Ilustração de Marlon Anjos
Ilustração de Marlon Anjos

Cantando com a ditadura militar: um diálogo com a cinebiografia Elis

Romulo Mattos

I

O ponto mais polêmico do filme Elis, de Hugo Prata, diz respeito à participação da cantora nas Olimpíadas do Exército, que integravam a Semana da Pátria, em pleno governo Médici. A artista teria sido uma colaboradora da ditadura ou, ao contrário, uma vítima dos militares? A cinebiografia investe nessa segunda linha de interpretação, sem fazer qualquer concessão àquela primeira. No entanto, os expectadores mais críticos ficaram com uma pulga atrás da orelha, cientes de que vários artistas participavam das solenidades oficiais independentemente de estarem sofrendo pressão dos milicos, conforme o cartunista Henfil certa vez declarou.

Muitos ficaram surpresos ao ver Elis Regina em chamadas televisivas que convocavam a população para o Encontro Cívico Nacional. No livro Nada será como antes, o biógrafo Julio Maria descreveu o vídeo publicitário produzido pelos militares e protagonizado pela cantora. A intérprete diz à população: “Nesta festa, todos vamos cantar juntos a música de maior sucesso neste País: o nosso hino. Pense na vibração que vai ser você e 90 milhões de brasileiros cantando juntos, à mesma hora, em todos os pontos do país”. Depois de um trecho do Hino Nacional, a cantora conclui com um meio sorriso: “Salve a Semana da Pátria”. O citado autor reproduziu a versão de Elis para esse episódio: após um show no Teatro da Praia, no Rio de Janeiro, um fardado a surpreendeu no camarim, com uma filmadora e uma folha de papel com o texto pronto, para gravar a sua fala – enquanto contratados da Rede Globo que apareceriam na filmagem do anúncio esperavam no auditório. Ela, inclusive, já havia sido procurada pelos agentes do departamento de propaganda, e os vinha enrolando.

No dia 21 abril de 1972, Elis entoou os famosos versos “Ouviram do Ipiranga às margens plácidas”, de fraque de maestro, regendo um coro de artistas. Por esse motivo, passou a ser ironicamente chamada de Elis Regente no jornal alternativo O Pasquim. De acordo com Paulo César Araújo, em Eu não sou cachorro, não, outros cantores participaram da tal festividade: Dom & Ravel, Luiz Gonzaga, Jair Rodrigues, Roberto Carlos, Jorge Ben, Wilson Simonal, Cauby Peixoto, Marcos Valle, Agostinho dos Santos, Ronnie Von, Zimbo Trio e Elizete Cardoso. E um orgulhoso Chacrinha comandou o evento.

Elis ficou com a imagem machada diante dos opositores da ditadura. Ela foi hostilizada por parte dos expectadores do festival Phono 73, ocorrido em maio desse ano, no Centro de Convenções do Anhembi, em São Paulo. Da plateia, Caetano Veloso pediu respeito à cantora e à música popular brasileira, apesar das críticas realizadas pela própria no anos 1960, segundo as quais o tropicalismo seria apenas espuma e autopromoção. Antes das provocações vindas do público desse evento – “Vai cantar nas Olímpiadas do Exército”, entre outras –, a artista ficara ofendida com a atitude de Henfil, que a enterrara simbolicamente no “Cemitério dos Mortos Vivos” do Cabôco Mamadô, de O Pasquim. Nele o caricaturista jogava uma pá de cal sobre as personalidades que colaboravam com a ditadura. “Quando viu seu nome no cemitério dos mortos-vivos do Henfil, Elis ficou vesga. Numa entrevista ao Jornal do Brasil esculhambou Henfil e os cartunistas”, relatou Regina Echeverria, em Furação Elis. Esse desabafo não teve o efeito esperado por ela: em outro cartum feito por seu então desafeto político, Elis reencarnava como o francês Maurice Chevalier, que, em 1945, cantara na Alemanha a convite de Hitler, de acordo com Arthur de Faria, em Elis – uma biografia musical.

Em rápidas cenas, o filme mostra a participação da cantora na comemoração militar e as vaias recebidas no Phono 73 – e, mais demoradamente, aborda a ação de Henfil. A cinebiografia se empenha em mostrar a pressão das Forças Armadas sobre a intérprete, e passa o recado de que apenas por esse motivo ela aceitou participar da festividade promovida pelos milicos. Propositadamente, tal recurso a coloca como uma criatura acuada pela ditadura, ao mesmo tempo que nega a pecha de adesista com a qual ela conviveu por certo período.

