Fotografia de Adria Meira
Fotografia de Adria Meira

Derrotar a ordem e o progresso

Wibsson Lopes

Estamos no calor de eventos de grandes proporções da política brasileira. Um Impeachment conduzido por forças reacionárias apeou a presidenta Dilma Rousseff do poder e colocou em seu lugar Michel Temer, do PMDB. As consequências imediatas ainda se fazem sentir e as futuras são incertas. O que já podemos entender é que vivemos o novo capítulo de uma batalha política que ganhou novos contornos após as mobilizações de Junho de 2013.

A ruptura de Junho

A explosão de 2013 foi antecipada por pequenos sinais, imperceptíveis para aqueles que reduzem a disputa política ao campo institucional, mas verdadeiros alarmes para aqueles que observam os movimentos sociais e a luta das classes subalternas. O levante dos operários de Belo Monte, as greves da construção civil e as ocupações de reitorias protagonizadas pelo movimento estudantil em 2011 indicavam que o incômodo dos de baixo se tornava gradativamente insustentável. Em sintonia com essa insatisfação, as mobilizações na Europa, Oriente Médio e Norte da África, bem como a luta no Chile, indicavam, cada uma a seu modo e atendendo determinadas especificidades , que havia um desconforto e um mal-estar com o capitalismo global e os limites da Democracia em várias partes do mundo. Junho de 2013 foi a explosão desse mal-estar no Brasil.

A grande vitória das manifestações de Junho foi dinamitar as coordenadas políticas estabelecidas pelos partidos da ordem. A polarização entre uma direita representada fundamentalmente pelo PSDB e uma esquerda que teria no PT seu maior referencial viu-se arruinada pela ação de jovens, trabalhadores e novos movimentos sociais. Questionando não só os partidos e organizações do poder mas todo o seu funcionamento democrático, Junho erigiu uma ameaça às classes dominantes. Depois de 2013, tornou-se impossível manter o quadro político tal como vinha se dando no país.

A luta institucional depois da explosão

Se o PT e as organizações de esquerda dentro do governo federal agiram em um primeiro momento com arrogância e desdém para com as novas mobilizações, em alguns casos até mesmo acusando de fascistas as manifestações, não tardou para que esse mesmo partido e seus aliados buscassem a simpatia de todos esses ativistas indignados com a situação política. As eleições de 2014 tornaram-se então uma arena para que PT, PSDB e a Rede, por meio da candidatura de Marina Silva, à época filiada ao PSB, disputassem para si a representatividade dos sentimentos de Junho de 2013. Através de uma grande campanha de marketing o PT arvorou-se como o legítimo representante do combate ao neoliberalismo e ao capital rentista. A candidatura Dilma Roussef apresentava-se então como a arma política capaz de derrotar Aécio Neves, o representante do verdadeiro retrocesso que poderia tomar conta do país. A estratégia foi eleitoralmente bem sucedida, mas revelou-se um estelionato eleitoral. Enquanto isso, a luta política foi jogada para dentro da câmara dos deputados, presidida por Eduardo Cunha e para o senado comandado por Renan Calheiros. As duas lideranças passaram a articular a queda da presidenta Dilma Roussef através de um processo de impeachment, contado para isso com o apoio da mídia, de novos partidos e organizações de verniz conservador e de uma classe média indignada que foi às ruas trajando as cores da bandeira e reproduzindo um discurso violentamente anticomunista, enxergando no PT uma agremiação que realmente portava todo o conteúdo que esta agremiação representou em seus primórdios. O resultado foi a saída da presidenta através de um processo de Impeachment altamente questionável em base às chamadas pedaladas fiscais. Na mesma noite em que Dilma deixou o senado sem a faixa presidencial, porém, iniciaram-se novas manifestações de rua em diversas capitais do país, com mais de 20 mil pessoas em São Paulo e 10 mil em Porto Alegre.

De volta às ruas contra o novo governo

Em pouco tempo no poder Temer já deu montas de empurrar goela abaixo da população uma série de medidas impopulares: alteração na CLT, reformas trabalhistas, pleno vigor da lei antiterrorismo e medidas que apontam para um verdadeiro Estado policial no Brasil. Diga-se de passagem que todas essas medidas já vinham sendo sinalizadas pelo PT, inclusive a lei antiterrorismo tendo sido sancionada ainda em 2014 pelo governo Dilma.

Buscar as raízes da repressão no chamado Golpe seria um equívoco. O Golpe, aliás, está apenas começando. Não é verdade que a Nova República correspondeu ao horizonte político dos que clamaram por democracia no período militar, assim como não é verdade que os governos Lula e Dilma foram um oásis popular em meio ao deserto autoritário e privatista dos governos militares, pemedebistas e tucanos. Todos estes governos tiveram em comum o alinhamento com o capital internacional e a manutenção de um regime anti-democrático. A abertura no Brasil nunca se concluiu. Muito da ditadura ainda permanece.

A reação a esses protestos, uma onda de repressão que não tem poupado agressividade, chegando até mesmo a cegar uma manifestante, são portanto um velho expediente. O próprio PT reagiu com truculência aos protestos do passado recente, valendo-se também de entulhos militares como a Lei de Segurança Nacional. O que é novidade, porém, é que a violência vem com a sanha das ameaças diretas do governo federal e o aplauso de organizações e intelectuais reacionários que clamam por mais violência contra a esquerda. O que é diferente agora é que um novo arranjo no poder foi gestado para aprovar medidas que vão de encontro à classe trabalhadora, medidas estas que o PT se viu emperrado de aplicar por conta da sua base nos movimentos sociais e seu discurso na campanha de 2014.

Essas manifestações porém, não parecem configurar um retorno ao espírito de junho de 2013. Tal operação seria impossível. Junho está encerrado, diluiu-se nos enfrentamentos quando da copa do mundo, ainda em 2014; esfumaçou-se nas promessas de campanha e no engajamento pela reeleição de Dilma Roussef; Tornou-se performance nas ocupações do Minc e na resistência cultural ao Impeachment. Nesse sentido, Junho e suas promessas são passado. Sua maior vitória foi abrir espaço para um novo momento político no país. As novas tarefas colocadas nessas mobilizações atuais são abrir caminho para que a classe trabalhadora desmonte o novo arranjo político proposto pelas classes dominantes. Mas para isso, é preciso criatividade, imaginação e disposição para o novo.

Por outro lado, Junho ainda sobrevive. Sobrevive essencialmente como algo transmitido às novas gerações e aos ativistas. Orna-se da mesma substância que faz da luta contra a Ditadura Militar uma tarefa ainda irresolvida dos nossos tempos, posto que a Ditadura Militar ainda vive nas ações repressoras do Estado contra manifestantes e minorias; no clima de insegurança que circunda os trabalhadores nas fábricas e os desempregados à procura de uma saída para a miséria; nos arrochos salariais e nos discursos de ódio contra mulheres, negros, indígenas e LGBT’s. Da mesma forma que vive a luta pelas Diretas Já e por uma nova constituinte — encampadas pela esquerda nos anos 1980 –, da mesma forma que sobrevive a Ditadura Militar, com suas tarefas irresolvidas e seus problemas ainda contemporâneos de todos nós, Junho segue presente. Respiramos o sentimento de Junho, o ar da revolta. Este espírito ainda nos acompanhará por um longo tempo e será um trunfo e uma centelha de esperança contra a barbárie de Michel Temer. Uma barbárie que tem como slogan o lema “Ordem e progresso”, velho conhecido de todos nós.