Colagem de Singh Bean
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Do desespero ao imobilismo: pessimismo adorniano e saídas epistemológicas

Bruno Marconi

Em recente texto publicado na Folha de S. Paulo, Vladimir Safatle[1] reivindica o legado de Theodor Adorno de forma a levantar uma crítica ao conceito de “lugar de fala”, presente no arcabouço teórico dos militantes de movimentos sociais representantes daqueles que sofrem opressões “transversais” (na falta de melhor termo – LGBTs, mulheres, negros e negras, indígenas). Para o autor, que se refere a um possível, porém inexistente, debate entre o próprio Adorno e Angela Davis, a forma conceitual do “lugar de fala” é nela mesma opressora, e devemos destruir a própria noção de perspectiva para fazer uma “fala sem lugar”, ou ainda, uma fala que destrói o seu próprio lugar.

A origem desse tipo de posicionamento teórico por parte de Safatle está na própria epistemologia de Theodor Adorno, atravessada pelo conceito de Aufklärung – traduzido para o português como “Esclarecimento”. Em seu livro clássico, produzido em coautoria com Max Horkheimer[2], Adorno retorna às ideias do Iluminismo alemão do século XVIII: o Esclarecimento seria um processo crescente de dominação do homem sobre a natureza, a partir do uso de uma “razão instrumental”. De acordo com os iluministas, nomeadamente Immanuel Kant, esse processo levaria à uma libertação progressiva do homem, afastando-o do mito e levando-o ao conhecimento real. A questão central para Adorno, porém, é que essa dominação da natureza se baseia, necessariamente, na dominação sobre outros homens. O Esclarecimento seria, portanto, tão somente a reafirmação da exploração da humanidade por si mesma, levando não à evolução, mas sim à autocastração e autodestruição.

De forma a exemplificar e analisar esse processo, Adorno e Horkheimer foram buscar na passagem da Ilha das Sereias da Odisséia de Homero, gênese da civilização ocidental, a presença do Esclarecimento. Nela, o engenhoso Ulisses, ao liderar sua tripulação por uma perigosa ilha habitada por sereias, ordena seus subordinados a amarrá-lo ao mastro do barco e a tamparem os próprios ouvidos enquanto navegam pela região. Dessa forma, Ulisses poderia apreciar o canto das sereias e não morreria. Temos aí o domínio do homem sobre o mito, ao mesmo tempo sustentado sobre as costas dos marinheiros, que não ouviram o canto e trabalharam para que seu mestre pudesse apreciá-lo.

A partir daí o Esclarecimento desenvolve-se historicamente, ampliando-se sobre o “princípio da imanência”. Esse princípio se refere à lógica de que o Esclarecimento sempre repete, buscando uma totalidade, a explicação sobre algum mito, agregando tudo o que pode a sua própria forma. Assim, nessa reprodução constante, acaba por reduzir toda a experiência possível. Não temos nada fora do Esclarecimento, pois ele define a própria história da humanidade. Não há nada de novo sob o sol – “essa insossa sabedoria reproduz tão somente a sabedoria fantástica que ela rejeita: a ratificação do destino que, pela retribuição, reproduz sem cessar o que já era”.[3] O Esclarecimento reduz a tudo, principalmente a nossa própria forma de conhecer o mundo.

“Fast-Forward” para a época em que Adorno e Horkheimer escreviam. O auge do processo de Esclarecimento criticado pelos dois seria a formação de uma “Indústria Cultural” – um processo sem agentes que conquista ele mesmo qualquer forma de revolta contra o próprio processo. Com a produção econômica em massa, vem o controle das subjetividades em massa. Assim, toda forma de crítica à produção capitalista é na verdade algo que já está previsto no próprio capitalismo – todo conteúdo já está presente e determinado pela forma. Os autores afirmam categoricamente: “quem resiste só pode sobreviver integrando-se”.[4] Não há possibilidade de contra-hegemonia, o capitalismo é uma totalidade e a luta de classes, tal como pensada por Marx e Engels, com um sujeito revolucionário, não poderia mais existir – apenas reprodução das mesmas estruturas de dominação. A cultura dominante seria, portanto, uma imensa bola de boliche sem lugar para colocar os dedos, que atropelaria a tudo e a todos, sem distinção.

Esse pensamento pessimista é fruto de uma época. A derrota da revolução socialista em 1918 e 1923, o avanço do nazismo, a Segunda Guerra Mundial e a descrença com o modelo soviético levaram intelectuais de esquerda, perseguidos na Alemanha, a dar um passo atrás a analisar a situação de forma crítica e calamitosa.[5] Walter Benjamin não tardou em traçar um nexo causal: “o avanço do fascismo é fruto de uma revolução fracassada”. Não há nada que se possa fazer, o proletariado não é mais um sujeito revolucionário e perdeu sua chance histórica. Resta, a nós, o imobilismo.

