Ilustração de Oadilos
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Dado Villa-Lobos na resistência pela educação pública: um histórico show para Uerj

Romulo Mattos

Dado Villa-Lobos participou do festival “Uerj e Hupe resistem” no último dia 3 de maio. O guitarrista faz parte de um time raro de músicos consagrados que empregam a sua arte e o seu prestígio em prol de causas sociais e políticas relevantes, para não dizer urgentes.

No seu caso, trata-se de um compromisso histórico com um repertório que é recorrentemente apropriado por movimentos populares comprometidos com a conquista e ampliação de direitos. Dado levou a maior parte de sua vida defendendo letras de músicas que foram pichadas nas paredes das cidades brasileiras, como forma de subversão cotidiana, e entoadas em protestos de massa, do Fora Collor às Jornadas de Junho. Nesses momentos, a palavra “legionários” tem um deslizamento de sentido expressivo, e abarca não apenas os fãs da Legião Urbana, mas também aqueles que acreditam no ideal de transformação da sociedade.

É bom saber que Dado não está sozinho. Na mesma semana em que ele tocou na Concha Acústica da UERJ, Marisa Monte surpreendeu ao cantar no Colégio Estadual André Maurois, no Leblon, ocupado por alunos conscientes de que a educação pública é uma conquista de lutas sociais passadas, que deve ser defendida diante da ofensiva neoliberal radicalizada pelos governos estaduais do PMDB. Atualmente, ensinos Secundário e Superior estão unidos nessa luta: professores universitários frequentam rodas de conversa nas escolas estaduais ocupadas, assim como discentes dessas últimas marcam presença no “Uerj e Hupe resistem”.

Dado não foi o único nome do rock brasileiro que participou de tal evento. Antes de seu show, Tico Santa Cruz cantou sucessos radiofônicos de sua banda, Detonautas Roque Clube, e também de Cazuza, enquanto o El Efecto tocou as suas longas e criativas canções engajadas.. Embora seja de praxe o artista mais famoso e com mais estrada encerrar eventos em formato de festival, dessa vez, fazer o último concerto da noite não foi um privilégio. Como a sua apresentação ocorreu no fim da noite de uma terça-feira, Dado não teve a sua frente arquibancadas completamente tomadas, como os artistas anteriores – injusto, porque a lotação verificada no horário de pico do “Uerj e Hupe resistem” muito se devia ao anúncio de sua aparição. Além de ter aberto mão de qualquer tipo de pagamento para se apresentar, Dado sequer levou um empresário/produtor para garantir junto à produção o cumprimento do que fora combinado: que o seu show começaria às 21:50. Ao mesmo tempo que sua atitude demonstra uma simplicidade incomum para um personagem cultural de sua estatura, ela abriu caminho para que outros músicos, sem o seu renome, garantissem melhores condições, como tocar em um horário com mais público e estender o tempo de sua apresentação para além dos padrões de um evento que conta com a participação de diversas atrações – de poetas alternativos a artistas com sucesso de massa, passando por companhias de dança amadoras (no melhor estilo palco livre).

Cabe enfatizar que um músico de sua dimensão tem cartas na manga para superar as situações mais adversas. Dado foi um dos três pilares de sustentação da Legião Urbana – ao lado de Renato Russo e Marcelo Bonfá –, o que o transforma num agente fundamental da profissionalização rock em nosso país. Nenhum tipo de palco lhe é estranho e, na sua longa e vitoriosa carreira, experimentou as mais diversas reações do público, das mais apaixonadas às mais hostis (e isso geralmente se relacionava com a oscilação de humor de Renato Russo, nos shows). Desde que lançou o seu primeiro disco, em 1985, o guitarrista tocou em discotecas, ginásios esportivos, estádios de futebol, no Jockey Club Brasileiro (no Rio) e até no Papódromo (em Natal). Antes de entrada no circuito profissional, apresentara-se em calçadas, palcos mambembes ao ar livre, além de teatros de colégios particulares e universidades públicas. Acentuada pela espera de três horas (em um camarim improvisado) para entrar no palco, a indisfarçável irritação de Dado não foi mais forte do que o seu senso de profissionalismo e seu apoio à causa social do evento. Tal sentimento foi transformado em combustível que alimentou a furiosa pegada rock de sua apresentação. E a força do repertório da Legião Urbana – responsável pelo fenômeno raro da renovação em termos massivos do público de uma banda com mais de 30 anos de estrada – arrebatou a todos que viraram a noite para ouvi-lo. De certa forma, o show de Dado esteve para o festival da Uerj assim como o de Jimi Hendrix esteve para o de Woodstock: quem ficou até o fim assistiu a uma apresentação memorável.

