Imagem de Singh Bean
Imagem de Singh Bean

Empreendedorismo feminino: emancipação ou subordinação “voluntária”?

Rejane Carolina Hoeveler

“Transformar a crise em oportunidade”. Esse virou um dos slogans mais batidos no Brasil e no mundo desde que os efeitos da crise econômica mundial de 2008 se alastraram, causando desemprego e desespero social. Variações dessa frase viraram propagandas comerciais, slogans de governos, manchetes na imprensa de negócios. E foi um dos motes prediletos de uma pequena indústria que de fato prospera, apesar da crise: a do estímulo ao “empreendedorismo”.

“Empreendedorismo” virou uma palavra-chave de empresas, governos, e de uma miríade de ONGs e entidades de perfil empresarial com atuação social. Embora já fosse um termo corrente na teoria e no jornalismo econômico desde os anos 1990, agora atinge cada vez mais um público em especial: as mulheres.

O “empreendedorismo feminino” é a nova coqueluche das recomendações em políticas públicas voltadas para mulheres. Organizações não-governamentais cada vez mais se dedicam a formular programas, prêmios, encontros e eventos diversos sobre empreendedorismo feminino. Em 2014, a ONU estabeleceu o dia 19 de novembro como o “Dia do Empreendedorismo Feminino”. Até a indústria cultural trata cada vez mais do tema, como mostra a sequência de filmes “De pernas pro ar” (2010) estrelados por Ingrid Guimarães (direção Roberto Santucci); ou uma leva enorme de séries e filmes dirigidas para empreendedoras, que constroem a mitografia contemporânea da self-made woman, como “Joy: o nome do sucesso”, lançado em 2016 (direção David O. Russell).

O discurso em prol do empreendedorismo frequentemente fala sobre igualdade ou equidade entre os sexos; defende salários iguais para trabalho igual – uma reivindicação histórica do movimento feminista; defende a inserção das mulheres em cargos mais altos dentro das empresas, reconhecendo as desigualdades existentes em termos de ocupação e salariais, com as mulheres ocupando em sua maioria postos mais baixos e vulneráveis. A ênfase na independência econômica feminina também é um argumento sempre presente. Afinal, seria o empreendedorismo uma forma de emancipação da mulher no século XXI?

Analisando o significado mais profundo desse movimento internacional em prol do empreendedorismo feminino no contexto do capitalismo contemporâneo e do neoliberalismo, pretendemos demonstrar que, na verdade, trata-se de uma forma de mascarar a velha exploração de trabalho precarizado feminino; de formar uma ideologia que sabota a identificações de classe; e também de uma armadilha para o feminismo combativo.

Estereótipo de gênero, consciência de classe e neoliberalismo

Em primeiro lugar, é fácil notar como o discurso empresarial em prol do empreendedorismo feminino reforça estereótipos de gênero, destacando qualidades supostamente intrínsecas às mulheres, como serem cuidadosas, atenciosas, e “conseguirem fazer várias coisas ao mesmo tempo”. Em um dos principais sites especializados no tema, encontramos afirmações como a de que o empreendedorismo é “um propósito que tem muito a ver com a maternidade, trazer algo de novo à vida”   (reforçando a ligação entre a maternidade e a auto-realização da mulher). A suposição é de que as mulheres “prestam atenção maior a detalhes, são intuitivas e muito sensitivas”; “costumam ser mais atenciosas e cuidadosas com os clientes” e, finalmente, “tendem a conciliar melhor suas atividades profissionais com as atividades pessoais, o que dá mais estabilidade ao negócio, uma vez que problemas pessoais não têm tanto impacto sobre o dia a dia da empresa”.[1] A ênfase em que contratar mulheres constitui um bom negócio para os negócios é frequentemente ressaltada: “o processo de empoderamento das mulheres traz resultados positivos para as empresas e por isso não deveria ser visto apenas como uma ação social, mas também como uma oportunidade de desenvolvimento empresarial.”[2]

As vantagens da inserção da mulher no mercado de trabalho via de regra aparecem relacionadas a uma maior produtividade da mulher pela característica “inata” de ser flexível. Ora, na época do trabalho flexível e precarizado, é bastante conveniente reforçar a naturalização de certas características de personalidade que tornariam determinado sexo mais apto a fazer várias tarefas ao mesmo tempo.[3] No mais das vezes, o discurso empreendedorista colabora com a construção subjetiva de uma trabalhadora não apenas dócil mas “pró-ativa”. A aceitação dos pressupostos do empreendedorismo tem por mínimo enfraquecer a identificação dos trabalhadores enquanto classe.

