Ilustração Humberto Tutti
Ilustração Humberto Tutti

Blá, blá, blá… eu te amo: o namoro de Lobão com a esquerda brasileira

Romulo Mattos

Lobão é um roqueiro tupiniquim consagrado nos anos 1980, que atualmente tem chamado muito mais atenção pelo conservadorismo de suas ideias do que pelas suas músicas. Este ensaio refletirá sobre o seu passado não tão distante assim, caracterizado por um intenso e fértil diálogo com a esquerda brasileira, quando o próprio se comportava como um militante do partidos e movimentos sociais de tal orientação política. Esse período sistematicamente ignorado pelo cantor e os seus colegas da nova direita constitui a matéria-prima deste texto, que pretende revelar os esqueletos guardados no armário da memória social sobre o primeiro, cada vez mais seletiva.

João Luiz Woerdenbag, o Lobão, já foi chamado de “Lobo bolo”, na canção “Rock’n’ Raul” (2000), de Caetano Veloso. Esse apelido sugerido pelo artista baiano é, por um lado, uma ironia às confusões que o personagem em foco costuma causar e, por outro, uma citação à letra de “Lobo bobo” – clássico da bossa nova, de 1959, composto por Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli. Membro de uma família abastada, o avô paterno de Lobão era um engenheiro hidráulico holandês, que veio ao Brasil a serviço da Prefeitura de Niterói e aqui se estabeleceu, tendo se tornado mecânico de renome, especialista em carros de luxo e representante vitalício da Rolls-Royce na América Latina. O pai do cantor, considerado um gênio da mecânica por amigos e colegas, herdou a prestigiada oficina mecânica estabelecida em um palacete do século XIX, na Rua do Senado, no Centro do Rio de Janeiro. Já o avô materno do artista era um alto funcionário do Tesouro Nacional, com passagens por Nova Iorque nos idos de 1950. Assim, além de ter vivido no exterior, a mãe de Lobão cresceu em uma casa com dez quartos, na Rua Almirante Sadock de Sá, em Ipanema, Zona Sul carioca. Era lacerdista e admirava Médici, enquanto seu marido era um “nazista conceitual”.[1] Lobão foi criado em um amplo apartamento da Rua Souza Lima, na divisa entre Copacabana e Ipanema, e estudou no Colégio São Vicente, até hoje um dos mais conceituados da cidade. Por tudo isso, ele afirmou: “Pela lógica dos fatos, eu deveria ter me tornado um bundão. Contrariando as expectativas, consegui atenuar e, até mesmo, reverter essa lamentável característica”.[2] Se considerarmos apenas este ensaio, correspondente à fase em que o artista esteve realmente afastado do ideário político de seus pais (e atuava contra ele no espaço público), não há porque discordar de sua indulgente autoavaliação.

O ano de 1987 pode ser considerado o auge de sua carreira, juntamente com o de 1988.[3] Em fevereiro do primeiro ano, o roqueiro foi preso no aeroporto de Florianópolis com um grama de cocaína. No mês seguinte, pelo mesmo motivo, em Ipanema – sendo que, em janeiro de 1985, a polícia havia encontrado em sua casa pequenas quantidades de maconha e pó. Em 1987, foi, portanto, condenado a um ano de prisão, tendo perdido o benefício a sursis devido a sua hilaridade ao tomar conhecimento da sentença. Foi encarcerado na Polinter e depois no Ponto Zero. Há aqui um marco inegável em sua trajetória artística. Seu quarto disco, Vida Bandida, concluído por meio de sucessivos habeas corpus, foi o seu maior sucesso comercial: quase 300 mil pessoas compraram esse trabalho marcado por uma sensibilidade social aguçada pelos 32 dias em que Lobão dividiu cela com traficantes e outros personagens do submundo carioca. Na bem-sucedida turnê do álbum, ele dava vazão ao seu nacionalismo quando tocava o hino nacional na guitarra.

A temporada na prisão lhe rendeu uma fama até então inédita – com o adendo de que o seu disco anterior, O rock errou, de 1986, vendera quase cem mil cópias – e também a solidariedade de partidários da esquerda, da qual hoje finge esquecer. Na época, pareceu ter entendido quem eram os seus companheiros de luta contra a perseguição da polícia e do judiciário. Nesse sentido, ainda em 1987, gravou uma faixa no disco em homenagem ao russo Vladimir Maiakóviski, conhecido como “o poeta da revolução” – Lobão musicou o poema “Hino ao crítico” com um maracatu.[4]
Significativamente, essa informação não é encontrada em sua autobiografia, 50 anos a mil, escrita com Cláudio Tognolli e publicada em 2010.

