Ilustração de D. Muste
Ilustração de D. Muste

Ellen Wood e o conceito de revolução burguesa: nota crítica

Demian Melo

Há uma contribuição inestimável no trabalho da historiadora e politóloga norte-americana Ellen Meiksins Wood. Suas intervenções em debates como o da crítica às abordagens pós-modernas nos estudos históricos e na demolição da meta-narrativa liberal para a origem da democracia contemporânea são parte obrigatória da boa literatura marxista publicada no Brasil nas últimas décadas.[1] Lembro da força que a leitura de seus textos teve em minha formação no bacharelado em História, como exemplo de uma produção historiográfica atualizada que desautorizava a apressada decretação de “enterro do marxismo” professada nos cursos de metodologia e teoria da história.

Partes do trabalho de Ellen Wood são também bastante polêmicos e não menos instigantes, como é o caso de seu livro sobre a natureza atual do fenômeno do imperialismo,[2] escrito no calor da retomada recente deste debate, [3] e que lhe valeu críticas do geógrafo David Harvey, outro interlocutor marxista deste debate. A recente publicação de um pequeno artigo seu no Blog Junho[4] trouxe à tona outra controvérsia importante: a rejeição ao conceito de revolução burguesa. As breves linhas a seguir se dedicam a problematizar essa posição de Wood e em seguida defender o conceito.

O conceito de revolução burguesa

Uma burguesia heróica, capaz de liderar as massas despossuídas, os camponeses e a plebe urbana contra uma aristocracia feudal cujo poder político estava condensado no Estado absolutista, tal parece ser a imagem mais convencional de uma revolução burguesa. Convém lembrar que essa imagem não condiz com o estado atual da pesquisa histórica sobre o assunto.

O argumento de Wood está baseado numa elaboração original e bastante instigante para pensar as origens e a historicidade do modo de produção capitalista, dialogando de forma fecunda com as idéias de Marx e de Karl Polanyi, temperada com posições da tradição inglesa da historiografia marxista, especialmente E. P. Thompson. Em polêmica com os teóricos do sistema mundo – como os braudelianos Immanuel Wallerstein e Giovanni Arrighi –, Wood intervém no debate sobre a transição ao capitalismo para defender a origem inglesa e agrária do mesmo. Isso está melhor exposto em seu livro A origem do capitalismo,[5] onde a autora retoma a controvérsia clássica sobre a transição nos anos 1950, que opôs Paul Sweezy ao catedrático dos historiadores marxistas britânicos Maurice Dobb, e sua retomada nos anos 1970 pela intervenção de Robert Brenner. É deste que Wood toma a maior parte das suas posições no debate que nos interessa aqui, especialmente a insistência na distinção entre burgueses e capitalistas como dois setores sociais conspícuos. Como já é possível notar, isso tem implicações em relação ao conceito de revolução burguesa. Vejamos como ela coloca esta questão.

Conforme a autora, o conceito de revolução burguesa não foi produzido por Marx e Engels, ou outros pensadores socialistas que os influenciaram, mas pela historiografia produzida por liberais franceses na primeira metade do século XIX, como François Guizot. A autora, no entanto, se apóia em três afirmações sobre os problemas da noção de revolução burguesa que nos parecem pouco defensáveis.

Em primeiro lugar, a já mencionada distinção entre capitalismo e burguesia. Baseada nela Wood afirma o caráter capitalista da Revolução Inglesa do século XVII, mas não a compreende como uma revolução burguesa. Enquanto a Revolução Francesa de 1789-1799 pode ser caracterizada como burguesa porquanto não seja entendido como um evento que favoreceu o desenvolvimento capitalista.

Em segundo, afirma que Marx teria abandonado a noção de revolução burguesa em seus escritos maduros mais significativos produzidos a partir dos Grundrisse de 1857-1858. Ora, o próprio termo comparece, por exemplo, em O capital, em passagem do capítulo 2 do livro I se referindo ao processo clássico francês.[6] Mais do que aparecer, a própria noção de revolução burguesa figura como pressuposto da visão marxiana sobre a objetivação histórica do modo de produção capitalista. Seja de modo mais abstrato e ainda insuficiente, como no famoso prefácio à Contribuição à crítica da economia de 1859 – texto que Wood rejeita como apegado a um “determinismo tecnológico” que derivaria tais revoluções das contradições entre o desenvolvimento das forças produtivas e as relações sociais de produção –,[7] seja no próprio O capital, a noção de revolução burguesa está sempre presente. Em relação a distinção entre capitalistas e burgueses, qualquer um com o mínimo de intimidade com um texto como O capital sabe que em Marx tal proposição é absurda.

