Ilustração  D. Muste
Ilustração D. Muste

Entrevista com Morgane Merteuil: “a esquerda não reconhece as trabalhadoras do sexo”

(Tradução de Fernando Pureza)

Nota dos Editores da LeftEast: Em 13 de abril de 2016 o governo francês promulgou uma lei que tornou ilegal o ato de pagar por sexo, após deputados terem aprovado a nova legislação depois de dois anos de vetos e oposições vindas do Senado. Sob essa nova lei, qualquer pessoa que seja pega em flagrante pagando por sexo, será multado e obrigado a ir em aulas sobre os malefícios da prostituição. Seis meses depois, de acordo com o sindicato francês de trabalhadoras sexuais (STRASS), a legislação tornou as cerca de 30.000 trabalhadoras do sexo francesas mais vulneráveis do que nunca. O sindicato acusou Maud Olivier, deputada socialista que está por trás da lei, de ter passado uma reforma “essencialmente repressiva”. Os grupos de prostitutas que lutam contra essa mudança legal argumentam que ela só tornou a vida das trabalhadoras sexuais mais perigosas, forçando-as a buscarem trabalho em lugares mais isolados. Poucas pessoas estão mais gabaritadas a explicar tais desdobramentos, inclusive tratando das formas de luta empregadas pelas trabalhadoras do sexo, do que a ativista francesa e ex-secretária da STRASS, Morgane Merteuil. Seu longo ativismo político do lado dos trabalhadores franceses e suas constantes intervenções nos debates públicos forneceram a ela um profundo instrumental para analisar esse momento político na França e seu sentido mais amplo para a esquerda. Nessa entrevista, George Souvlis, doutorando em História na European University Institute de Florença, fala com Mertuil sobre sua experiência como porta-voz da STRASSE, suas lutas, a ideia de abolição da prostituição, debates feministas recentes sobre trabalho sexual e o tema do trabalho sexual forçado (e, principalmente, imigrante). A LeftEast e George também gostariam de agradecer a ajuda de Kathryn Keating, pesquisadora de Estudos de Igualdade, na University College of Dublin.

George Souvlis – Você gostaria de se apresentar focando nas experiências formativas (acadêmicas e políticas) que mais lhe influenciaram?

Morgane Merteuil – Eu não sei se minha experiência acadêmica realmente me influenciou: eu terminei meu baccalauréat por correspondência e não sabia muito bem das possibilidades de orientação. Eu não sabia, por exemplo, da existência de campos como sociologia ou ciência política, então acabei indo para a literatura, já que nesse campo eu me sentia mais à vontade. Logo em seguida eu fiquei bastante desapontada, pois eu esperava que fosse muito mais político, quando na verdade era algo bastante conservador e que se baseava, em grande parte, na ideia de separar a literatura da política.

Mas eu tive a oportunidade de conhecer companheiros durante os movimentos sociais, especialmente durante a luta contra a Lei de Reforma Universitária no movimento em prol da previdência. E a partir disso, fui ficando influenciada tanto pelo movimento estudantil de caráter mais sindical como também por aqueles grupos mais autonomistas. No que diz respeito ao feminismo, eu devo dizer que ele não era o centro das minhas preocupações, exceto no que diz respeito às discussões sobre aborto.

