Desenho de Marlon Anjos
Desenho de Marlon Anjos

Beverly Silver: é preciso unir as lutas das ruas às lutas do trabalho

Beverly Silver para a Revista Jacobin

(Tradução: Fernando Pureza)

Os sindicalistas norteamericanos na década de 1920 não tinham muitos motivos para otimismo. A filiação sindical, que havia disparado em meio à agitação do imediato pós-guerra, agora havia cessado e começava a despencar. Os observadores da época afirmavam que as mudanças culturais e tecnológicas tinham tornado o movimento operário obsoleto e os próprios trabalhadores encontravam-se apáticos. “Principalmente os nossos membros mais jovens, que ficaram encantados com esse tal de jazz”, como lamentava um líder sindical no meio da década de 1920. Uma década depois, em 1930, as greves estavam bloqueando as atividades produtivas em todo o país e a densidade sindical estava em franco apogeu.

Depois de décadas de mal-estar no movimento sindical e operário, será que tal retomada seria possível nos dias de hoje?

A renomada intelectual Beverly Silver pensa que sim. Professora do departamento de sociologia na Johns Hopkins University, Silver tem sido uma defensora radical dos trabalhadores em toda sua vida. Suas obras premiadas, incluindo o inovador “Forças do Trabalho: movimentos e globalização desde 1870”, lidam com profundas questões acerca do trabalho, do desenvolvimento, do conflito social e da guerra. Numa recente entrevista para a Jacobin, ela explicou o que o mundo do trabalho do passado pode nos dizer sobre o cenário atual – e futuro – das lutas da classe trabalhadora ao redor do mundo.

Jacobin. As últimas décadas viram uma reestruturação profunda da classe trabalhadora nos Estados Unidos e em outros países capitalistas avançados. Quais são as características mais gerais desse processo de reestruturação e quais as forças que estão levando ele adiante?

Beverly Silver. O capitalismo está constantemente transformando tanto a organização produtiva quanto o equilíbrio entre trabalho e capital – reestruturando e refazendo a classe trabalhadora. Logo, para responder essa pergunta, creio que temos de adotar uma visão de longa duração.

Faz sentido voltarmos para os meados do século XX – para as décadas de 1930, 1940 e 1950. Foi ali que vimos a emergência de uma classe trabalhadora voltada para a produção massificada nos Estados Unidos, de forma mais paradigmática na indústria automobilística, mas também em setores como mineração, energia e transportes – todos eles centrais para a industrialização e para o comércio.

Logo depois da Segunda Guerra Mundial, o capital foi mobilizado para sua reestruturação – ou seja, para reconfigurar as formas pelas quais a produção era organizada, a forma pela qual o trabalho era executado, as fontes de oferta de mão-de-obra e até mesmo a localização geográfica da produção. Essa reestruturação foi, em grande parte, uma resposta para enfrentar os fortes movimentos sindicais nas indústrias, na mineração, na logística e nos transportes.

Uma versão expandida do conceito de “rearranjo espacial” (spatial fix) de David Harvey pode nos ajudar aqui para entendermos essa reestruturação. O capital tentou resolver o problema da força do movimento operário e os ricos que ele impunha à lucratividade e, para isso, foram implementados uma série de “arranjos”.

As companhias utilizaram do arranjo especial ao se realocarem para lugares com salários menores. Elas implementaram “rearranjos tecnológicos” que reduziam sua dependência de trabalho vivo e aceleraram a automação. E elas também implementaram aquilo que podemos chamar de “rearranjo financeiro” – deslocando o capital do comércio e da produção para atividades financeiras e especulativas, tudo isso como uma forma de reduzir sua dependência perante a classe trabalhadora estabelecida e focada na produção em massa; tudo isso pelo bem de seus lucros.

O início dessa virada que o capital fez em direção às atividades financeiras e especulativas já era bastante visível na década de 1970, mas ele realmente explodiu a partir da década de 1990, sendo acompanhada pela rejeição da lei Glass-Steagall[1] durante a era Clinton.

Assim, o que parecia ser um colapso repentino da força do trabalho organizado nos Estados Unidos durante os anos 1980 e 1990 estava, na verdade, enraizado num processo de reestruturação desses fronts múltiplos do capital e que tinha se iniciado já na metade do século XX.

