Ilustração de Marlon Anjos
Ilustração de Marlon Anjos

“DJ Coxinha”: a apropriação do rock pelo movimento pró- impeachment

Romulo Mattos

Um aspecto curioso das manifestações pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff é a trilha sonora saída dos potentes caminhões de som alugados pelos organizadores. A seguir, analisaremos três sucessos do rock brasileiro apropriados pela direita nas ruas, com atenção especial ao contexto em que foram criados e gravados, com o objetivo de deixar mais evidentes as contradições da trilha sonora escolhida pelos DJs Coxinhas.

1 – “Que país é esse” (Renato Russo)

Composta em 1978 e gravada em 1987, essa música tem uma dupla historicidade que deve ser analisada. Cantada inicialmente pela banda punk Aborto Elétrico nas calçadas de Brasília, o seu refrão é inspirado na indagação do então presidente da Arena (partido de sustentação da ditadura militar), Francelino Pereira: “Que país é esse em que o povo não acredita no calendário eleitoral estabelecido pelo próprio presidente?”. Essa frase de 1976 se referia à dúvida lançada pela oposição quanto à promessa do general presidente Ernesto Geisel no sentido de abrir gradualmente o regime, com eleição direta para governadores dali a dois anos. A letra critica elementos caros à ditadura militar, como a questão social “Nas favelas” e a “na Baixada Fluminense”; a iniquidade política representada por um Senado onde também há “Sujeira”; o descrédito com a Constituição, que “Ninguém respeita (…)”; o nacionalismo ufanista que leva todos a acreditarem “no futuro da nação”, apesar do desalentador cenário; a visão negativa do país que integra o Terceiro Mundo e é motivo para “Piada no exterior”; o genocídio indígena, que levaria o Brasil à riqueza caso todas as almas fossem vendidas “num leilão”. Isso tudo, além de lembrar a resistência armada à ditadura “no Araguaia” e a luta de classes na subversão do trabalhador cujo sangue “anda solto” mesmo após a sua morte, e é capaz de manchar documentos secretos “Ao descanso do patrão”.

Mais amplamente, o questionamento de Renato Russo era potencializado pela crise do “milagre brasileiro”, que propiciava a escalada da dívida externa e da inflação, se não bastasse o próprio arrocho salarial que financiara internamente tal política econômica e, consequentemente, depauperara as condições de vida da classe trabalhadora.

Quando finalmente chegou ao grande público, em 1987, “Que país é este” foi revalorizada segundo tal contexto histórico. No encarte do LP homônimo, Renato Russo explicou: “Nunca foi gravada antes porque sempre havia a esperança de que algo iria realmente mudar no país, tornando-se a música então totalmente obsoleta. Isto não aconteceu e ainda é possível se fazer a pergunta do título, sem erros”. No ano seguinte, declarou à imprensa: “Em outra época, talvez não estivesse falando Que país é este. Para mim, vai ser muito fácil fazer uma música para alguém que perdeu o emprego, porque estou vendo isso, tenho muitos amigos nessa situação. São coisas que me tocam emocionalmente”.

No governo Sarney, o país vivia os efeitos do Plano Cruzado II, que descongelara abruptamente os preços e assim favorecera o reajuste (ilegal) na faixa dos 100%. A superinflação e a nova conjuntura de corrosão do salário mínimo – oriunda das manobras no índice inflacionário e do golpe dado na regra da escala móvel dos salários – explicam a retomada do ritmo ascendente de greves, já em 1986. Embora “Que pais é este” não aborde a corrupção, é plausível que os casos dessa natureza ocorridos no em tal conjuntura tenham amplificado a repercussão da composição.

