Fotografia Humberto Tutti
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Bernie Sanders: o velho que pode carregar o novo

Pedro Bortoto

Depois da vitória de Bernie Sanders nas eleições primárias no Estado de New Hampshire do Partido Democrata, tanto a esquerda como a nova direita brasileira tentaram descreditar o evento, recorrendo à explicações bastante antigas. Ambas com pelo menos um século de idade e que têm em comum a característica de dar à história dos Estados Unidos uma essência extemporânea. De fato, as recentes derrotas na mais recentes primárias (Nevada e Carolina do Sul) parecem sustentar esses argumentos. Porém, assim como Bob Dylan percebeu a mudança nos novos ventos, Sanders, membro da mesma geração, é o velho que carrega o novo. Antes de entender isso, é preciso primeiro avaliar os argumentos antigos que ainda permeiam o entendimento dos Estados Unidos, lá e cá.

A esquerda reproduz a velha justificativa enunciada por Werner Sombart no início do século XX, quando este respondera à pergunta que ele mesmo se propôs — o porquê da ausência do socialismo nos Estados Unidos. Sombart acreditava que a falência de um partido alinhado à Segunda Internacional em terras estadunidenses se dava pelo fato de o trabalhador na América ter condições de vida melhores que os companheiros europeus e, desde pelo menos meados do século XIX, ter alguns direitos políticos assegurados. Disso decorreria a pouca importância de um movimento de base articulando sindicatos e partido para realizar a melhoria da condição de vida e inclusão política — o ponto de partida para a revolução segundo o Programa de Erfurt.

Nas análises posteriores que buscaram justificar essa falência e compreender a sua manutenção, socialistas ou figura associadas ao socialismo em algum momento de suas vidas como Eugene V. Debs, Walther Reuthers, Martin Luther King Jr., entre tantos outros, são sinônimos da incapacidade inerente da classe trabalhadora estadunidense em assumir uma posição mais revolucionária — ou pelo menos, de certo reformismo mais igualitarista — por sua posição privilegiada e sua condição de classe média muito antes do que qualquer outra classe trabalhadora ocidental. Como o fatal exemplo de MLK indica, os primeiros lampejos de um ideário que uniria luta contra a segregação e pela melhoria da condição da classe trabalhadora foram interrompidos por disparos de rifles. Apenas nos momentos de crise como nas depressões de 1893-1897, 1919-1922, 1929-1941, 1963-1973 e a atual de 2007-2010, esses ideais foram instrumentalizados, em cada momento a sua maneira, para lutar contra a perda dos privilégios econômicos. Nessa história, o socialismo estadunidense com inicial maiúscula se resumiu, especialmente após o fim dos movimentos sociais dos fins da década de 1960, a poucos acadêmicos isolados ou em pequenos grupos berrando contra o ensurdecedor vento liberal-conservador que circula por todos os cantos dos Estados Unidos.

A direita, por sua vez, divide-se em dois campos. A ideologicamente vulgar acredita que os Estados Unidos são a terra da livre iniciativa e da meritocracia — “hoje um trabalhador, amanhã um patrão” numa formulação que remonta até Lincoln. Jim Crow é a contraprova imediata: as legislações segregacionistas que reinaram em todo o país entre as décadas 1890 e 1960 (e com sinais ambíguos de retorno) são posteriores ao fim da escravidão — ergo, não havia e não há meritocracia nos Estados Unidos. A direita mais sofisticada defende a ideia de que o sistema político estadunidense se construiu e se sustenta sobre amplos consensos multigeracionais mais ou menos definidos a partir do fim trágico da segunda presidência de Lincoln e relativamente estável ao longo do século XX, tendo como momento de maior transformação a formação do bloco conservador do Partido Republicano após a candidatura de Barry Goldwater em 1964 e a saída dos Dixiecrats do Partido Democrata logo em seguida. Sobre este bloco Ronald Reagan construiria sua igreja e definiria o atual escopo do debate político, sendo a Terceira Via de Clinton o suposto comprometimento que agora se encontra questionado e em vias de redirecionamento.