Por outro lado, é importante salientar que existe o outro lado da moeda. Esses rearranjos capitalistas desfizeram a classe trabalhadora voltada para a produção massificada, mas eles simultaneamente fizeram emergir novas classes trabalhadores nos Estados Unidos e em outras partes do mundo. Essa nova classe está emergindo enquanto protagonista das lutas de trabalhadores em muitas partes do mundo atual.

J. Não é novidade que as formas tradicionais de organização dos trabalhadores, como os sindicatos nos Estados Unidos e os partidos social-democratas na Europa, estão no meio de uma crise muito severa. Como o capital conseguiu ter sucesso ao sabotar e domesticar essas expressões organizadas do interesse da classe trabalhadora?

BS. Se nós olharmos para trás, no ápice da militância operária no passado, especialmente naqueles momentos com fortes alianças entre socialistas e partidos de trabalhadores, um conjunto recorrente de estratégias tem sido empregado para sabotar a radicalidade potencial desses movimentos. Elas podem ser resumidas em reestruturação, cooptação e repressão.

Pode se dizer que as formas de reestruturação, ou rearranjos, como mencionei antes – relocação geográfica, mudanças tecnológicas e financeirização – certamente tiveram um importante papel ao enfraquecer esses movimentos. Concomitantemente, a cooptação de sindicatos e partidos de base operária – sendo incorporados como parceiros menores em projetos nacionais hegemônicos ou contratos sociais – também teve uma importante participação. Finalmente, a repressão foi uma parte importante de toda essa combinação.

Pegando somente os Estados Unidos como exemplo, na década posterior a Segunda Guerra Mundial, nós podemos observar o papel do macarthismo e a consequente expulsão dos militantes de esquerda e comunistas dos sindicatos. Mas depois, nas décadas de 1960 e 1970, fortes movimentos comunitários e de chão de fábrica, compostos por trabalhadores negros – como o Partido dos Panteras Negras, o Dodge Revolutionary Union Movement (DRUM) – foram colocados sob controle por conta de uma violenta repressão generalizada.

E hoje – com a militarização das forças policiais locais e a infindável ‘guerra ao terror’ criando um ambiente hostil para a mobilização de imigrantes e trabalhadores negros – a coerção continua tendo um papel central nesse aspecto.

J. Um dos grandes debates hoje em dia é se a principal dinâmica que molda a classe trabalhadora em âmbito global é a exploração – com trabalhadores sendo esmagados nos locais de produção – ou a exclusão – com trabalhadores praticamente alheios ao trabalho assalariado estável. O que você tem a dizer sobre esse debate?

BS. Eu considero ambos igualmente importantes. É claro, seria um erro apagar a contínua importância das lutas contra a exploração nos locais de trabalho. De fato, um dos resultados dessa estratégia de rearranjo especial tem sido criar novas contradições entre trabalho e capital e até mesmo novas classes trabalhadoras, não importa aonde o capital tenha ido.

Em outras palavras, a resistência dos trabalhadores diante da exploração nos locais de trabalho tem sido acompanhada por um movimento do capital ao redor do mundo no último meio século. De fato, nós estamos testemunhando a mais recente manifestação dessa dinâmica diante dos protestos massivos de trabalhadores que vem acontecendo na China.

Tão logo ficou claro que as corporações que estavam apenas movendo suas fábricas para lugares com baixo custo de mão-de-obra não estavam conseguindo controlar o trabalho, o capital veio a confiar cada vez mais em processos de automação e financeirização. A automação, embora não fosse novidade, rapidamente conseguiu expulsar os trabalhadores dos locais de produção, aumentando a visibilidade de uma dinâmica exclusivista. Um recente exemplo pode ser esclarecedor, a dizer, a notícia de que a FoxConn levou adiante sua ameaça de introduzir um grande número de robôs em suas fábricas na China.

Da mesma forma, o movimento do capital excedente em direção às finanças e à especulação também contribuiu enormemente ao aumentar o tamanho da exclusão. O capital financeiro – especialmente a partir das atividades financeiras que não são adjuntas ao comércio e à produção – absorve muito pouco do trabalho assalariado; mais do que isso, ele deriva seus lucros principalmente através de uma redistribuição regressiva da riqueza através da especulação (ao invés de criar uma nova riqueza). E daí é que surgiu a relação, feita pelo movimento Occupy, entre os obscenos níveis de desigualdade de classe com essa financeirização.

