Ilustração de Antônio Máximo
Ilustração de Antônio Máximo

Crítica ao militantismo

Alvaro Bianchi

Sem o controle contínuo do pessimismo do intelecto o otimismo da vontade facilmente se converte em puro militantismo. O militantismo é o fetichismo da ação, a crença de que a atividade permanente e direta conduzirá inevitavelmente a uma vitória decisiva. Com a vitória ao alcance das mãos é preciso colocar-se em frenético movimento. Da panfletagem ao piquete, do piquete à assembleia, da assembleia à reunião, para a seguir reiniciar o ciclo. O militantismo conduz toda a vida dos sujeitos políticos a um tempo circular que não deixa lugar para mais nada. Todo dia é igual. Todas as energias são consumidas.

O fetichismo da ação só permite a repetição. A velocidade da ação dá a impressão de rápido movimento, mas o caminho percorrido conduz sempre ao mesmo lugar. O final de um dia agitado é apenas a véspera daquele que virá amanhã. O movimento não conduz a parte alguma. Paradoxalmente o militantismo tem como consequência a passividade. Os sujeitos aparentam mover-se, mas não saem do lugar. Mexem convulsivamente braços e pernas sem que novas posições sejam obtidas. Em um tempo cíclico a própria estratégia perde a razão de ser. O militantismo nunca consegue superar o umbral da pequena política.

O militantismo parece ter recuperado uma noção já ultrapassada de revolução. Na história do conceito de revolução, este indicou, primeiramente, um retorno contínuo a uma posição original. É com esse sentido que ainda hoje se fala das revoluções da Terra ao redor do Sol, ou da Lua em volta da Terra, ou que usamos revoluções por minuto como unidade de velocidade angular. No final do século XVIII a ideia de revolução começou a adquirir um novo sentido. Com a Revolução Francesa ela deixou de indicar o perpétuo retorno no interior de um tempo cíclico e passou a representar aquele ponto de ruptura, no qual voltar atrás já não era mais possível e o novo início se dava a partir de uma posição radicalmente diferente da anterior. A revolução mandava pelos ares o continuum da história, nas palavras de Walter Benjamin.

O militantismo reestabeleceu o caráter circular do tempo e com isso retornou àquela concepção pretérita de revolução. A revolução recomeça sempre com o raiar do sol na porta da fábrica, atravessa o dia sem interrupção para à noite descansar na espera de uma nova jornada. Nada distingue o ontem do hoje. O militantismo não altera a relação de forças, apenas a reestabelece diariamente de maneira rotineira.

A vida se esgota desse modo em uma permanente atividade irrefletida. Não há imaginação criadora no militantismo. Pensar é uma atividade contrarrevolucionária. A atividade intelectual representa um perigo que deve ser combatido. O pessimismo do intelecto pode moderar o otimismo da vontade, pode alertar contra seus perigos, ou pode, até mesmo, denunciar sua ineficácia ou irrelevância. O militantismo não admite moderação, muito menos contestação. Ele é total ou não é. É o critério pelo qual se mede a existência. Ameaça-lo é, assim, ameaçar a própria vida como ela é conhecida. Reage então violentamente contra tudo aquilo que o questione e o faz, em primeiro lugar, questionando a integridade dos opositores. É preciso destruí-los.

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O militantista pertence a um mundo particular. Ele se encontra separado daqueles sujeitos sociais que quer libertar. Sua vida não pode se confundir com as destes. São passivos demais. Não são capazes de acompanha-lo. Cabe a ele então fazer o que os outros não querem ou não podem. Por isso é necessário substitui-los pela vanguarda que ele próprio, o militantista, encarna. Mas é uma vanguarda de poucos. Raros o seguem. O custo é elevado demais para acompanha-lo. Isolado, o herói de si próprio se aliena. Sua vida interior se esvai. Não é capaz de emocionar-se com nada que não seja a ação, com as vidas exemplares dedicadas à causa, com o sacrifício.

