo de independência norte-americana, que também tomara parte da revolução francesa e andava a tiracolo com tudo o que podia carregar relacionado ao tema. Ira então lhe pergunta qual foi o lance de gênio do autor de Senso Comum[iii] e diante da resposta que foi o desafio aos ingleses contesta que na verdade foi sua capacidade de articular a causa revolucionária em inglês: “Pois bem, esses caras tiveram de encontrar uma língua para a revolução. Encontrar as palavras para um grande projeto.”

Pouco depois desse primeiro diálogo, Roth insere seus personagens em cena real de sua época. Nathan é convidado por Ira para um comício presidencial das eleições de 1948 de Henry Wallace, candidato dissidente do Partido Democrata crítico dos “garotões de Wall Street”, contrário à ruptura com a União Soviética e com uma campanha voltada ao “homem comum”. Ao manifestar a vontade de ir ao ato de campanha entra em conflito com o pai, judeu liberal e progressista de origem pobre, que considerava que o apoio a um candidato de fora do esquema bipartidário desviaria votos do Partido Democrata aumentando a chance dos republicanos, o partido dos “grandes magnatas”, que governa “com o pé em cima da cara do povo humilde”. A disputa doméstica seguia tensa até a decisão pela ruptura diante do endosso paterno ao argumento de que a candidatura de Wallace estava aberta à infiltração comunista. Zuckerman filho sai abruptamente para o comício, onde conhece o ator e cantor negro Paul Robeson, histórico militante comunista e articulador da campanha.[iv]

Lembrei dessas passagens do romance do escritor judeu-americano ao assistir uma entrevista de Bernie Sanders ao rapper Killer Mike, gravada numa barbearia na cidade de Atlanta.[v] Sua trajetória pessoal, seu discurso, a cultura política em que se apoia e o contexto em que emerge parecem reunir diversos traços similares àqueles retratados na ficção de Roth. Também de origem judaica, o pré-candidato iniciou suas atividades estudantis no movimento estudantil dos anos 1960. Como ativista do Student Nonviolent Coordinating Committee (SNCC) atuou próximo ao movimento dos direitos civis, participou da marcha sobre Washington convocada por Martin Luther King e recusou-se a servir no Vietnam. Manteve-se como independente ao longo da vida política e assume três personagens emblemáticos como referências no panteão dos presidentes norte-americanos: George Washington, Abraham Lincoln e Franklin Roosevelt.[vi]

Sua campanha, que emerge em um contexto de crise e tensiona com a alta direção democrata, traz elementos que lembram a de Henry Wallace; ao atrair o público em geral e a militância mais jovem referendando-se nas tradições da classe operária estabelece um diálogo geracional à maneira do que aparece na alegoria Ringold-Zuckerman; seu programa busca inspiração no New Deal, talvez mais do que na social-democracia europeia; seu discurso antioligárquico ecoa aquela tradição jacobina anglo-saxã que encantou o jovem Nathan.

A aposta na política: caminho para a reconstrução da esquerda?

Observemos agora diretamente como se apresenta o pré-candidato Bernie Sanders, falando de um ambiente no mínimo inusitado. A entrevista foi realizada em novembro de 2015 pelo rapper da cena independente e ativista comunitário Killer Mike. O local, o perfil do entrevistador, o ritmo da conversa, mais um bate-papo do que uma entrevista formal, tudo surpreende para uma campanha presidencial nos Estados Unidos em pleno século XXI. Ou foi uma entrevista meticulosamente planejada e ensaiada, ou representa uma ruptura genuína no padrão de campanhas políticas padronizadas e “marketizadas”, estabelecido há várias décadas, que ganhou apenas novas plataformas com os perfis de redes sociais meticulosamente alimentados por assessores para simularem um contato mais próximo com o eleitor/cliente. Nesse caso, a análise não ficaria invalidada, pois a proposta do conteúdo continua preciosa. Caberia então apostar numa candidatura de Killer Mike ou do produtor do vídeo…

É o anfitrião quem explica, sob um olhar de aprendiz, a força simbólica de a conversa não se realizar em uma biblioteca ou em um estúdio, parecendo recorrer às boas vertentes da história social:

Não é por acaso que estamos aqui, não é só porque eu sou o dono. Barbearias parecem ser o único lugar que pude perceber em toda minha vida onde homens negros, particularmente, foram capazes de falar a verdade e expressar suas preocupações e não se preocupar em ser morto. É um lugar onde, além de homens negros, homens da classe operária podem vir e falar da verdade sem se preocupar que o patrão venha cortar seu salário ou seu trabalho. Muitos sindicatos começaram a ser organizados nos fundos de uma barbearia ou de um bar.