A automação e a financeirização estão gerando uma aceleração da tendência de longa duração do capitalismo em destruir modos de vida já estabelecidos, acabando por destruir de forma muito mais rápida do que ele é capaz de criar novas formas. Essa sempre foi uma tendência predominante do capitalismo historicamente no Sul Global, onde a desapropriação acabava por sobrepujar a absorção do trabalho assalariado. Isso, por sua vez, gerava uma situação onde os trabalhadores não tinham nada a vender exceto sua própria força de trabalho, mas ao mesmo tempo em que tinham pouca oportunidade de realmente vende-la.

Ainda que essa tendência não seja nada muito nova, tanto sua aceleração quanto seus efeitos negativos estão sendo sentidos agora em países do centro do capitalismo – e não apenas no chamado “terceiro mundo” – e isso ajuda a explicar porque a dinâmica da exclusão veio a se tornar central nos debates atuais.

J. Para colocar a questão de uma forma diferente, você considera que faz sentido tratar a exclusão e a exploração como processos separados?

BS. Bem, Marx certamente não via elas como fenômenos distintos. No primeiro volume de O Capital, ele argumentou que a acumulação do capital seguiu junto com a acumulação de uma população excedente – ou seja, comprovando assim que a riqueza estava sendo criada a partir da exploração ao mesmo tempo em que grande parte da classe trabalhadora estava sendo excluída, considerada supérflua para as necessidades do capital.

Durante a maior parte do século XX, houve uma distribuição geográfica desigual acerca dos lugares onde o grosso do processo de exclusão foi sentido. De fato, até pouco tempo, uma das formas pelas quais o capital manteve a sua legitimidade dentro dos países centrais era basicamente soltando todo o peso do processo de exclusão da força de trabalhado no chamado “terceiro mundo” e nos setores mais marginalizados da classe trabalhadora nos países centrais.

A classe trabalhadora mundialmente estava dividida em fronteiras bastante definidas de cidadania, raça, etnia e gênero. E hoje em dia essas categorias ainda são bastante centrais para o capital. Especialmente após a crise financeira de 2008, o peso dos processos de exclusão está sendo sentido de forma mais aguda nos países centrais do que costumava ser – e isso tem gerado toda sorte de implicações políticas.

J. Em sua obra, você refletiu bastante acerca da força dos trabalhadores e da classe trabalhadora. Você também elabora uma distinção entre as diferentes fontes de poder dos trabalhadores. Você poderia falar um pouco mais sobre isso?

BS. Sim, uma grande distinção entre poder estrutural e poder associativo. Esse poder associativo é a capacidade de ter vitórias a partir da organização sindical e político-partidária. O poder estrutural, por sua vez, é o poder que vem do lugar estratégico ocupado pelos trabalhadores dentro do processo produtivo – um poder que pode ser (e geralmente o é) exercitado na ausência de uma organização sindical.

J. Por que é útil fazer essas distinções?

BS. Bem, tomem o poder estrutural, por exemplo. Há dois tipos principais de poder estrutural: o poder de negociação no local de trabalho e o poder de negociação no mercado.

Na maior parte do tempo, as pessoas tentam entender o poder de negociação da força de trabalho com base nas negociações de mercado. Por exemplo, se há um alto índice de desemprego, seu poder de barganha no mercado é baixo, e vice-versa. Por sua vez, o poder de barganha no local de trabalho – ou seja, a habilidade de paralisar processos interconectados de produção com interrupções pontuais – acaba sendo menos enfatizado, mas talvez ele seja ainda mais importante para entendermos de onde vem o poder dos trabalhadores nos dias de hoje.

Se você olhar para as tendências históricas de longa-duração, verá que isso se dá justamente porque a força dos trabalhadores no local de produção tem crescido cada vez mais. E isso é surpreendente para as pessoas. Mas esse aumento do poder de barganha no local de trabalho pode ser percebido a partir da disseminação dos métodos do just-in-time nas indústrias. Em contraste com os métodos mais tradicionais da produção em massa, nele não há elementos que amenizem o ritmo ou desperdicem nada do processo produtivo.

