Fotografia de André Rodrigues
Fotografia de André Rodrigues

Ellen Wood: o marxismo perdeu uma defensora apaixonada

Alex Callinicos

Ellen Meiksins Wood, que morreu em janeiro com a idade de 73 anos, foi uma das destacadas intelectuais marxistas da geração passada. Ela combinou um compromisso rigoroso com a clareza teórica e uma profunda paixão política. Estas qualidades eram muito evidentes na intervenção que primeiramente a trouxe para uma audiência mais ampla, o livro The Retreat from Class, publicado pela primeira vez em 1986.

Neste ela mirou o que veio a ser conhecido como “pós-marxismo” em suas primeiras formas. Seu alvo era um grupo de intelectuais de esquerda – entre eles Ernesto Laclau, Chantal Mouffe e Gareth Stedman Jones – que, tendo fortemente se identificado com o marxismo no auge dos movimentos da década de 1960, moviam-se à direita. Laclau e Mouffe denunciavam o que chamavam de “classismo”, argumentando que a sociedade não era estruturada pela produção social e antagonismos de classe, mas era na verdade uma pluralidade fragmentada em diferentes discursos e práticas. A esquerda, eles concluíam, deveria esquecer o socialismo e se esforçar, em vez disso, para construir uma versão mais democrática da sociedade existente.

Esse não era um argumento meramente acadêmico. No contexto do assalto de Margaret Thatcher sobre a classe trabalhadora organizada na Grã-Bretanha, ele reforçou a guinada da liderança de Neil Kinnock que empurrou o Partido Trabalhista em direção ao caminho que levou a Tony Blair. O livro de Wood, publicado na sequência da derrota da grande greve dos mineiros, em 1984-1985, lucidamente desmantelava os argumentos pós-marxistas, defendendo vigorosamente um marxismo que era, ao mesmo tempo, não-reducionista e radical. Ela foi agraciada com o Deutscher Memorial Prize pelo livro.

The Retreat from Class representou uma grande conquista de várias maneiras. Primeiro, embora canadense e por muitos anos ensinando teoria política na York University, em Toronto, Wood fez uma importante contribuição para a esquerda marxista britânica. Ela passou muito tempo em Londres e tinha muitos amigos aqui.

Em segundo lugar, ela identificou o filósofo comunista francês Louis Althusser como fonte principal do colapso no pós-marxismo. Ao tentar conciliar o marxismo com as várias correntes filosóficas da Paris dos anos 1960, as quais procuravam assimilar linguagem e sociedade e tratavam os sujeitos como os efeitos das estruturas sociais, Althusser havia aberto a porta para o pós-marxismo. Como Chris Harman, na tradição do International Socialist, Wood viu a rejeição a Althusser como essencial para sustentar a força crítica e revolucionária do marxismo e se alinhou com o grande historiador Edward Thompson na defesa de sua versão humanista. Mas outro historiador forneceu a Wood seu ponto de referência teórica fundamental. A partir de “The Separation of the Economic and Political under Capitalism” (1981), ela destacou a importância teórica do trabalho de Robert Brenner.

Brenner avançara duas teses amplamente debatidas na transição do feudalismo para o capitalismo. Primeiro, a ideia de que luta de classes entre senhores e camponeses no final de Europa medieval e início da era moderna desempenhara o papel decisivo na determinação dos lugares onde o capitalismo veio a prevalecer primeiramente na Europa. Em segundo lugar – neste caso na Inglaterra – as transformações importantes ocorreram, não nas cidades ou a esfera do comércio internacional, como historiadores e economistas tendiam anteriormente a assumir, mas no campo, com o surgimento das relações capitalistas na agricultura.

Um dos críticos de Brenner, o historiador marxista francês Guy Bois, descreveu essa posição como “marxismo político”, “uma visão voluntarista da história em que a luta de classes é divorciada de todas as outras contingências”. Wood, no entanto, abraçou esse rótulo, argumentando que representou uma ruptura com as versões do marxismo que reduziram a história ao desenvolvimento das forças produtivas.

Ela identificou o marxismo político com duas ideias. A primeira é que seria necessário cuidado para analisar a natureza das relações de propriedade prevalentes em uma sociedade particular – aquilo que grosso modo outros marxistas chamam as relações sociais de produção, as formas de controle econômico sobre os meios de produção e a força de trabalho que dão origem a diferentes conjuntos de relações de classe. Wood era crítica dos historiadores do mainstream e dos marxistas porque não eram o suficientemente rigorosos ao apontar as diferenças nas relações de propriedade prevalecentes nas sociedades.

Em segundo lugar, Wood sublinhou a especificidade do capitalismo que, segundo argumentou, teria uma lógica muito diferente de outros sistemas econômicos. Em particular, seguindo Brenner, ela insistiu que o capitalismo não pode ser identificado com o predomínio do mercado. Mercados existiram em muitas sociedades pré-capitalistas, nas quais não moldaram produção. O capitalismo se distingue pelo fato de que ambos os capitalistas e trabalhadores só podem se reproduzir com sucesso competindo efetivamente no mercado. Isto obriga as empresas capitalistas constantemente a reduzir os seus custos de produção, investindo em inovações técnicas que aumentam a produtividade do trabalho.

Uma conclusão às quais chegou Wood foi que os marxistas tendem a projetar a estrutura muito particular do capitalismo na história humana em geral. Assim, o desenvolvimento das forças produtivas não é, como seu colega filósofo canadense G. A Cohen argumentou, a força motriz da história, pois isso é específico do capitalismo. Além disso, o capitalismo é caracterizado por uma separação sistemática entre economia e política. Nas sociedades pré-capitalistas a exploração dependia da “coerção extra-econômica”, por exemplo, do poder político e judicial que senhores feudais exerciam sobre os seus camponeses. No capitalismo, ao contrário, aquilo que Wood, seguindo Brenner, chamava de “dependência do mercado” dos trabalhadores, os levava a venderem sua força de trabalho ao capital e, assim, a submeterem-se à exploração. Consequentemente, as relações econômicas e políticas poderiam ser institucionalmente separadas umas das outros de uma forma que não teria sido possível anteriormente.