Uma estética própria surge com o militantismo, criada a sua imagem e semelhança. Obviamente a arte só pode ter um papel muito secundário em uma vida completamente dedicada à ação. Mas aquele reduzido espaço que lhe é reservado deve ele também estar subordinado à causa. Para o militantismo, a arte só tem valor se engajada, se denuncia ou exalta. Punhos fechados, braços musculosos e testas franzidas não podem faltar. O realismo heroico era a forma estética do militantismo em uma época na qual, segundo os dirigentes stalinistas, a revolução estava ao alcance da mão. Mas ele permanece como sobrevivência atávica no imaginário do presente e se expressa nos símbolos partidários, nas performances teatrais que acompanham as comemorações, nas pinturas das sedes e nos cartazes decorando suas paredes. A sensibilidade embrutecida só reconhece uma forma estética contrarrevolucionária, a qual tem o único propósito de retratar a revolução e seu sujeito mítico.

Narciso, o militantista só deseja o que é imediatamente reconhecido como idêntico a si próprio. Os amores, os afetos, as companhias devem ser iguais a ele, ter as mesmas crenças, participar das mesmas atividade. Só se apaixona por si mesmo. Os outros são o espelho perante o qual se deleita na autocontemplação. Fechado àquilo que é diferente, o militantista reduz sua vida sentimental e afetiva ao mínimo necessário. Afasta-se daqueles que não reconhece como iguais, rompe laços afetivos de longa data, imerge em um mundo coabitado pelas poucas pessoas que partilham não apenas os mesmos compromissos, como, principalmente, o mesmo estilo de vida. Sente-se seguro, assim. Sua identidade não é ameaçada pela diversidade e pelo desconhecido.

A tensão subjetiva inerente ao militantismo é insuportável. Enquanto durar inabalável sua fé não perceberá que a intensidade de sua ação é inversamente proporcional aos resultados obtidos. O futuro guarda consigo a promessa da redenção. Mas o tempo conspira a cada dia contra esse futuro, o qual cada vez dura menos. Chegará o dia em que ao olhar mais uma vez no espelho, o militantista verá um rosto cansado. A energia que o ciclo diário do militantismo exige lhe falta cada vez mais. Só os jovens podem realiza-lo dia após dia, mês após mês, ano após ano. Mas em breve eles também deixarão de ser jovens. Esgotar-se-ão. E quando virem sua nova imagem refletida perante si enxergarão as marcas do tempo em suas faces e, em um lampejo de lucidez, irão ajoelhar-se e chorar. É o fim. Para outros, entretanto, é apenas o começo. Ao contrário do que pensa de si próprio, o militantista é facilmente substituível.

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Superar o militantismo exige reestabelecer o controle do pessimismo do intelecto sobre o otimismo da vontade. Apenas uma vontade realista é efetiva e capaz de deter o tempo cíclico da história e realizar as esperanças que ela mesma promove. Para reestabelecer esse controle é preciso superar a divisão entre o trabalho intelectual e a ação política, uma divisão que separa teoria e prática em sujeitos diferentes, chefes que pensam e subalternos que executam. O controle da razão sobre a ação deve ser interno e não externo. Deve estar nos próprios sujeitos militantes e não em uma instância superior, distante destes.

Construir uma militância integral se faz necessário. Uma militância que seja capaz de questionar e desobedecer, de imaginar e agir, de refletir e fazer. Apenas uma militância integral é democrática, autônoma e emancipadora. Ela não relega a emancipação dos sujeitos a um futuro indeterminado. Empenha-se em sua construção hoje. Como tal ela também é uma utopia, um ideal não realizável. O pressuposto da divisão do trabalho social é a exploração do trabalho. Enquanto esta não for superada, aquela continuará a vigorar. Mas as utopias tem também uma função normativa, elas indicam o caminho que deve ser percorrido. E esse caminho passa pela superação do militantismo subalternizante e pela construção de novas práticas emancipadoras. Esse futuro já começou.