Assim, por exemplo, com a disseminação do just-in-time a produção na indústria automobilística pode ser interrompida a partir de um pequeno número de trabalhadores que parem a produção num momento específico e estratégico – digamos, por exemplo, na produção de para-brisas –, o que faria com que uma corporação inteira ficasse paralisada. E há muitos exemplos recentes de fenômenos semelhantes ocorrendo na indústria automobilística ao redor do mundo.

Da mesma forma, os trabalhadores nos setores logísticos – de transportes e de comunicações – tem aumentado ainda mais seu poder negociação nos locais de trabalho, tendo em vista o impacto em bola de neve que paralisações nesses setores geram em toda a economia. Mais do que isso, derrubando a tendência universalizante de pensar a globalização como um processo que enfraqueceria o trabalho, o impacto da escala geográfica dessas interrupções vem aumentando potencialmente no cenário global.

J. E o poder associativo? Se os trabalhadores não possuem sindicatos ou partidos de origem operária, isso não acaba enfraquecendo seu poder de negociação estrutural?

BS. Não necessariamente. Pegue o caso da China, por exemplo. Sindicatos autônomos são considerados ilegais, mas houve uma importante melhora recente nas leis sobre salários-mínimos, leis trabalhistas e nas próprias condições de trabalho. Essas mudanças vieram de uma agitação oriunda das bases e que tomou vantagem do poder estrutural dos trabalhadores, tanto no mercado de trabalho quanto nos locais de trabalho.

Eu creio que nós também devemos ser honestos sobre a ambiguidade estrutural dos sindicatos. Se eles são bem-sucedidos e garantem o máximo possível a sua base, o capital se torna extremamente hostil e acaba não querendo lidar com eles, buscando assim uma estratégia mais repressiva.

O capital por vezes poderá fazer acordos com os sindicatos, mas apenas se eles concordarem em ter um papel de mediação, limitando a militância operária e garantindo o controle do trabalho. Mas para conseguir isso de forma eficiente, os sindicatos precisam garantir algo as suas bases, o que nos leva de novo ao problema inicial. Em última instância, a questão que se coloca é a seguinte: em que tipo de situações essa dinâmica contraditória entre sindicatos e capitalistas pode acabar beneficiando os trabalhadores?

J. O que você acha dos argumentos que afirmam que as lutas estão mudando de local, saindo do ponto da produção e indo para as ruas ou para as comunidades?

BS. Isso nos leva de volta para a questão anterior, sobre a importância da exploração e da exclusão no que concerne a formação da classe trabalhadora global. Olhando para as lutas dessa classe em sua totalidade, eu não acho que podemos dizer com total certeza que as lutas estão mudando predominantemente para as ruas, especialmente se nós estivermos falando das lutas que possuem um impacto mais profundo nas empresas.

As lutas nos pontos de produção continuam a ser um importante componente da totalidade das agitações operárias globais. E, ao mesmo tempo, os excluídos – os desempregados e aqueles que possuem um poder estrutural mais fraco – não têm outra escolha para se fazer serem ouvidos do que a ação direta nas ruas, ao invés de se valer da ação direta nos locais de trabalho.

A coexistência de lutas nos locais de trabalho com as lutas nas ruas foi uma característica histórica do próprio capitalismo, à medida que a coexistência da exploração e da exclusão foi uma constante. Às vezes esses dois tipos de lutas ocorrem sem que haja qualquer tipo de solidariedade interseccional, especialmente desde que a classe trabalhadora foi dividida – tanto dentro dos países como entre classes de diferentes países. Isso acabou gerando uma situação na qual as experiências dos trabalhadores eram ora moldadas pela dinâmica da exclusão, ora pela dinâmica da exploração.

Mas se nós pensarmos nas grandes ondas de agitação operária que foram bem-sucedidas, elas combinaram uma solidariedade, explícita ou implícita, entre esses dois tipos de lutas. A ocupação de fábricas em Flint, por exemplo, e as subsequentes ondas grevistas de 1936 e 1937 na cidade, foram um movimento fundamentalmente baseado no fortalecimento do poder dos trabalhadores no ponto de produção. E ele se tornou ainda mais potente com as lutas simultâneas ocorrendo nas ruas, feitas por trabalhadores desempregados e pela solidariedade comunitária.