Nesta base, Wood e aqueles que ela influenciou – seu brilho intelectual e suas qualidades como professora criaram uma escola própria em torno dela – argumentaram não apenas que o capitalismo é especial, mas que não há muito dele por aí. Wood negou, então, que as cidades-estados italianas ou o início da Holanda moderna tenham sido capitalistas. A mudança decisiva teria ocorrido com o surgimento do capitalismo agrário na Inglaterra nos séculos XVI e XVII. O antigo regime baseado em “coerção extra-econômica” se manifestaria, ainda, por um longo tempo. Assim os marxistas políticos negam que a Grande Revolução Francesa de 1789-1794 tenha sido uma revolução burguesa, argumentando que as relações capitalistas de propriedade vieram a prevalecer na França só muito mais tarde.

Este é uma (re)imaginação poderosa do materialismo histórico. Claro, há muito o que discutir. Marxistas tão diferentes como Chris Harman e Jairo Banaji têm insistido sobre a centralidade dos comerciantes e da economia mundial para o desenvolvimento do capitalismo moderno. E a tendência dos marxistas políticos em tratar o envolvimento do Estado na economia como um sinal da persistência das relações de propriedade pré-capitalistas baseadas na “coerção extra-econômica” não se dá bem com o papel muito ativo do Estado no capitalismo contemporâneo.

Mas este tipo de desacordo parece secundário quando confrontado com a originalidade e a produtividade de Wood. Como estudiosa ela combinou rigor analítico e erudição histórica – qualidades que ela exibiu em uma gama impressionante de obras. Talvez o meu livro favorito seja Peasant-Citizen and Slave, no qual Wood criticou interpretações marxistas tradicionais que baseavam a antiguidade clássica na escravidão, ofereceu uma abordagem original dos fundamentos sociais da cidade-Estado de Atenas e nomeou grandes filósofos, como Platão, como os inimigos de classe da democracia antiga.

As mesmas qualidades podem ser encontradas em sua história inacabada do pensamento político ocidental, da qual apareceram dois volumes, From Citizens to Lords e Property and Liberty. Treinada em filosofia política, Wood estava aqui em um terreno familiar, mas esse terreno – em especial no segundo volume que trata dos primórdios do pensamento moderno – também é ocupado pelos escritos do influente historiador intelectual Quentin Skinner. Skinner é famoso por insistir que os textos teóricos devem ser entendidas no contexto dos diálogos políticos para os quais eles foram uma contribuição.

Wood pratica um contextualismo muito mais radical do que a abordagem essencialmente idealista de Skinner, para quem o contexto é constituído principalmente por discursos e “situações de linguagem”. Sua “história social do pensamento político” entende o contexto de modo materialista e muito mais diferenciado. Ela usa as ferramentas afiadas, forjadas no desenvolvimento de sua compreensão marxista das relações de propriedade, para penetrar as categorias irregulares utilizadas pelos historiadores do mainstream – “modernidade”, “republicanismo” e “Iluminismo”. Assim, por exemplo, ela se recusa a ver pensadores políticos como respondendo ao surgimento de uma “sociedade comercial” indiferenciada e insiste, por exemplo, sobre os diferentes caminhos tomados pela França absolutista e a Inglaterra capitalista.

Pode-se, por vezes, protestar que essas discriminações – fundamentadas na interpretação do marxismo político de Wood sobre a ascensão do capitalismo – são demasiado acentuadas, estabelecendo desenvolvimentos em diferentes sociedades europeias muito distantes um do outro. Mas ainda se pode admirar a profundidade histórica e lucidez analítica com que o argumento é conduzido.

Wood insiste que “a história social do pensamento político levanta questões sobre como a própria esfera política é constituída por processos sociais, relações, conflitos e lutas fora do espaço político”. Em nenhum lugar isso é mais evidente do que no capítulo brilhante sobre a Revolução Inglesa, no qual se demonstra que os argumentos dos Levellers para a mudança democrático-popular levaram à formulação das perguntas que Thomas Hobbes e John Locke procuraram responder de forma favorável ao capitalismo emergente.

Em outros lugares, as habilidades apresentadas nesses livros foram colocadas em um uso mais diretamente político – por exemplo, no ensaio de Wood em “The Uses and Abuses of Civil Society”, no qual ela desconstruiu um dos conceitos fundamentais da ideologia liberal contemporânea e, em Empire of Capital, publicado em 2003, o ano do guerra do Iraque.

Vou concluir com uma nota pessoal. Ellen e eu discordamos algumas vezes na imprensa sobre várias questões teóricas. Ela uma vez me chamou de “crítico severo”. Mas há alguns anos, passamos a noite juntos na casa de Martin Deutscher, filho de Isaac e Tamara. Portador de grave deficiência, Martin passou sua vida no velho apartamento de seus pais, cercado por seus livros, documentos e imagens. Ele convidou a Ellen e mim para compartilhar uma comida chinesa pronta.

A principal coisa que me marcou daquela estranha cena, um pouco melancólica, foi um sentimento muito forte de sua bondade, paciência, carinho e humanidade. No caminho de volta no metrô, nós concordamos que a noite foi um lembrete de tudo que tínhamos em comum. E é assim que eu me lembro dela.

(Publicado originalmente em Socialist Worker. Tradução Alvaro Bianchi.)