O contato se desenvolveu a partir de uma troca de mensagens por rede social, a partir da qual o senador aceitou ir a Atlanta conceder a entrevista. O rapper começa em termos bem objetivos, fala de sua origem humilde, luta para sobrevivência. Sabendo que seu interlocutor se declara socialista questiona: “Eu gosto de dinheiro, me considero capitalista, embora me preocupe com questões da minha comunidade… O que é socialismo e o que isso significa para a comunidade negra?” Sanders responde em termos quase pedagógicos: “O que significa para mim, o que significa para a comunidade negra e a comunidade americana é a compreensão de que quando falamos sobre direitos – direito de expressão e outros direitos constitucionais – mas para ser realmente livre, você também precisa de direitos econômicos. Se você tem direito de expressão, mas não tem uma casa, se não tem educação, você é realmente livre?” E enumera pontos básicos que devem compor esses direitos: assistência médica, ensino superior público, salário mínimo decente… Em sua definição de socialismo democrático o compromisso principal é Assegurar que o país mais rico da história do mundo seja capaz de prover um padrão mínimo de vida para todos e todas.

Como resultado da tecnologia, o trabalhador médio produz muito mais, certo? Por que essa pessoa está ganhando menos? Boa pergunta? Porque os Estados Unidos é o único dos países mais poderosos a não fornecer acesso universal a saúde? Boa pergunta? É moral que os 10% do topo tenha quase o mesmo que os outros 90%? Você vê isso na TV?… Eu não sou um idiota e sei que não mudamos esse país em uma noite. Mas a questão principal é: nada acontece a menos que as pessoas se levantem.

Não compremos nem vendamos ilusão. Sanders é um socialista moderado sob qualquer parâmetro de análise. Suas propostas são elaboradas tendo como base do princípio da distribuição justa de riquezas, não a partir da crítica à exploração. Na história sempre houve ricos e pobres, certo? Mas de certa forma deve haver um tipo de contrato social. Se eu sou o dono da empresa, eu faço o dinheiro, eu preciso dividir com você.

No entanto, é preciso contextualizar em que ambiente político ele se move, com que público ele dialoga, qual o horizonte realizável. E principalmente, que forças políticas ele impulsiona, abrindo brechas no sistema para novos passos. Simplesmente estabelecer o referencial marxista como único espaço de diálogo, um alinhamento inequívoco com as bandeiras da esquerda mundial e um programa imediato de superação do capitalismo é recorrer ao maximalismo cômodo e descomprometido com a política efetiva e a realidade concreta.

Assim sendo, a força e o potencial da proposta representada por Sanders se assentam em dois pontos fundamentais. O primeiro é sua capacidade de introduzir para o público geral termos considerados extremamente subversivos e contrários à “cultura americana”. Essa tática confere um aspecto pedagógico à campanha que transparece ao longo da entrevista. Os temas se sucedem quase como numa batalha de rap, sem deslizar para um tom professoral. Mike questiona sobre um possível avanço de um sistema de características monárquicas, com o domínio de dinastias como os Clinton e os Bush que se apresentam nessas eleições. Sanders aponta o holofote para o financiamento de campanha, num país em que é naturalizada a “doação” das grandes corporações com fonte exclusiva de recursos. Discutem o caráter antipopular do Partido Republicano, em termos semelhantes aos expostos pelo velho Zuckerman. O rapper comenta alarmado a receptividade à campanha protofascista de Donald Trump, a capacidade do sistema de fazer as pessoas votarem contra seus próprios interesses, na ilusão de que um dia serão ricas. O senador contesta que isso não vai acontecer para a vasta maioria. E se acontecer, é isso que queremos para nossa sociedade? Não é melhor uma sociedade onde todos vão bem, do que uma em que temos de um lado bilionários e do outro pessoas vivendo na rua? Debatem a política de encarceramento massivo, seus efeitos desastrosos sobre a população negra e sua relação com a guerra às drogas. Mas é o diálogo que desenvolvem sobre o significado de Martin Luther King que traz um registro potente dessa perspectiva de construção coletiva de uma alternativa progressista em um contexto predominantemente conservador.