Ambas as narrativas dão conta de elementos importantes da história dos Estados Unidos. Pela esquerda, mostra-se a força de certos valores que moldaram e ainda moldam a classe trabalhadora estadunidense — propriedade privada, individualismo, noções de comunidade e certa aceitação de uma possível conciliação entre capital e trabalho —, noções essas sempre redefinidas historicamente. Pela direita, a força pervasiva dos partidos Democrata e Republicano na constituição do que os estadunidenses chamam de body politic. De fato, é quase impossível distinguir o Estado dos partidos e um observador desatento com certeza se confundiria ao tentar definir claramente as fronteiras entre um e outro. Essa perspectiva também ajuda entender o complexo sistema de acomodação de forças políticas dentro da Casa Branca e do Congresso, em que figuras de ambos os partidos povoam os escalões médios e baixos da administração pública, seja por mérito ou acordo bipartidário — algo que em si só merece um comentário.

Contudo, ambas as explicações divorciam as instituições das pessoas que votam nelas. Se descendermos do mundo etéreo das instituições e nos aproximarmos das dinâmicas eleitorais e políticas propriamente ditas, é possível perceber que as ações individuais e coletivas por uma vida mais justa e a continua acomodação das forças políticas são muito mais díspares e estão em constante conflito. Como exemplo breve, pode-se citar a importância dos comunistas durante o chamado New Deal. Sem a atuação sindical e política de vários militantes em fábricas automobilísticas, minas de carvão e siderúrgicas entre 1934 e 1948, muitos dos ganhos advindos da legislação trabalhista não teriam se realizado no chão de fábrica. Não por acaso, o presidente nacional do sindicato dos trabalhadores da indústria automobilística (conhecido pela sigla UAW), o então ex-socialista Walther Reuthers, expulsou os comunistas quando estes começaram a questionar sua liderança logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. Não só isso, mas o mesmo Reuther teve que manobrar grupos radicais dentro do sindicato por quase duas décadas, até ter ilusório pleno controle do UAW no início da década de 1960. Sua trágica morte em um acidente aéreo daria vazão a nova disputa de poder dentro do sindicato em que jovens trotskistas recém-saídos das universidades se tornaram operários para tentar conciliar teoria e práxis.

O mesmo vale para o consenso supostamente inabalável. Os vice-presidentes dos quatro mandatos de Franklin Delano Roosevelt são um bom exemplo. Nas suas duas primeiras vitórias, 1932 e 1936, FDR teve como companheiro de chapa um político texano extremamente conservador a ponto de condenar publicamente programas idealizados pelos assessores progressistas de Roosevelt. Dessa forma, FDR encabeçava uma chapa que conciliava os dois grupos dentro do Partido Democrata: liberais do Norte advindos do Populismo e conservadores do Sul que eram descendentes dos Confederados. Ambos os grupos queriam intervenção estatal na economia: liberais nortistas acreditavam em expansão do crédito via empréstimos do governo federal e em mecanismos de estabilização das relações trabalhistas; sulistas conservadores defendiam a expansão da intervenção estatal direta na economia para absorver a mão-de-obra rural excedente criada por conta da mecanização da agricultura sem que houvesse mudanças na segregação racial. Com alguns sucessos após 1937 e a formação de um bloco sindical favorável a Roosevelt em 1938 com a fundação da CIO (Congress of Industrial Organizations), FDR escolheu o ex-Republicano progressista Henry Wallace como vice com o objetivo de angariar as forças do centro a esquerda que o apoiavam. (Não por acaso, Wallace seria o candidato derrotado a presidência em 1948 pelo então Partido Progressista, uma tentativa de formação de um partido de centro-esquerda e como opção ao Partido Democrata.) Os anos entre o fim da Depressão e a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial seriam marcados pelo fortalecimento dos sindicatos como grupo político, o flerte momentâneo com um modelo de intervencionismo estatal na economia e pelo ressurgimento do movimento por direitos civis encabeçado por figuras como Asa Philip Randolph — socialista e porta-voz da não-realizada Marcha sobre Washington de 1941, vinte e dois anos antes da manifestação liderada por MLK.

