Ilustração de Marlon Anjos
Ilustração de Marlon Anjos

Do Gênesis ao Apocalipse: uma carta para Sebastião Salgado

José Rodrigues

“Existe um quadro de Klee intitulado ‘Angelus Novus’. Nele está representado um anjo, que parece estar a ponto de afastar-se de algo em que crava o seu olhar. Seus olhos estão arregalados, sua boca está aberta e suas asas estão estiradas. O anjo da história tem de parecer assim. Ele tem seu rosto voltado para o passado. Onde uma cadeia de eventos aparece diante de nós, ele enxerga uma única catástrofe que sem cessar amontoa escombros sobre escombros e os arremessa a seus pés. Ele bem que gostaria de demorar-se, de despertar os mortos e juntar os destroços. Mas do paraíso sopra uma tempestade que se emaranhou em suas asas e é tão forte que o anjo não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, para o qual dás as costas, enquanto o amontoado de escombros diante dele cresce até o céu. O que nós chamamos de progresso é essa tempestade” (Walter Benjamin, Tese IX, Sobre o conceito de história).

Prezado Senhor Sebastião Salgado:

Acompanho o seu trabalho e sua trajetória faz mais de duas décadas.

Com surpresa e admiração, faz pouco tempo, tomei conhecimento de sua decisão em florestar a propriedade de sua família, povoando-a com sementes de sua memória infantil, além de localizar, resgatar e proteger os olhos d’água, nascedouros de grandes, médios e pequenos rios, todos igualmente necessários.

Da mesma forma, fiquei impressionado, aturdido e admirado pela sua mais recente exposição Gênesis, e de sua publicação homônima.

Contudo, naquela momento, ao fruir Gênesis, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, em  2013, algo me perturbou intensamente: o patrocínio da Vale (ex-do Rio Doce), desde 2008.

Alguns de seus (poucos) detratores, até aquele momento, falavam de que seu trabalho como fotógrafo estetizava e vendia a miséria dos trabalhadores. Contudo, isso não me perturbava. Sua trajetória como estudioso da economia capitalista e sua migração para a fotografia sustentava facilmente uma interpretação: registro e denúncia da exploração, sob o modo de produção capitalista, uma arqueologia imagético-poética de uma etapa (fordista e mesmo pré-fordista), naquilo que parecia ser uma rápida superação desses regimes de acumulação, precisaria ser feito. E foi muito bem feito.

Mas, ao fim de Gênesis, perguntei-me sobre os limites do mecenato. Pensei, ora, sob o capitalismo, nenhuma ação deste porte (com os gigantescos custos com as expedições de registro fotográfico nos lugares mais remotos do mundo, além de todos os demais, associados ao processo de montagem da exposição, passando pela produção e curadoria dos instantâneos e do fotolivro) poderia se dar sem o financiamento de grandes empresas. Pensei ainda, o trabalho de Sebastião Salgado – sem dúvida – não foi limitado pelo patrocínio privado empresarial.

Ora, mas por que a Vale (do Ex-Rio Doce) investiria seu capital em um trabalho notadamente ambientalista? A resposta hipotética era mais ou menos óbvia: à Vale, empresa notoriamente destruidora do ambiente natural, seria conveniente tentar sobrepor a imagem e as imagens de Sebastião Salgado às trágicas cenas de exploração humana e natural por ela perpetradas, por décadas, antes em caráter estatal e depois de forma privada.

Mas, a bem da verdade, o trabalho poético fotográfico estava muitíssimo bem feito. Valeu o financiamento empresarial privado da Vale.

Valeu mesmo?

Obviamente, o senhor não tem qualquer responsabilidade sobre as decisões da Vale do Ex-Rio Doce, tampouco sobre o desastre de Mariana, originário de uma das empresas do grupo Vale (do Ex-Rio Doce, para ser mais preciso). Não era o senhor responsável pelo monitoramento das represas ou de quaisquer outros processos de “gerenciamento de riscos” desta mega empresa mineradora. Portanto, não lhe recai qualquer responsabilidade sobre o rompimento da(s) barragem(ns) da Samarco.