A pergunta presente no refrão (cuja indignação é potencializada pela dramaticidade do canto gritado de Renato Russo) ganhou novo fôlego nos dias de hoje, diante das práticas ilícitas dos líderes governistas e da crise econômica. Mas a apropriação desse material cultural pela direita e a extrema-direita nas ruas causa estranhamento por se tratar de uma letra de resistência a um regime ditatorial. Assim, a sua utilização por um movimento que apresenta inegável viés autoritário se torna conflituosa. Não obstante, é necessário lembrar os combativos conteúdos presentes na obra da Legião Urbana, e a própria prática política de Renato Russo, militante dos direitos gays e eleitor da esquerda brasileira. Em 1989, ele manifestou intenção de voto em Roberto Freire, candidato do Partido Comunista Brasileiro, e em 1994, decidiu-se por Lula, porque os seus amigos mais inteligentes e sensíveis preferiam o líder petista ao tucano Fernando Henrique Cardoso. Por fim, há um contundente depoimento seu ao programa MTV no Ar, de 1994: “E tem gente aqui no Brasil que está com esses papos de ‘ah, não, os militares têm de voltar’. (…) Será que esse povo esqueceu? (…) Será que nós esquecemos como é ruim não ter liberdade?”. É uma pena que Renato Russo não esteja mais entre nós, pelo seu talento e carisma, mas também para desautorizar o inadequado uso político de sua obra musical.

2 – “Brasil” (Cazuza, George Israel e Fausto Nilo)

Se “Que país é esse” foi um grande hit da música brasileira em todos os tempos (trata-se da quinta música mais executada no rádio e na televisão dos anos 1980), “Brasil” chegava diariamente a milhões de lares por ser o tema de abertura da novela “Vale Tudo”, de 1988. Esse grande sucesso da TV brasileira – escrito por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Basseres – abordava os temas da corrupção e da falta de ética, em um país com valores invertidos. A versão que a Globo colocou no ar não é a cantada por Cazuza, e sim a interpretada por Gal Costa (mas a gravação realizada por essa alavancou o registro feito por aquele). Assim como em “Que país é esse”, o refrão de “Brasil” traz um questionamento quanto à identidade nacional (“Brasil, mostra a sua cara”). Tendo em vista que essa música também foi gravada em meio à decepção com a Nova República, o contexto social e econômico do governo Sarney, citado na análise de “Que país é esse”, é válido para pensarmos a recepção e o incentivo à criação da composição de Cazuza. Um fato interessante é que havia uma mútua admiração entre os dois melhores letristas do rock brasileiro dos anos 1980.

Em “Brasil”, a democracia é vista como uma “festa pobre” armada para convencer o narrador/ cidadão brasileiro, que também a financiou e foi enganado – afinal, ele pagou por uma droga “malhada” (metáfora da tapeação). A percepção da continuidade da exclusão política no novo regime está na ideia de que o narrador/ cidadão brasileiro não foi eleito “chefe de nada” e ainda ficou “na porta estacionando os carros”. Já a crise econômica e a alta da inflação em escala ciclópica aparecem na imagem de um cartão de crédito que é “uma navalha” – o governo Sarney terminou em 1990 com inflação de 1764, 86%. O refrão não apenas questiona o caráter nacional, ao pedir para o país revelar sua verdadeira face, como sugere que o Estado brasileiro seja um imenso balcão de negócios, que confunde interesses particulares e públicos (ele teria, inclusive, um “sócio” não identificado). Tanto na versão de Cazuza quanto na de Gal Costa, esse estribilho é cantado sob o acompanhamento de um samba misturado ao pop/rock (na gravação do roqueiro brasileiro, esse recurso estético aparece nos minutos finais). Essa inteligência do arranjo dá a entender que a corrupção é uma tradição brasileira, assim como tal estilo é um símbolo nacional. O tema da frivolidade dos valores tem lugar na citação do concurso “Garota do Fantástico” (que aos domingos mostrava mulheres saindo do mar com biquíni fio dental ou se exercitando com roupa de ginástica), enquanto o assunto da corrupção ressurge na menção do suborno, tido como uma prática corriqueira em nosso território (“Não me subornaram/ Será que é meu fim?”). A poesia de Cazuza ironiza até o modelo de modernização da ditadura, ainda vigente naquela época, por meio da alusão à existência de uma TV a cores “Na taba de um índio”, que, aliás, estaria “programada para só dizer ‘sim, sim’” – sendo essa a sugestão do conformismo propiciado pela televisão. (Tendo em vista que essa composição foi tema de abertura de uma novela das oito, vemos como a indústria cultural pode se utilizar de ideias mais críticas para se reforçar). Embora se refira jocosamente ao Brasil como a “Grande pátria desimportante”, o narrador/ cidadão brasileiro proclama que “Em nenhum instante” trairia o seu país, dando a entender que as críticas não partem de um mero detrator, e sim de alguém que acredita na mudança do quadro nacional. No próprio refrão, ele grita para o seu país: “Confia em mim” .