Não intentamos afirmar que Vladimir Safatle defende que sejamos imóveis frente às calamidades que o capitalismo nos impõe cotidianamente. Contudo, sua proposta – a de criação de um “não-lugar de fala” – parece seguir propriamente o pensamento adorniano e acaba nos levando, sim, ao imobilismo. Considera ele que a noção de “lugar de fala” é uma faceta do Esclarecimento, ou da “razão instrumental” habermasiana, que reproduz ela mesma a própria dominação a qual a humanidade está sujeita. Se todo o conteúdo já está presente na forma – ou seja, toda crítica já faz parte do sistema e o reproduz – a saída é mudar a forma. A saída é criar um “não-lugar de fala”. Essa proposta, porém, é algo além de nossos horizontes práticos. Como retirar de um indivíduo, grupo ou classe social a historicidade que a colocou em um “lugar” social específico? Como criar um sujeito neutro e vazio de pessoalidade e subjetividade? Como isso, necessariamente, romperia com as opressões do capitalismo contemporâneo? Nada disso é comentado.

(Cabe dizer aqui que essa epistemologia também é observada na crítica de Safatle e de outra adorniana, Marcia Tiburi, às práticas culturais do funk.[6] Para eles, o funk nada mais é do que a reprodução estética da opressão, e não é possível que seja uma forma de resistência – é apenas mais uma moral sustentada no mercado e na razão instrumental que reafirma a totalidade social de exploração e dominação.)

Quais seriam, portanto, as alternativas epistemológicas para a proposta adorniana defendida por Safatle? Curiosamente, uma das saídas está presente no próprio precursor da Escola de Frankfurt, Walter Benjamin, quando este propõe que devemos pentear a “história a contrapelo”.[7] É necessário, primeiramente, abandonar o mito em si próprio de que a sociedade humana é um uno indivisível e totalmente coeso, mesmo em seus conflitos e tensões. Se vemos dessa forma, não há processo histórico, não há transformação, há apenas reprodução. Se conseguimos enxergar a sociedade não como uma estrutura universalista, mas sim como um conjunto de relações, dessa forma conseguiremos identificar com clareza as resistências culturais, movimentos sociais que ampliam direitos de grupos historicamente oprimidos, contra-hegemonias e, vejam só vocês, até a luta de classes.

Se traçarmos cuidadosamente esse caminho, o conceito de “experiência” é reintroduzido na História, e a forma como cada indivíduo, grupo ou classe social “experimenta” a opressão tem nela mesma presente o princípio da transformação social e da resistência essa opressão, exercida por outro grupo social.[8] A luta é presente no nosso cotidiano, e ela não necessariamente é absorvida pelo sistema, porque não o reproduz em sua totalidade – antes, trata o sistema dentro de sua própria rede de vivências, ou de seu lugar social e oferece uma resposta, organizada ou não, contra (ou a favor) desse sistema. Nesse sentido, o “lugar de fala” como ferramenta discursiva para a desconstrução de privilégios e marcação de posições é essencial para que os movimentos sociais historicamente oprimidos possam cravar seus dedos nas rachaduras existentes dessa bola de boliche que é a cultura e, com muita força organizativa, rompê-la, para a construção de uma luta que transforme efetivamente a nossa vida.

Notas

[1] SAFATLE, Vladimir. Sem Perspectiva. In: Folha de S. Paulo, 1 jan. 2016. http://bit.ly/1UoZm9G

[2] ADORNO, Theodor et HORKHEIMER, Max. O Conceito de Esclarecimento. In: Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1986.

[3] Idem, p. 9.

[4] ADORNO, Theodor. HORKHEIMER, Max. A Indústria Cultural: o esclarecimento como mistificação das massas. In: Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1985. p. 113-156.

[5] MATOS, Olgária C. F. A Escola de Frankfurt: luzes e sombras do Iluminismo. São Paulo: Moderna, 1993. p. 5-8.

[6] SAFATLE, Vladimir. O fim da Música. In: Folha de S. Paulo Online, 09 out. 2015. (http://bit.ly/1UoZm9G). TIBURI, Márcia. A nova moral do Funk. In: Revista Cult, edição 163. (http://bit.ly/1SS1usf)

[7] “A empatia com o vencedor beneficia, sempre, portanto, esses dominadores. Isso diz tudo para o materialista histórico. Todos os que até hoje venceram participam do cortejo triunfal, em que os dominadores de hoje espezinham os corpos do que estão prostrados no chão. Os despojos são carregados no cortejo, como de praxe. Esses despojos são o que chamamos de bens culturais. O materialista histórico os contempla com distanciamento. Pois todos os bens culturais que ele vê têm uma origem sobre a qual ele não pode refletir sem horror. Devem sua existência não somente ao esforço dos grandes gênios que os criaram, como à corvéia anônima de seus contemporâneos. Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie. E, assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é, tampouco, o processo de transmissão da cultura. Por isso, na medida do possível, o materialista histórico se desvia dela. Considera sua tarefa escovar a história a contrapelo.” BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de História. In: Magia e Técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 225 (Tese VII)

[8] “Os homens e mulheres também retornam como sujeitos, dentro deste termo [experiência] – não como sujeitos autônomos, ‘indivíduos livres’, mas como pessoas que experimentam suas situações e relações produtivas determinadas como necessidades e interesses e como antagonismos, e em seguida ‘tratam’ essa experiência em sua consciência e sua cultura das mais complexas maneiras e em seguida agem, por sua vez, sobre sua situação determinada.” THOMPSON, E. P. A Miséria da Teoria: ou um planetário de erros – uma crítica ao pensamento de Althusser. Rio de Janeiro: Zahar. 1981. p. 182