Mas aí eu comecei a trabalhar na indústria do sexo e passei a ler mais coisas sobre esse tema, quando então descobri que ele era um assunto polêmico não apenas entre as feministas, mas também entre a esquerda. E quando eu fui acusada por companheiros (homens) de estar apoiando o capitalismo e o patriarcado, eu me juntei ao STRASS (o sindicato das trabalhadoras sexuais) e passei a ler muito sobre feminismo. E fiz isso para me tornar capaz de responder a todos os absurdos que circulavam nesse meio sobre o trabalho sexual e sobre as trabalhadoras do sexo. Ao fazer isso, eu me tornei cada vez mais consciente da opressão sobre as mulheres e a necessidade de trazer temas feministas para os movimentos de esquerda. Eu então descobri Silvia Federici e acabei sendo levada à teoria marxista pelos companheiros Stella Magliani-Belkacem e Félix Boggio Ewanjee-Epee. A descoberta do feminismo marxista tem sido uma revelação para mim, já que o feminismo materialista mais tradicional era bastante contrário ao trabalho sexual (seguindo uma noção de dominação masculina), enquanto o feminismo pró-trabalho sexual era bastante liberal. Portanto, ter encontrado uma teoria que me permitisse teorizar o trabalho sexual enquanto trabalho, na perspectiva da luta de classes, acabou sendo um grande passo em minha formação, algo que permitiu que eu me reconciliasse com o meu feminismo e com meu antigo interesse em temas do anticapitalismo.

George Souvlis – No período entre junho de 2011 e junho de 2016, você foi a secretária geral do STRASS e, hoje é sua porta-voz principal. Você pode nos falar um pouco mais dessa experiência? Quais foram as principais lutas políticas que você enfrentou no sindicato? Quais foram as principais vitórias e principais derrotas nesse período para o sindicato? Quantos membros ele possui – e qual a relação entre o sindicato e outras entidades de classe dentro e fora da França? Quais são os temas que vocês têm de lidar a partir de agora?

Morgane Merteuil – Eu me juntei ao STRASS em 2011, numa época em que o sindicato era bastante fraco em termos de liderança. Também foi a época em que a ideia de criminalização dos clientes começou a emergir como uma proposta concreta em meio ao debate político, isso desde que um relatório do governo recém tinha publicado a proposta para essa medida. Isso estava ocorrendo simultaneamente conforme as vozes mais fortes do movimento abolicionista – especialmente aquelas dos novos grupos institucionais feministas, como Osez le Féminisme – começaram a colaborar entre elas e organizar um grande lobby diante da proximidade das eleições presidenciais e que continuaram sua mobilização mesmo depois da eleição de Holland. Mas enquanto elas advogavam em favor da criminalização do trabalho sexual, com o apoio crescente dos membros proeminentes do Partido Socialista que trataram a prostituição como uma violência contra as mulheres, nós acabávamos assistindo muitas dessas mulheres-a-serem-salvas sendo presas pela polícia. Tais prisões ocorriam em nome de uma lei que proibia o ato de pagar por sexo, com a polícia assediando principalmente as trabalhadoras que não tinham documentos. E por conta disso nós tínhamos que lidar com muitas prisões e, além disso, esse contexto facilitou várias formas de violência contra as trabalhadoras sexuais, desde roubos até assassinatos, incluindo casos de estupro – alguns deles cometidos por policiais.

