Ilustração de Marlon Anjos

Cantando com a ditadura militar: um diálogo com a cinebiografia Elis

Romulo Mattos I O ponto mais polêmico do filme Elis, de Hugo Prata, diz respeito à participação da cantora nas Olimpíadas do Exército, que integravam a Semana da Pátria, em pleno governo Médici. A artista teria sido uma colaboradora da ditadura ou, ao contrário, uma vítima dos militares? A cinebiografia investe nessa segunda linha de interpretação, sem fazer qualquer concessão àquela primeira. No entanto, os expectadores mais críticos ficaram com uma pulga atrás da orelha...

Ilustração de Mácia Teixeira

Aquarius: o filme-edifício e a experiência de habitar

Victor Vigneron Imagem em movimento ou mobilização do olhar? Não é incomum que um comentário crítico seja precedido da definição de seu escopo, um prospecto onde o autor apresenta seus princípios. Mas o que poderia servir como explicitação de um itinerário possível muitas vezes reivindica estatuto de exclusividade: cinema é isto, aquilo está fora. No caso de Aquarius (2016, Kleber Mendonça Filho), essa tendência reage à mobilização política do filme, cuja manifestação...

Ilustração de Amalyn Malix

20 anos sem Renato Russo: o que a sua estreia com a Legião Urbana tem a dizer hoje para a política

  Romulo Mattos No contexto do vigésimo aniversário de morte de Renato Russo, verifica-se um forte avanço conservador no Brasil. Oposta a qualquer tipo de conservadorismo era a sua visão política, expressa em letras de música e em depoimentos concedidos à imprensa. Este texto trata da estreia de Renato Russo no mercado fonográfico, por meio do disco Legião Urbana (1985), no qual apresentou parte expressiva de sua abordagem politizada, que fez história do rock brasileiro, e...

Ilustração de Jaime Prades

A política das canções: Chico e Caetano como intérpretes do Brasil

Daniela Vieira dos Santos Nesse ensaio apresento um breve exercício interpretativo da matéria cantada de Chico Buarque e Caetano Veloso entre as décadas de 1960 a 1990, canções balizadas historicamente entre a ditadura civil militar e o advento do neoliberalismo no Brasil.[1] Pretendo demonstrar de que forma as canções sintetizam variados aspectos do processo de modernização da sociedade brasileira, pois Chico e Caetano são filhos da promessa modernista dos anos 1930 e do ideal de...

Fotografia de Adria Meira

Aquarius e o “Fora Temer”

Paulo Gajanigo Antes de Aquarius chegar aos cinemas brasileiros, o debate sobre seu caráter político se adiantou com a manifestação do elenco do filme no Festival de Cannes. Sua estreia no Brasil em primeiro de setembro, um dia depois da aprovação do impeachment de Dilma no Senado, aumentou o sentimento de que a obra significava um martelo contra o golpe e pela democracia. Há inúmeros relatos de gritos em coro de “Fora Temer” ao final das exibições. Se muitos vão ver o filme como...

Ilustração de Marlon Anjos

A memória tem o tamanho de um botão

 Victor Vigneron O que há de novo em O botão de pérola [El botón de nácar, 2015], o novo filme de Patricio Guzmán? A questão é de tal modo repisada que por vezes nos esquecemos de observá-la. Nos limites da filmografia do diretor a pergunta se dá com a teia que liga suas diferentes obras. Assim, a conhecida trilogia A batalha do Chile [La batalla de Chile, 1975-1979], seria evocada décadas depois em Chile, a memória obstinada [Chile, la memoria obstinada, 1997]; O caso Pinochet [Le...