Ilustração de Antônio Máximo
Ilustração de Antônio Máximo

De esperança em esperança: a trajetória política de Dom Paulo Evaristo Arns

Desirée Azevedo

Não há dúvidas de que o ano de 2016 será futuramente lembrado como aquele em que ataques radicais à democracia e aos direitos sociais conquistados ao longo de duras lutas colocaram à prova os movimentos sociais brasileiros. É nesse clima, e já nos aproximando do fim deste ano, que recebemos a triste notícia da morte de Dom Paulo Evaristo Arns, o “amigo do povo”, que esteve ao lado de tantas destas lutas.

Frade franciscano de origem humilde, nascido e iniciado na vida religiosa no interior do país, Dom Paulo foi nomeado Arcebispo de São Paulo, em 1970, e Cardeal, em 1973. Duas posições de destaque político em um país como o Brasil, onde tem sido historicamente valorizada a estreita relação entre Estado e Igreja católica. Alçado a tais posições em plena Ditadura, quando os militares no poder contavam com apoios nas hierarquias das igrejas brasileiras para dar seguimento ao seu projeto autoritário de moralização da sociedade e criminalização da política, Dom Paulo tornou-se um dos maiores símbolos das lutas de resistência.

É amplamente conhecido o apoio de primeira hora dado pela cúpula da Igreja Católica à Ditadura. Mais do que apoio, muitos de seus religiosos estiveram entre os protagonistas do conjunto de movimentações civis e militares que tornaram possível o Golpe contra o Presidente João Goulart. Caminhando à frente de multidões nas Marchas da Família com Deus pela Liberdade, que se multiplicaram entre março e abril de 1964 em todo país, eles cumpriram um papel legitimador ao pedir a intervenção militar para livrar o país da ameaça comunista. O episódio, hoje estranhamente próximo de nós, estava inserido em um contexto de polarização política e social vivido mundialmente durante a Guerra Fria, quando, somadas, vitórias de movimentos de libertação nacional, governos de caráter popular, movimentos sociais reformistas e revolucionários despertavam em toda parte o medo e a ira de setores conservadores. Como é também conhecido, este cenário de oposição irreconciliável entre projetos políticos e visões de mundo de direita e de esquerda não deixou de atravessar as organizações religiosas.

É bastante comum ouvir que a Igreja católica só passou a confrontar o regime a medida em que religiosos de destaque tiveram conhecimento das violências praticadas contra os opositores políticos, sobretudo quando elas atingiram membros da Igreja. Embora isso seja verdade na história pessoal de Dom Paulo, e no que se refere a vários outros membros da alta hierarquia católica, essa percepção não faz jus ao papel desempenhado de conjunto pelos chamados setores progressistas da Igreja. Não somente na resistência à Ditadura, mas nas lutas populares que a antecederam e naquelas que, já no fim do regime, foram de fundamental importância para sua queda.

Desde o final da década de 1950, a justiça social havia se tornado um tema no interior da Igreja católica, a partir do papado de João XXIII. O surgimento de um pensamento social surtiu especial efeito na América Latina, sendo consagrado na Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, em 1968, Medellín. No Brasil, toda a Igreja e a própria CNBB viam-se divididas entre partidários do grupo renovador, de perfil conservador, e o grupo progressista, que constituiria a origem da Teologia da Libertação. Este grupo tinha na figura de Dom Helder Câmara sua principal liderança dentro da CNBB. Estas posições se refletiram no surgimento de movimentos leigos, como, de um lado, a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) e, de outro, a Ação Católica Brasileira, cujos setores mais jovens abraçaram projetos radicais de transformação social. O mesmo processo se deu nas igrejas protestantes, dando origem a um forte movimento social ecumênico, que se relacionava de múltiplas maneiras com os movimentos sociais estudantil e de trabalhadores. O golpe se abateu sobre todos eles. Para a Igreja católica, ele significou o fortalecimento dos setores conservadores na CNBB, o que explica a declaração pública de apoio a Ditadura, em maio de 1964. Posição que começaria a ser revertida, em meio a muitas disputas internas, a partir de 1968.

Afastado deste cenário, Dom Paulo partiu de uma posição favorável ao Golpe, chegando a abençoar as tropas de Mourão Filho, para ser reconhecido como um dos principais e mais corajosos opositores do regime. Embora nunca tenha reivindicado quaisquer das posições políticas em jogo, ou mesmo se vinculado abertamente aos mencionados movimentos de engajamento no âmbito religioso, Dom Paulo trazia consigo um ideal de justiça social movido pela “opção preferencial pelos pobres”, que animou o início de sua vida religiosa. Foi a alta posição ocupada na hierarquia eclesiástica que o confrontou com as questões políticas de seu tempo, proporcionando-lhe também a proteção que procurou estender a toda uma variedade de perseguidos, entre os militantes e seus defensores, fossem estes familiares, advogados ou religiosos, entre outros atores sociais. Dom Paulo integrou de maneira destacada as amplas, mas silenciosas redes de solidariedade que subsistiram na base de toda uma pluralidade de ações políticas a que chamamos de resistência.