O debate sobre King emerge no que destaco como a segunda característica a reforçar a campanha de Sanders como um processo a ser observado com atenção para uma política de esquerda consistente nos dias atuais. O candidato não se apresenta como ponto de partida, nem como fim em si. Embora se declare um apaixonado pela democracia, ele aponta os limites do sistema e seus mecanismos de exclusão da participação política efetiva. Nesse ponto, transcende o debate programático imediato, condicionando a viabilidade de uma proposta de mudança real a uma ampla mobilização popular e ao aprendizado com lutas passadas.

A sequência começa com o questionamento levantado pelo rapper: Como sabemos que o presidente não estará comprado a ponto de suas grandes ideias não serem engessadas pelo poder do dinheiro? A resposta aponta num sentido objetivo de identificar o oponente, na linguagem estabelecida pelo Ocuppy Wall Street:

É o que digo em cada discurso meu: você acha que Bernie Sanders pode fazer isso sozinho? Eu não posso. Vamos ser muito claros: os poderes estabelecidos – Wall Street, a América corporativa, a mídia corporativa, os doadores de campanha… – você acha que eu vou chegar na Casa Branca e dizer – Ei, Wall Street, eu tenho uma ideia, eu acho que você deveria pagar uma taxa sobre a especulação de forma que eu possa colocar todos os nossos jovens de graça na faculdade. O que acha que eles vão dizer? Ótima ideia! [risos] Nós precisamos superá-los, e só superamos quando todas as pessoas se levantam e dizem “Quer saber, vocês têm que pagar a taxa sobre especulação…” Eu não posso fazer isso sozinho.

Nesse ponto que o candidato evoca a preciosa referência de Dr. King. Em sua leitura, o pastor nascido na mesma Atlanta onde se realizou a entrevista não se coloca como alguém que vai resolver todos os problemas, mas como um organizador capaz de educar as massas e ampliar o horizonte da luta a cada conquista.

Afirma Sanders: Mas o que mais admiro em MLK não foi sua contribuição para construir o movimento dos direitos civis e destruir a segregação. Esse homem era incrivelmente corajoso, e sabe porque? No momento em que ele era unanimidade, celebrado por todos, elogiado na mídia, o que ele faz em seguida? Ao que Mike replica de imediato: Ele pressiona sobre a guerra do Vietnã, e o tema da pobreza e então todos se voltam pra essa questão. E o socialista prossegue, sob o olhar atento do rapper, confirmando enfaticamente cada ponto:

E sabe o que dizem a ele? Dizem: você é um líder afroamericano! Seu trabalho é se preocupar com os direitos civis! Quem você pensa que é pra falar da guerra do Vietnã? Porque você está falando da distribuição da riqueza? Mas isso é porque esse era um cara brilhante. E é o que eu amo nele. […] Esse é um cara esperto, sacou? Você não fica a vida inteira no mesmo ponto. E ele começou a entender. Certo, então derrubamos a segregação, mas que diferença isso faz se você não consegue comprar um hamburger. Se você não consegue mandar suas crianças pra escola? Se você está falando sobre não-violência e os EUA no Vietnã é o maior perpetuador da violência, você é um hipócrita se você não fala sobre isso. E ele não é um hipócrita.

A leitura de ambos converge para um esforço comum, inspirado em Dr. King, em conectar o alerta sobre a pobreza, a segregação e o racismo, com a economia, direitos dos trabalhadores, direitos das mulheres… Killer Mike critica a compartimentação dos discursos e das lutas, ao que o entrevistado provoca a lembrança do episódio do assassinato do líder negro. Este ocorreu em Memphis, organizando uma luta sindical por aumento de salário e melhora nas condições de trabalho de pessoas que eram terrivelmente exploradas e preparando uma “marcha do povo pobre”. Não era apenas de africano-americanos: eram brancos, eram hispânicos

Nesse trecho, Mike e Sanders insistem num ponto que considero fundamental e estratégico de seu diálogo, que é a possibilidade de superar a política de identidade com uma renovada política universalista de esquerda. Esse é um tema complexo e delicado, que não caberá desenvolver nesse espaço. Mas quando falo em superação me refiro a uma perspectiva que seja capaz de incorporar as demandas, as expressões políticas, as linguagens e a crítica acumulada por movimentos e intelectuais feministas, afrodescendentes, indígenas, latinoamericanos num horizonte comum (ou em um espectro de horizontes) que aponte no sentido de crtiticar o sistema em suas bases de dominação e suas múltiplas formas de opressão, indo além do atendimento de demandas específicas. Talvez seja por isso que Cornel West, um dos mais proeminentes intelectuais afroamericanos contemporâneos, atribua ao candidato socialista a continuidade do legado de Martin Luther King.[vii] Todavia, é importante ressaltar que essa é uma perspectiva que não se funda nem se encerra com a campanha de Sanders: apenas para tomar algumas referências mais recentes, lembremos do chamado movimento antiglobalização que teve seu impulso amplificado a partir da batalha de Seattle, das lutas contra o neoliberalismo protagonizadas pelos povos originários dos Andes ou o esforço tenaz de rearticulação global de uma crítica ao capitalismo contemporâneo posta em prática pelos indígenas zapatistas a partir de Chiapas.[viii] 

Uma candidatura pitoresca ou um sinal do que vem por aí?