No que diz respeito às nossas vitórias e derrotas, nós podemos dizer que tivemos uma grande derrota desde que a lei que criminaliza nossos clientes foi aprovada em abril desse ano. Ao mesmo tempo, a comoção gerada nos deu uma chance de sermos ouvidas, ainda que não fosse nos termos de nossa própria agenda. Mas isso ao menos permitiu que nossa análise sobre a situação das trabalhadoras do sexo fosse ouvida dentro dos movimentos sociais, o que permitiu avançarmos em alguns pontos – ainda que haja muito a fazer. E nós conseguimos, principalmente, contribuir com a emergência de um feminismo alternativo. Nós acabamos tendo que nos lembrar que, por mais de uma década, os direitos das mulheres também serviram para estigmatizar os muçulmanos (dentro daquilo que Sara Farris chama de feminacionalismo), com mulheres islâmicas sendo alvo de intensa criminalização a partir do banimento dos usos dos véus. A islamofobia foi apoiada intensamente por grandes grupos institucionais feministas e isso ocorreu de tal forma que muitas feministas, que não participavam desses grupos, sentiram a necessidade de construir um outro feminismo. Um movimento que mantivesse seu foco em termos de ordem “inclusiva”: o apoio às trabalhadoras do sexo, o apoio às mulheres muçulmanas e o apoio às mulheres trans. E, diante disso, o fato de que atualmente uma grande parte do movimento feminista está apoiando a nossa luta, é sem dúvida uma grande vitória. Infelizmente, contudo, nós (ainda) não podemos dizer o mesmo no que se refere à esquerda. De fato, os setores da esquerda parecem ainda muito divididos no que se refere a questão do trabalho sexual de tal forma que sempre que eles tratam desse tema, tudo sempre é muito ambíguo (exceto, talvez, com o Partido Comunista e com a Front du Gauche, que são claramente antitrabalho sexual). De fato, para a esquerda o apelo à criminalização não poderia ser considerado uma solução ideal, mas ao mesmo tempo, a existência do trabalho sexual é considerada uma espécie de degradação tão grande para as trabalhadoras envolvidas que algo tem que ser feito contra isso. É claro que a esquerda não reconhece as trabalhadoras do sexo como trabalhadoras, mas somente como vítimas que devem ser salvas. Dessa perspectiva, a criminalização dos clientes acaba parecendo uma vitória do feminismo e do anticapitalismo. E, no que diz respeito a esse ponto, nossas relações com outros sindicatos não é muito boa, não. Na verdade, muitos trabalhadores e sindicalistas da base chegam a nos apoiar, ao menos individualmente. Mas a hierarquia dentro dessas organizações costuma ser mais rígida, ainda mais que essa questão geralmente fica dentro de comissões feministas que geralmente são controladas por feministas antitrabalho sexual.

Assim, no que concerne esse tópico, nós temos que lidar com eles agora e só podemos “torcer”, diante da criminalização de nossos clientes e da vitória das abolicionistas, para que nós possamos revitalizar a discussão sobre o trabalho sexual nos termos de nossas próprias demandas. Nós precisamos falar, principalmente, sobre a reintegração efetiva das trabalhadoras sexuais que essa lei (não) permite, sobre os problemas que elas continuam a enfrentar – especialmente as que não possuem documentos – e sobre os problemas da lei de cafetinagem que nos proíbe de alugar nossos próprios quartos ou dividir locais de trabalho.

George Souvlis – A prostituição na França (ou seja, a compra de serviços sexuais em troca de dinheiro) era legal até abril de 2016, ainda que outras atividades fossem ilegais, como controlar um bordel, coletar dinheiro das trabalhadoras (cafetinagem) e pagar por sexo com uma menor de 18 anos (a idade de consentimento na França é de 15 anos). Em 6 de abril de 2016, a Assembleia Nacional Francesa votou numa lei para punir os clientes das prostitutas com uma multa de €1.500. Como você avalia essa mudança? Você considera ela uma mudança, um progresso para os interesses das trabalhadoras do sexo?

Morgane Merteuil – Com o STRASS, nós nos opusemos a essa mudança, dado que ela não trazia nenhuma resposta às preocupações das trabalhadoras do sexo. De fato, se nós considerarmos o paradigma abolicionista e concordando que a maioria das trabalhadoras do sexo são vítimas de tráfico de mulheres, então como que a criminalização dos clientes iria ajuda-las? Se nós considerarmos a realidade atual, ou seja, de que a maioria das trabalhadoras do sexo acabaram optando por essa vida diante de um contexto em que elas raramente tiveram outras opções, como essa medida afeta a situação que as levou ao trabalho sexual? Muitas trabalhadoras do sexo são pessoas que enfrentaram imensa discriminação no mercado de trabalho “clássico”, tendo em vista que elas eram mulheres (trans), mães solteiras, imigrantes sem documentos, ou porque contraíram dívidas que um trabalho “clássico” não poderia pagar, etc. Nós sempre pensamos, quando falamos de escravidão por dívidas, sobre grandes redes de tráfico de mulheres que são divulgadas na mídia. Mas nós nunca falamos sobre como nossa política de fronteiras fechadas contribuem para esse tipo de negócio. Nós tampouco falamos, nesse contexto, sobre as dívidas que cada vez mais os estudantes ocidentais acumulam em seus países. E tais situações são criadas por Estados neoliberais que, então, passam a votar leis contra a prostituição. As necessidades das trabalhadoras do sexo são iguais as de todo mundo: dinheiro. Elas precisam de documentos. Elas precisam de saúde pública e de um sistema educacional. Elas também precisam do direito de se auto-organizar em relação ao seu trabalho, até mesmo para conseguirem se proteger. Elas não precisam de assédio policial em seus locais de trabalho. E essa é a única coisa que essa lei garante, deixando de lado todas as necessidades das trabalhadoras. O suposto “programa social” é apenas mais um dispositivo de controle, já que as trabalhadoras do sexo têm de parar seu trabalho sexual para poder receber os míseros benefícios providos pelo governo.

