Ilustração de Marlon Anjos
Ilustração de Marlon Anjos

Donald Trump e a rebelião “white trash”

Tatiana Poggi

Donald Trump, o empresário bilionário e showman, é o representante Partido Republicano nas eleições dos Estados Unidos. Desde o lançamento de sua candidatura, passando pela atuação nas primárias, Trump vem “causando” na corrida eleitoral norte-americana por sua excentricidade e desprezo ao politicamente correto, verbalizando energicamente e sem pudor a defesa de políticas excludentes e discriminatórias.

Porém, essa polêmica figura e suas assertivas nada têm de cômico ou bufão; ofuscou candidatos tradicionais do Partido Republicano, com longa bagagem política e capital cultural, como Jeb Bush. A surpreendente ascensão de Trump durante a campanha das primárias trouxe a tona e deu alento a antigos ressentimentos, medos e inseguranças de uma parcela expressiva da classe trabalhadora branca norte-americana, popularmente conhecido pelo codinome derrogatório de “white trash” ou lixo branco.

Esse peculiar conjunto de brancos pobres, com baixo nível educacional e especialmente concentrados nas zonas rurais do Sul e do meio Oeste sofreu historicamente dois grandes impactos que alteraram sensivelmente seu status social: a abolição da escravidão e o fim do regime segregacionista do Jim Crow. Tais mudanças em direção a uma maior inclusão social, respeito à diversidade e em defesa do multiculturalismo tocaram profundamente o ego e a auto-estima dessa parcela empobrecida e desvalorizada da classe trabalhadora norte-americana, retirando-lhe a base de uma suposta superioridade e privilégios que a diferenciavam do “outros”, imprimindo à raça um papel importante na construção da identidade nacional. O ataque a sua condição privilegiada e o enfraquecimento no imaginário social de símbolos de distinção dessa natureza fez com esse setor social reagisse de forma agressiva, muitas vezes defendendo políticas que vêm de encontro ao seu próprio interesse sócio-econômico. O surgimento de grupos como a Ku Klux Klan logo após o desmantelamento da sociedade escravista e a construção gradativa nos estados do sul do regime Jim Crow, baseado no princípio do “iguais, mas separados”, constituem expressões de revolta e inconformismo, quimeras de um mundo antigo, a força da tradição que insiste teimosa em povoar e reconfigurar o presente. A defesa da supremacia branca na forma de organizações civis ou do regime segregacionista cumpre uma função social e política imprescindível no sentido de amansar as paixões do “white trash”, direcionando uma possível revolta social para a questão racial, reforçando assim a ideia de que o problema estaria na inclusão e ascensão social do negro, não no fato dos “white trash” serem caracterizados como lixo. Até os anos 1970 aproximadamente, o Partido Democrata arregimentou parte dessa revolta através da sobrevivência dos Dixiecrats; mais recentemente os Republicanos conquistaram o “lixo branco” em torno de uma agenda neoliberal com toques de fundamentalismo religioso, racismo e xenofobia velados.

Aproximados 30 anos se passaram e sobreviver no mundo neoliberal, globalizado, tem se mostrado um desafio penoso e atroz para a classe trabalhadora. Um largo conjunto de transformações resultantes da crise estrutural do capital e derivadas de políticas de flexibilização do trabalho e austeridade neoliberal comprometeram sensivelmente a qualidade de vida dos trabalhadores, não deixando de fora logicamente o “white trash”. Como podemos ver nos dois mapas estatísticos retirados do US Census Bureau, o aumento da probreza é evidente e expressivo no país como um todo, não se limitando às regiões do velho Sul, mas mostrando-se particularmente grave em regiões de alta concentração populacional, décadas antes marcadas pela prosperidade.

O sonho americano resvalou em pesadelo; o sol não brilha mais Califórnia; a Big Apple já não parece tão grande assim. As promessas Republicanas de parceria, de defesa da “verdadeira América” contra os indesejáveis sugadores do welfare, imigrantes preguiçosos e abusados, os famosos aliens ilegais, e potenciais terroristas desmancharam-se no ar e a vida do “white trash” parece afundar no lixo a cada dia mais. Isso vem comprometendo o frágil compromisso e apoio dessa parcela da classe trabalhadora ao Partido Republicano, uma situação cada vez mais difícil de se sustentar, aliviada somente por empreitadas militares espetaculares como as guerras no Oriente Médio e o fortalecimento de novos bodes expiatórios, representados atualmente pelo elemento árabe e muçulmano.