As considerações aqui apresentadas passam longe do objetivo de endossar uma mitologia em torno ao personagem Bernie Sanders. Nesse ponto ninguém será ingênuo o bastante de acreditar que uma disputa eleitoral por si só daria o giro político necessário para resolver todos os obstáculos e contradições que impedem um horizonte efetivamente revolucionário naquele que é simplesmente o mais poderoso Estado… capitalista contemporâneo. Mesmo a perspectiva de amenizar os efeitos da crise sobre a enorme massa de trabalhadores e trabalhadoras coloca-se como um desafio monumental. O que décadas de filmes de super-heróis e fantasias de guerras salvacionistas não foram capazes de fazer não será resolvido por um senhor octagenário, por mais apaixonadas que sejam suas declarações socialistas.

Porém, igualmente ingênuo será imaginar que declarações de indivíduos ou correntes políticas externos ao processo político estadunidense sejam capazes de apontar o devido sentido do farol para a derrubada definitiva do capitalismo. O que cabe é buscar fazer uma leitura do processo, perceber as tendências aí condensadas, extrair contribuições potencialmente traduzíveis para outros contextos.

As mensagens da campanha de Bernie Sanders são simples e diretas como sugere a tradição da prosa norte-americana: não abrir mão de seus princípios políticos; comunicar-se diretamente com o “homem [e a mulher] comum”; recuperar as tradições radicais dos excluídos da história; recolher as contribuições dos movimentos sociais contemporâneos; conceber a política como construção coletiva; identificar com objetividade seus oponentes; estabelecer o debate nos próprios termos. Contenhamos o entusiasmo, poupemos o deslumbre, mas tenhamos o ensinamento extraído de Paine, cada vez mais urgente nos dias que correm: para fazer uma revolução, não basta desafiar o poder estabelecido, é preciso encontrar os termos próprios para esse projeto. Se não há aí elementos úteis para um avanço consistente de uma perspectiva de esquerda, precisaremos começar do zero nossa caminhada?

Notas:

[i] ROTH, Philip. Casei com um comunista. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

[ii] Dos inúmeros exemplos de reprodução diária dessa ideologia podemos citar o articulista do New York Times que considera o “sonho dinamarquês” de Bernie Sanders uma aberração diante do “consenso” formado pelo modelo de capitalismo americano. David Brooks. Livin’ Bernie Sanders’s Danish Dream. The New York Times, 12 Feb. 2016. Disponível em: http://nyti.ms/1o9aPQZ

[iii] O panfleto de Paine foi publicado em fevereiro de 1776, no início do processo de independência. Thomas Paine. Common Sense. 1776. Disponível em: http://bit.ly/1QvFS3T

[iv] É possível acessar os arquivos do FBI sobre Robeson em https://vault.fbi.gov/Paul%20Robeson,%20Sr./

[v] Watch Killer Mike Interview Bernie Sanders In The Swag Shop. Okaplayer. Disponível em: http://bit.ly/1pqdLsY. Para evitar prejudicar a fluidez da leitura, optei por reproduzir as falas do vídeo inseridas no texto, em itálico. A tradução é de minha responsabilidade, priorizando a reprodução de um conteúdo inteligível em detrimento de uma transcrição literal.

[vi] Informações no site da campanha: http://feelthebern.org/who-is-bernie-sanders/

[vii] West faz a analogia a King em sua declaração de apoio a Sanders. Cornel West. Why Brother Bernie Is Better for Black People Than Sister Hillary. Politico Magazine, 13 Feb. 2016. Disponível em: http://politi.co/1TZsEhd

[viii] O documentário Is This What Democracy Looks Like mostra a convergência entre sindicatos tradicionais, ambientalistas, “novos movimentos sociais” e setores diversos nos protestos contra a conferência da Organização Mundial do Comércio em Seattle, em 1999. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=X0MeA7mvpeU