Ilustração de Amalyn Malix
Ilustração de Amalyn Malix

Elis Regina e os conflitos no campo musical brasileiro dos anos 1960 e 1970

Romulo Mattos

I

O filme Elis, de Hugo Prata, enfatiza a personalidade de Elis, sem aprofundar a explicação sobre a sua carreira. Essa característica estrategicamente contribui para a anulação das contradições de sua atuação profissional e das disputas que protagonizou no campo musical dos anos 1960 e 1970, principalmente. Essa crítica será desenvolvida com vagar neste texto.

Como a obra cinematográfica inicia a história de Elis em abril de 1964, ela oculta a existência do primeiro disco de Elis, Viva a Brololândia, lançado em 1961 pela gravadora Continental. Nele os versos de amor adolescentes e as harmonias e melodias pouco complexas se aliam ao universo do rock no estilo de Cely Campello. Por essa razão, o LP era odiado pela cantora, que evitava falar sobre ele (assim como o diretor da cinebiografia, aliás). O tal ritmo americano seria intensamente combatido por Elis, na segunda metade dos anos 1960. Igualmente, não foram mencionadosos seus álbuns gravados pela CBS, cujo repertório era tratado por determinados setores artísticos como antigo, quadrado, por não dialogar com as conquistas estéticas da bossa nova. Nesse sentido, os boleros, os chá-chá-chás e os sambas-canções compõem o repertório de: Poema de Amor (1962), Elis Regina (1963) e O bem do Amor (1963). Três trabalhos com pouca repercussão, que foram convenientemente expurgados do roteiro.

Também ficou de fora o conhecido álbum Elis & Tom, de 1974. A Phillips ofereceu a Elis
Regina um disco em homenagem aos 10 anos de contrato com a empresa, e a cantora escolheu Tom Jobim como seu convidado. Ainda associada ao comercialismo, ela visava o prestígio de seu novo parceiro musical, que, por sua vez, lamentava o escasso reconhecimento popular no Brasil. Mas não faltaram rusgas durante a gravação. O livro Furacão Elis, de Regina Echeverria, cita as conversas da artista com Roberto Menescal, então diretor artístico da Phonogram, nas quais qualificou Tom como “chato” e “babaca” – apesar de ter elogiado o resultado parcial das gravações.

Em sua autobiografia Solo, Cesar Camargo Mariano dá a entender que o maestro da bossa nova não confiava no seu trabalho como arranjador do LP. Por meio de telefonemas ao longo do dia, Tom o interrogava sobre cada passo dado. Por esse motivo, o diretor musical de Elis passou praticamente de três semanas sem dormir (assim como o compositor). Esse último também discordava da abordagem moderna de suas músicas, com instrumentos eletrônicos e acordes tidos como americanizados. O arranjador se viu forçado a dizer (educadamente) a Tom que se tratava de um álbum de Elis, e por essa razão seguiria os princípios estéticos da obra da cantora. Apesar das fortes discordâncias, o compositor colaborou no estúdio (cantou, tocou bem piano e até “arranjou” uma música) e o disco foi sucesso de público e de crítica – além de ter sido considerado positivo por Mariano, Elis e Tom. Esse chorou ao ouvir as fitas com a gravação, e reconheceu sua dificuldade para aceitar as novidades propostas pelo casal.

Essa história não teve lugar na ficção, que, em uma rápida passagem, mostra Cesar Camargo Mariano tocando o tema de “Águas de Março”, ao lado de Elis, em uma cena romântica. E só. Por ser um marco da carreira da artista, e ter resultado em um álbum considerado clássico, com repercussão internacional, o encontro entre a cantora e Tom Jobim poderia ter sido lembrado no filme. Mas essa inclusão obrigaria o diretor a abordar o conflito artístico entre essas duas grandes personalidades musicais. Discordância essa que tem a ver com a recusa da intérprete à forma “pura” da bossa nova, que ela sempre criticou (e até detestava), e a resistência do compositor à modernização operada em sua obra.

É curioso que o nome de Tom Jobim tenha sido omitido em outra passagem polêmica, logo em uma das primeiras cenas. Em 1964, Elis já morava no Rio de Janeiro quando recebeu o convite de sua então gravadora, a CBS, para participar com Carlos Lyra da gravação do disco Pobre Menina Rica, baseado na peça teatral homônima. Na cinebiografia, diferentemente, a cantora toma conhecimento dessa oportunidade de trabalho por meio de um anúncio de jornal. O roteiro foi condizente com a realidade quando caracterizou essa experiência como negativa para a artista. Mas alterou novamente os fatos no trecho em que Elis conta ao pai que, ao fim do malogrado teste, ouviu alguém dizer que ela era uma “cantora de churrascaria”. Essa não foi a frase verdadeira, de acordo com o livro A bossa do lobo, de Denilson Monteiro, e sim: “Esta gaúcha é muito caipira. Ainda está cheirando a churrasco”. E, além de a jovem artista não ter ouvido esse comentário difamatório, o seu autor foi o próprio Tom. Escalado para ser o arranjador do LP, ele vetou a participação de Elis, antes de ser substituído por Radamés Gnatalli, devido ao seu receio de se envolver com a temática política, pouco depois do golpe militar.