Com a virada conservadora com a eleição de 1942 para o Congresso — motivada pela formação desse bloco articulando direitos civis e um projeto mais intervencionista para a economia —, Roosevelt sacou Wallace em 1944 e escolheu Harry S. Truman, um senador democrata ligado às lideranças do partido, afastando o bloco mais liberal e acenando para os conservadores dentro do próprio partido Democrata. Todas essas orquestrações foram efetivas eleitoralmente, já que FDR ganhou todas as eleições com larga maioria. A ruptura definitiva desses constantes acordos e negociações seria feito em várias etapas e com constantes fluxos e refluxos ao longo do século XX, em especial durante a década de 1960 quando o bloco conservador dentro do Partido Democrata tentou uma chapa independente para presidente em 1968 e depois abandonou o partido após a década de 1970. Isso mostra que o entendimento monolítico dos Partidos Democrata e Republicano como sendo, respectivamente, de centro-esquerda e centro-direita não dá conta da dinâmica política interna dos Estados Unidos. Muitos Estados atualmente entendidos como solidamente Republicanos eram Democratas até pouco tempo. Como exemplo, o diretório do Partido Republicano na cidade de Tampa, Flórida só foi inaugurado oficialmente em 1978. Apenas às vésperas da eleição de Ronald Reagan os conservadores Democratas perderam controle da política daquele Estado sulista.

Claro que isso tudo está muito simplificado, mas mostra que ambos os argumentos correntes na esquerda e na direita brasileiras tendem a homogeneizar em demasia uma história por demais complexa. O mesmo acaba ocorrendo com o fenômeno Sanders, ou melhor, Trump-Sanders. Vê-los como sinais de falência ideológica ou de passageira interferência na force majeur da política estadunidense limita a compreensão do próprio fenômeno. Ambos são respostas à falência da Terceira Via de Bill Clinton como meio de ensejar um consenso mais durador. Enquanto presidente, Clinton tentou manter as políticas promovidas por Reagan, visto que ele alimentou não apenas os desmandos de Wall Street ao liberalizar o setor bancário, mas torná-las mais inclusivas se fossem realizadas a partir um enquadramento multiculturalista e pretensamente pós-racial. Dessa forma, os dois elementos centrais da segurança da classe média estadunidense — estabilidade financeira e supremacia branca — começaram a ser ameaçados a partir de meados da década de 1990 e foram definitivamente fragilizados a partir da crise de 2008. Obama, nesse panorama, cumpriu o papel de Janus. Enquanto, olhando para o passado, conseguia manter em vista o multiculturalismo e a possibilidade da (ainda distante) construção dos Estados Unidos pós-racial, ao futuro ofereceu a visão de uma nova sociedade pautada por valores mais igualitaristas dentro daquilo que se convém chamar liberalismo estadunidense — o Estado atua dentro do sistema de mercado como fiel da balança em relações assimétricas em termos de gênero e raça, mas nunca de classe (um tabu político desde o enfraquecimento dos movimento sociais nas décadas de 1980 e 1990). A inabilidade do movimento Occupy Wall Street e seus 99% de achar ressonância dentro das políticas públicas do primeiro governo Obama é apenas o exemplo mais imediato dessa questão.

Obama especificamente tentou ser a síntese entre um suposto novo e o velho. Ao governar tentando expandir o sistema de saúde nos moldes criados na década de 1960 (Medicare e Medcaid) e propor uma nova agenda ambientalista de substituição de matriz energética, ele tentou criar um espaço de consenso político que colocasse movimentos sociais à esquerda e à direita às margens do debate público ao mesmo tempo que apelava para ideais genéricos como união e força. Ao manter a face bélica do império no Oriente Médio e tentar novas estratégias diplomáticas com antigos conflitos como Cuba e Irã, o atual presidente procurou abrir um veio em que liberais não tão anti-imperialistas e conservadores pudessem construir um novo consenso. Obama, portanto, ao tentar renovar o liberalismo da década de 1990 a partir de suas próprias bases filosóficas tornou ainda mais claro a falência da Terceira Via. O Tea Party e sua tomada do Partido Republicano, o esfacelamento de uma opção razoavelmente à esquerda dentro do Partido Democrata e a derrota de vários políticos tidos como moderados nas últimas três eleições foram a pá de cal na renovação da política engendrada por Bill Clinton pós-Monica Lewinsky.