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Como observado em outros momentos da história, decadência e perda de lugar social geram revolta e não nos parece ser coincidência o aumento gradativo de grupos de ódio (coletivos que defendem e promovem abertamente a violência e a intolerância) durante o mesmo período. Esses grupos foram se tornando particularmente atrativos ao white trash, mas também a uma parte significativa dos setores médios que ao longo de três décadas foram sendo empurrados à proletarização. Quantitativamente, os simpatizantes de grupos de ódio representam ainda um contingente pouco expressivo. Contudo, como nos mostra o gráfico, esse número vem crescendo assustadoramente.

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Fonte: Southern Poverty Law Center. https://www.splcenter.org/file/11756

De modo geral, não encontram muita receptividade no âmbito parlamentar; alguns sequer apostam na política partidária e em canais de representatividade como espaços de disputa por julgarem tais arenas demasiadamente corrompidas ou por clara adesão a um princípio antiliberal. Historicamente, conseguiram algum espaço entre os Dixiecrats e as alas mais conservadoras do Partido Republicano, a exemplo de Barry Goldwater (candidato Democrata nas primárias de 1964), George Wallace (governador democrata do Alabama nos anos 1960 e 1970; candidato a presidente pelo American Independent Party 1968) e mais recentemente Patrick Buchanan (candidato Republicano nas primárias de 1992 e 1996).

Eis que surge no cenário político essa figura performática, Donald Trump, um empresário de sucesso, neto de um autêntico self-made man que ascendeu economicamente a partir de um pequeno negócio de restaurante durante a corrida do ouro no Alaska. Trump continuou o legado de ascensão e sucesso, tornando-se dono de um império diversificado e multibilionário, um verdadeiro tubarão da América, além de showman, graças à participação e produção do seriado televisivo The Apprentice.

Na política, apoiou e contribuiu para campanha de candidatos de ambos os grandes partidos, foi filiado ao Partido Republicano entre 1987 a 1999; saiu e contribuiu para a fundação de um partido independente – Reform Party – até finalmente anunciar sua candidatura a presidência novamente pelos republicanos em 2015. Foi crescendo nas campanhas, impulsionado justamente pelo que muitos julgavam seu “tendão de Aquiles”: a retórica agressiva e ofensiva; o discurso de ódio explícito; e a naturalização e banalização da violência.

Suas propostas de construção de um muro eletrificado na fronteira com o México, rechaço ao Obamacare em prol de planos de saúde populares, revisão de tratados comerciais desfavoráveis ao trabalhador norte-americano (NAFTA e a China), reestruturação das forças armadas e combate ao terrorismo, proibição da entrada de imigrantes vindos do Oriente Médio, não vêm de encontro a agenda neoliberal em sua essência, mas agregam a ela um nacionalismo típico da velha tradição do populismo americano. Declarações bombásticas associando mexicanos a estupradores, traficantes e ladrões de empregos, objetificando e depreciando mulheres e homossexuais, atacando empresários com investimentos off-shore trazem a tona a velha revolta dos farmers e o US People’s Party do final do XIX contra banqueiros e plutocratas, bem como mais recentemente o ressentimento segregacionista representado por Goldwater e Buchanan.

O fenômeno Trump se alimenta do medo, do desespero e do orgulho ferido dos WASP (white anglo-saxon protestant). Apresenta-se como defensor dos diretos e interesses do trabalhador branco norte-americano, do homem comum, pai de família, etc. Sua retórica nacionalista e discriminatória vem atraindo desde elementos mais conservadores, como os associados ou simpatizantes de grupos de ódio, até aqueles tradicionalmente engajados em movimentos sindicais e favoráveis à políticas protecionistas.