George Souvlis – E qual sua posição acerca da abolição da prostituição? É um desenvolvimento progressivo, ou não?

Morgane Merteuil – Eu devo dizer que, depois de anos participando dessa discussão, eu ainda não entendo como alguém pode levar a sério essa ideia de “abolir a prostituição” como se fosse um tema singular. Especialmente se você considera a prostituição como uma consequência, como um sintoma do capitalismo patriarcal (o que fazem quase todos nesse debate, exceto os liberais), pois aí a dúvida é sobre qual o sentido de falarmos em “abolição da prostituição”? Eu não consigo entender o que significa “abolir a prostituição”. Eu entendo a ideia de abolir o capitalismo, as estruturas classistas, as dinâmicas de gênero e de raça, todos os tipos de exploração. Por um lado, eu entendo a perspectiva sindicalista de que buscar melhorar as condições de trabalho daqueles que são explorados, incluindo as trabalhadoras sexuais. Claro que faz sentido, por sua vez, “abolir” uma indústria específica – como a nuclear ou a de armamentos –, ao menos no que diz respeito a interromper a produção dessas mercadorias. Mas no que diz respeito ao trabalho sexual, dada sua dimensão sexual específica e dado o fato de que ele não participa diretamente na produção de mercadorias, mas sim na reprodução humana a partir de trabalhos de caráter emocional e íntimo, parece muito difícil imaginar que esse trabalho não seja mercantilizado – ainda mais se considerarmos a atual organização da sociedade, especialmente no que se referem a essas áreas, muito dominadas ainda por dinâmicas de classe, gênero e raça.

As feministas marxistas que trabalharam com a questão da “reprodução social”, acabaram, de fato, salientando como as atividades mais privadas e íntimas participam na reprodução do capitalismo e contribuem para a acumulação do capital, mesmo (e especialmente) aquelas que não são remuneradas. E dado também que os discursos de “libertação sexual” foram ressignificados pelo neoliberalismo, assim como o homo/feminacionalismo, eu realmente não sou nada otimista sobre o sucesso dessa ideia de “abolir a prostituição” em prol da emancipação sexual das mulheres.

George Souvlis – A feminista radical Americana, Catherine MacKinnon, em um de seus artigos comparou a prostituição com o estupro, dizendo que a “prostituição é, em si mesma, um abuso sobre o corpo da mulher”. Você acredita que tal comparação é legítima?

Morgane Merteuil – No que diz respeito a minha última resposta, eu diria que “provavelmente” é legítima. Provavelmente porque, infelizmente, é bastante provável que uma relação sexual entre um homem e uma mulher seja baseada no abuso da mulher, ou que ela seja um último passo num longo processo de abuso, ou que ela seja um pretexto para o abuso. Sexualidade é uma área difícil para as mulheres. E não é só isso, claro. É na verdade uma área muito contraditória, na qual as mulheres também podem encontrar o poder que lhes é tirado em outras áreas. A sexualização pode ser uma forma da mulher expressar uma libertação das condições opressoras que se impõem sobre ela em posições socialmente depreciadas. É a partir dessa sexualização que muitas mulheres da classe trabalhadora conseguem ascender socialmente. Mas a competição é muito árdua e as regras são definidas de forma muito rígida.