Assim como a origem do universo, quando toda a massa e potência política tentou ser comprimida num espaço muito constrito, os atritos e a força acumulada explodiram e levaram a uma fragmentação política em dimensões havia tempos não vista nos Estados Unidos. Se for possível um paralelo rápido, a atual eleição estadunidense é o junho de 2013 deles. Em vez de protestos, o próprio ritual eleitoral e sua falta de regulamentação estreita—algo historicamente significativo na história política estadunidense—permite a entrada dessas forças no jogo eleitoral e político sem precisar passar por etapas anteriores que poderiam bloqueá-las. No Brasil, Trump e Sanders teriam que fazer alianças e se adequar ao jogo político dado — vide a atuação de João Dória Jr. junto ao PSDB para a eleição municipal e a fragmentação da esquerda brasileira após 2005 e ainda em fase de segmentação.

Assim, no início da campanha há quase um ano atrás, tanto Trump quando Sanders não tinham o que se chama em inglês de constituency—uma base eleitoral fixa. Claro que Sanders o tinha em Vermont, Estado que representa no Senado; mas, por estar oficialmente fora do Partido Democrata, essa representatividade não encontrava eco em outros segmentos e regiões do país. Trump, então, nem era uma figura política clara; se apresentava nos últimos anos apenas como um fanfarrão que tinha um reality show enquanto se fixava como comentarista político no canal conservador Fox News. No processo de reorganização das forças, Trump e Sanders se tornaram polos de atração. Trump com o passar do tempo vai se tornando o porta-voz do reacionarismo. Sanders, por sua vez, vai mostrando com muitos limites certa potência de transformação do cenário político estadunidense.

Para chegar nesse ponto, é preciso fazer um breve comentário e colocar Trump ao lado de Sanders. Acredito que não é possível dissociar os dois, não pelo motivo de que ambos seriam a face das forças políticas minoritárias e postas fora do sistema partidário estadunidense. É inegável a faceta xenófoba de Trump, cuja estupidez impressiona até o menos cético dos mortais. (De fato, a oposição a muçulmanos e mexicanos é parte do segundo grande debate da campanha e objeto de outra reflexão: os rumos da política externa estadunidense, atualmente entre reassumir a posição de polícia do mundo ou ampliar a sua influência por meio de diplomacia e soft power.) Porém, quando o véu de insensatez do debate é tirado, é possível perceber que tanto Trump quanto Sanders concordam em pelo menos uma coisa: a manutenção do bastante limitado e desigual sistema de bem-estar social. Trump, em sua economia simplista, defende o sistema como ele está: trazer empregos de volta para os Estados Unidos significa ampliar a oferta dos benefícios sociais da forma como eles estão estabelecidos desde a década de 1950. Os empregadores arcam com os benefícios de seus trabalhadores e o Estado, como contrapartida, subsidia certos gastos e garante benefícios fiscais. Essa proposta, em face do mar turvo de opções no Partido Republicano, parece a mais direta e simples — quiçá, até mais atrativa — para uma classe trabalhadora acostumada com esse sistema.

Sanders, no fundo, defende a mesma coisa, porém com diferente fonte de financiamento. Em vez de subsídios, benefícios fiscais e custeio pelas grandes empresas, o Estado — mais especificamente, o Governo federal — financiaria o sistema de bem-estar social por meio de uma correção significativa no imposto de renda, muito similar ao que supostamente acontece nos países escandinavos. O fato dessa visão, mesmo que mais em sentido utópico do que programático, ganhar cada vez mais aceitação por parte da sociedade estadunidense, seja por conta dos votos nas primárias e cáucus, seja na crescente aceitação da ideia de socialismo como uma alternativa política válida para o panorama político estadunidense, é o grande elemento transformador dessa eleição. Não por acaso, Sanders deu, pelo menos, forma à discussão sobre políticas públicas domésticas nos Estados Unidos. Exceto pelo ex-candidato Bem Carson, cuja proposta acena apenas para um determinado grupo de eleitores — os chamados libertários, que defendem a redução agressiva do aparato regulatório estatal em benefício das chamadas liberdades individuais —, todos os pré-candidatos no partido Republicano e Hillary Clinton no Partido Democrático defendem a manutenção e expansão do sistema de bem-estar, cada um à sua maneira. Até Ted Cruz, cujos notórios conservadorismo e oportunismo garantiram ganhos nas primeiras votações, pode não acreditar em bem-estar social, mas suas propostas o levam a defender a expansão do mesmo sistema de bem-estar. Por exemplo, a nacionalização dos planos de saúde proposta por Cruz não altera o sistema de financiamento da saúde e o nacionaliza de forma distinta o que foi realizado pelo Affordable Care Act (o Obamacare), já que o Estado deixa de ser subsidiário no sistema tanto para empresas como para trabalhadores. Isso significa que a iniciativa de Obama no campo da saúde pública pode ser desafiada, mas o resultado final de todos os candidatos, pelo menos em termos de discurso, é o mesmo: saúde para todos. Isso só ocorre, porém, devido à posição de Sanders ao defender o sistema de single payer (ou seja, o imposto de renda cobre os gastos da saúde) que parece ter certa ressonância com o eleitorado. A proposta de Cruz, nessa lógica, se apresenta como invertida a de Sanders, já que cumpriria os mesmos fins mantendo em pé os elementos que tornariam os Estados Unidos a América — iniciativa privada, livre mercado e competição que beneficiaria os consumidores.