Em segundo lugar, o discurso do empreendedorismo é indissociável da lógica da meritocracia, segundo a qual o sucesso ou fracasso profissional do indivíduo é medido basicamente pelo seu próprio empenho. Aqui, outra armadilha cruel para as mulheres pobres, que são seduzidas pela idéia de se transformarem rapidamente em grandes empresárias – como a personagem de Ingrid Guimarães em “De pernas pro ar”. Os famosos “cases” de sucesso são narrados em livros e programas de televisão, mostrando como é possível a qualquer uma “chegar lá”. Essa subjetividade é particularmente útil em setores comerciais como vendas de cosméticos femininos, por exemplo, onde geralmente o discurso oficial das empresas é que qualquer consultora pode ficar rica em pouco tempo se trabalhar muito.

Tudo isso ajuda a erguer no imaginário um modelo de sucesso feminino que consegue conciliar uma carreira de sucesso com uma vida familiar propaganda de margarina, obtendo desempenho máximo em todos os quesitos. Revistas voltadas para o público feminino – e que se pretendem modernizadas – vendem, capa após capa, a mulher que faz tudo e mais um pouco. A Barbie do século XXI não depende mais do Ken e é sexualmente emancipada; mas continua sendo uma Barbie – um modelo inatingível, fonte de sofrimento psíquico para as mulheres. Num mundo que exige da mulher um desempenho máximo e gozo máximo o tempo inteiro, não há espaço para a vivência da frustração, da decepção ou da tristeza.

O sujeito neoliberal, como descreveram os críticos franceses Pierre Dardot e Christian Laval, é “guiado”, “estimulado”, e “empoderado”.[4] Na “governamentalidade” empresarial do neoliberalismo, os indivíduos passam a se entender a si mesmos como empreendimentos, expondo-se aos riscos e assumindo responsabilidade por eventuais fracassos. Visto como proprietário de um “capital humano” que precisa se auto-valorizar, esse sujeito aprende que “viver na incerteza” é um estado natural, e todas as formas de crise social são percebidas como crises individuais, numa extrema individualização do destino. Para a mulher isso é ainda mais perverso, pois parece imperativo que ela aproveite ao máximo a liberdade que as gerações passadas lhe legaram, inclusive a liberdade sexual. Os surtos contemporâneos mundiais de depressão e distúrbios psíquicos diversos, que atingem mais fortemente as mulheres, estão claramente ligados a este cenário social e econômico.[5]

Até aqui descrevemos a relação entre o discurso empreendedorista e a prática do neoliberalismo, mas existe também uma relação teórica. Israel Kirzner é o teórico da escola austríaca mais identificado com a problemática do empreendedorismo, mas também o próprio Ludwig von Mises escreveu bastante sobre o tema. Na visão de ambos, a economia de mercado deve estimular o “emprendedorismo” existente dentro de cada pessoa, ensinando-a a viver na busca incessante de oportunidades de lucro que se apresentem. Em sua principal obra, publicada no Brasil pelo Instituto Liberal,[6] Kirzner entende que o empreendedorismo vai muito além de um comportamento econômico: “o mercado é um processo de formação de si”. Como notaram Dardot e Laval, Mises e Kirzner entendiam-se a si mesmos como “empreendedores ideológicos” na longa luta da “sociedade de mercado” contra o socialismo e as teorias igualitaristas.[7]

Expropriação como libertação e conversão apassivadora de bandeiras feministas

A captura dos impulsos igualitaristas presentes na luta de classes se dá nos marcos da substituição da luta por direitos pela maximização do esforço individual no mercado competitivo. Não é casual o enorme silêncio do discurso empreendedorista acerca da perda de direitos trabalhistas e previdenciários das mulheres que está em jogo na reforma trabalhista e na reforma da previdência. O empreendedorismo, entendido como montar a própria empresa, é o sonho perfeito para se vender a um público que está vendo seus empregos e seus direitos escorrerem pelo ralo – no melhor estilo “não pense em crise, trabalhe”. Num passe de mágica, uma trabalhadora demitida, ou precarizada e informal, passa a se ver como uma “empreendedora” com um futuro promissor que só depende dela. Assim, no plano simbólico, o discurso empreendedorista atrela-se ao projeto neoliberal de retirada de direitos que está se aprofundando no país e no mundo.

