Ilustração de Marlon Anjos
Ilustração de Marlon Anjos

Crise econômica, quem paga a conta?

Eric Gil

Com a instabilidade política do governo Dilma, crise econômica e avanço das políticas conservadoras e econômico-liberais no Congresso e no Governo Federal, muitas questões são postas à esquerda brasileira. Tentaremos responder, neste artigo, às questões que circundam a atual política econômica de Dilma diante da crise econômica.

Mas antes disto vamos adiantar algumas considerações: (i) sim, vivemos em meio a uma crise econômica, no Brasil e no mundo; e (ii) não, não é invenção de um suposto Partido da Imprensa Golpista (PIG) para preparar a derrubada de Dilma Rousseff. No entanto, a crise não é igual para todas as classes e suas frações, estando aí reservado o papel do Estado: direcionar a conta para alguém pagar.

A crise econômica em dados

Primeiro vamos aos dados que comprovam a existência desta crise. O IBGE divulgou a Pesquisa Mensal de Emprego (PME) de maio, na qual foi constatada queda de 5%, em um único ano, da renda média do brasileiro, passando de R$ 2.229,28 para R$ 2.117,10. Esta queda é explicada pelo avanço da inflação. Nos últimos doze meses (de maio de 2014 a maio de 2015) o IPCA, índice oficial de inflação utilizado pelo Governo Federal, avançou em 8,47%. E como os reajustes salariais estão sendo abaixo da inflação, há queda da renda real do trabalhador.

Nesta mesma pesquisa o Instituto informou uma taxa de desemprego de 6,7%, o mesmo nível de agosto de 2010, ou ainda, uma taxa com 2,7 pontos percentuais a mais do que dezembro do ano passado (um aumento bastante considerável em apenas cinco meses!), quando havia atingido o menor patamar de toda a série histórica desta pesquisa do IBGE.

Juntamente a isto vem a retração do Produto Interno Bruto (PIB), a soma de toda a produção de riqueza realizada dentro do Brasil. Para o primeiro trimestre deste ano, houve o encolhimento da economia de 0,2%, e se comparado ao mesmo período do ano passado, retração de 1,6%.

Sintetizando, todos os elementos de uma crise econômica estão postas: retração da produção, queda do consumo e aumento do desemprego. Só o aumento da inflação que parece ser algo que foge a lógica normal de uma economia em crise, mas trataremos sobre isto mais para frente.

A quem serve a atual política econômica do governo Dilma?

Qual é a resposta do Governo Federal diante da crise que se alastra pelo Brasil? A receita neoliberal, muito mais antiga do que o próprio PT: corte de gastos do governo e alta de juros.

De forma simples, consequentemente menos precisa, a ideia é o seguinte: o governo está gastando demais e desequilibrando suas contas, criando uma demanda (?) acima da oferta, desequilibrando as contas públicas e o que gera inflação. Com o “desequilíbrio das contas” impedisse que os agentes privados possam confiar no pagamento das contas do governo (principalmente da dívida pública) e não possam também prever os preços futuros com aumento da inflação. E a resolução deste problema é claro: corte de gastos e aumento da taxa de juros (no caso, a Selic) para inibir a demanda e conter a inflação.

O estranho é que esta avaliação não parece ter base na realidade. Como mostram os índices de inflação oficial (vide as publicações do IBGE sobre o IPCA e INPC), a causa desta inflação não é uma demanda aquecida (obviamente, já que estamos em uma crise econômica e os dados sobre renda e emprego só pioram, como já vimos), e sim aumento de preços administrados (preços decididos por governos, como a energia elétrica, transportes, etc.), aumento de impostos e de preços de alimentos. Ou seja, nada que justificaria o aumento da taxa de juros para conter a inflação.

O que não dizem é a quem beneficia esta política suicida. Os donos da dívida, dívida esta que cresce mês a mês, riem à toa com o aumento da taxa básica de juros, pois eles passam a receber mais juros pelos títulos de dívida que eles possuem. Isto explica, em parte, os grandes lucros do sistema financeiro, como BB, Itaú-Unibanco, Bradesco, dentre outros, pois as Instituições Financeiras são as maiores detentoras dos títulos da dívida pública. Sintetizando, o aumento de juros, além de não conter a inflação, aumenta os custos do governo com juros, aumentando ainda mais os gastos que em tese ele quer cortar. Vai entender…

Mas como o governo quer cortar gastos para garantir o superávit primário e pagar os juros da dívida, a prioridade (isto sim é prioridade!) deste governo, a Pátria Educadora acaba por não passar de uma piada pronta.

Se os patrões não vão pagar pela crise, os governos também não vão

Para ilustrar o repasse do comportamento de governos diante da crise pegaremos o caso do Paraná por ser um episódio exemplar. Em meio a cortes de contratações de professores e outros trabalhadores temporários do estado, saque da previdência social dos servidores estaduais, aumento de ICMS e aumento de 51% da conta de luz, os políticos e a burocracia estatal se nega a ver a luz da crise.

Mesmo com os acampamentos de professores em greve, ocupações por parte dos trabalhadores da Assembleia Legislativa do Paraná e massacre de 20 mil manifestantes, no dia 29 de abril, o governador Beto Richa (PSDB) autorizou aumento do seu salário, juntamente ao alto escalão e deputados estaduais, de 26,3%. Além disto, deu auxílio moradia de R$ 4.337,74 para os conselheiros do Tribunal de Contas do Paraná (TCE-PR), o que é bastante suspeito, não acham?

Então quem paga a conta?

Quem resta para pagar toda a conta, então? As medidas provisórias 664 e 665 do Governo Federal, que já deixaram de ser provisórias e foram efetivadas, o PL 4330, que agora já avança como PLC 30 no Senado Federal, que expande a terceirização no país, os aumentos de impostos e de tarifas como a de transportes e energia elétrica, e todo o restante já mais do que explica quem está pagando e quem pagará pela crise. Como sempre, a classe trabalhadora, aquela que vive do seu trabalho, que assiste sua renda cair assustadoramente.

E ainda dizem que a tal de luta de classes não existe mais…