Outro elemento importante da discussão organizada a partir de Sanders é o problema da renda e do desemprego. A transformação da Dinamarca como horizonte de modelo social, apesar de inicialmente recebido com desdém, ganhou força suficiente para forças ambos os partidos a apresentar respostas ao desafio proposto por Sanders. Hillary Clinton fala em taxar grandes bancos, apesar da histórica ligação com a Wall Street desde o tempo em que fora primeira-dama. Marco Rubio, senador pela Flórida filho de refugiados cubanos, e Ted Cruz falam em aprofundar a lógica do Tea Party — desoneração para pequenos empresários de modo que estes façam frente à elite financeira e política do país. De fato, Rubio vem tentando se apresentar como o legítimo antípoda a Sanders, sem de fato dizê-lo. A gafe de repetir roboticamente que “Obama sabe o que está fazendo” também mira o Partido Democrata, já que tanto o atual presidente como os possíveis candidatos do partido rival estariam “transformando a América em algo que ela não é”. O excepcionalismo que Rubio tenta incorporar de forma mais radical é resistência final e reduto dos valores agora em disputa. Que um filho de cubanos seja a caixa de ressonância desses ideais tem as suas ironias, mas também mostrar a permissividade desse tipo de discurso em grupos sociais que não foram incluídos na sua formulação. Rubio, nesse sentido, é duplamente radical e “establishment”, mais do que Ted Cruz, cuja imagem é do conservador que até Reagan não teria tido espaço político legítimo. Quando Sanders brada pela necessidade de taxar os ricos e sua voz não cai em ouvidos moucos, fissuras em certas ideologias começam a aparecer.

Sanders também abriu um veio que pode servir de veículo para que a atual classe trabalhadora estadunidense, subempregada, mal paga e extremamente explorada, demonstre sua frustação com o atual sistema político. O movimento Black Lives Matter é um exemplo claro disso. Inicialmente, Sanders não recebeu bem as intervenções do movimento, pois elas criticavam o pré-candidato por não falar em nome dos negros. Contudo, com o dialógo entre o movimento e Sanders, a plataforma em prol da defesa contra o preconceito e os mecanismos de desigualdade que desfavorecem trabalhadoras e trabalhadores, cidadãs e cidadãos negros foi assimilado à plataforma de Sanders e atraiu o apoio de Ta-Nehisi Coates, intelectual liberal negro a favor de políticas de reparação por conta da escravidão e segregação, mesmo que o candidato diga que não concorda plenamente com essa forma. Em outras palavras, mesmo que Bernie Sanders não tivesse inicialmente pensado sua candidatura como veículo para o movimento negro, o tipo de discurso e as suas propostas atraíram esses grupos para perto da campanha e expandiram o escopo de suas propostas, tornando-o mais inclusivo.

De fato, a questão racial em Sanders mostra o limite da sua candidatura e ponto que, acredito, precisa ser criticado de forma mais clara. Ao dizer qual é o seu objetivo final, Sanders fala em fortalecer a classe média. Em outras palavras, ele faz uma defesa nostálgica de uma classe trabalhadora fordista que teria se beneficiado de um sistema de imposto e distribuição de renda mais igualitário. A rebote dessa defesa, vem outros elementos que ficam subentendidos, em especial a noção de que os Estados Unidos são um país cuja história é em demasia particular para se adequar plenamente à própria Dinamarca que ele tanto admira. Sanders ainda defende um Estados Unidos que é à imagem de um país branco e de classe média. Ao se negar a discutir reparações financeiras referentes à escravidão, Sanders acaba por reduzir a discussão da desigualdade racial à falta de boas intenções dos políticos. Por mais que ele defenda com cada vez mais veemência o fim do preconceito institucional, enquanto ele continuar falando em classe média e não em classe trabalhadora, as reais possibilidades de transformação de uma presidência Sanders poderão minguar tão rapidamente quanto estão em ascendência. Ele pode acenar para o movimento negro o quanto quiser, mas a sua plataforma carrega em si o limite que o liberalismo estadunidense se colocou após a década de 1960. Ao falar de Martin Luther King como líder espiritual e não como crítico social, Sanders acaba por incorporar uma perspectiva bastante limitada sobre o que o Movimento de Direitos Civis no qual ele participou.

