Ilustração de Pierre Lapalu
Ilustração de Pierre Lapalu

Das finitudes

 Carlos Eduardo Rebuá

Dizem que a Universidade do Estado do Rio de janeiro (UERJ) é o lugar do Rio de Janeiro onde ocorre o maior número de suicídios. Representa o fim da linha para muitos jovens e adultos, da elite ou da margem. Ouço isso desde que ingressei no mestrado em Educação de lá em 2009. Ali, num contexto também de desgastes e abandonos, observava diuturnamente como aluno egresso da Universidade Federal Fluminense (UFF), o incisivo caráter popular daquela singular universidade: nunca vira tantos coletivos de luta distintos organizados num mesmo espaço acadêmico (a unidade Maracanã); tantos graduandos e pós-graduandos de origem popular, tantos negros, professores da educação básica, tantos alunos-trabalhadores, tantos programas de pós-graduação efetivamente heterogêneos em seus matizes, tensões, sujeitos e experiências.

Nenhuma cultura humana é mais heterogênea que o capitalismo e no coração da metrópole carioca, na universidade pública mais central em termos espaciais, cercada pelas avenidas da Tijuca, em frente ao morro da Mangueira e dos trilhos da Central do Brasil, vizinha ao principal estádio de futebol do país, que confere o nome do campus-matriz, próxima ao boêmio bairro de Vila Isabel, a UERJ – que ainda se estende para a Baixada Fluminense (região mais miserável do Grande Rio), com a Faculdade de Educação da Baixada Fluminense (FEBF), e para São Gonçalo (segunda maior população do Estado), com a Faculdade de Formação de Professores (FFP), além de outros campi no interior – representa paradigmaticamente a tríade substantivo-adjetivo-substantivo, ao articular concreto e concretude, no segundo estado mais rico da federação brasileira. Vale lembrar que as estaduais paulistas são USP, Unicamp e Unesp, universidades também de excelência, mas que nem de longe vivem o caos uerjiano.

Não há dúvidas de que a UERJ encarna o novo laboratório das políticas neo-neo (neoliberais e neoconservadoras), na maior crise de sua história de 67 anos. Como professor substituto do curso de História UERJ-FFP em 2015, recebi como recomendação de colegas de lá e de outras universidades: “lá é mais para currículo: não espere salário, muito menos em dia!”. Admito que com dez anos de docência, nas esferas pública e privada, na educação básica, em pré-vestibulares e no ensino superior, nunca ouvira uma orientação tão pragmática e assustadora para um docente doutorando que dependia de bolsa de pesquisa e que lançara mão de um emprego para ser novamente professor substituto em uma instituição pública de ensino superior do Rio de Janeiro. Conversava com meus alunos de lá sobre isso, desde o primeiro dia de aula. Entendia que para além da humanização, lidava com colegas professores em formação, que eram e são imprescindíveis nos embates anti-comodificação da Educação. Ao final de um semestre de quatro meses de aula recebi meu pagamento, sendo que quase dois terços dele já haviam sido gastos em prévias passagens, refeições, elaboração de materiais para as turmas.

UERJ que lembra Darcy Ribeiro e Brizola; que lembra Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), que lembra cara de povo, que as fundamentais cotas não bastam, que o ecumenismo – materializado em sua capela – é possível. UERJ que é a universidade pública que monopoliza o sotaque do Rio na pronúncia de sua sigla, que sempre tornou visível as expressões explícitas da questão social brasileira. Esta é a universidade sobre a qual se debruçam os managers do Estado de exceção fluminense, em aliança com os ilegítimos sujeitos da atual pequena-grande política do governo federal, no movimento impetuoso de privatização de um dos mais destacados espaços acadêmicos do país e da América Latina, sob um contexto de ilegalidade legalizada e de espoliação armada.

Hoje sou professor adjunto concursado da instituição, nos mesmos campus e curso onde lecionei como substituto. Em meu primeiro ano lecionei por apenas quatro meses (em virtude das greves e outras ações inadiáveis) e o último salário foi o de novembro de 2016. Alunos da graduação sem bolsas, funcionários de limpeza e segurança sob condições dramáticas, professores contratados abatidos e sem perspectivas, bandejão fechado, resistência nas ruas e nas redes, apatia que não se esconde mais, profissionais adoecidos e recorrendo a empréstimos, parentes, doações.

Retomo o tema do suicídio, abertura destas diminutas reflexões: é consensual em distintas correntes da psicanálise que o suicídio – como anomia, fuga, autodestruição, depressão, abandono – é, sob diversas formas, um pedido de ajuda. A universidade cinza, cor do asfalto, dos dias nublados, nome que recebe a matéria humana quando fenece; o espaço de saber universitário fluminense com a face mais reconhecível por aqueles que vivem do trabalho parece viver uma nova finitude, de tantas outras pelas quais passou ao longo das últimas décadas. Lembro de uma querida professora-orientadora do mestrado, que dizia que só na UERJ era possível ver, ao mesmo tempo, uma roda de capoeira, um debate, um enterro, um show e uma partida de futebol. Talvez suas mil vidas e rostos tenham tornado-a imortal, como dizia Borges em relação aos animais: são imortais exatamente porque desconhecem a morte.