Fotografia de Luana Kava
Fotografia de Luana Kava

Como discutir ideias políticas?

Alvaro Bianchi

A banalização das teorias do agir comunicativo teve como uma de suas consequências a superestimação do consenso. Espera-se candidamente que o acordo emirja de uma conversa na qual argumentos racionais são trocados e hierarquias de poder são neutralizadas. Não há, entretanto, motivo algum para esperar que o consenso seja o único resultado da interação nem para imaginar que ele seja o melhor possível. A razão, já se sabe há tempos, é também traiçoeira. E como o século XX nos demonstrou ela pode também ser totalitária.

No mundo contemporâneo, dissentir é um direito, mas é também um dever para o marxismo profano. Ainda assim, quando se defrontam opiniões políticas contrastantes articuladas em torno de diferentes visões de mundo, o diálogo tem algumas regras básicas, que deveriam ser seguidas quando os participantes partilham pressupostos básicos comuns. É claro que se o objetivo é aniquilar o outro – se possível fisicamente – o diálogo é uma farsa. Nesse caso não há pressupostos comuns, muito embora o desejo de eliminar o oponente possa ser comumente partilhado por ambos os lados.

Quando o objetivo é simplesmente aniquilar o oponente, predominam os ataques ad hominen, os argumentos de autoridade, a retórica vazia e agressiva. Não é possível convencer ninguém desse modo. Por isso, esse discurso não é, senão, uma forma de violência, uma tentativa de afirmar uma posição de poder. Mas essa forma de discurso, e aqui está um ponto ao qual nem sempre é dada atenção, não é, necessariamente irracional. A destruição do oponente pode ser perfeitamente planejada, de modo a adequar exatamente os meios discursivos aos fins desejados. A racionalidade pode, ainda, ir além. Os próprios argumentos mobilizados podem ser racionais, ou seja, o discurso pode ser logicamente consistente e ainda assim ser mobilizado para a destruição, ter por objetivo despertar ódios irracionais, apelar para ressentimentos atávicos.

Quando o objetivo é construir uma nova hegemonia, uma nova forma de racionalidade, as práticas devem ser completamente diferentes. Mesmo quando as ideias que se quer criticar expressam posições políticas antagônicas é preciso evitar os insultos e a grosseria, o recurso a princípios de legitimação exteriores aos argumentos, as ideias fáceis voltadas para animar um público ávido por confirmar o senso comum e os enunciados inconsistentes. Estas práticas são próprias de um pensamento que, conscientemente ou não, é subalterno. Ele reage violentamente porque é incapaz de confrontar seu oponente e afirmar sua própria hegemonia.

Mas para um pensamento que pretenda ser hegemônico, a civilidade e a honestidade intelectual não bastam. É preciso, ainda, levar as ideias que se quer criticar a sério. A crítica externa, provavelmente a modalidade mais difundida de confronto intelectual, parece ser incapaz de levar outras ideias a sério. O que ela faz é colocar-se fora do pensamento que pretende inquirir e contrapor a ele uma outra forma de pensar, organizada com base em uma problemática distinta. No confronto de problemáticas conflitantes a negação daquele pensamento que se quer criticar é o ponto de partida e não o ponto de chegada.

Nesse caso, assume-se como pressuposto que o outro está equivocado e com isso deixa-se intocada toda a forma de pensar que deu ordem àquele pensamento. O resultado final desse confronto de problemáticas é o de que o pensamento A não é igual ao pensamento B. Mas que relevância há em concluir que o conceito de poder de Michel Foucault não é igual ao conceito de poder de Karl Marx? Que a ideia de estrutura de Pierre Bourdieu é diferente daquela de Anthonny Giddens? Ou que a noção de modernidade de Jürgen Habermas não é compatível com o de Walter Benjamin. Também a crítica externa é envergonhadamente subalterna.

Levar a sério o argumento do outro implica em discutir suas ideias tal como ele as apresentou. Analisar se seus resultados são logicamente compatíveis com os pressupostos, se suas conclusões eram as únicas possíveis de se obter a partir das premissas originais, se as evidências empíricas permitem validar suas soluções. A análise histórica é aqui importante. É por meio da reconstrução do contexto no qual as ideias têm lugar que se torna possível identificar qual a posição que elas ocupam no conflito entre partidos e forças sociais. O pensamento político é sempre um pensamento sobre a política. Uma intervenção filosófica ou ideológica em um conflito político. Reencontrar os motivos subjacentes a esse pensamento (a posição que ocupa no conflito político) e suas intenções (o que pretende fazer) é crucial para a crítica.

Isso implica expor rigorosamente as teses do adversário, submeter sempre ao diálogo os pontos mais fortes do argumento que se quer criticar, descartar como acessórios ou irrelevantes aqueles mais frágeis. Na prática crítica, como na guerra, o único efeito que pode resultar de um ataque a posições imaginárias ou inexistentes é emular uma sensação de superioridade que fatalmente levará à derrota. Mas não é prudente estender a metáfora bélica. Ao contrário da guerra, no confronto de ideias atacar o ponto mais frágil das trincheiras adversarias não tem efeito nenhum, uma vez que deixa intacto o território conceitual sobre o qual aquelas ideias se assentaram.

Um espírito pragmático poderia se perguntar qual a vantagem de proceder dessa maneira. Ao menos dois argumentos precisam ser levados em consideração. O primeiro diz respeito aos meios, o segundo aos fins do marxismo profano. Com relação aos meios é possível dizer que apenas cotejando as próprias ideias com outras, colocando-as em risco, admitindo o questionamento, submetendo-as a provas cada vez mais difíceis o próprio pensamento pode desenvolver-se e fortalecer-se. Quando o objetivo não é afirmar um dogma o confronto de ideias é necessário. E quando o que se quer é colocar o pensamento em movimento, permitindo seu desenvolvimento, é melhor confrontar ideias fortes do que ideias fracas.

Com relação aos fins é preciso reconhecer que todo pensamento político desenvolvido almeja constituir uma hegemonia, difundir-se e tornar-se reconhecido como uma forma capaz de organizar a maneira como as pessoas raciocinam. Para adquirir uma hegemonia, um marxismo profano deve ser capaz de confrontar outras formas ideais, oferecer respostas melhores do que o adversário foi capaz de apresentar, absorver e reelaborar os elementos racionais das ideias submetidas à crítica. Quando mais forte for o pensamento concorrente, mais importante será demonstrar que as ideias que se quer defender são melhores. É evidente que não é possível afirmar um pensamento hegemônico senão por meio da crítica rigorosa das melhores ideias das correntes adversarias.

Nada disso é necessário, entretanto, quando o que se quer é reproduzir um dogma. Nesse caso, o marxismo não seria muito diferente de uma forma de religião, geralmente acompanhada de seu próprio panteão de deuses, uma teodicéia e uma teologia próprias,  e dotada de ritualística particular. Insistir no caráter profano do marxismo não é apenas negar toda forma dogmática. É admitir o risco como constitutivo de uma maneira de pensar que se pretende emancipatória.