Outro ponto que é demasiadamente problemático é a defesa da indústria bélica como componente importante para a economia estadunidense. Apesar de a política externa ter sido posta de lado nas últimas duas semanas, ele defende uma aproximação mais diplomática para com os aliados e inimigos, mas não quer reduzir a força da indústria bélica. Ele argumenta que a restrição ao porte vai acabar com a indústria. Mas, como o exemplo do próprio Brasil mostra, a restrição ao porte não é o fim da indústria, afinal há sempre Estados e terroristas para serem abastecidos com armas. A estreiteza em relação ao porte de arma só ocorre porque a campanha de Sanders ainda pensa em moldes antiquados os meios de sustentar uma economia manufatureira em que só existe produção se houver demanda. Isso significa que não existe uma crítica competente dentro da campanha sobre as atuais formas de circulação de capital na economia. Defender o retorno de investimentos de paraísos fiscais parece fácil, mas é preciso antes criticar o papel dos Estados Unidos na economia global. O país não é apenas o maior especulador do mundo, é também o maior objeto de especulação. A crescente monetarização das economias mundiais após a recessão de 2008 está apresentando desafios que nenhum país está sabendo como enfrentar. Não é possível parar o relógio e voltar atrás; se a campanha de Sanders quer mudar alguma coisa, ela precisa fazer uma crítica mais aprofundada da atual conjuntura econômica global.

Se Sanders e sua campanha não conseguem fazer isso, eles estão permitindo que a base do Partido Democrata e segmentos da sociedade estadunidense o façam. E essa é a grande novidade que Sanders apresenta. Como o caso da chefe do Comitê Nacional do Partido Democrata (algo similar como a presidência do partido), Debbie Wasserman Schutz, mostra, a base pode se inspirar e começar a pedir por mudanças mais profundas. Deputada federal pelo 23º distrito do Estado da Flórida e ligada ao grupo dos Clintons, Schutz está sofrendo pressão da base do seu partido em sua região para se alinhar aos ideais proferidos pela campanha de Sanders e sendo ameaçada de ser substituída por outro candidato nas primárias que confirmariam sua tentativa de reeleição — assim como para presidente, os partidos fazem primárias para escolher candidatos a outros cargos eletivos. Essa reação a Schutz é resultado em parte de sua tentativa de bloquear a candidatura de Sanders, reduzindo o número de debates e os alocando em horários pouco atrativos. Além disso, ela faz parte do grupo de políticos democratas que, apesar de liberais em questões sociais, se dobraram às políticas conservadoras dos dois mandatos de George W. Bush e que continuaram o apoio a políticas que ameaçam direitos trabalhistas e sindicatos. Por conta disso, a sua base, composta principalmente por sindicatos e movimentos sociais, estão ameaçando substituí-la por um político com posições mais à esquerda.

Sanders, portanto, é o velho que pode carregar o novo. Velho porque ele defende a imagem de um Estados Unidos que não pode mais ser. Novo porque, na defesa nostálgica de um passado finito, grupos e movimentos sociais estão encontrando um veículo que a Terceira Via dos Clintons, o neo-conservadorismo de Bush II e a falsa esperança de Obama pareciam ter bloqueado. Os protestos contra o comício de Trump em Chicago que ocorreram no dia 11 de março são mais uma prova desse processo — negros, brancos, latinos e muçulmanos unidos contra uma causa comum e utilizando a campanha de Sanders como mecanismo para agregar suas forças. É improvável que Sanders consiga a vaga, mas a chama que ele parece ter acendido dá sinais de que não se apagará tão cedo.