Portanto, e retomando Dworkin, se eu não concordo com a sua comparação pessimista e determinista sobre o trabalho sexual, eu ainda reconheço a coerência de seu pensamento, já que ao comparar o trabalho sexual com o estupro, ela na verdade considera que as muitas formas do sexo heterossexual, baseadas num certo tipo de masculinidade hegemônica, são uma forma de abuso. Isso é muito diferente do que as abolicionistas de hoje em dia propõem. Elas questionam muito menos as coerções da heterossexualidade, elas quase não questionam a sexualidade de fato, dividindo o tema em categorias simplórias: livre/comercial, consentimento/estupro, binarismos que são empregados na ficção liberal. Mas a maioria das experiências de mulheres não podem ser resumidas em tais palavras, pois as fronteiras são muito mais opacas para se fazer tais distinções. Provavelmente não é uma coincidência que o movimento queer, que geralmente propõe muitas questões sobre as masculinidades e suas relações com o abuso, acabe muitas vezes apoiando os direitos das trabalhadoras do sexo.

George Souvlis – Será que o sexo pode ter um conteúdo potencialmente emancipatório?

Morgane Merteuil – O que pode ser emancipatório para as mulheres é garantir o dinheiro que elas ganham com seu trabalho sexual. O trabalho sexual é provavelmente a única área na qual uma mulher da classe trabalhadora, não tendo nenhum capital, desprovida de relações sociais, pode ganhar mais do que em outras profissões disponíveis para ela. Ao mesmo tempo, o trabalho sexual pode ser bastante alienante, devido as fortes implicações pessoais necessárias para garantir o provimento dos serviços sexuais. Ele pode ser bastante danoso tanto física como psicologicamente, devido à vulnerabilidade das condições nas quais a maioria das mulheres exercitam ele, além dos perigos que elas enfrentam nesse trabalho e sua própria estigmatização. Dito isso, eu acredito que a emancipação é um processo coletivo. E, portanto, nós devemos pensar em dois processos. O primeiro é o da coletividade das trabalhadoras do sexo. Devido às árduas condições de trabalho, a organização da própria indústria e a criminalização, as trabalhadoras são colocadas em competição umas com as outras. Um primeiro passo, então, seria desenvolver um sentimento de coletividade e de pertencimento entre essas trabalhadoras, compartilhando seus interesses comuns. Mas o segundo processo é de que a emancipação das trabalhadoras do sexo deve ser pensada em relação a emancipação global da classe trabalhadora. Mas para isso, esse sentimento de pertencimento de uma ampla coletividade que compartilha os mesmos interesses acerca da emancipação não pode ficar restrito às trabalhadoras do sexo, mas sim a todo o movimento operário, que precisa esforçar-se para incluir as trabalhadoras do sexo em suas lutas. E nós infelizmente ainda estamos longe disso.

George Souvlis – Quais são as relações de seu sindicato com os partidos tradicionais de esquerda? Eles compartilham e apoiam as lutas de vocês?