Talvez nada ilustre melhor o trabalho precarizado vendido como ação filantrópica do que a propaganda da empresa cosmética AVON, que em 2003 fundou um instituto homônimo para “coordenar campanhas de responsabilidade social pela mulher”. A Avon diz acreditar “há 130 anos” (sic) que “a mulher pode ser responsável pelo seu próprio destino através da independência financeira, da sororidade e da beleza, seja ela qual for”; diz assegurar igualdade salarial e oportunidades de crescimento; e mais importante, diz que “o modelo de negócio Avon, que conta com as revendedoras como grandes parceiras, tem contribuído em todos os mercados para a emancipação econômica da mulher, dando a ela condições de planejar e obter sua autonomia financeira por meio da venda de produtos”.[8]

Como mostra a historiadora Virgínia Fontes, nos anos 1980, uma teia de aparelhos privados de hegemonia (APHs), em sua maioria de caráter empresarial, foi criada para redirecionar o sentido das lutas de classes que pulsavam. No padrão de sociabilidade formado nos anos 1990, o custo de administrar os conflitos sociais já era parte do cálculo empresarial, e o novo formato social para relações de trabalho impulsionado por essa rede de APHs é o da expropriação de direitos e da identidade operária. Segundo Fontes, esse tipo de ação representou o aprimoramento de formas de empresariamento, da formação contraditória de um sujeito ativo em sua própria subordinação. A subordinação ao mercado para a sobrevivência é forçada; porém foi encoberta por uma aparência voluntária.

Fundamentalmente, o estímulo ao empreendedorismo é impulso à extração de valor sob novos formatos, pulsão proveniente do capital em sua forma mais pura e concentrada, característica do capitalismo contemporâneo. É preciso lembrar que a extração de valor que flui para o grande capital tanto pode se dar através de mega aplicações de capital, quanto através da “pulverização de capitais impulsionando massas de novos e mais ferozes capitalistas funcionantes”, nas palavras de Fontes.[9]

Nos anos 1980 e 1990, o redirecionamento das lutas de classe se deu por meio da transformação de reivindicações de caráter igualitarista e universalizante para ações sociais de público específico que apagam distinções de classe e projetos políticos. A ideologia do empreendedorismo feminino apresenta como emancipação aquilo que é aumento da eficiência do trabalho através da auto-emulação da trabalhadora. Além disso, representa de captura e conversão de reivindicações igualitaristas, pois, como afirmamos no início, alguns dos motes empreendedoristas, como a independência econômica da mulher, constituem bandeiras feministas.

Empreendendo empresariamento e disciplinarização de mulheres

Por fim, cabe se perguntar da onde vem essa explosão do estímulo ao empreendedorismo feminino, e aqui encontramos uma base empírica para nosso argumento. A maior parte desse estímulo vem de entidades privadas de caráter empresarial, que em termos gramscianos podemos entender como aparelhos privados de hegemonia.[10]

As iniciativas internacionais começaram antes, constituindo frentes móveis de ação internacional do capital voltados para a questão das mulheres. Um dos pioneiros foi o “10.000 mulheres”, um programa global do banco de investimentos Goldman Sachs lançado ainda em 2008, ano em que estourava a crise econômica mundial. Segundo a descrição do programa, ele procura proporcionar “educação em administração e gestão de negócios a mulheres empreendedoras, a fim de ajudar a melhorar a qualidade da educação empresarial nos países em desenvolvimento”, e “já atingiu mais de dez mil mulheres empreendedoras em 43 países, incluindo Afeganistão, África do Sul, Brasil, China, Egito, Índia, Libéria, México, Nigéria, Peru, Quênia, Ruanda, Tanzânia e Turquia, através de uma rede de 90 escolas e organizações sem fins lucrativos”.[11] No Brasil, funciona em parceria com a Escola de Administração de Negócios da FGV de São Paulo (EAESP).