II

Elis teve uma relação conflituosa com Tom, assim como com a bossa nova, conforme foi escrito. Embora a MPB (da qual a cantora foi uma das maiores representantes) se aproprie de elementos da bossa nova, a intérprete recusava a perspectiva minimalista desse último estilo. A obra cinematográfica cita um comentário seu contra a maneira de cantar “para dentro”, mas não desenvolve o tema. A interpretação de Elis era expressionista, com movimentos espalhafatosos de braços (que originou o pejorativo apelido Hélice Regina, citado na película) e voz potente e extensa, com ornamentos e afinação impecável. Nara Leão era o principal nome feminino filiado ao canto conciso e desdramatizado. E era comum ela ter problemas nas cordas vocais em meio a uma temporada de shows.

É certo que ambas estavam sintonizadas com o paradigma de interpretação do samba “autêntico”, conforme escreveu Marcos Napolitano, em A síncope das ideias. Eram intérpretes da tradição uma vez que seguiam uma orientação estético-ideológica caracterizada pela “subida ao morro” e a “ida ao sertão” – ao mesmo tempo que integravam o debate que marcou o nascimento da moderna MPB. Mas a leitura que realizavam dos legados musicais brasileiros era diferente, segundo o mesmo historiador. Nara alternava entre a abordagem despojada dos sons do morro e os elaborados arranjos de instrumentos de sopro de madeira típicos da bossa nova, em uma síntese das questões em jogo nos anos 1960. Já Elis se inspirava no hot jazz e trazia à tona valores estéticos do universo musical anteriores à bossa nova, tidos como ultrapassados e de “mau gosto” pelos modernos.

Em seu livro de memórias, Verdades Tropicais, Caetano Veloso assim resumiu a tensão entre as duas grandes figuras de mulher:

“Elis possuía um talento musical – e uma voz – com que Nara nem poderia sonhar. Mas ela ascendera da condição de cantora comercial sem sucesso para a de representante do sucesso comercial da responsabilidade estética e política via televisão, o que a deixava numa insegurança que chegava ao paroxismo quando confrontada com a trajetória de Nara: fundadora da bossa nova, aristocraticamente tranquila em suas posições políticas e ambições intelectuais, sem precisar provar nada ou exibir talentos excepcionais, Nara parecia conceder em aparecer na televisão”.

O intenso fascínio competitivo de Elis em relação a NaraLeão é atenuado no filme, que, no entanto, o aborda logo no início. A primeira prende o riso ao assistir a uma apresentação da segunda, tratada como a sensação do circuito musical carioca em 1964. Ao fim do show, diz ao pai, de forma sarcástica, que a cantora que estava no palco tinha uma voz pequenina. A ficção também mostra Elis olhando com atenção o beijo trocado entre a musa da bossa nova e Ronaldo Bôscoli, com quem a intérprete de “Arrastão” casaria e teria um filho. Esse trecho dá a entender que Elis nutria ciúme em relação a Nara Leão: além de famosa no meio artístico do Rio, essa última namorava um produtor tido como galã. E o assunto é encerrado.

Nara foi alvo de comentários ferinos feitos por Elis, sendo que o principal deles foi publicado em 1967 na Manchete, na série “As grandes rivalidades”: “A verdade é que Nara Leão canta muito mal, mas fala muito bem”. Não satisfeita, afirmou que a sua rival fazia sucesso desrespeitando as Forças Armadas, e que traíra todos os movimentos dos quais participara. O livro Nara Leão: uma biografia, de Sérgio Cabral, reproduz esse depoimento na íntegra, assim como as impressões (mais amenas) da capixaba a respeito da gaúcha, na mesma edição daquela revista. Mas o revide de Nara viria em breve, em forma de tomada da posição.