Na indústria cultural brasileira, a sua imagem era associada à rebeldia, loucura, inadequação e até anarquia. A ponto de ter ouvido (a contragosto) de um fã, que invadira o palco: “Lobão, eu tomo pico por sua causa”.[5] Cuidado, de 1988, ficou longe do sucesso obtido com aquele outro LP. Mas a faixa de maior sucesso é, possivelmente, o seu protesto político mais contundente: “O eleito” – escrita em parceria com Bernardo Vilhena. O título ironiza a falta de legitimidade política de José Sarney, o presidente que chegara (ilegalmente) ao poder no vácuo deixado pela morte de Tancredo Neves, candidato eleito pelo voto indireto, mas que contava com o apoio de setores da oposição à ditadura. Entre outras provocações, a letra menciona os métodos políticos pouco ortodoxos do político maranhense: “Derruba tudo pra ficar estável/ Ele não está aí pra brincadeira”. Mas o assunto da corrupção marca presença na passagem segundo qual a honestidade de Sarney estaria “(…) pelo avesso”.

Em novembro de 1988, veio o grande revés: a condenação a nove meses de prisão em regime semiaberto, ainda referente ao que acontecera em 1987. Lobão então fugiu, estabeleceu-se em Los Angeles e só retornou ao Brasil quando o crime prescreveu, em 1989. O evento mais sensacional de sua volta ao país nem foi a tentativa de prisão pela polícia, que se utilizou de um antigo mandado adulterado, e sim a sua participação no Domingão do Faustão, na Rede Globo, no dia do segundo turno da eleição presidencial. Lula teve em Lobão um cabo eleitoral, em rede nacional. O artista e a sua banda apareceram na atração dominical com roupas e adereços do Partido dos Trabalhadores (PT), tendo o primeiro feito discursos incisivos a favor do candidato pernambucano. Tratou-se de um crime eleitoral, pois a votação no Oeste do país ainda estava em andamento, devido à diferença no fuso horário. O cantor, que novamente recebera a solidariedade de agentes da esquerda no período em que esteve longe do país, estava com eles na campanha política. Mais tarde, divulgaria a causa do Movimento dos Sem Terra (MST). Era um militante.

O relato daquele episódio na autobiografia de Lobão é curioso. Ele tenta minimizar o fato de ter aderido ao projeto petista ao se referir a um contexto politicamente polarizado e historicamente raro: “(…) ou você era Collor ou você era Lula. Era a primeira eleição para presidente e ninguém queria ficar de fora desse momento histórico, tampouco eu”.[6] O cantor afirmou que estava consciente quanto à prática do crime eleitoral, mas não dá detalhes sobre o evento. Apenas relata que há um vídeo no Youtube que documenta a sua participação no programa. Ele se dedica mais a pedir desculpas a Faustão, com quem tem amizade, e: ao “dr. Roberto Marinho, que sempre foi um grande amigo da família e também o responsável pela minha troca de prisão, tornando a minha estada atrás das grades mais confortável”.[7] E omite que a emissora o colocou na “geladeira”. O que há de mais interessante em seu livro é a revelação acerca de sua participação no último comício da campanha de Lula, na Candelária. Nessa ocasião, apresentou improvisadamente a sua composição “Revanche” – um hino da desilusão com a Nova República – ao violão, enquanto Luís Carlos Prestes segurava o microfone para ele cantar… Lobão tenta justificar a sua subida ao tal palanque com o lembrete de que estaria: “(…) sempre imbuído do espírito cívico”.[8]

Outra passagem de sua trajetória que deve ser realçada neste texto foi o lançamento do CD A vida é doce, de 1999, que atingiu a marca de 100 mil cópias vendidas. Esse trabalho foi lançado pelo seu selo, Universo Paralelo, e comercializado nas bancas de jornal juntamente com uma revista-manifesto. No processo de divulgação do álbum, Lobão concedeu entrevistas presenciais a rádios piratas, “para constranger o mercado”, dizia.[9] Fechou parceria com a rádio comunitária da favela de Heliópolis, em São Paulo, para vender o seu CD e, de quebra, comprou uma briga com a Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT). Vale lembrar que o cantor tivera o seu contrato rescindido pela Universal por ter falado na televisão: “(…) entre a pirataria oficial [das gravadoras] e a pirataria paraguaia eu acho mais romântica a paraguaia”.[10]

A vida é doce é um marco da música independente brasileira. E inaugurou a fase mais transgressora de Lobão, que consolidava a passagem dos anos de palavrório oco para os de ação política e artística integrada. Não havia porque duvidar de suas intenções. A esquerda acolheu com entusiasmo o seu discurso contra as grandes gravadoras, no sentido de que acabaria com elas. Lobão então colocou nas bancas a revista Outracoisa, que continha um CD de artistas – novatos, como o Mombojó, e consagrados pelo público roqueiro, como Arnaldo Baptista – sem espaço nas multinacionais que exploravam comercialmente a música brasileira. O cantor não parou por aí. Além de ter incluído em sua banda jovens da cena underground carioca, diversificou a sua luta contra as gravadoras mainstream. Liderou um movimento contra a prática do jabá – o suborno a emissoras de rádio ou TV pela execução de determinada música –, e outro pela numeração dos CDs – para o maior controle pelos artistas dos produtos culturais vendidos. As discussões travadas nos encontros públicos para a discussão dessas causas resultaram em projetos de lei encaminhados ao congresso. Como não simpatizar com Lobão, se você se identifica com a causa da esquerda?