A cinebiografia aborda a sessão de interrogatório à qual Elis afirmou ter sido submetida. Baseado no relato da cantora, feito em 1979, o biógrafo Julio Maria afirmou que ela passou por essa situação devido ao seu depoimento à revista holandesa Tros-Nederland, em 1968, segundo o qual o Brasil era “governado por um bando de gorilas”. A matéria intitulada “A primavera impetuosa de Elis” irritou os militares. Novamente de acordo com os testemunhos deixados pela artista, Julio Maria qualificou como “traumática” a experiência dela no Centro de Relações Públicas do Exército (CRPE), no Rio. Durante quatro horas de tensão psicológica, a cantora respondeu a “detalhes sobre a sua vida de mãe, mulher, cantora e amiga de músicos”, escreveu. Os fardados queriam saber se a sua performance com os braços estendidos seria um tipo de sinal, e recomendaram que ela parasse de cantar “Black is beautiful” (dos irmãos Marcos e Paulo Valle) e “Upa, neguinho” (de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri). Também aconselharam que a intérprete mantivesse sigilo sobre o que ocorrera nas dependências daquele órgão militar.

Elis afirmou ter ficado intimidada com o minucioso conhecimento de sua vida pelos militares. Por meio de um documento produzido pelo Centro de Informações do Exército (CIE), Julio Maria mostrou que a cantora era não só investigada pelos milicos, como também considerada uma ameaça nacional. Isso porque ela atuara ao lado de cantores tidos como subversivos e gravara músicas de protesto, inclusive, ligadas ao Poder Negro americano – realmente, “Black is beautiful”, que aborda a temática racial, teve a letra alterada por determinação dos censores. Revelou também que os arapongas coletaram informações sobre a sua aparição ao lado do monitorado Toni Tornado no palco do Maracanãzinho, no dia 26 de setembro de 1971, sobre as suas brigas com o então marido Ronaldo Bôscoli e até sobre aqueles que ouviam os seus discos. Finalmente, mencionou que, já na segunda metade dos anos 1970, dois agentes da ditadura mandaram o letrista Ronaldo Bastos, parceiro de Milton Nascimento, avisar a Elis que ela ainda se veria com eles.

Julio Maria garantiu que a cantora aceitara participar das Olimpíadas do Exército por causa do filho João Marcello. “Se corresse, os coturnos a alcançariam e deixariam o pequeno sem mãe – uma possibilidade que a apavorava, conforme revelaria anos depois. Se ficasse, seria decretada traidora. Entre as duas opções, ficou com a segunda”, concluiu. Mas o biógrafo não questionou se seria viável para os militares prender a cantora mais famosa do país, mãe de um menino com menos de dois anos, por ela ter se esquivado de participar do evento nacionalista.

Antes de Julio Maria, o jornalista, produtor e compositor Nelson Motta defendera a postura adotada por Elis perante os milicos, em Noites tropicais. Vale lembrar que o segundo manteve uma relação amorosa por cerca de um ano com a cantora, enquanto trabalhava com ela. Na opinião de Motta , a artista não tinha escolha:

“Um convite como esse era virtualmente indeclinável. O coronel encarregado do evento ligava para o empresário do artista e convocava, amavelmente. No caso do artista ‘já ter compromisso’, se dispunha a ‘interceder’ com o clube que já tinha contratado um show no mesmo dia, convencê-lo a mudar a data, num tempo em que qualquer patente militar ao telefone já fazia tremer o interlocutor”.

A mais antiga defesa a Elis em livro foi realizada ainda na década de 1980 pela biógrafa Regina Echeverria, que se baseou no parcial testemunho feito por Ronaldo Bôscoli diante da repercussão negativa da presença de sua esposa nas Olimpíadas do Exército. Segundo ele, a artista fora obrigada a aparecer na tal olimpíada sob ameaça de prisão. A escritora trabalhou com a ideia de que a convocação da intérprete para aquele evento foi um castigo por essa ter criticado os militares, em 1968. No entanto, a autora relativizou: “A própria Elis me contou essa história, aumentada, romanceada, onde ela assumia o papel de uma heroína dominada pela forças armadas (…)”.