Quando o Fino 67, protagonizado por Elis, foi encerrado devido a sua baixa audiência, Paulo Machado de Carvalho, diretor da Record, criou o Frente Única da Música Popular Brasileira – nome inspirado na Frente Ampla, que reunia João Goulart, Juscelino Kubistchek e Carlos Lacerda na atuação em prol da “restauração do regime democrático”. O apelo dessa atração televisiva estava na reunião dos maiores artistas da MPB contra o que seria a invasão imperialista representada pela Jovem Guarda, que também tinha um musical naquela emissora, com índices descendentes no Ibope, em 1967. Na lógica mercadológica, o embate entre as duas vertentes lhes daria publicidade. De acordo com a autobiografia de Caetano Veloso, na reunião entre artistas e produtores para discutirem o formato do Frente Única, Nara pediu a palavra. Calmamente, disse a Machado de Carvalho que participaria do espetáculo de televisão por deveres profissionais, uma vez que era funcionária da Record. Porém, pediu para não ser escalada na edição da qual Elis participaria, tendo em vista o conteúdo do depoimento dessa artista para a revista Manchete, anteriormente citado. No fim de sua exposição, mostrou a sua carteira da Ordem dos Músicos do Brasil (OMB), na qual era classificada como cantora, em referência à declaração da sua antagonista, que estava a sua frente naquele momento.

Caetano Veloso resumiu o significado da intervenção de Nara:

“Nada poderia ter sido mais profundamente político do que esse desabafo, que era na verdade o contrário de um desaforo de diva enciumada. O que ficou patente para todos foi, não que Nara tivesse exibido mesquinha competitividade de estrela perante Elis, mas que ela opusera uma análise realista dos motivos e conseqüências da reunião aos arroubos de auto-engano a que todos tinham se rendido”.

Relacionada com a luta, a um só tempo, comercial e ideológica que envolvia a criação do Frente Única, houve a Passeata Contra a Guitarra Elétrica, em 1967, que contou com a participação entusiasmada de Elis – e a reprovação de Nara, para quem a manifestação parecia um evento promovido pela Ação Integralista Brasileira (AIB). Esse relevante conflito do campo artístico brasileiro dos anos 1960 também não foi tratado no filme. Mas é justo dizer que, em rápidos diálogos, o roteiro menciona o desprezo de Elis pelo rock e a sua mudança de postura quanto à inclusão de guitarristas em sua banda (influenciada por Nelson Motta).

Atenuando ou mesmo ocultando disputas de Elis contra seus pares concorrentes, não há menção na película de seus ataques ao hoje cultuado tropicalismo – que, no seu entender, não tinha nada de artístico, sendo só espuma e autopromoção. Conforme revelou Carlos Calado, no livro Tropicália: a história de uma revolução musical, a cantora também foi flagrada um tanto confusa pela equipe da Veja no show de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Mutantes na boate Sucata, no Rio, em outubro de 1968. Depois de ouvir o primeiro artista citado cantar “Saudosismo”, ela desabafou: “Não sei mais o que cantar. O que é que está acontecendo? Pra onde vai a música popular brasileira?”

Depois que os entusiastas da guitarra elétrica Caetano e Gil foram presos e exilados, os setores de esquerda atrelados ao nacional-popular pararam de criticá-los (temporariamente). Elis mudou de postura e cantou o repertório dos baianos (“Irene” e “Aquele abraço”) em seu show no Teatro da Praia, com Miele. Também disposta a modernizar a sua música, pediu composições inéditas para os dois baianos, que estavam na Inglaterra. Caetano enviou “Não tenha medo” e Gil, “Fechado para balanço”, ambas incluídas no LP Em pleno verão, de 1970. No livro Noites Tropicais, Nelson Motta afirmou que Elis entendeu o recado embutido nessas canções. “Não tenha medo, não tenha medo não, nada é pior do que tudo. Nada é pior do que tudo que você já tem no seu coração mudo”, diz a letra da primeira. “Viver não me custa nada, viver só me custa a vida, a minha vida contada. Tou fechado pra balanço, meu saldo deve ser bom”, são os versos mais significativos da segunda.

III

Ao ocultar os conflitos em que ela se envolveu no campo artístico, a obra do cineasta Hugo Prata se torna chapa branca. Em se tratando de uma intérprete que, não por acaso, tinha o apelido de “Pimentinha”, tal ausência se torna ainda mais lamentável. É claro que o diretor teve de fazer um recorte dentro de uma história musical de duas décadas. Mas obras cinematográficas bem-sucedidas como Ray (2004), dirigida por Taylor Hackford, mostram é possível conciliar trajetória artística e vida pessoal, sem perdas evidentes para uma dessas dimensões. No caso de Elis, esse esforço seria especialmente válido, por ser tratar da maior cantora brasileira de todos os tempos, tendo em vista a reunião de fatores como: a sua extensão vocal e o seu domínio técnico, a intensidade de suas interpretações, o seu carisma e a sua popularidade, a qualidade dos músicos que a acompanhavam, o repertório escrito por grandes compositores em primeira mão para a artista, além da sua importância histórica na definição de uma instituição sociocultural, a MPB.