Ou, se pensarmos num movimento de massas mais recente e que tomou conta das ruas – no caso, as agitações de 2011 no Egito –, foi quando os trabalhadores do Canal de Suez aumentaram seu poder de barganha no local de trabalho com uma greve que ganhou apoio do movimento das ruas que o governo de Mubarak foi obrigado a ceder. E é também interessante perceber o movimento de jovens 6 de Abril, que iniciou a ocupação da praça Tahrir, foi fundado em 2008 para apoiar uma greve de massas de trabalhadores industriais.

Assim, um problema fundamental para a esquerda hoje (que, diga-se de passagem, não é um problema novo), é justamente como conseguir combinar o poder de negociação nos locais de trabalho com o poder que emana das ruas – ou seja, encontrar os pontos de conexão entre os desempregados, os excluídos e os trabalhadores assalariados explorados. Isso certamente é uma tarefa mais fácil quando excluídos e explorados são membros de uma mesma unidade familiar ou de uma mesma comunidade.

Nos Estados Unidos, nós podemos ver lampejos dessas intersecções a partir da greve dos estivadores de 2015 na Califórnia e do seu apoio às mobilizações de rua do grupo Black Lives Matter. Dessa forma, era possível perceber como as lutas da comunidade e dos locais de trabalho se interseccionavam com as condições dos trabalhadores imigrantes.

J. Nos Estados Unidos, hoje em dia, parece que um dos principais focos da organização e ativismo dos trabalhadores foca nos trabalhadores mais precarizados do setor de serviços. O que você pensa sobre isso? É aqui que devemos focar nossas energias? Ou será que deveríamos olhar outros tipos de trabalhadores em diferentes indústrias e setores?

BS. Não considero que é um erro dar maior ênfase a esses trabalhadores. Se você quer melhorar as condições de vida da maioria da população, você tem que melhorar as condições desses trabalhadores.

Eu acho que parte do ceticismo inerente a essa questão é que, até agora, essa estratégia não tem sido muito bem-sucedida. E, de novo, pensar sobre o poder de barganha nos locais de trabalho pode ser bastante útil aqui. Nos supermercados da rede Walmart, por exemplo, não faz muito sentido tentar atingir os retalhistas. Você precisa atacar os distribuidores.

E o mesmo vale para as lojas de fast food. Se você atingir os distribuidores, você poderá alavancar o poder de negociação dos trabalhadores em seu local de trabalho. Caso contrário, nós ficamos diante de uma luta que se confina somente nas ruas. Mas isso também nos leva de novo à questão sobre como e quando esses trabalhadores, que possuem forte poder de negociação nos seus locais de trabalho, irão exercitar sua força visando objetivos mais amplos de transformação política e social.

J. Você argumentou, junto com Giovanni Arrighi, que a trajetória dos movimentos operários nos Estados Unidos e em outros contextos nacionais são profundamente influenciados pelo relacionamento com movimentos mais amplos da política global, com as guerras e com os conflitos internacionais. Como as recentes mudanças geopolíticas afetaram, então, a força do trabalho nos Estados Unidos?

BS. Essa é uma questão muito importante. Eu creio que muito das discussões sobre os movimentos de trabalhadores tendem a se focar no aspecto econômico, mas o aspecto geopolítico é tão ou mais importante para entender as perspectivas e possibilidades de trabalhadores e seus movimentos, tanto em caráter histórico como em relação ao futuro próximo.

Quinze anos atrás, logo após o 11 de setembro, parecia que nós estávamos à beira de uma insurreição de massas de trabalhadores nos Estados Unidos, com um forte epicentro justamente nos trabalhadores imigrantes. Havia um grande número de greves que estavam sendo planejadas e algumas estavam inclusive em progresso. E então, toda essa dinâmica mudou repentinamente.

A guerra ao terror deu um forte impulso para que medidas coercitivas e a repressão se instalassem e mantivessem o status quo. E isso não apenas nos locais de trabalho, mas também em termos de hostilidade dos empregadores contra os sindicatos e, de forma mais ampla, também em relação ao impacto que esse clima de guerra permanente gerou nas tentativas de organização.