Foi com surpresa que muitos receberam a notícia de sua associação às grandes gravadoras. Em 2007, lançou Acústico MTV, pela Sony & BMG, álbum que ganhou o Grammy latino de melhor disco de rock, mas foi o menos vendido da história daquela coleção de sucesso promovida pelo então influente canal de TV; apenas 23 mil cópias, conforme o próprio escreve em sua autobiografia.[11] As reações a essa sua opção são narradas pelo próprio: “Cordeirão, Lobão se vendeu, Lobão entra em contradição ao gravar um formato que sempre criticou, Lobão, agora sim, está acabado, e coisas do gênero”. A partir de então, o que se verificou foi uma gradual virada à direita, que redundaria em sua participação nas passeatas pelo impeachment de Dilma Rousseff, coabitadas por militantes do integralismo e saudosistas da ditadura militar. Insatisfeito com a oscilante postura das lideranças peessedebistas, resolveria ele próprio organizar movimentos de natureza golpista, contra a presidenta – assunto para outro texto.

É difícil precisar as razões pelas quais Lobão se tornou um direitista raivoso. Já foi escrito que ele – assim como Roger – protagonizaria a típica história do sujeito burguês que, na juventude, transforma-se em rebelde para contrariar a família e, mais tarde, com os primeiros cabelos brancos, volta às origens. Aos poucos, o ex-revoltado “vai se metamorfoseando naqueles que criticava quando jovem artista”.[12] Embora seja relevante a menção da origem de classe de Lobão, talvez essa seja uma abordagem ahistórica e psicologizante – a cada fase da vida corresponderia um comportamento político e assim os seus giros ideológicos estariam de antemão explicados. Conforme foi mostrado aqui, tanto o assunto do nacionalismo quanto o da corrupção povoavam a produção de tal músico nos anos 1980. Tratam-se de conteúdos facilmente acionáveis num contexto em que os ventos sopram mais violentamente para um lado, no caso, o da direita. Não se pode esquecer que a reinvenção de sua combalida carreira artística coincidiu com o avanço conservador observado no país (e em suas ideias). Lobão conseguiu abrigo no ramo editorial, onde se tornou um campeão de vendas. No entanto, o cantor tem enfrentado certa dificuldade para converter o público leitor recém-conquistado à nova direita em consumidor de sua obra musical. Seria a maioria daqueles que o consideram um guru intelectual mais afeita ao axé music, ao sertanejo universitário e ao funk ostentação do que ao rock? Paradoxos da vida bandida.

Notas

[1] LOBÃO, TOGNOLLI, Claudio. 50 anos a mil. Rio de Janeiro: Ediouro, 2010 (Versão digital). p. 7.

[2] idem.

[3] Os dados sobre Lobão até 1990 foram baseados em: DAPIEVE, Arthur. BRock: o rock brasileiro dos anos 80. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995. Não compartilhamos do tom de elogio exagerado do autor à obra de Lobão nos anos 1980. O primeiro álbum dele, Cena de Cinema (1982), por exemplo, é tratado como “um dos melhores, senão o melhor, discosda década de 80” (p. 46).

[4] “Lobão”. Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. http://www.dicionariompb.com.br/lobao/dados-artisticos – acessado em 23/08/2015, às 17h18m.

[5] DAPIEVE, Arthur. op. cit. p. 51.

[6] LOBÃO, TOGNOLLI, Claudio. op. cit. p. 141.

[7] ibid. p. 141.

[8] ibid. p. 140.

[9] CASTRO, Daniel. Lobão hasteia a bandeira dos piratas. Folha de São Paulo, 28 de jan. 2000. http://bit.ly/1iudDVR – acessado em 23/08/2015, às 18h03m.

[10] Lobão. Roda Viva, 12 de ago. 2002. http://bit.ly/1XFQKPs – acessado em 23/08/2015, às 19h06m.

[11] LOBÃO, TOGNOLLI, Claudio. op. cit. p. 190. idem para a próxima citação.

[12] MENEZES, Cynara. Por que Lobão e Roger se transformaram em dois derrotistas explícitos? Pragmatismo Político, 2 de mai. 2013. http://bit.ly/1lkLECh – acessado em 5/09/2015, às 17h41m.