Fotografia de Amalyn Malix
Fotografia de Amalyn Malix

De que lado você samba? Sobre cientistas sociais e o “infiltrado do Tinder”

Franck Tavares

Há dois problemas dramáticos no estágio atual do estrato da ciência social brasileira que se identifica com o pensamento crítico ou transformador. De um lado, produz-se, ainda que inadvertidamente, um vasto material capaz de auxiliar processos repressivos e o silenciamento do dissenso político. De outro, há uma pronunciada omissão quanto à compreensão do status quo cuja superação se revela necessária para a construção das formas emancipadas de vida que, ao menos normativamente, a intelectualidade progressista advoga.

A ciência brasileira dedicada ao estudo de temas como movimentos sociais, confronto político, protestos e revoltas não tem o hábito de refletir sobre o contexto e a trama de interesses associados ao trabalho que conduz. Em sua quase totalidade, pesquisadoras/es revelam uma simpatia pessoal pelas causas e práticas dos grupos e indivíduos oposicionistas estudados, à qual se acresce uma desapercebida cumplicidade objetiva com os mais truculentos serviços e organizações orientados à repressão ou mesmo supressão da dissidência e dos dissidentes sociais e políticos. Não são incomuns as pesquisas empíricas que seguem o seguinte itinerário

i)Proferem-se alusões, expressas ou tácitas, ao compromisso da produção científica com alguma modalidade de engajamento crítico, manifestada na adesão às premissas epistêmicas ou filosófico-políticas de autores oscilantes desde Horkheimer em sua denúncia da neutralidade servil, seguindo pelo conceito gramsciano de intelectual orgânico (mais mencionado do que explicado), até referências à intelectualidade como “fração dominada da classe dominante”, ancoradas no léxico e nas contribuições teóricas de Bourdieu. Igualmente comuns são os trabalhos que se dedicam à compreensão dos movimentos e ativistas sob uma crítica radical à ciência convencional e à academia, seguida de adesão à máxima lordiana de que “as ferramentas do senhor não destruirão a casa do senhor”. A simpatia pessoal pelos movimentos costuma, portanto, se revelar coerente com a adoção de referenciais teóricos capazes de denunciarem as mazelas metodológicas das assépticas descrições e de afirmarem seu compromisso em atar o rigor da episteme ao inextricável compromisso da praxis

ii) À coerência entre atitude política e escolhas teóricas não costumam se acrescentar opções metodológicas igualmente harmônicas. Exceção concedida aos raríssimos trabalhos inspirados na “Teoria Relevante para Movimentos” de Bevington e Dixon, ou em marxismos profanos de autores como Laurece Cox e Colin Barker, os trabalhos da ciência social brasileira tendem a esmerar-se em obter, de modo tão objetivo quanto possível, colossais volumes de dados demográficos, econômicos, culturais, comportamentais, políticos, econômicos e históricos sobre ativistas e organizações dissidentes, com o escopo de ulterior publicação em periódicos abertos ao público. As lições abaixo poderiam ser entendidas como uma descrição das práticas científicas cotidianamente implementadas pela academia brasileira interessada em movimentos e protestos:

“4.1.1 – O levantamento de dados para análise

(…) particularidades como questões étnicas, religiosas, linguísticas e regionais, o nacionalismo, a ideologia (…) tipo e eficiência da repressão governamental, tradições e atitudes da sociedade em relação à autoridade e a violência, homogeneidade da população, níveis de descontentamento popular e divergências internas, nível de industrialização, urbanização, escolaridade da população, nível de desenvolvimento socioeconômico, alfabetização, desníveis sociais (distribuição de renda, restrições a mobilidade social e política) e… identificar o surgimento de novas ideologias, insatisfações, grandes concentrações de pessoas e taxas de imigrantes legais e ilegais (ASSIS et. al., 2013, p. 10-11)”[1]

O texto acima contempla, em alguma medida, o conteúdo dos dados (obtidos mediante técnicas que oscilam de etnografias a surveys) presentes abundantemente nos estudos brasileiros sobre movimentos sociais e confronto político. Não se trata, todavia, de material extraído de livros metodológicos ou de produção congênere. É o trecho de um artigo com recomendações sobre a prática de inteligência de Estado, publicado em uma revista do Exército Brasileiro. Um dos autores – Willian Pina Botelho – é associado ao episódio narrado pela imprensa brasileira e internacional como o “infiltrado do Tinder”, em função de sua suposta atuação como agente secreto orientado à repressão de um grupo de 26 adolescentes que participariam pacificamente de uma manifestação contra o Governo Federal na cidade de São Paulo.