Talvez esse elemento incluído na música ajude a explicar porque ela é uma das preferidas dos grupos de extrema-direita, que comparecem às passeatas com bandeiras da Ação Integralista Brasileira. Mas o nacionalismo praticado por Cazuza dificilmente pode ser caracterizado como de direita, diferentemente daquele observado movimentos pelo impeachment. Em tal canção, o cantor critica o governo de um político que fora presidente do partido de sustentação da ditadura, e representava a continuidade de interesses contrários àqueles pelos quais amplos setores da população tinham ido às ruas lutar, em 1984. Há em “Brasil” toda uma crítica social que passa ao largo do ideário daqueles que se batem pela saída da presidenta. Lembremos ainda que, em 1988, Cazuza cuspiu na bandeira brasileira, enquanto cantava essa composição. Diante da polêmica suscitada pelo episódio, ele escreveu uma carta ao Jornal do Brasil, tornada pública apenas depois de sua morte (o seu pai não a divulgara na imprensa, conforme o pedido do já convalescente cantor). Nesse documento, o artista explicou que, na verdade, cuspira no símbolo nacional não apenas uma, mas duas vezes, e que não se arrependera dessa atitude; significativamente, afirmou que agira contra o ato de um “ufanista” que jogara a bandeira da plateia para o palco. Disse que ela representava a história do país e que, portanto, cuspira na sua “história triste e patética”. Referindo-se ao entusiasmo com o fim da ditadura, recordou que se enrolara na bandeira brasileira no Rock in Rio, em 1985, “junto com uma multidão que acreditava que esse país podia realmente mudar”.

Se não bastasse tudo isso, Cazuza se definiu como socialista e admirador do Partido dos Trabalhadores, em entrevista a Jô Soares, em 1988, ano da gravação de “Brasil”. Nessa época, a prática política de tal agremiação parecia a muitos ancorada na atuação dos seus militantes junto aos trabalhadores, embora estivesse mudando de feição.

3 – “Inútil” (Roger Moreira)

Outro sucesso do rock brasileiro, gravado pela banda paulistana Ultraje a Rigor, liderada por Roger Moreira. “Inútil” se tornou um hino das Diretas Já, que atingiu seu auge em 1984, principalmente pelos versos: “A gente não sabemos escolher presente/ A gente não sabemos tomar conta da gente/ Inútil/ A gente somos inútil”. Entre as inspirações para compor a música, o autor se recorda especialmente de uma declaração de Pelé, segundo a qual os brasileiros não estariam preparados para votar. Mais tarde, com o avanço do movimento, o jogador mudaria de opinião e oportunamente apareceria na capa da revista esportiva Placar com uma camisa da campanha “Diretas Já”. O tom de desabafo da composição é reforçado pela sua harmonia, composta por apenas um acorde, que dá a sensação de uma mensagem unificada e soltada de forma urgente.

Para divulgar a canção, o então presidente da WEA, André Midani, distribuiu cópias em cassete para os amigos, dentre os quais o publicitário Washington Olivetto – que, por sua vez, repassou a fita ao radialista Osmar Santos, que a incluiu em seu programa Balancê, na Rádio Excelsior. Mestre de cerimônia do comício pró-eleições diretas em São Paulo, no dia 27 de novembro de 1983, o comunicador tocou “Inútil” no sistema de som, para 10 mil pessoas, com grande impacto. Até o político Ulysses Guimarães teria contribuído para divulgar a composição. Essa passagem é curiosa. Carlos Átila, porta-voz do presidente da República, João Figueiredo, declarou em janeiro de 1984 que o grande comício de Curitiba só serviria para desestabilizar o processo de abertura política. O peemedebista então teria dito que lhe enviaria o compacto com a tal música: “Ele que repita isso, que toque o disco, que fique ouvindo”. Há controvérsias quanto à veracidade dessa história, que foi divulgada por um jornalista, mas negada por Ulysses Guimaraes em um encontro com a banda. A relevância adquirida por essa canção até permitiu a Roger negar o rótulo de banda engraçadinha colado no Ultraje a Rigor, e dizer ela foi importante em termos sociais. Caetano Veloso chegou a declarar que “Podres Poderes” foi uma tentativa frustrada de repetir “Inútil”.