Em sua autobiografia, Solo, o pianista e arranjador Cesar Camargo Mariano não se referiu à participação de Elis nas Olimpíadas do Exército. Preferiu ressaltar aspectos da politização à esquerda por parte dela, como o álbum Elis, de 1974, que foi quase totalmente censurado depois de gravado – Aldir Blanc, inclusive, teve de substituir o termo “almirante negro” por “navegante negro” na letra de “O Mestre Sala dos Mares”, musicada por João Bosco. De acordo com o instrumentista, que também foi seu companheiro, a cantora não aceitava a censura ao seu repertório: lutava para, em seus próprios termos, “descensurar” as canções vetadas e as gravava mesmo quando não obtinha as liberações pretendidas. Nesse sentido, ela fazia parte de grupos de solidariedade que partiam para Brasília tentar a liberação de produtos culturais interditados pelos milicos. O músico revelou que, em 1973, ela registrou o sambinha de carnaval “É com esse que eu vou”, de Pedro Caetano, como uma forma de protesto contra a ditadura, nas entrelinhas – a ideia de “sambar até cair no chão” seria uma metáfora para a não desistência, ou, em outras palavras, para a resistência. Não obstante, classificou a opção da intérprete por cantar no circuito universitário como um “projeto político e artístico” – embora fosse também uma forma de sobrevivência financeira para muitos artistas da MPB, segundo o historiador Paulo César Araújo.

II

Nadando contra a corrente, o pesquisador anteriormente citado contestou a ideia de que Elis aparecera ao lado dos militares porque fora obrigada. Para tanto, valeu-se do depoimento do ex-empresário da cantora, Marcos Lázaro, à jornalista Léa Penteado. De acordo com esse homem, a sua cliente só participara daquele evento porque o coronel responsável pela contratação dos artistas aceitara pagar o bom cachê pedido por ela. Antes de fechar o contrato, Lázaro consultara Elis e ela lhe dissera que “não tinha a menor objeção em fazer essa apresentação.” Se não bastasse, Paulo César Araújo argumentou que a mudança de postura política de Elis, ocorrida após as críticas recebidas, relacionou-se com uma preocupação mercadológica:

“Mas depois Elis acabou percebendo o mesmo que Ivan Lins: atuando numa faixa de público de classe média e formação universitária que estava em franca oposição ao governo militar, seria difícil prosseguir carregando a pecha de regente do coro dos contentes com o regime dos generais”.

Talvez seja arriscado resumir tudo o que será narrado neste parágrafo a um interesse mercadológico, descartando por inteiro a possibilidade de conscientização. Em termos de mudanças ocorridas depois da apresentação nas Olimpíadas do Exército, além de ter politizado o seu repertório, a artista procurou se aproximar de Henfil, que declarou a Echeverria: “Ela, eu notava, tinha a preocupação – marcada ainda pelo episódio do enterro – de me provar que tinha mudado. Que continuava uma pessoa de confiança ideologicamente.” A intérprete convidou o cartunista a criar quadros para o seu show televisivo na Bandeirantes (embora tenham sido cortados pelo diretor), e passou a lhe telefonar todos os dias para conversar sobre os mais variados. Mais relevante, assinava manifestos organizados pela oposição, e por duas vezes pediu que ele entregasse aos grevistas de São Bernardo do Campo (SP) a renda de shows no Canecão. E, como é de conhecimento público, gravou um hino da Anistia, “O bêbado e o equilibrista”, outra composição de João Bosco e Aldir Blanc, que escreveu a letra: “Meu Brasil!…/ Que sonha com a volta/ Do irmão do Henfil/ Com tanta gente que partiu/ Num rabo de foguete (…)”. Ao ouvir a versão final dessa gravação, mostrada por cantora, o caricaturista percebeu que a anistia sairia. Ligou para o irmão exilado, Betinho, e sentenciou: “agora temos um hino, e quem tem um hino faz uma revolução”.

Para além da conciliação com Henfil, Elis se revoltou com a prisão de Rita Lee pelos agentes da Delegacia de Entorpecentes de São Paulo, em agosto de 1976 – um mês e meio antes, Gilberto Gil também fora encarcerado por posse de drogas, em Florianópolis. A primeira cantora pegou o filho pequeno e partiu para a carceragem do Hipódromo exigindo ver a roqueira, que sequer era sua amiga, na época. “Aqueles gorilas – claro que, de novo, ela não precisa usar este termo – deviam explicações que a convencessem de que não se tratava de um caso forjado para contra uma mulher grávida para se obter prestígio público”, escreveu Julio Maria. Elis aprontou um escândalo ameaçando chamar os jornais, tendo conseguido enviar um bilhete à roqueira Rita Lee. Já no fim da década, a pimentinha (apelido que lhe fora dado por Vinicius de Moraes) se recusou a levar o espetáculo Transversal do Tempo à Argentina, em protesto contra a proibição de seu disco Falso brilhante, de 1976, em tal país, devido à inclusão de “Gracias a la vida”, de Violeta Parra. E, em 1980, fez o show e o disco Saudade do Brasil, título que aludia aos exilados.