J. Coerção e repressão parecem ser elementos fundamentais para o capitalismo. O que é diferente, nos dias de hoje, acerca das relações entre trabalhadores, movimentos de trabalhadores e geopolítica?

BS. Bem, eu creio que para responder essa questão, é importante situar esse clima de Guerra permanente com o contexto mais amplo da crise do poder global dos Estados Unidos e o declínio de sua hegemonia. E nós devemos olhar também para a relação duradoura entre os direitos dos trabalhadores e a crença, por parte dos Estados, de que os trabalhadores lutarão suas guerras. Mas discutiremos isso depois.

Uma das mais conhecidas (embora não muito discutida) raízes da força do trabalho foi justamente a institucionalização dos sindicatos e o aprofundamento dos direitos democráticos nos Estados Unidos e na Europa. Para entender isso, é preciso remeter a natureza particular da guerra no século XX, incluindo a industrialização dos meios necessários para a guerra e o recrutamento em massa.

Para lutar esse tipo de guerra, os poderes centrais, os países imperialistas, precisaram de algum grau de cooperação da classe trabalhadora, tanto como soldados nas frentes de batalha como também enquanto trabalhadores, que mantinham as fábricas funcionando. O ato de “fazer guerra” dependia da produção industrial numa infinita série de itens, que iam desde armas até calçados. Disso decorre a sabedoria popular que prevaleceu durante as duas guerras mundiais e que versava de que quem mantivesse as fábricas funcionando acabaria vencendo a guerra.

Nesse contexto, a cooperação entre trabalhadores tornou-se central e a relação entre as indústrias de guerra e as agitações civis acabou se tornando bastante óbvia. Os dois principais picos da agitação operária no século XX foram, sem dúvida, os anos imediatamente subsequentes da Primeira e da Segunda Guerra Mundial. Tampouco foi coincidência que o começo do movimento dos direitos civis nos Estados Unidos surgiu logo após a Segunda Guerra Mundial e a Guerra da Coréia, assim como o auge do movimento dos Panteras Negras veio durante e logo após a Guerra do Vietnã.

Os países procuraram assegurar a cooperação dos trabalhadores a partir da mobilização dos sentimentos nacionalistas e patrióticos, mas isso era difícil de sustentar sem conseguir avanços tangíveis nos direitos dos trabalhadores. Portanto, a expansão do Estado de Bem-Estar Social seguiu, passo a passo, com a expansão belicista dos Estados no século XX.

Colocando de uma forma diferente: o nacionalismo da classe trabalhadora só pode se sobrepor ao seu internacionalismo se os Estados mostrarem que, ao vencerem guerras, eles conseguem aumentar o padrão de vida e expandir os direitos de trabalhadores e cidadãos.

J. E você acredita que esse ainda é o caso nos dias de hoje, diante de um contexto que parece ser de guerra permanente?

BS. Sem dúvida, nos dias de hoje pode-se verificar uma mudança na natureza da guerra e em muitos aspectos. Assim como o capital reorganizou a produção diante da força que o trabalho acumulara, o mesmo foi feito pelo Estado para reestruturar os aparatos militares, procurando diminuir a dependência dos civis e dos trabalhadores para engajarem-se em guerras.

O movimento de massas contra a Guerra do Vietnã e a recusa dos soldados que estavam no front em continuarem lutando foi um ponto crucial, desencadeando uma reestruturação fundamental da organização e da natureza das máquinas de guerra.

Nós vemos os resultados dessa reestruturação nos dias de hoje, com o fim do recrutamento em massa e com o aumento da automação da guerra, com o crescimento do papel dos drones e outras armas de alta tecnologia, com soldados americanos sendo removidos de zonas perigosas – ainda que não em sua totalidade, mas certamente muito mais do que no passado.

Essa é uma situação diferente em relação àquela que permitiu que movimentos de trabalhadores se fortalecessem em contextos de guerra durante o século XX. No século XXI, houve uma separação entre o belicismo e o Bem-Estar Social dos Estados. E, diante dessa mudança de cenário, uma pergunta crítica e ainda não respondida que se pode fazer é se o internacionalismo da classe trabalhadora irá se sobrepor ao seu nacionalismo.