Por fim, busca vincular o conceito de revolução com a esquemática simplificação da teoria da história propagada pelo stalinismo. Afirma que

“a ideia de revolução burguesa enquanto um estágio historicamente necessário oriundo da luta de classes entre burguesia e classes agrárias atrasadas, iria se solidificar em uma ortodoxia simplista quando fosse mobilizado para apoiar a doutrina stalinista de “socialismo em um só país” contra a ‘revolução permanente’ de Trotsky.”[8]

O que pensar de um tipo de procedimento como este, que busca desvincular justamente uma noção tão cara à teoria da revolução permanente como a de revolução burguesa? Elaborada para entender como num país como a Rússia a estratégia revolucionária que acabou sendo vitoriosa em 1917 confirmou a tese de que a realização das tarefas da revolução burguesa seriam cumpridas pelo proletariado, que já abriria o caminho para a expropriação da burguesia, a teoria da revolução permanente sem o conceito de revolução burguesa não existe.

Não haveria problema de fundo se Wood resolvesse admitir que sua proposição revisa problemática existente na obra de Marx e do marxismo. Caberia então entrar no mérito da questão, sem ter de recorrer a um argumento de autoridade. Nessa caso não é possível deixar de lado as origens de tal posição no revisionismo historiográfico sobre a Revolução Francesa.

Falácias revisionistas e anticapitalismo

Não foi por acaso que da historiografia revisionista sobre 1789 tenha surgido o questionamento de seu caráter de classe. Foi o britânico Alfred Cobban em The social interpretation of the French revolution de 1964 que inaugurou tal questionamento ao que até então era um consenso entre correntes alternativas da historiografia. Cobban buscou desconstruir essa noção a partir da suposição que de a Revolução Francesa e seu desdobramento na Era Napoleônica teria “atrapalhado o desenvolvimento econômico” daquele país.[9] Mais que isso, estudando as atitudes mentais de muitos comerciantes e de camadas sociais que poderiam ser tomadas como capitalistas, Cobban viu muito mais concordância com as estruturas hierárquicas do Ancien Régime que algum tipo de atitude hostil, nada próximo de um interesse por uma ruptura revolucionária.

Do outro lado do Canal da Mancha, o ex-marxista convertido à direita liberal François Furet incorporou e deu seguimento a tal interpretação revisionista, completando o raciocínio de Cobban com a “acusação” aos marxistas de que estes teriam tomado a noção de revolução burguesa como corolário da de “revolução proletária”.[10] Se há algo acertado nessa crítica é esse último ponto. É realmente impossível construir um conceito de revolução proletária sem o de revolução burguesa, e não é bem verdade que as alegações de Cobban possam ser incorporadas à historiografia marxista sem que isto implique em problemas. Nos anos 1970, Robert Brenner introduziu uma tentativa de proposição marxista para a origem do capitalismo que pudesse descartar a noção de revolução burguesa, uma nova interpretação social que de certo modo comprou aspectos do revisionismo de Cobban e Furet.

Como dissemos, é bem verdade que em sua versão mais vulgar o conceito de revolução burguesa baseado na mencionada visão heróica da burguesia não se sustenta. Por outro lado, cabe pensar se é mesmo verdade que a noção de revolução burguesa encerra uma leitura teleológica da história, como também alega Wood. Sabe-se que o conhecimento de Marx e Engels sobre o desenvolvimento capitalista em textos como A ideologia alemã era bastante precário e, para dizer as coisas pelo nome, bastante influenciado pela leitura da economia política clássica, especialmente por Adam Smith. O projeto de crítica da economia política ainda estava em seus primeiros passos em 1845, quando Marx e Engels escreveram em Bruxelas tal manuscrito que seria, no dizer de Marx, entregue à crítica roedora dos ratos. Contudo, em tudo pode-se acusar Marx e Engels nessa fase inicial de sua produção teórica exceto que tais autores não estariam atentos na rejeição à concepções teleológicas da história, caras à filosofia clássica alemã. É possível ver esta consciência em passagem desse mesmo texto, onde se lê:

“A história nada mais é do que o suceder-se de gerações distintas, em que cada uma delas explora os materiais, os capitais e as forças de produção a ela transmitidas pelas gerações anteriores; portanto, por um lado ela continua atividade anterior sob condições totalmente alteradas e, por outro, modifica com uma atividade completamente diferente as antigas condições, o que então pode ser especulativamente distorcido, ao converte-se a história posterior na finalidade da anterior, por exemplo, quando se atribui à descoberta da América a finalidade de facilitar a irrupção da Revolução Francesa, com o que a história ganha finalidades à parte e tornar-se um “pessoa ao lado de outras pessoas”[11]

De acordo com Wood, pode-se alegar que por está época Marx e Engels estariam ainda muito próximos da visão mercantil para a origem do capitalismo, que o toma como algo que sempre estaria pronto para estalar, sendo a revolução burguesa apenas um movimento libertador desta força oculta ao longo de toda a história humana. Muito longe disso, um estudioso da Revolução Inglesa do século XVII, Christopher Hill ofereceu uma boa resposta ao tipo de crítica feita por Cobban, Furet e que nos anos 1970 foi incorporada por autores como Robert Brenner[12] e Ellen Wood.

“A Revolução Inglesa, como todas as revoluções, foi causada pela ruptura da velha sociedade e não pelos desejos da burguesia ou pelos líderes do Longo Parlamento. Seu resultado, no entanto, foi o estabelecimento de condições muito mais favoráveis ao desenvolvimento do capitalismo do que aquelas que prevaleceram até 1640. A hipótese é a de que este resultado bem como a própria revolução tenha se tornado possíveis porque já tinha havido um desenvolvimento considerável das relações capitalistas na Inglaterra. Foras as estruturas, as fraturas e as pressões da sociedade e não o desejo dos líderes, que ocasionaram a eclosão da revolução moldando o Estado que dela emergiu. Em nossa sociedade, homens de negócio e políticos não desejam uma recessão embora quando ela ocorra possamos concluir que seus esforços para evitá-la tenham ajudado a provocá-la.” [13]

Uma posição similar a de Hill aparece no magistral trabalho de Barrington Moore Jr., As origens sociais da ditadura e da democracia, de 1966, um autor não-marxista que manteve diálogo crítico fecundo com marxistas. Lembrado sempre como trabalho que introduziu a noção de modernização conservadora na análise da formação das sociedades alemã e japonesa, a abordagem de Moore também é tributária da noção de revolução burguesa, que o autor usa para pensar nos casos clássicos da Inglaterra no século XVII, da França no fim do XVIII e dos EUA durante a Guerra Civil (que o autor denomina de “última revolução capitalista”). Vejamos como o mesmo a define, em passagem sobre o caso francês:

“Negar que o impulso predominante e as consequências principais da Revolução [Francesa de 1789-1799] foram burguesas e capitalistas é entrar num sofisma vulgar. O que é duvidoso, dentro do aspecto de ser uma revolução burguesa, é qualquer argumento no sentido de que um grupo relativamente sólido de interesses comerciais e industriais conseguir obter poder econômico suficiente, no último quartel do século XVIII, para, com os seus próprios esforços, rebentar os grilhões feudais, a fim de dar início a uma período de expansão industrial. Colocada deste modo, a tese dá excessiva importância à influência independente desses interesses. Que o resultado final de todas as forças em ação foi uma vitória para o sistema econômico de propriedade privada, e uma sistema político baseado na igualdade perante a lei, características essenciais das democracias parlamentares ocidentais, e que a Revolução foi um aspecto crucial desse desenvolvimento geral, são verdades inegáveis, mesmo que nos sejam familiares.”[14]

Sem situar esses casos clássicos de revolução burguesa, qual o sentido teria falar de modernização conservadora para os casos da Alemanha entre Bismarck e Hitler, e o Japão entre a Restauração Meiji e o militarismo dos anos 1930? Se levarmos em conta as enormes similitudes entre o conceito gramsciano de revolução passiva e o de modernização conservadora teorizada por Moore, o descarte ao conceito de revolução burguesa parece ser fatal ao edifício conceitual de Antonio Gramsci.

Em defesa da capacidade heurística do conceito de revolução burguesa

Posições como as de Hill e Moore Jr. a historiadora vê nos trabalhos de Neil Davidson, que Wood denomina de “consequencialista”, uma espécie de categoria acusatória que usa para desqualificar seus interlocutores como “não atualizados” sobre a alegada distinção essencial entre burguesia e capitalismo. Nesse ponto, vale entrar um pouco mais nessa questão.