Sob seu comando, a Catedral tornou-se uma extensão da Praça da Sé, já consagrada como marco histórico de inúmeras lutas populares na cidade de São Paulo. Tanto deu refúgio imediato a manifestantes, quanto recebeu constantemente suas denúncias, divulgando-as através de seus porta-vozes oficiais, o jornal O São Paulo e a rádio 9 de julho, que sofreram com censuras. Na Ditadura, as igrejas se tornaram incontestavelmente lugar de reunião política. Com sua proteção, a Arquidiocese deu suporte mais direto a movimentos sociais, além de fortalecer politicamente o mesmo tipo de ação solidária e/ou militante realizada por bispos, padres e párocos progressistas em toda a região. Estimulou as Comunidades Eclesiais de Base e os movimentos pastorais, que tiveram um inestimável valor na manutenção de um discretíssimo movimento de base operário e popular durante os anos de maior repressão, assim como no seu ressurgimento público com as grandes greves e mobilizações a partir do final dos anos 1970.

Sua trajetória como Cardeal também está marcada pela realização de eventos extremamente simbólicos, que guardam até hoje inestimável valor político por terem desafiado o silêncio que a Ditadura pretendia impor à sociedade. Entre eles, a celebração da missa em memória do estudante da USP e militante da ALN, Alexandre Vannuchi Leme, torturado até a morte no DOI-Codi/SP, que reuniu em 1973, no auge da repressão, mais de 3 mil pessoas. A missa ecumênica para o jornalista Vladimir Herzog, assassinado nas mesmas circunstâncias, levou uma multidão silenciosa a lotar a Catedral e a Praça da Sé e é hoje considerada marco do início da derrocada do regime. Em 1979, a missa para o operário Santo Dias, morto durante um piquete de greve, foi precedida por velório na Igreja da Consolação e uma grande passeata entre os dois templos, ideia atribuída pela viúva e militante Ana Dias ao Cardeal Arns.

Menos conhecida, porém não menos importante foi sua atuação junto aos familiares de mortos e desaparecidos políticos. Naquela ocasião, a Cúria Metropolitana foi o espaço seguro onde, em meio a profundas incertezas, eles puderam se reunir pela primeira vez e encontrar apoio moral e conforto emocional. Ali também tiveram condições de elaborar e tornar pública a primeira listagem de desaparecidos que, com o apoio fundamental de Dom Paulo, foi levada ao Ministro da Justiça, obrigando a Ditadura a se pronunciar pela primeira vez sobre o assunto, em 1974. Uma conquista cujas dimensões podem ser facilmente reconhecidas por quem conhece a monumental luta trazida desde então pelos familiares de mortos e desaparecidos políticos neste país. E se eles foram atraídos para a Cúria é porque ela, desde 1972, vinha sendo intensamente buscada por perseguidos políticos e seus familiares por ser o local de funcionamento da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo. Fundada na esteira das decisões do Concílio Vaticano II, na conjuntura política do país, o órgão assumiu a função de prestar apoio jurídico e registrar denúncias dos casos de violações de direitos humanos cometidos contra presos políticos, vindo a estender essa mesma atuação, já em período democrático, para os chamados presos comuns. Aqueles que, em sua maioria pobres e negros, não recebem, até hoje, reconhecimento quanto ao caráter político, racial e estrutural de seu encarceramento.

Listar todas as ações empreendidas e apoiadas pela Arquidiocese sob a direção do Cardeal é uma tarefa difícil, que ficará sempre aquém. Não se pode deixar de falar, contudo, da mais significativa delas: o Projeto Brasil Nunca Mais (BNM). A ação religiosa ecumênica, que contou com a atuação decisiva do reverendo Jaime Wright, o apoio do Conselho Mundial de Igrejas, além da atuação corajosa de advogados e religiosos, é um marco na construção dos Direitos Humanos no país. O projeto, altamente subversivo segundo a legislação da época, foi viabilizado a partir da ação clandestina de advogados que copiaram quase a totalidade dos processos contra presos políticos que corriam no Superior Tribunal Militar, a partir dos quais foi possível inventariar, pela primeira vez, um conjunto denúncias de violências feitas pelos próprios presos durante seus depoimentos aos juízes. Como resultado, a publicação do livro relatório BNM, em 1985, foi uma denúncia robusta, que revelou métodos e locais de tortura, o perfil dos perseguidos, e os padrões de atuação da repressão entre o legal e o ilegal. Foi o primeiro documento a afirmar que a tortura foi uma política de Estado. Apesar da falta de publicidade, o livro entrou para a lista dos dez mais vendidos do país, tornando-se imediatamente um clássico através do qual gerações de brasileiros tomaram conhecimento do que foi a Ditadura. Além disso, o conjunto dos processos copiados foram preservados fora do país e constituem hoje, no Arquivo Edgar Leuenroth da Unicamp, e na versão digitalizada em 2012 e disponibilizada integralmente na internet, um importante arquivo público para pesquisas sobre o período. Durante décadas, o BNM desafiou o pesado silêncio institucional que se prolongou na democracia.

Dom Paulo fará falta. No dia de sua morte, as redes sociais encheram-se de declarações emocionadas de agradecimento por parte de ex-presos, familiares de mortos e desaparecidos e militantes políticos de várias matizes e que aturam em diferentes épocas. Quem conheceu Dom Paulo costuma usar duas palavras para defini-lo: coragem e esperança. Palavras ecumênicas em política e em fé. Que elas possam, junto com seu exemplo, nos inspirar e fortalecer para os dias que vêm pela frente.