Contudo, causou espécie ler o Comunicado sobre o Rio Doce, de 13 de novembro de 2015, de seu Instituto Terra, no qual o papel da Samarco e da Vale, esta proprietária daquela, além da BHP, é completamente ignorado. De fato, um leitor desavisado, agora ou principalmente no futuro, não saberá – pela nota do Instituto – que tais empresas estão “envolvidas” no talvez maior desastre ambiental do Brasil. Ao se ler a nota, quase parece se tratar de um desastre natural, isto é, uma ação sem sujeito.

De passagem, cabe também registrar que, analogamente ao então presidente Lula  que – diante dos familiares enlutados pela trágica morte de toda a seleta equipe de pesquisadores e técnicos do então Programa Espacial Brasileiro – afirmou que “havia males que vinham para o bem”, nossa atual presidenta Dilma disse que o Ex-Rio Doce “ficará melhor do que era antes”… Enfim, não me parecem declarações que merecem ser corroboradas, nem mesmo com um constrangido silêncio.

O senhor e o Instituto Terra precisariam ter, no mínimo, nomear, registrado, na nota, o nome das empresas diretamente “envolvidas” na gênese da tragédia. Sebastião Salgado e o Instituto Terra precisariam não apenas se dirigirem ao Estado e à sociedade civil e prestar solidariedade técnica. Precisam se dirigir diretamente à sua patrocinadora – a Vale do Ex-Rio Doce -, além  de à Samarco e à BHP, e condenar veementemente suas ações e cobrar que assumam imediatamente – de fato e de direito – as suas inderrogáveis responsabilidades sociais, ambientais, econômicas, civis e eventualmente criminais.

O silêncio sobre as “empresas envolvidas” – Samarco, Vale e BHP – responsáveis direta ou indiretamente pelo apocalipse ambiental, ainda em curso, no Brasil, com origem na cidade histórica de Mariana, não é admissível.

Finalmente, em sua entrevista a O Globo, em 20 de novembro, o senhor explicita as empresas responsáveis pelo apocalipse: as duas maiores empresas mineradoras do mundo.

Contudo, mais adiante comete uma nova impropriedade, na minha modesta opinião, igualmente inaceitável: todos são igualmente responsáveis pela forma como os negócios privados são geridos: Estado, empresários, executivos e consumidores. Com efeito, diante da pergunta do jornalista Arnaldo Bloch, “Por que aconteceu o desastre?”,  sua resposta foi:

“Eu não tenho como explicar, nem cabe a mim. Há mais de 765 barragens como esta em Minas Gerais. Um acidente pode acontecer. E outros podem vir. Você tem um carro? Tenho certeza quase absoluta de que ele saiu de uma dessas minas. A sociedade de consumo que vivemos faz com que tenhamos minas, com que tenhamos exploração de petróleo. As pessoas gritam porque polui, mas têm seus carros. Mas quem polui somos nós, é o nosso modelo de vida. É este modelo que temos que questionar.” (Bloch, 2015) p. 8).

Sim, prezado Sebastião Salgado, é este o modelo societário que temos que questionar. Ora, senhor, como economista, fotógrafo e intelectual, bem sabe que a utilização da expressão sociedade de consumo encobre mais do que revela o aspecto fundamental da sociedade contemporânea. O consumo e a produção são aspectos necessariamente integrados e que, nesse sentido, vivemos não em uma sociedade qualquer de consumo, mas numa sociedade cuja produção (e o consumo) se dão sob o Modo de Produção Capitalista. O senhor também é sabedor que o carro que o jornalista ou este missivista eventualmente possuam não é de mesma natureza que os caminhões, usinas, automóveis, navios, mineriodutos que a Samarco-Vale-BHP, ou qualquer outra empresa, possuem. O meu carro é um bem de consumo, sim, de consumo, enquanto aqueles outros são bens (ou meios) de produção. Por favor, não faça esta confusão conceitual, que no fundo é política e, portanto, ética.