Dado iniciou o seu concerto com a icônica “Tempo perdido” (1986); pura covardia com aqueles que já estavam sensibilizados apenas por estar a poucos metros de distancia do guitarrista da Legião Urbana, sem grades de proteção ou fossos intransponíveis entre a arquibancada e o palco. O músico encarou heroicamente as notas mais altas da música, e fez bonito diante da plateia – que reagiu à execução da música com a habitual ovação verificada nos shows da Legião Urbana. Certa vez, Renato Russo declarou que, com “Tempo perdido”, percebeu que poderia fazer canções de protesto sem ser panfletário – e os expectadores, envoltos em um cenário de luta, identificaram-se com a mensagem da letra.

A composição seguinte, “Baader Meinhof blues” (1985), foi tocada de forma ainda mais pesada e acelerada do que versão original. Os seus versos “Essa Justiça desafinada/ É tão humana e tão errada” foram revalorizados segundo o contexto atual de explícita atuação político-partidária do Judiciário, se não bastassem as kafkianas condenações de Rafael Braga, mártir involuntário das Jornadas de Junho. O público, que cantava com entusiasmo a música (principalmente o coro “ô, ô, ô”), organizou uma roda de pogo, na lateral do palco. Aqui vale uma indagação: há quanto tempo Dado não via uma cena dessas em um de seus shows?

Depois de dois números intensos, o músico segurou a onda e apresentou, sozinho, “Space Oddity” (1969), o primeiro sucesso de David Bowie. Tratou-se de uma leitura bem particular, com performance vocal despojada e guitarra com efeitos de modulação. Novamente acompanhado pela banda, Dado emendou um hino dos anos 1980: “Geração Coca-Cola”. A versão desacelarada apresentada pelo legionário valorizou a letra da música, para deleite do público, que saboreou cada palavra. No mais, um verso que fala sobre “crianças derrubando reis” vem bem a calhar nesta conjuntura em que escolas públicas de vários estados brasileiros (e de alguns países da América do Sul) estão ocupadas por estudantes secundaristas.

Além de ter homenageado Bowie, morto no início deste ano, Dado lembrou um conjunto que o influenciara na adolescência, o The Clash, do qual tocou “Guns of Brixton”, composição do baixista Paul Simonon influenciada pelo reggae. Embora esse cover tenha sido bem recebido pela plateia, o guitarrista tinha consciência de que ela esperava ouvir mais clássicos da Legião Urbana. Por essa razão, tocou mais dois megassucessos de sua banda: “Índios” (1986) e “Que país é esse” (1987). O primeiro também é um tipo de protesto não panfletário, no entender de Renato Russo, e nos levar a pensar que se “o mais simples fosse visto como mais importante” a educação e a saúde públicas brasileiras teriam melhor sorte – questão, aliás, já colocada pela presidente da Associação dos Docentes da Uerj, Lia Rocha, quando chamou ao palco a atração principal da noite. Já o outro hit é uma das canções de protesto mais eficazes do país, tendo sido uma das cinco músicas mais tocadas nas estações de rádio e televisão dos anos 1980. O seu efeito incendiário foi confirmado quando o público respondeu ao questionamento presente no refrão com o tradicional coro “É a porra do Brasil”.

O show terminou em ambiente de catarse. Entusiasmada, uma das organizadoras do evento, a professora Juliana Fiúza, foi ao microfone e acertadamente qualificou a apresentação de Dado como “histórica” para aquela universidade Dado acertou ao selecionar o repertório engajado da Legião Urbana, o que facilitou a identificação com o público que prestigiava um festival de resistência política. Foi certeiro também ao acentuar a pegada rock da maioria das músicas, com a imensa contribuição da banda montada para o concerto, formada por: Demian Melo (guitarra), Jonas Cáffaro (bateria), Dony Escobar (baixo). Enquanto o primeiro é historiador e professor da UFF, com um passado musical no underground carioca, paraibano e baiano, os outros dois são integrantes do Matanza. Vale lembrar que o baixista Dony também é guitarrista d’Os Vulcânicos, sendo o seu talento nessa função reconhecido nos meios musicais do Rio.

Para a carreira de Dado, o show provavelmente teve um caráter revigorante, no sentido de voltar aos tempos da sonoridade cru, tendo como cenário não as casas de espetáculo com capacidade para 10 mil pessoas (como aquelas que ele tem lotado com a turnê Legião Urbana XXX anos), e sim teatros de arena, em cuja origem está a proposta de estreitamento do vínculo entre artista e público.

Para um evento em defesa da universidade e da saúde públicas, o show de Dado teve um evidente efeito potencializador. Dado é um músico com 50 anos de idade, 30 anos de carreira profissional e que vendeu mais de 15 milhões discos. Ao aceitar tocar em condições incompatíveis com o lugar de destaque ocupado no campo artístico, Dado deu uma incontornável demonstração de humildade para bandas iniciantes e seus empresários/ produtores com delírio de grandeza.

Em festivais organizados com a finalidade de fortalecer a luta política popular, a lógica da solidariedade e da amizade deve sempre falar mais alto entre os artistas participantes. Para quem com a Legião Urbana tocou em shows coletivos em prol do movimento pelas Diretas Já, em 1984, esse tipo de pensamento não é novidade. As novas bandas de rock, em especial as da geração da internet, poderiam aprender com Dado.