Pela primeira vez em muito tempo, uma variedade de supremacistas brancos, desde grupos neoconfederados a neofascistas, dizem sentir-se parcialmente representados na arena da política partidária. Conhecidos supremacistas brancos como o ex-político, hoje radialista, David Duke, vem encorajando seus ouvintes a votar em Trump. Uma matéria recente do NY Times traz declarações de outros representantes dessa vertente política. Segundo Richard Spencer, fundador do National Policy Institute, um think-tank dedicado à defesa “da herança, identidade e futuro dos descendentes de europeus nos Estados Unidos”, Trump “está trazendo a política de identidade para os brancos de volta a esfera pública de uma forma que ninguém fez” “Não acho que ele pense essa questão da forma que eu e algumas pessoas entendem. Acho que ele está reagindo à sensação de que ele perdeu seu país”. Andrew Anglin, editor do site neofascista The Daily Stormer, declarou: “Trump está disposto a dizer o que a maioria dos americanos pensa: é hora de deportar essa gente. Ele também não hesita em chamá-los de criminosos estupradores, assassinos e traficantes de drogas.” James Taylor e William Johnson, ambos ativistas do American Freedom Party foram categóricos: “Não precisamos de muçulmanos. Precisamos de brancos inteligentes e bem instruídos que vão assimilar nossa cultura. Votem em Trump.”[1]

O que notamos é que afora seu claro compromisso com o ataque e à perseguição às minorias, sua plataforma, contudo, tem muito pouco a oferecer ao dito americano médio. Trump rejeita abertamente a saúde pública gratuita e o aumento do salário mínimo. Apenas após sua nomeação oficial como candidato republicano, declarou-se aberto a alguma discussão sobre o tema. Além de saúde privada e um evidente desconforto com políticas redistributivas, sua agenda social não vai muito além da defesa do direito de portar armas, da pena de morte e de programas educacionais alternativos à escola pública.

Mas o perigo reside justamente nesse aparente semblante de resistência. E Trump joga com isso. Uma campanha na qual poucos apostavam, desdenhavam e faziam piada foi tomando proporções impressionantes. De declaração em declaração, de entrevista em entrevista, de debate em debate, Trump contribuiu para um movimento em curso já há algum tempo: trazer o ódio, a violência e a intolerância para o mainstream, tornando-os cada vez mais aceitáveis, concebíveis e desejáveis. Ele vai assim, com seu tom jocoso e brincalhão, imprimindo novas feições ao Partido Republicano, fortalecendo uma ala ainda minoritária, mas crescente, representada pelo Tea Party, setores mais radicais da bancada cristã e remanescentes da velha tradição populista. Há bem pouco tempo, criaturas como Sara Pailin eram ridicularizadas dentro do próprio partido; hoje temos Trump candidato republicano oficial. Como os cães de Ramsay Bolton em Game of Thrones, o white trash foi privado de alento e alimento por muito tempo, deixado à míngua pelo partido no qual depositou seu fiel apoio por aproximadamente 30 anos. Em seu desespero, voltam-se agora contra seus mais tradicionais líderes, devorando suas entranhas e aliando-se àquele que da penumbra surge com um discurso salvador ao povo e pelo povo.[2]

Referências bibliográficas

APPLE, Michael. Educando à direita: mercados, padrões, Deus e desigualdade. São Paulo: Cortez, 2003.

DIAMOND, Sara. Roads to Dominion: right-wing movements and political power in United States. New York: Guilford, 1995.

MURRAY, Charles. Coming Apart. New York: Crown Forum, 2012.

POGGI, Tatiana. Faces do extremo: neofascismo nos EUA 1970-2010. Curitiba: Prismas, 2015.

FOR WHITES ensing decline, Donald Trump unleashes words of resistance. 13 jul. 2016. Disponível em: http://nyti.ms/29DL04k

DONALD Trump and the long Tradition of american populism. Newsweek. 22 ago. 2015. Disponível em: http://bit.ly/1JceV0k

IS THE AMERICAN Dream falling Us? US News. 3 dez. 2015. Disponível em: http://bit.ly/1HHZPCA

Notas

[1] Ver FOR WHITES (2016)

[2] Agradeço ao colega Thaddeus Gregory Blanchete pela inusitada analogia à cena dos cães no seriado Game of Thrones.