Quando de sua morte, Elis foi lembrada como uma artista de esquerda. Em A Bossa do Lobo, Denilson Monteiro contou que o amigos da intérprete não aceitaram a causa oficial de sua morte (ocultada no filme): overdose de cocaína misturada ao álcool. Isso porque o autor da autópsia foi o médico Harry Shibata, responsável pela perícia que validou a farsa do suicídio do jornalista Vladimir Herzog, barbaramente assassinado em uma sessão de tortura no Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) de São Paulo. Na versão daqueles que conviveram com a artista, essa história de consumo exagerado de drogas fora forjada para macular a sua imagem, uma vez que ela era considerada persona non grata pelos militares. E um comovido Henfil escreveu uma carta a Elis, publicada na revista Istoé, em 27 de janeiro de 1982, e depois incluída no seu livro Diretas Já, de 1984. O cartunista cita a autópsia feita por um colaborador da ditadura, o sucesso de Elis na duplicação dos seus negócios e de sua consciência política, e a sua vontade de ser uma mulher livre, no que teria perdido: “Nós, homens, te matamos, mulher”. Ele confessou a Echeverria que se arrependera de ter “enterrado” apenas duas pessoas: Clarice Lispector e, é claro, Elis.

III

Assim como a maioria dos livros sobre a história de vida de Elis, o filme de Hugo Prata traz uma versão unilinear da relação da cantora com a ditadura. O testemunho de Marcos Lázaro é um incômodo para os biógrafos e memorialistas que a tratam como uma vítima da ditadura. Para tentar atenuar os efeitos negativos dessa informação, os defensores da artista poderiam citar que o escritório do empresário foi alvo de uma auditoria reivindicada na Justiça por sua principal cliente, com resultado favorável a essa – portanto, o rompimento profissional entre os dois não foi harmonioso, de acordo com Cesar Mariano, em sua autobiografia. Mas tais escritores (e o cineasta) preferem o silêncio sobre o depoimento de Lázaro do que o debate sobre o tema. Mesmo considerando a possibilidade de a artista ter sido pressionada pelos milicos, Henfil recordou que os militares pressionavam o país inteiro: “Era justamente isso que eu estava criticando: se as pessoas não estavam resistindo à pressão, como é que iríamos segurar este país? Bom eu era um dos que estavam enfrentando (…)”, disse o cartunista a Echeverria. Chico Buarque, por exemplo, negou o uso de sua “A banda” para propaganda oficial – em uma atitude, decerto, corajosa.

Convém lembrar que, antes de cantar nas Olimpíadas do Exército, Elis já fizera leves concessões aos governos militares. Gravara a ufanista “Aquela do Brasil”, de Ary Barroso, nos discos Elis Regina & Toots Thielemans e Como e porque, ambos de 1969. Assim, foi ao encontro de uma propaganda política que amparava a repressão e contribuía para ocultar o caráter antipopular do milagre econômico. Anos antes, declarara à revista Manchete que Nara Leão fazia sucesso desrespeitando as Forças Armadas. E, mesmo após a sua guinada política, a cantora reatou relações com a Rede Globo, em 1979, tendo se justificado por meio de um ceticismo de cariz conservador, que reduzia o fôlego de sua resistência à ditadura. A fonte a seguir foi transcrita por Gustavo Alonso, em Quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga:

“Eu andava errada a respeito de algumas coisas, como participação de TV e rádio, até resistindo a uma série de pressões. Como se a gente acreditasse, com isso, poder mudar o mundo, quando na verdade a gente não vai mudar porcaria nenhuma, muito menos se a gente não tiver dentro do mundo. (…) Uma vez no inferno, é muito melhor estar no centro do inferno. (…) Em relação à Globo, foi feita uma reunião em que todo mundo decidiu resistir, e chegou determinado momento em que a gente começou a perceber muita trilha de novela com os ‘resistentes’, muito Globo de Ouro com eles lá dentro. Então a gente se toca, só eu resistindo? Então, tudo é um negócio e a gente é mercadoria, então eu vou mais é pra Globo”.

Ao negar certa ambiguidade de Elis em relação à ditadura militar, o filme de Hugo Prata atua no enquadramento positivo da memória social sobre a maior cantora brasileira, como se ela tivesse sido uma resoluta personagem da esquerda artística brasileira, desprovida de contradições nesse sentido. Há toda uma complexidade política ignorada pela cinebiografia, que não traz contribuições para o entendimento a respeito das (perigosas) relações entre música brasileira e governos militares. Vale ressalvar que esse nunca foi o objetivo principal da obra ficcional, que enfoca mais a personalidade de Elis do que a sua própria carreira artística. Nessa abordagem, o espaço para a sua trajetória política é menor ainda.