Eu acabei focando nos Estados Unidos para pensar esse debate, mas a transformação da natureza das guerras possui uma maior abrangência. Em meados do século XX, muitos países coloniais foram incorporados no processo de guerra imperialista, fornecendo tanto soldados como materiais para os esforços de guerra. Isso, por sua vez, levou a um análogo fortalecimento da classe trabalhadora, acompanhada de uma maior militância.

Hoje em dia, em diversos países do Sul Global, você possui uma situação na qual o modelo beligerante moderno dos Estados Unidos está levando a uma total desorganização e desestruturação da classe trabalhadora em lugares em que essas armas de alta tecnologia estão sendo usadas. A atual “crise imigratória”, tanto suas raízes como suas repercussões, é um perturbador efeito colateral dessa nova era da guerra.

J. Em períodos anteriores, grandes ondas de militância e organização acabaram trazendo com elas novas e poderosas formas organizacionais. No século XIX foram as associações de artífices. No século XX, os sindicatos industriais. Será que essas formas estão agora condenadas ao esquecimento histórico e, caso seja verdade, o que poderia substituí-las?

BS. Elas certamente não estão condenadas ao esquecimento histórico. Nos Estados Unidos, por exemplo, alguns dos sindicatos mais bem-sucedidos hoje em dia – em termos de recrutamento de novos membros e de militância – são aqueles que possuem suas origens históricas na antiga American Federation of Labor (AFL), de tradição artífice. Algumas pessoas dizem que os elementos daquela antiga forma de organização são mais adequados para a natureza horizontal dos atuais locais de trabalho, ao invés dos modelos de sindicatos industriais que estavam associados a corporações bastante hierárquicas.

Mas isso não significa que esses sindicatos industriais estejam mortos. Os tipos de vitórias que eram características das clássicas entidades ligadas ao Congress of Industrialized Organizations (CIO) – as greves das fábricas de Flint em 1936/37 e as demais que se sucederam após – se basearam no poder estratégico de barganha que os trabalhadores exerciam no ponto de produção. Eu creio que aqui há lições a serem aprendidas a partir dessas vitórias.

É óbvio, contudo, que nenhuma dessas duas formas de organização sindical conseguiram tocar num problema fundamental do capitalismo. Como já mencionei anteriormente, o problema com os sindicatos é que à medida que eles começam a se tornar instrumentos eficientes da classe trabalhadora, o capital e o Estado passam a ter menos interesse em trabalhar junto com eles de forma cooperativa.

Ainda assim, à medida que eles – e isso é basicamente o que aconteceu – não garantem transformações sérias na vida dos trabalhadores, eles perdem credibilidade e legitimidade perante os próprios trabalhadores.

Eu creio que nós constantemente lidamos com os dois lados dessa contradição. Os sindicatos são parte da resposta, mas não são a resposta definitiva.

J. Uma das ideias que Marx advogava em prol dos sindicatos é que eles se conectassem com os desempregados numa única organização. Isso é uma opção viável em lugares como os Estados Unidos?

BS. Eu acredito que certamente esse é o ideal – era o que Marx e Engels estavam falando no Manifesto Comunista, quando falaram sobre o papel dos comunistas no movimento dos trabalhadores.

Isso também nos leva de volta às questões sobre o relacionamento entre processos de exploração e exclusão e sobre as relações entre lutas no ponto de produção e lutas nas ruas.

Para os sindicatos que acabem buscando referência na diretiva de Marx, isso significa pensar estrategicamente sobre as condições que levam trabalhadores assalariados e com empregos estáveis podem acabar sendo radicalizados pelas lutas dos desempregados e do precariado e vice-versa.

J. Quais são as perspectivas para a revitalização do trabalho nos Estados Unidos? Você espera que ocorra uma guinada na militância e na organização em um futuro próximo?

BS. Por um lado, sim, embora seja importante dizer que apenas em termos teóricos seja possível conceber isso nos Estados Unidos e em outros lugares. Em termos empíricos, por outro lado, desde 2008 nós estamos testemunhando uma guinada na agitação social classista e em escala mundial, algo que pode ser visto, em retrospecto, como o começo de uma revitalização de longa duração.