Em 2011, foi a vez do Wallmart lançar sua Iniciativa Global de Empoderamento Econômico da Mulher (Global Women’s Economic Empowerment Initiative), que tem como objetivos declarados “aumentar os fundos para negócios dirigidos por mulheres”; “empoderar mulheres em fazendas e fábricas através de treinamento, acesso ao mercado e oportunidades de carreira”, entre outros. O Wallmart prioriza programas de treinamento para mulheres na Índia, Brasil, Bangladesh e América Central – não por coincidência, países onde explora mão de obra barata. Em nenhum momento, claro, trata-se de elevar salários em geral, oferecer direitos e garantias no emprego, ou qualquer coisa do gênero: trata-se de uma forma de disciplinarização de trabalhadoras.

No Brasil, o projeto do Wallmart funciona com o nome “Movimento Mulher 360”, e conseguiu se legalizar como associação independente sem fins lucrativos em 2015, juntamente com outras onze empresas (Bombril, Cargill, CocaCola, DelRio, Diageo, Johnson&Johnson, Natura, Nestlé, Pepsico, Santander, Unilever). Em seu site, podemos ler que “mulheres empoderadas economicamente” contribuem para objetivos bem nobres (sic), como “fortalecimento do setor produtivo; o desenvolvimento de comércios mais justos em novos mercados; aumento na produtividade dos empregados; crescimento na habilidade de atrair talentos; melhoria do relacionamento com governos e órgãos reguladores (!?)”.[12]

Organizações empresariais interamericanas como a AMCHAM (Câmara Americana de Comércio) e a AS-COA (Americas Society/Council of the Americas) engajam-se com força no empreendedorismo feminino, organizando workshops, publicações e prêmios. Há quatro anos, a AS-COA organiza o “Women’s Hemispheric Network Forum” em Miami, conectando CEOs femininas de empresas das Américas. A última edição de sua revista, Americas Quarterly, foi dedicada aos jovens empreendedores, especialmente às mulheres, como uma solução para a crise econômica que a América Latina enfrenta – juntamente, claro, com as reformas “modernizadoras” da economia.[13] O EY Entrepreneurial Winning Women (Mulheres vencedoras empreendedoras), lançado em 2012, desenvolve um “programa de mentoria” com duração de um ano focado em “branding”, “liderança”, “gestão” e “relacionamento”.[14]

Os nomes brasileiros mais mencionados no que se trata de empreendedorismo feminino são o de Luiza Trajano, dona do Magazine Luiza, e Ana Lúcia Fontes, consultora de marketing que trabalhou no Banco Volkswagen, na Volkswagen do Brasil e na FEBRABAN.

Fontes lidera a Rede Mulher Empreendedora (RME), criada em 2010 e patrocinada pela Apex Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), além de ser curadora do Fórum Empreendedoras e da Virada Empreendedora, dois dos maiores eventos brasileiros da área. Por sua vez, Luiza Trajano é bastante influente no grupo “Mulheres do Brasil” (MdB), sintomaticamente criado em outubro de 2013 e que adota como imagem uma mulher carregando uma bandeira do Brasil. Na descrição principal do grupo em seu site, lê-se que “o grupo não tem partido, apenas levanta a bandeira de uma causa: o Brasil”. Para quem acompanhou o processo político brasileiro em 2013, é imediata a lembrança de que a tal “causa do Brasil” foi justamente uma resposta da direita às reivindicações de Junho, de maneira a encampá-lo e dar uma direção a ele.

Sonia Hess, da Dudalina, é outra figurinha tarimbada no meio, e suas filiações mostram o quanto essas iniciativas são inter-ligadas. Atualmente ela participa do grupo Mulheres do Brasil, e é, entre outros, mentora do programa Winning Women Brasil, da EY; mentora e embaixadora da Endeavor (empresa de referência na indústria militante do empreendedorismo no Brasil); jurada do prêmio Cartier Women´s Initiative; conselheira do Instituto Ayrton Senna; do Conselho Curador da Fundação Dom Cabral; conselheira do grupo Sequóia e Presidente do LIDE MULHER (seção voltada para mulheres da entidade criada pelo empresário João Dória, atual prefeito de São Paulo). Esses, no entanto, são apenas alguns exemplos de um movimento mais amplo, e que mereceria ser estudado mais profundamente.