É curioso que um hino das Diretas Já tenha se tornado um símbolo do que podemos chamar de “Indiretas Já”. Nesse caso, houve principalmente a ressignificação da frase “A gente não sabemos escolher presidente”. Se em 1984 essas palavras criticavam os limites impostos aos direitos políticos dos brasileiros, hoje deslegitimam o resultado das urnas, pela ideia de que a população do país, supostamente ignorante, não sabe votar. A concordância verbal propositalmente precária da letra, que fez Roger ser acusado de tratar o povo como burro (o que foi negado por ele), ganha novo sentido diante do fato de que o maior representante do PT, Lula, é tido como “analfabeto” no discurso elitista e conservador da direita mobilizada em torno do impeachment.

Não obstante, Roger, que fazia oposição liberal à ditadura, hoje é entusiasta da queda da presidenta e promove palavras de ódio ao PT nas redes sociais. Ele tem o hábito de convocar a população para as passeatas golpistas, e se apresenta em festivais de música com uma camisa estampada com a frase que fez história nos anos 1980: “A gente não sabemos escolher presidente”. Se por um lado “Inútil” foi composta dentro de um sentido progressista, de crítica ao sistema político da ditadura – o que torna conflituosa a sua apropriação pelos organizadores dos protestos pró-impeachment –, por outro, a visão de mundo de seu compositor se harmoniza plenamente com os objetivos dos participantes das atuais micaretas golpistas da direita.

Concluindo, sabemos que o fenômeno social das apropriações é baseado numa operação de seleção e descarte dos materiais disponíveis, de forma a atender às expectativas e necessidades dos grupos envolvidos. Em estreita sintonia com os seus clientes presentes às ruas, os DJs Coxinhas selecionam nas canções do BRock o tema do nacionalismo e da indignação contra os abusos dos governantes brasileiros, mas descartam a ambiência de esquerda em que estavam inseridas quando se tornaram conhecidas, assim como a postura política de seus autores. Embora no caso de “Inútil” essa observação possa ser atenuada, não se pode esquecer que essa composição ganhou notoriedade como peça de propaganda política contra a ditadura militar e a favor do fortalecimento da democracia no Brasil (hoje ela é apropriada em sentido inverso).

Este texto chama atenção para o fato (decerto, irônico) de que os movimentos políticos e sociais da direita tenham de recorrer ao cancioneiro consagrado pela esquerda, na ausência de um repertório próprio, que os represente. Essa realidade fica ainda mais evidente quando os DJs Coxinhas se apropriam da MPB (o que é matéria para outro artigo). Os setores conservadores organizados foram capazes de promover manifestações de força que entraram para a história, como a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em 1964, mas não conseguiram criar canções que ficassem imortalizadas na memória política nacional. Está lançado o desafio para Lobões e congêneres.

Referências bibliográficas

Sobre a Legião Urbana e “Que país é esse”:

ASSAD, Simone. Renato Russo de A a Z. As Ideias do Líder da Legião Urbana. Campo Grande: Letra Livre, 1997.

MATTOS, Romulo Costa. “Que país é este”: a dupla historicidade de uma canção engajada do rock brasileiro. Blog Junho, 28 de jun. 2015.

VILLA-LOBOS, Dado, DEMIER, Felipe, MATTOS, Romulo. Dado Villa-Lobos: memórias de um legionário. Rio de Janeiro: Mauad X, 2015.

Sobre Cazuza e “Brasil”:

ARAÚJO, Lucinha, ECHEVERRIA, Regina. Cazuza: Só as mães são felizes. Rio de Janeiro: Globo, 1997.

Sobre Ultraje a Rigor e “Inútil”:

ASCENSÃO, Andréa. Ultraje a Rigor: Nós Vamos Invadir Sua Praia. Caxias do Sul, RS: Belas Letras, 2011.

MATTOS, Romulo Costa. Roger Moreira: das Diretas às Indiretas Já. Blog Junho, 5 de out. de 2015.