Fotografia de Amalyn Malix
Fotografia de Amalyn Malix

Ciclo econômico: onde nós estamos?

Eric Gil

A economia capitalista se comporta através de ciclos. Em um primeiro momento a economia está em expansão, quando tudo vai bem e o crescimento parece não ter fim. Nesta fase a taxa de desemprego cai e novos negócios lucrativos surgem. Logo depois ela entra na fase do boom, os capitalistas vivem no seu paraíso ilusório e se permitem a aumentar os salários dos trabalhadores devida a boa situação. Até que chega a fase da recessão, os pátios das montadoras começam a lotar, os produtos das prateleiras dos supermercados não precisam mais ser repostos diariamente e os empresários começam a demitir seus trabalhadores, pois a euforia passou e as concordatas e pedidos de falências começaram. Por fim há o fundo do poço, onde não há mais o que piorar: as taxas de desemprego estagnam em níveis altíssimos, os salários deixam de cair, também estacionados nos seus piores níveis, e não há mais empresas para pedir falência.

Para não deixar espaço para dúvidas, vamos pegar os dados de crescimento do PIB de algumas das principais economias do mundo, disponibilizadas no Sistema Gerenciador de Séries Temporais do Banco Central do Brasil, e colocar em um gráfico, de 1970 até hoje, para verificarmos se a economia anda mesmo com pernas tortas ou se isso é papo de marxista.

Gráfico – Taxa de crescimento do PIB da Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França e Reino Unido (1971 – 2014)

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Fonte: SGS/BCB

Para cinco das economias mais avançadas isto parece valer. Então agora verifiquemos para o caso brasileiro no mesmo período.

Gráfico – Taxa de crescimento do PIB brasileiro (1971 – 2014)

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Fonte: IBGE; Elaboração: SGS/BCB

O Brasil não está de fora deste balancê. Se cruzássemos ambos os gráficos veríamos que o Brasil tem seu ciclo fortemente sincronizado com o ciclo internacional, pois a economia capitalista é globalizada e este país já participa desta dança desde a década de 1960, coincidindo com sua industrialização.

Aqui estamos considerando apenas a variação do PIB como fator que demonstra crise econômica. Obviamente isto pode ser criticado como forma simplista, pois deixa de fora outras variáveis como desemprego, salários, inflação e um longo etc.. Mas usemos da simplicidade para demonstrá-la, mas não para analisa-la. Os analistas econômicos convencionais também utilizam desta variável, atribuindo o termo recessão técnica para toda vez que um país apresente três trimestres consecutivos de taxa de crescimento negativo do PIB.

Dado este comportamento, um dos grandes desafios da Economia Política é tentar descobrir em que fase desta montanha russa nós estamos em um determinado momento. Então aceitemos o desafio.

Onde nós estamos?

A primeira coisa a se analisar aqui, naturalmente, é o PIB. Infelizmente o último dado do IBGE ainda é o do primeiro trimestre (tendo em vista que o IBGE apenas divulga estes dados trimestralmente), quando o Brasil viu a sua produção cair em 0,3% em relação ao último trimestre de 2015, e decrescer incríveis 5,4% com o mesmo período do ano passado. No entanto, uma coisa chama a atenção, esta queda foi menor do que os últimos quatro trimestres. Caiu, mas caiu menos do que antes, o que pode ser um sinal de que estamos passando da depressão ao fundo do poço (quando não tem mais o que cair). O Boletim Focus (publicação semanal do Banco Central que pesquisa projeções do “mercado” para números da economia brasileira) de 19 de agosto projeta para 2016 uma queda de 3,2% do PIB. Já para 2017, a projeção é de um crescimento de 1,2%. Normalmente a regra destas projeções é o erro, mas prever é realmente difícil.

Um segundo fator a ser verificado é a taxa de desemprego (chamada de taxa de desocupação, pelo IBGE). Já com dados do segundo trimestre deste ano, o IBGE mostrou que a taxa de desemprego não para de subir desde o início de 2015, quando passou de 6,5% (4º trimestre de 2014) para 7,9% (1º trimestre de 2015). Hoje esta taxa já está em 11,3%, a maior taxa de desemprego em mais de uma década.

Apesar de parecer, a inflação não é um mal das crises econômicas. Ela pode existir ou não em meio à uma turbulência. Apesar de no Brasil ela estar em alta (em 2015 o IPCA foi de 10,67%, o maior da era petista), em países “desenvolvidos” que também passam por crise veem seus preços estagnarem ou mesmo deflacionarem (deflação é o inverso de inflação, quando os preços caem), que são os casos dos Estados Unidos e da Zona do Euro. A inflação pode ser apenas uma cereja no bolo de uma grande crise econômica.

Mas o segredo para saber em qual curva da crise econômica nós estamos me parece ser a indústria, o setor mais sensível da economia às oscilações do capitalismo. Depois de ser a líder em demissões, com diversos lay-offs e demissões em massa, este setor começa a enxergar uma mudança. Na Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física de junho, do IBGE, o instituto verificou que “Em junho de 2016, a produção industrial nacional mostrou expansão de 1,1% frente ao mês imediatamente anterior, na série livre de influências sazonais, quarto resultado positivo consecutivo nesse tipo de comparação, acumulando nesse período crescimento de 3,5%” (IBGE). Mas o que mais chama a atenção aqui é o crescimento dos “bens de capital” (máquinas e equipamentos), que apesar de ter crescido 2,1% em junho, comparado ao mês imediatamente anterior, o que seria abaixo do crescimento geral, em 2016 já acumula crescimento de 13,9%. Isto indica que está retomando algum investimento produtivo, o que impactará na produção mais para frente.

Isto ainda não está sendo verificado claramente. A Mercedes Benz, em São Bernardo do Campo, neste mês, já paralisou sua produção, por exemplo. Não há ainda grandes reflexos nem no emprego, nem no nível salarial.

Além disto, um fator imprescindível é a economia internacional. Como já dissemos no início deste texto, nós vivemos em uma economia capitalista globalizada, se os compradores e vendedores de mercadorias brasileiras estão em crise, isto logicamente afetará o campo nacional. Com economias estagnadas dos Estados Unidos, Europa e Ásia (Japão e China), a recuperação será mais lenta, então poderá haver um prolongamento do fundo do poço, ou mesmo novas quedas. Na China já há demissões em massa em setores fundamentais, como o de extração mineral. No Japão planos ousados de incentivo econômico estão sendo implementados em resposta à estagnação, inclusive com transferência de renda direta à população mais pobre e aumentos na Previdência Social (ao contrário do que está ocorrendo aqui).

Com isto, apostaria que já estamos no fundo do poço, pois as grandes quedas cessaram, e já há alguns indicadores econômicos positivos, um cenário característico de fundo do poço. Mas a realidade não é linear, ela pode nos enganar ou mesmo mudar.

As políticas contracionistas do governo Temer devem influenciar negativamente na atividade econômica, apesar disto se refletir em garantia de lucros para os rentistas da dívida pública. Diminuição de direitos sociais, contenção salarial e de serviços públicos farão a renda disponível dos trabalhadores diminuir, pois terão menos dinheiro e ainda terão que gastar este pouco com coisas que antes o serviço público supria. Não quero colocar tons otimistas para esta análise, pois ainda há muita luta pela frente, pois sair do fundo do poço sem os direitos que tínhamos antes será ótimo para apenas uma classe, a capitalista.