Como procuramos demonstrar, para as mulheres subalternas, a ideologia do empreendedorismo feminino representa desemancipação. Como lidar com as aspirações legítimas de milhares de mulheres trabalhadoras que simplesmente sonham com uma vida melhor para si e para sua família, sem abrir mão da necessária crítica ao discurso empreendedorista? Essa é uma questão candente para o feminismo que não abriu mão da luta por direitos.

Notas

[1]           OSÓRIO, Josiane. “Empreendedorismo feminino. Momentos e desafios das mulheres empreendedoras”. http://bit.ly/29yL201.

[2]           MIRANDA, Elisabeth. “Mulheres no empreendedorismo”. http://bit.ly/2mMSGev.

[3]           A recorrência a argumentos biológicos não é tão freqüente, mas também se faz presente. Na semana do último Dia Internacional da Mulher, o programa de televisão Fantástico reportou uma pesquisa americana segundo a qual o cérebro da mulher seria mais bem adaptado a coordenar tarefas diferentes ao mesmo tempo do que o do homem. Na mesma pesquisa, se afirmou que as habilidades de conciliação de tarefas podem ser aprendidas, ou seja, que todo ser humano tem capacidade de realizar a coordenação de tarefas diferentes. Em nenhum momento da reportagem, no entanto, se questionou o motivo pelo qual as mulheres são as que aprenderam mais essa habilidade. “Teste a esteira comprova capacidade das mulheres para realizar multitarefas”. Fantástico, 05 de março de 2017. . https://glo.bo/2m7R4Zo

[4]           DARDOT, Pierre & LAVAL, Christian. A nova razão do mundo. Ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.

[5]           Ver KEHL, Maria Rita. O tempo e o cão. A atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo, 2009.

[6]           KIRZNER, Israel. Competição e atividade empresarial. Rio de Janeiro: Instituto Liberal, 1986.

[7]           DARDOT & LAVAL, Op. Cit., p.145.

[8]           “A Avon acredita na independência feminina”. Disponível em: http://bit.ly/2nbO2nO.

[9]           FONTES, Op. Cit., p.198.. Em “O ornitorrinco”, Chico de Oliveira já havia exposto brilhantemente a relação entre uma forma primitiva de trabalho com as mais avançadas formas de produção just-in-time, em escala internacional. Seu exemplo do trabalho que realizam vendedores de refrigerantes às portas dos estádios para as grandes empresas de bebidas, sem quaisquer vínculos trabalhistas, mostrava um dos formatos de externalização de custos de reprodução do capital. Agora, além de tudo, esse tipo externalização de custos aparece como libertação! OLIVEIRA, Francisco de. “O ornitorrinco”. In: _________. Crítica à razão dualista & O ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003, p.140.

[10]          Na lavra gramsciana, em suas concepções mais desenvolvidas, aparato egemonico significa “estrutura ideológica de uma classe dominante”, ou, mais extensamente, como “organização material com o propósito de manter, defender e desenvolver o “front” teórico o ideológico” (HAUG, W.F. et all. Historical-critical Dictionary of Marxism. Historical Materialism 17, 2009). Alguns autores gramscianos brasileiros desenvolveram a partir dessa concepção o termo “aparelho privado de hegemonia” para designar uma sociedade particular (formalmente privada), que se torna o correspondente do aparelho governativo-coercitivo. Dessa forma, think-tanks e ONGs podem ser entendidos a partir desse conceito.

[11]          Ver “10000 mulheres”. Disponível em: http://bit.ly/2m5qcIv.

[12]          “O movimento mulher 360”. Disponível em: http://movimentomulher360.com.br/institucional/o-movimento/.

[13]          Ver BONS, Sarah & TUMMINO, Alana. “Keys to sucess for Latin America’s women entrepreneurs”. Americas Quarterly, vol 11, n.1, fevereiro de 2017. Disponível em http://bit.ly/2jnpF4W.

[14]          A sigla EY refere-se à empresa de contabilidade Ernst & Young, fundada em 1989, uma das maiores companhias listadas pela Bovespa.