É verdade que a noção de burguesia, derivada do francês bourgeoisie, se referia originalmente aos moradores da cidade. Entretanto, não é possível desconsiderar os deslocamentos semânticos ocorridos ao longo dos séculos que separam o modo de produção feudal do capitalismo na Europa ocidental. Do mesmo modo que o termo revolução, que originalmente estava circunscrito ao contexto do movimento dos astros, a partir de 1789 passaria a significar um movimento de ruptura com o passado, o termo burguesia passou a ser associado ao sujeito social proprietário do capital, conforme acepção encontrada na lavra de Marx, Engels e dos socialistas de outros matizes ao longo do século XIX.

Parece claro que Ellen Wood aproxima-se do revisionismo historiográfico de cariz liberal nessa rejeição ao conceito de revolução burguesa. Uma baita de uma ironia, já que em sua argumentação busca encerrar seus críticos como adeptos da leitura dos sucessivos modos de produção, sendo a revolução burguesa uma etapa “necessária” do esquema de interpretação histórico montado pela estéril burocracia soviética stalinizada, algo que como vimos também não se sustenta. Afinal, críticos de vários calibres ao regime termidoriano de Stálin, como seu antípoda Trotsky, e também Gramsci, valeram-se do conceito de revolução burguesa como basilar, não para defender a necessidade de uma revolução como esta nos países retardatários do capitalismo, mas para entender a via própria do desenvolvimento capitalista em vastas regiões do planeta.

Ao criticar uma autora tão instigante como Ellen Wood, falamos no topo, não implica na rejeição de sua obra, que reafirmamos é extremamente inspiradora em mais de um aspecto. Deve ao menos servir para que não tratemos grandes autoras como ela como imune à críticas, discutindo as implicações políticas de suas proposições.

Notas

[1] Cf. WOOD, Ellen M. O que é a agenda “pós-moderna”? In. WOOD, Ellen M.; FOSTER, John Bellamy (org.). Em defesa da história: marxismo e pós-modernismo. Rio de Janeiro: Zahar, 1999, p.7-22. WOOD, Ellen M. Democracia contra capitalismo: a renovação do materialismo histórico. São Paulo: Boitempo, 2003.

[2] WOOD, Ellen M. O império do capital. São Paulo: Boitempo, 2013.

[3] Sobre a retomada do debate sobre o imperialismo no contexto pós-11 de Setembro, ver FOSTER, John Bellamy. The Rediscovery of imperialism. Monthly Review, vol.54, Nov.2002. Disponível em http://monthlyreview.org/2002/11/01/the-rediscovery-of-imperialism

[4] Cf. WOOD, Ellen M. Os coveiros do capitalismo. Blog Junho, 31 de julho de 2015. Disponível em http://blogjunho.com.br/os-coveiros-do-capitalismo/

[5] WOOD, Ellen M. A origem do capitalismo, op. Cit.

[6] Ver MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2013, p.163.

[7] O que apenas denota uma grande incompreensão da autora do que sejam as forças produtivas, reduzidas em sua lavra a aspectos puramente tecnológicos.

[8] WOOD, Ellen M. Os coveiros do capitalismo, op. cit.

[9] Ed. Port. COBBAN, Alfred. A interpretação social da Revolução Francesa. Lisboa: Gradiva, 1988, p.91.

[10] FURET, François. Pensando a Revolução Francesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989. Sobre as implicações do revisionismo de Furet, ver HOBSBAWM, Eric. Ecos da Marselhesa: dois séculos revêem a Revolução Francesa. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. LOSURDO, Domenico. Il revisionismo storico. Problemi e miti. 5ª Ed. Roma-Bari: Laterza, 2002. HAYNES, Mike; WOLFREYS, Jim (Eds.). History and Revolution: refuting revisionism. Londres: Verso, 2007.

[11] MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007, p.40.

[12] Como aparece em seu livro A origem do capitalismo, Wood inspira-se na leitura de Brenner para rejeitar a noção de revolução burguesa. Cf. WOOD, Ellen M. A origem do capitalismo. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

[13] HILL, Christopher. Uma revolução burguesa? Revista Brasileira de História, São Paulo, n.7, pp.7-32, mar.1984, p.9.

[14] MOORE JR, Barrigton. As origens sócias da ditadura e da democracia. Senhores e camponeses na construção do mundo moderno. São Paulo: Martins Fontes, 1983, p.109-110.