Morgane Merteuil – Os partidos de esquerda estão bastante divididos nesse tema. O Partido Comunista (PCF), assim como a Front du Gauche, são oficialmente abolicionistas e apoiaram a criminalização dos clientes. Já o grupo Ensemble! tem uma postura mais hipócrita, sendo oficialmente abolicionista, mas ambíguo no que diz respeito ao tema da criminalização dos clientes. A posição oficial deles considera que os clientes devem ser responsabilizados, mas não pretendem defender a repressão como a melhor abordagem para o problema. Apenas o Noveau Parti Anticapitaliste (NPA) tomou uma postura clara contra a criminalização (e não sem antes passar por duros debates internos) e alguns membros do NPA chegaram a participar de nossas mobilizações, mas ainda em números bastante reduzidos. Na verdade, o que acontece é que esse tema é bastante desprestigiado pela maioria dos partidos de esquerda. Ele geralmente relegado como “coisas de gênero e sexualidade”, restritos somente a comissões feministas e tudo que elas conseguem aprovar, muitas vezes, é mais formal do que concreto. Não se consegue um verdadeiro comprometimento dos partidos com o feminismo. Além disso, eu acrescentaria que acredito que é um erro gigantesco relegar esse assunto apenas ao feminismo, já que há dinâmicas fundamentalmente racistas que comandam a aplicação das leis antitrabalho sexual. E a propósito, eu acredito que agora que conseguiram aprovar a criminalização da solicitação, será cada vez mais difícil levantar esse assunto dentro das organizações de esquerda.

George Souvlis – Melissa Gira Grant argumenta, em seu livro Playing the Whore, que a separação do trabalho sexual da economia “legítima” somente prejudica aquelas que lidam com o trabalho sexual. Qual sua posição sobre esse tema? O trabalho sexual é a mesma coisa que outras formas de trabalho?

Morgane Merteuil – Eu concordo com Melissa Gira Grant. Na verdade, o que está acontecendo é que, de acordo com o movimento antitrabalho sexual, ao tentarmos lutar contra o estigma da puta, nós estaríamos “glamourizando a prostituição” que deveria ser abolida: o que eles querem dizer com isso é que eles precisam que as trabalhadoras do sexo e a opinião pública concordem com a legitimidade do estigma da puta para tornar o seu argumento eficiente. E isso certamente é danoso para as trabalhadoras do sexo, mas também para todas as pessoas que, em algum movimento de suas experiências de vida, acabaram tendo que lidar com o trabalho sexual ou com a indústria do sexo. Essas pessoas irão se sentir depreciadas e talvez isso ocorra menos por causa do trabalho e mais por causa da percepção que elas constroem sobre si mesmas.

Ao dizer isso, não quero afirmar que o único problema do trabalho sexual é o estigma no qual ele é ligado. Eu não quero entrar num debate sobre o que deveria ser o trabalho sexual: ele é um trabalho como qualquer outro? Ele é prejudicial por si só? Ele é emancipatório? Somente a exploração sexual é danosa, enquanto o trabalho sexual “gratuito” e “independente” é libertador? Mas eu acredito que a partir dessas questões, nós podemos ir para diferentes e interessantes direções.

Em primeiro lugar, eu creio que houve um grande erro dos defensores do trabalho sexual que consiste, basicamente, em negar o fato de que esse tipo de trabalho, mesmo quando ele é fruto de uma “escolha”, pode ser prejudicial tanto física quando psicologicamente. Na verdade, nós podemos e devemos reconhecer os possíveis danos que são inerentes a esse tipo de trabalho, tendo em vista que cada profissão envolve riscos específicos para a saúde. Esse é um tema a ser considerado numa perspectiva da saúde ocupacional. E isso, por exemplo, é um tema que foi levantado por Johanna Brenner em seu artigo “Selling sexual services: a socialist feminist perspective”. E eu a cito:

“Os sentidos dados às fronteiras do corpo e às transações sexuais variam dentro das culturas humanas. No lugar social da maioria das protagonistas do debate feminista (e em muitas sociedades contemporâneas), nossas fronteiras do corpo são construídas como um locus inviolável de pessoalidade. Mais do que isso, as partes do corpo que são mais associadas com a excitação sexual são centrais para que se construa um sentido psicológico de um self privado. Muitas trabalhadoras feminizadas acabam tendo contato íntimo com os corpos de outros e com os lados mais ‘sujos’ da vida. E, ainda assim, suas próprias fronteiras geralmente permanecem intactas. Mas não é assim que ocorre com a prostituição. Aqui, as partes ‘íntimas’ são usadas em prol do prazer de outro e não de si. E isso gera riscos psicológicos – como, por exemplo, a alienação do seu próprio desejo, a dissociação de seu próprio corpo, de anestesia dos sentimentos, de depressão e outros problemas.”

