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Ernst Nolte e a historiografia revisionista

Demian Melo

Neste 18 de agosto de 2016 morreu o historiador alemão Ernst Nolte (1923-2016), um dos mais importantes especialistas na história do fascismo no período entre guerras, autor da tese de que entre 1917 e 1945 houve uma longa guerra civil europeia, a “segunda guerra de trinta anos”, provocada pelo “bolchevismo”. E se essa última ideia alcançou grande repercussão mesmo entre historiadores de esquerda,[1] sua interpretação tanto do fascismo quanto do comunismo é mais controversa.[2] Não por acaso, nos anos imediatamente posteriores à dissolução da União Soviética aproximou-se da leitura do também conservador François Furet, para quem o comunismo e o fascismo seriam “gêmeos totalitários” do século XX.

Nos anos 1980 a interpretação de Nolte do nazismo gerou uma importante polêmica pública na República Federal Alemã, envolvendo historiadores, jornalistas e filósofos, sendo uma das controvérsias mais visitadas nos debates sobre memória que inflacionam a historiografia contemporânea desde aquela década até hoje. Conhecido como Historikerstreit (“A querela dos historiadores”), o debate foi provocado pela reação a um artigo que Nolte publicou no jornal conservador Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ). Publicado em junho de 1986, em “O passado que não quer passar” Nolte apresentou sua tese de que o nazismo e mesmo o Holocausto foram “cópias do bolchevismo”.[3] Publicizando teses que já vinha elaborando há algum tempo, o historiador alemão afirmava que o “nexo causal” entre as duas experiências seria uma suposta similitude entre o “extermínio de classe” dos bolcheviques, face ao “extermínio de raça” dos nazistas, numa formulação que inegavelmente tem pontos de contato com a teoria do totalitarismo de Hannah Arendt, mas é preciso lembrar que o autor possuía uma conceituação própria sobre o assunto.

 “Não foi o arquipélago Gulag anterior a Auschwitz? Não foi a ‘morte à classe’ dos bolcheviques o antecedente (Prius) lógico e fático da ‘morte à raça’ dos nacional-socialistas?”[4], indagou Nolte no artigo de 1986. Além do mais, argumentou que massacres de massa foram comuns no século XX, de que eram exemplos os realizados pelos Estados Unidos no Vietnã, por Pol Pot no Camboja e o próprio Gulag soviético. Deste modo, em vez de ficarem com a eterna culpa face ao Holocausto, os alemães (ocidentais) deveriam ficar em “paz consigo mesmos” e deixar o “passado passar”. O sentido apologético deste procedimento revisionista é evidente.

Excêntrico de direita, discípulo do filósofo Martin Heidegger, Nolte já possuía uma influente obra sobre o fascismo quando publicou seu famoso artigo nos anos 1980, de que são exemplos os livros Der Faschismus in seiner Epoche, de 1963, e Theorien über den Faschismus, de 1972. No livro de 1963, apresentou um conceito do fascismo como um fenômeno metapolítico (ou “transpolítico”), que compreendia uma resistência contra a modernidade, combinada à resistência ao que chama de “transcendência prática”, o comunismo/marxismo.[5] Após 1968, sua obra teve uma inflexão importante, tendo assumido posição central o argumento da precedência do “Terror Vermelho” à Auschwitz. De acordo com Pier Paolo Poggio, o renascimento do marxismo nas universidades da Alemanha Federal nos anos 1960 havia surpreendido Nolte, que, por esta época, teve constantes choques com a juventude estudantil de esquerda.[6] Combater o marxismo para ele era uma urgência.

Alguns elementos do contexto político da República Federal Alemã na década de 1980 são importantes para entender o impacto provocado pela intervenção pública do historiador. No dia 8 de maio de 1985, quando das comemorações oficiais dos quarenta anos do fim da II Guerra Mundial, o presidente norte-americano Ronald Reagan visitou as ruínas de um antigo campo de concentração em Bergen-Belsen e um cemitério de guerra de Bitburg, onde estavam enterrados “heróis” nazistas alemães. O episódio ficaria conhecido como “fiasco de Bitburg”, resultante de uma aparentemente desastrosa intenção dos dois governos ocidentais de esquecer as antigas hostilidades que os levaram à guerra de 1939-1945, com o compromisso coetâneo comum de combate ao comunismo.[7] Isso se combinaria à iniciativa do governo alemão (presidido desde 1982 pelo neoliberal Helmut Kohl) no sentido de construção do Museu Histórico Alemão em Berlim e de um Centro de Memória em Bonn, monumentos que, indistintamente, rememorariam os criminosos nazistas e suas vítimas.[8]

No verão de 1986, quando apareceu “O passado que não quer passar”, a Alemanha Federal estava em clima pré-eleitoral,[9] e para os círculos oposicionistas (especialmente socialdemocratas) o teor do texto de Nolte parecia uma grande provocação. O tema sensível do Holocausto judeu, evento que Theodor Adorno entendia como potencialidade inscrita na dinâmica da modernização capitalista,[10] mas que clamou para que nunca mais se repetisse,[11] aparecia nessa leitura revisionista como algo normalizado. Embora distinto do negacionismo (uma mera manipulação), o revisionismo nolteano não era menos comprometido politicamente.