Aparentemente, marcos como o da canônica agenda de pesquisas da “Dynamics of Contention” (para restringir em apenas um exemplo), ao preocupar-se com episódios, mecanismos e processos que permitam produzir explicações sobre ciclos e eventos de confronto político, parecem diferenciar-se da proposta acima apenas por ostentarem refinamento teórico, aptidão metodológica e rigor intelectual mais eficientes para o alcance dos objetivos pretendidos por serviços de inteligência do que a singeleza cultural e científica dos profissionais cultivados entre exercícios físicos extenuantes e louvores à bandeira nas casernas permite engendrar. É impressionante o volume de dados sobre ativistas e organizações opositoras produzido e livremente disponibilizado por uma ciência social aparentemente simpática à respectiva causa. Hoje, no Brasil, a melhor maneira de conhecer um movimento, o perfil dos/as aderentes, suas táticas, sua história e suas influências, de modo a introduzir infiltrados ou reprimir com eficiência, reside na simples leitura daquilo que os profissionais de inteligência denominam “fontes abertas”, com especial destaque para artigos e livros produzidos por cientistas sociais.

Ora, tamanha ingenuidade em não notar a quem serve o conhecimento científico-social e em não se ocupar das consequências do saber produzido não poderia ter lugar entre intelectuais que, acredita-se, aprenderam alguma coisa com os textos de autores como Marcuse e suas lições sobre a técnica ou Foucault e sua relação entre poderes e saberes, tão lidos e discutidos desde os primeiros dias nos cursos de graduação em áreas humanísticas.

Em tempos de nítido recrudescimento repressivo, a intelectualidade que discorre em eventos, capítulos de livros ou periódicos sobre a faixa etária, a escolaridade, os locais de moradia, as atitudes em relação ao Estado e elementos afins associados a ativistas presta um relevante serviço à repressão. Assim como nenhuma consciência crítica publicaria relatos etnográficos sobre comunidades judaicas em periódicos científicos sob a Alemanha nazista ou dados demográfico-quantitativos sobre os participantes detidos no malogrado congresso da UNE em Ibiúna durante a ditadura brasileira, não faz muito sentido oferecer ao amplo acesso trabalhos sobre assuntos como “o que pensam os black blocs”, “como são as relações entre familiares nas ocupações do MTST” ou “como se comunicam os jovens que ocupam escolas em SP e de que modo conhecem o movimento”. Isto não é ciência, por faltar a reflexividade e a contextualização acerca de sujeito cognoscente, objeto cognoscível e ambiente de descoberta em dose mínima exigida para essa prática. Trata-se, antes, de serviço de inteligência orientado à repressão da dissidência política e social, inobstante se faça por ingenuidade ou por adesão consentida.

Ao problema metodológico acima, adiciona-se uma seletividade temática comum à escolhas das/os cientistas sociais pretensamente críticos/as ou progressistas. Há relativa abundância de pesquisas sobre objetos com os quais se guarda simpatia, como movimentos sociais, direitos humanos, políticas de sentido social transformador e partidos críticos ao regime. Omite-se, contudo, o estudo e o entendimento do status quo que se pretende transformar. Enquanto agentes de inteligência de Estado tentam estudar -malgrado sua usual indigência intelectual e inépcia científica – os movimentos sociais, seria de esperar que a intelectualidade crítica procurasse compreender o funcionamento, as subjetividades, os traços culturais, a história e a lógica dos serviços de inteligência. Da mesma maneira, a compreensão sociológica da direita social, do sectarismo cristão e do grande empresariado se revelaria indispensável para quem, de fato, pretendesse ultrapassar as formas de dominação ocorrentes em nossa sociedade. Ademais, temas como finanças públicas, direito tributário, organização societária corporativa, mercado de capitais, doutrinas militares, técnicas de propaganda comercial e uma infinita gama de objetos associados a inúmeros campos disciplinares, usualmente preteridos pelo pensamento que se identifica como gauche, se definem como imprescindíveis para a conformação de uma crítica, assim entendida em sua única modalidade digna desse nome, qual seja, aquela que é a um só tempo imanente, demolidora e transformadora.

Nota

[1]          ASSIS, Renato de Oliveira; NIENDZIELA, Marco Lúcio; BOTELHO, Willian Pina. A inteligência em apoio às operações no Ambiente Terrorista. A Lucerna, Escola de Inteligência Militar do Exército, ano II, n. 4, Nov. 2013.