Portanto, considerando as formas as quais sexualidade e intimidade são construídas em nossa sociedade, seria muito idealismo acreditar que alguém possa realmente vender a força de trabalho sexual da mesma forma que a força de trabalho costuma ser vendida sem que haja consequências. O fato é que as consequências de nossas experiências sexuais (ruins) são sentidas como experiências traumáticas. E o trabalho sexual não escapa deste contexto.

Contudo, existem muitos empregos que envolvem áreas da vida que podem estar relacionados a consequências traumáticas e psicologicamente danosas (por exemplo, com pessoas trabalhando com corpos feridos ou mortos). Uma diferença, todavia, é que as habilidades as quais os trabalhadores e trabalhadoras usam para se distanciarem do objeto de seu trabalho acaba sendo valorizado nesses casos enquanto, por sua vez, as habilidades usadas pelas trabalhadoras do sexo são consideradas como evidência suplementar de atitudes patológicas.

Por fim, outra forma de considerar a questão das relações do trabalho sexual com as relações de trabalho em outras áreas, é levar em conta a dimensão sexual envolvida em muitas profissões e como parte da força de trabalho que um trabalhador ou trabalhadora acaba tendo que vender é constituído, em última instância, por sua performance de gênero ou até mesmo outras qualidades pessoais e subjetivas. As pesquisas sobre trabalho emocional e digital mostram como cada vez mais nós estamos literalmente nos vendendo, e não mais somente a nossa força de trabalho. Isso acaba abrindo uma renovação para refletirmos sobre alienação e reprodução social e também sobre como devemos pensar essas coisas a partir de um lugar de resistência. Assim, é possível considerar as lutas contemporâneas das trabalhadoras do sexo em relação a outras lutas, partindo assim da necessidade que os seres humanos têm em sobreviver enquanto comunidades. Lutas antirracistas e anti-imperialistas, lutas contra políticas prejudiciais, contra violência policial etc., todas elas somadas indicam que nós devemos pensar sobre temas que antes não eram discutidas nas lutas “clássicas” dos trabalhadores, mas que podem constituir inspiradores pontos de partida para uma recomposição de uma luta radical em prol da emancipação social.

George Souvlis – A tendência de juntar o trabalho sexual com o tráfico de mulheres levou a um apoio generalizado às abordagens focadas na condenação às trabalhadoras sexuais, marginalizando e colocando em risco os próprios grupos que essas leis dizem proteger (principalmente as trabalhadoras imigrantes mais vulneráveis). As “narrativas salvacionistas” afirmam que elas são para ajudar as “vítimas” e acabam angariando bastante apoio público, mas elas acabaram justificando o controle dos corpos (especialmente no que diz respeito às minorias, como as mulheres islâmicas ou as mulheres mais marginalizadas). E você também afirma que a “alização dos clientes foi apresentada como uma vitória do feminismo. Como essa dominação discursiva das “narrativas salvacionistas” pode ser enfrentada e o que os sindicatos fazem, nos espaços midiáticos, para subverte-las? Como essa discussão pode ser reintroduzida com os direitos dos trabalhadores e dos imigrantes como ponta de lança?

Morgane Merteuil – O paradigma do tráfico de mulheres foi, de fato, desafiado por muitos pesquisadores, assim como pelas trabalhadoras sexuais que foram alvo de programas antitráfico, demonstrando os malefícios que tais programas causam às trabalhadoras imigrantes e a agenda anti-imigração a que elas servem. Desse ponto de vista, os sindicatos das trabalhadoras sexuais podem permitir que elas se organizem contra essas políticas, que as denunciem e que se construam solidariedades com outros grupos atingidos por essas políticas. A organização das imigrantes que são trabalhadoras sexuais e a denúncia do assédio policial que elas experimentam, pode acabar sendo um poderoso instrumento para enfrentar a narrativa salvacionista que tenta reduzí-las à condição de vítimas sem vozes. Eu também creio que a atual crise de refugiados pode contribuir muito para que se questione esse paradigma antitráfico, destacando algumas similitudes em temas relacionados à contrabando e exploração. Ela também pode levantar a necessidade de que haja uma política de fronteiras abertas e que se passe a receber tanto os “imigrantes econômicos” como os “refugiados”, se nós quisermos de fato lutar contra as diferentes formas de exploração.