Foi nesse contexto que o filósofo Jürgen Habermas, discípulo de Adorno, publicaria uma crítica no semanário Die Zeit denunciando as “tendências apologéticas” do artigo de Nolte, assim como da historiografia produzida por outros autores, como Michael Stürmer (1938 – ) e Andreas Hillgruber (1925-1989), cujo propósito comum era o de normalizar o nazismo e o próprio Holocausto na identidade histórica alemã.[12] Para o filósofo de Frankfurt, ao tornar o comunismo o “mal absoluto” do século XX, Nolte e demais revisionistas alemães acabavam por tornar o nazismo um “mal menor”.

Ao lado de Habermas na “querela” apareceram intervenções dos respeitados historiadores da Escola de Bielefeld, Hans-Ulrich Wehler e Jürgen Kocka, além de Hans Mommsen, Martin Broszat, Heinrich August Winkler, Wolfgang Mommsen, e até do presidente da Associação de Historiadores Alemães, Christian Meyer. Como partidários de Nolte, o jornalista, biógrafo de Hitler e editor do FAZ, Joachim Fest (1926-2006), Stürmer, Hillgruber, além de Klaus Hildebrand e Hagen Schulze. O termo revisionismo, utilizado por Habermas, seria logo assumido por Nolte em intervenções posteriores, ainda que para um e outro possuíssem acepções distintas. Sintetizando a controvérsia, Wehler apontou o propósito dos revisionistas de aliviar a consciência alemã de sua responsabilidade histórica, transferindo-a para as teorias de Marx, os comunistas e mesmo aos socialdemocratas.[13]

            Voltando ao cerne da argumentação nolteana, sua comparação entre o que Nolte chamou de “exterminismos”, cujo propósito evidente é do responsabilizar o marxismo pelo nazismo (ainda que não tenha incorrido na estupidez de afirmar que “o nazismo era de esquerda”)[14] torna-se embaraçosa quando se constata que o movimento abolicionista do século XIX almejava, nestes termos nolteanos, “exterminar” duas classes: a dos trabalhadores escravizados e a de seus senhores. Seria razoável supor que o “exterminismo de classe” dos abolicionistas possa ser considerado um antecedente das câmaras de gás em Auschwitz? É claro que não.

Em suma, não é muito difícil entender por que Nolte tenha sido lembrado por agências de notícias como o autor de raciocínios que justificaram historicamente o nazismo, lembrando passagens desse teor: “como o nazismo era a mais poderosa de todas as forças que se opunham ao bolchevismo, um movimento com grande apoio dos judeus, Hitler deve ter tido motivos racionais para atacá-los”.[15]

Notas

[1] Eric J. Hobsbawm. Era dos extremos – o breve século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. Domenico Losurdo. Il revisionismo storico. Roma-Bari: Laterza, 1996. Enzo Traverso. A fuego y sangre. De la guerra civil europea, 1914-1945.

[2] Cf. Ernst Nolte. La guerra civil europea, 1917-1945. México: Fondo de Cultura Económica, 2001 [1987].

[3] Ernst Nolte. Vergangenheit, die nicht vergehen will. In Frankfurter Allgemeine Zeitung, Frankfurt, 06 jun. 1986. Publicado no Brasil em ______. O passado que não quer passar. In Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, n. 25, p. 10-15, 1989.

[4] Nolte, O passado que não quer passar, op. cit., p. 14.

[5] Ver Ernst Nolte. O fascismo enquanto fenômeno metapolítico. In Antônio Edmilson Martins Rodrigues (org.). Fascismo. Rio de Janeiro: Eldorado, 1974, p. 115-150.

[6] Píer Paolo Poggio. Nazismo y revisionismo histórico. Madrid: Akal, 2006, p. 213-214 e 227.

[7] Geoff Eley. Nazism, Politics and the Image of the Past: Thoughts on the West German Historikerstreit 1986-1987. Past and Present, n.121, p. 171-208, nov. 1988, p. 175-176.

[8] Jacob Westergaard Madsen. The Vividness of the Past: A Retrospect on the West German Historikerstreit in the mid-1980s. University of Sussex Journal of Contemporary History, n. 1, pp. 1-9, 2000.

[9] As eleições se realizaram janeiro de 1987, com a vitória dos conservadores e a continuidade do gabinete de Kohl.

[10] Theodor W. Adorno; