Escultura de Maria Ines Di  Bella
Escultura de Maria Ines Di Bella

Contra os clássicos

Alvaro Bianchi

É comum a afirmação de que uma obra clássica é aquela que transcende seu próprio tempo e se projeta para um futuro. Na conhecida definição de Italo Calvino, um clássico é “um livro que nunca terminou de dizer o que tinha para dizer” (CALVINO, 1993, p. 11). Os clássicos são, dessa forma, sempre reconhecidos pelos pósteros e nunca pelos contemporâneos. Há certa ingenuidade nessa definição. Ela pressupõe um público que recebe passivamente a obra, a qual encontra seu critério de classicidade exclusivamente devido a seus próprios méritos. Mas uma pesquisa mais atenta ao significado original da palavra clássico revela a forte conexão entre uma obra clássica e uma tradição que se quer perpetuar.

Em latim, a palavra classis indicava uma das cinco divisões do povo romano promovidas por Servius Tullius. Segundo Aulus Gellius, escritor do século 2 a.C., o vocábulo classici designava aqueles homens que possuíam uma renda elevada, enquanto que aqueles que não possuíam tal renda eram “infra classem”, ou seja, encontravam abaixo dos “classici”. Daí a divisão entre “classicus” e “infra classem” (GELIO, 2007, l. VI, § 13, 11-13, p. 501).

O mesmo Aulus Gellius parece ter sido o primeiro na história a fazer uso da expressão classicus para referir-se aos escritores. Nessa transposição de um contexto social para outro, o vocábulo não perdeu sua conotação fortemente classista. Pelo contrário, o caráter de classe do classicus scriptor (escritor clássico) foi reforçado por Gellius, por meio da definição do “classicus assiduusque scriptor, non proletarius (distinto escritor clássico, não proletário)” (GELIO, 2007, l. XIX, § 8, 15, p. 1274). A palavra assidus, da qual se deriva assiduusque, era utilizada pelos antigos para designar um cidadão inscrito no censo, proprietário e contribuinte, pertencente às altas classes, podendo ainda significar alguém que não tinha nada a fazer e poderia ficar ociosamente em sua casa.[1] Gellius não deixa duvida do caráter de classe do classicus scriptor ao opô-lo aos proletários, uma das classes mais baixas da Roma antiga.

Como oposto dos proletários o classicus scriptor tinha sua atividades ditada pela preservação de uma ordem social e das tradições. Para permanecer classicus era necessário que a ordem que o separava dos proletários continuasse a existir. Daí a identificação do clássico com uma nova ou velha tradição, com algo que deve ser preservado. Talvez nada ilustre melhor essa identificação do que o maior dos clássicos romanos: a Eneida de Virgílio. Chamando de Iulus a Ascânio, o filho de Aeneas, que supostamente tinha Rômulo e Remo por ancestrais, Virgilio dotava a família de Júlio César e de seu sucessor Augusto de um nobre passado: “Posto ao leme Ascânio, que hoje Iulo cognominam”. Mas além de dotar Augusto de um passado, Virgílio também glorificou seu presente, gravando no escudo de Enéas os feitos romanos de modo épico e idealizado:

“Nele, o porvir sabendo e as profecias,
O artífice gravou de Itália as cousas
E os triunfos romanos, desde Iulo
A estirpe toda, e a série das batalhas” (VIRGILIO, 2005, Livro 8, 620-622, p. 194).

E reservando para Augusto o ápice de sua narrativa escreveu preparando o momento no qual este derrotou Marco Antonio e Cleópatra na batalha de Actium

“Cá, n’alta popa, Augusto arrasta aos prélios
Senado e povo, os deuses e os penates;
De ambas as fontes ledo exala flamas;
Na cabeça lhe fulge a estrela pátria” (VIRGILIO, 2005, Livro 8, 672-675, p. 194).

Tendo vencido todos os seus inimigos Augusto teria trazido para Roma a paz e a ordem há tanto almejadas.

“Com tríplice triunfo entrado em Roma
De Itália aos deuses cumpre os votos César,
Trezentos sagra amplíssimos delubros.
Festa, aplauso, alegria as ruas soam:
Em cada templo um coro ha de matronas,
Aras em todos há, perante as aras
Touros imolam, de que a terra juncam.

(…)

O herói admira o dom, primor Vulcânio;
Da imagem do porvir gozando ignaro,
Dos seus glória e destino ao ombro leva” (VIRGILIO, 2005, Livro 8, 710-739, p. 195).

Virgílio foi um ideólogo da ordem augustiniana e por isso mereceu o título de clássico. Não tivesse essa ordem coincidido com o apogeu do Império Romano Virgílio teria sido um clássico? Difícil dizer. Sua obra é de enorme a qualidade e a perfeição de seus versos admirável. Mas uma obra não se reduz a sua qualidade. Os contextos políticos e sociais de sua difusão e recepção marcam também profundamente o modo como ela é apropriada e lida. O que a ideia de clássico faz é naturalizar as relações de forças subjacentes a esses contextos. Assim, quem quiser evitar essa naturalização  e assumir uma atitude crítica perante uma obra faria bem por começar livrando-se da ideia de clássico.

Referências bibliográficas

CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos? São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

GELIO, Aulo. Notti Attiche. Milano: BUR, 2007.

VALPY, F. E. J. An etymological dictionary of the Latin language. London: A.J. Valpy; Baldwin and Co., 1828.

VIRGILIO. Eneida. Campinas: Ateliê; Unicamp, 2005.

Nota

[1]  Sobre a etimologia de assidus ver Velpy (1828, p. 28), autor que usa a frase citada de Aulus Gellius para exemplificar o uso dessa palavra em latim. O fato do vocábulo “assíduo” ter também o significado de constante confundiu alguns tradutores.