George Souvlis – Você afirmou que as dinâmicas racistas acabaram dando suporte à aplicação das leis antitrabalho sexual. Você poderia falar um pouco mais sobre isso a partir de seu trabalho no STRASS?

Morgane Merteuil – Eu, infelizmente, tenho muitos exemplos. Na verdade, quase todos os casos de prisão de trabalhadoras sexuais são relacionados com as trabalhadoras imigrantes. Especialmente nas ruas, o assédio policial é contínuo. Até a aprovação da nova lei, o que existia era o “crime de solicitação”, que criminalizava uma trabalhadora sexual apenas por estar na rua. Um exemplo disso é que as mulheres chinesas que fossem identificadas como trabalhadoras sexuais acabavam sendo presas fora do seu trabalho, inclusive quando estavam indo ao supermercado. Nas zonas rurais, era comum usarem leis específicas para criminalizar as populações locais que trabalhassem com sexo. E agora que a “solicitação” não é mais crime, o assédio ainda é forte, mas com um detalhe: a polícia não precisa mais de justificativa para a prisão. Assim, eles tomam posse dos documentos das trabalhadoras e aquelas que não possuem acabam sendo mandadas para centros de detenção.

George Souvlis – Você fala da dificuldade de enquadrar o trabalho sexual em termos de “escolha”. De que maneiras o STRASS lidou com a disparidade dos casos em que se encontram escolhas e coerções (especialmente das imigrantes) no trabalho sexual? Teve bastante adesão das trabalhadoras sexuais no sindicato e nas lutas? Para nossos leitores, seria particularmente interessante saber como essa dinâmica funciona na França com as mulheres da Europa Oriental, que formam uma boa parte da força de trabalho sexual imigrante. Ou seja, como elas são coagidas a esse tipo de trabalho por necessidade econômica, mas que às vezes – por conta da história específica do socialismo no Leste Europeu – possuem um grau de desconfiança sobre a força e independência dos sindicatos.

Morgane Merteuil – Desde que começamos a falar sobre os direitos das trabalhadoras, é desnecessário dividir a classe entre aquelas que escolheram e aquelas que não escolheram essa vida: lutar pelos direitos das trabalhadoras sexuais significa tanto lutar pelo direito ao trabalho nas melhores condições possíveis assim como pelo direito de poder parar de trabalhar na indústria do sexo.

Muitas imigrantes se juntaram, sim, ao sindicato; e muitas mais se juntaram às nossas lutas. Para muita gente, juntar-se ao sindicato nem sempre é importante, no sentido de que a força das redes comunitárias já existe fora das estruturas sindicais, então elas podem se juntar às manifestações e outros eventos sem, necessariamente, estarem afiliadas aos sindicatos. Nós também tivemos grandes movimentos vindos de trabalhadoras chinesas e da América Latina – a maioria delas de mulheres trans. Algumas mulheres da África, especialmente as nigerianas, também participaram de forma mais pontual em nossos eventos. No que diz respeito às mulheres do Leste Europeu, o STRASS não conseguiu chegar até elas em Paris, mas elas são muito ativas em Toulouse, por exemplo. E nesse caso, elas não estão necessariamente afiliadas aos sindicatos, que nem sempre atingem suas necessidades cotidianas, mas elas aparecem nas manifestações e podem se envolver também nas organizações comunitárias voltadas para a saúde.