Essa afirmação vai contra os sentimentos prevalecentes. E é interessante comparar esse pessimismo atual com aquilo que era dito pelos especialistas na década de 1920. Naquela época, eles estavam olhando para a forma a que foram subjugados os sindicatos de artífices diante da expansão da produção em massa e passaram a afirmar que o movimento operário estava mortalmente ferido e até mesmo permanentemente morto. Eles estavam dizendo isso inclusive às vésperas da grande onda de greves e agitações operárias da década de 1930.

Eles não conseguiram entender que, ainda que fosse verdade que os sindicatos de artífices estavam sendo atingidos, havia uma nova classe trabalhadora em formação. Nós estamos vendo a mesma coisa hoje em dia – uma situação na qual a classe trabalhadora que está sendo atacada é aquela direcionada para a produção em massa. Mas ao mesmo tempo, há uma nova classe trabalhadora em formação, inclusive na atividade manufatureira.

É importante que não apaguemos essas atividades manufatureiras de nosso horizonte e isso não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo. De toda forma, é possível afirmar que a cada momento que irrompem novas ondas de agitação operária, a classe trabalhadora se torna fundamentalmente diferente.

J. E quem você acha que irá liderar essa agitação nesse momento em que vivemos?

BS. É difícil dizer. O que parece claro, de fato, são os problemas críticos que o trabalho enfrenta hoje em dia e, de certa forma, eles que apontam para as massas e para as lideranças a necessidade de uma “nova insurreição” que seja transformadora. Nós estamos em uma situação na qual o capital está destruindo modos de vida numa velocidade muito mais rápida do que ele é capaz de criar novos modos. Dessa forma, é possível afirmar que estamos vivendo uma expansão do excedente populacional que atinge o planeta em escala global (incluindo agora os Estados Unidos e os demais países centrais) – e particularmente, que estamos diante do que Marx se referiu em O Capital como estagnação do excedente populacional: aqueles que nunca vão ser incorporados no trabalho assalariado estável.

Os trabalhadores em situação de contingência, temporários, informais e os desempregados: todos esses grupos estão se expandindo, nos levando diretamente para um caminho de pauperização. Sem contar a crise de legitimidade que isso gera no capitalismo, não há nenhuma tendência dentro desse modo de produção que aponte para uma direção diferente. Se nós formos mudar isso, terá de ser a partir de um movimento político de massas, ao invés de algo que venha do próprio capital.

Há dois outros pontos importantes para considerarmos também. Um é que a lucratividade do capitalismo, ao longo da história, dependeu da externalização parcial tanto dos custos de reprodução da mão-de-obra como também da reprodução da natureza. Essa externalização está se tornando cada vez mais difícil e insustentável, mas tampouco parece haver uma tendência do capital em redirecionar esse mecanismo.

Além disso, desde que a natureza foi tratada enquanto bem de consumo – uma consequência do contrato social do pós-guerra – poderia se prometer a classe trabalhadora uma era de consumo de massas. Todavia, atualmente não é mais possível contar com um retorno a chamada “era de ouro” do keynesianismo e do desenvolvimentismo.

O outro ponto é que a tendência histórica do capitalismo em resolver as crises políticas e econômicas a partir de políticas expansionistas e militaristas é algo que nós devemos levar em conta, especialmente no atual período de crise hegemônica dos Estados Unidos e de seu declínio.

Ao buscar controlar o petróleo, tomar posse de diferentes recursos, disputar faixas marítimas no mar do Sul da China – os Estados Unidos acabaram gerando disputas cujo potencial de uma terrível catástrofe humanitária e global voltaram à tona. Para evitar isso, um movimento de trabalhadores renovado e atualizado teria de superar suas ressurgentes e atávicas tendências nacionalistas.

Portanto, considerar a geopolítica – ou seja, examinar as ligações entre o militarismo, conflitos domésticos e movimentos de trabalhadores – é precisamente o ponto onde nós devemos começar e encerrar qualquer análise séria. A velha questão entre socialismo ou barbárie é relevante hoje como jamais foi antes.

Notas

[1] A lei Glass-Steagall, criada pelo governo de Franklin Roosevelt, limitava os títulos emitidos por bancos privados como uma forma de evitar um novo crash no mercado financeiro. Em 1999 a lei foi revogada no Congresso americano, permitindo que bancos financeiros e comerciais não fossem mais limitados na emissão de títulos. (N.T.)