Com relação à segunda pergunta, “Mas não houve exploração em excesso, má fiscalização?”, sua resposta foi:

“Qualquer coisa que se diga agora é um tiro no escuro. Todas essas minas são feitas para garantir o conforto no qual optamos por viver. As empresas fazem parte de tudo isso. E somos coproprietários às vezes sem saber. Você tem um pouquinho mais de dinheiro, seu gerente vai dizer: ‘Eu te compro umas ações’. Se você examinar que ações são essas, a Vale e a Samarco estão lá” (idem).

Novamente, uma confusão conceitual é propagada. Sim, mesmo que a chamada classe média (e não nos referimos obviamente à nova classe média [sic], pois esta não possui ações, nem mesmo poupança, quiçá FGTS ou previdência social) tenha parte de suas economias aplicadas em fundos de renda variável (para utilizar a noção mercadológica) isto não a torna sócia de fato da Samarco-Vale-BHP ou de quaisquer outras empresas SA. Bem sabemos como funcionam os grandes conglomerados e como são tomadas as decisões empresariais: os controladores das empresas, isto é, o grande capital financeiro, através de seus prepostos, estes sim sócios minoritários, decidem a partir do que entendem lhes ser mais lucrativo. Apenas isso os guia.

Em seu raciocínio, acompanhado por milhares, talvez dezenas de milhares de leitores, dentre eles, certamente, muitos destes seus admiradores, contribui para ampliar a mancha espessa, opaca e ocre que cobre o Ex-Rio Doce, desde Mariana até Linhares, já adentrando ao Atlântico, e toda a realidade societária. Aliás, sociedade a qual nenhum de nós optou por viver. Contraímos por nascimento os vínculos necessários em qualquer sociedade, principalmente, no capitalismo tardio, pois este está em todo o globo, como bem sabemos, faz pelo menos 167 anos. A confusão conceitual, em última instância, contribui para encobrir a verdade de que a sociedade em que vivemos é antagonicamente dividida entre duas classes sociais fundamentais. Classes sociais com riquezas, poderes e saberes muito diferentes, digo, desiguais e, portanto, com responsabilidade também imensamente desiguais.

Ao comentar a Tese IX de Benjamin, acima em epígrafe, Michael Löwy, um brasileiro, que como o senhor viveu e que ainda vive na França, a quem provavelmente o senhor conhece, nos diz:

“‘Marx havia dito que as revoluções são a locomotiva da história mundial. Mas talvez as coisas se apresentem de maneira completamente diferente. É possível que as revoluções sejam o ato, pela humanidade que viaja nesse trem, de puxar os freios de emergência’ [Benjamin, apud Löwy, p.94]. A imagem sugere, implicitamente, que se a humanidade permitir que o trem siga seu caminho – já inteiramente traçado pela estrutura de aço dos trilhos – se nada vier a interromper seu curso vertiginoso, vamos rápida e diretamente para o desastre, o choque ou a queda no abismo”. (Löwy, 2005, p. 93-94).

Assim, se algum responsabilidade temos  aqueles que  integramos cerca de 98% da população mundial, ou seja, a classe trabalhadora,  para com este “modelo que temos que questionar”, é que ainda não fomos capazes de assumir a história em nossas própria mãos e, na minha opinião, dar consequência ao alerta de incêndio que Walter Benjamin nos legou.

Atenciosamente,

José Rodrigues

Professor da Faculdade de Educação da

Universidade Federal Fluminense, em Niterói (RJ).

PS: No Instituto do Noroeste Fluminense de Educação, da UFF, localizado em Santo Antônio de Pádua (RJ), há uma exposição permanente de seu trabalho, doado pelo Instituto Terra. Todos gostam e lhe são agradecidos.

Referências bibliográficas

INSTITUTO TERRA. Comunicado sobre o Rio Doce. 13 nov. 2015. Disponível em: http://bit.ly/1OpSib6

BLOCH, Arnaldo, “O rio agora é uma calha estéril cheia de lama”, diz Sebastião Salgado. O Globo, 20 nov. 2015. Disponível http://glo.bo/1N5LEDb

LÖWY, Michael. Walter Benjamin: aviso de incêndio: uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. São Paulo: Boitempo, 2005.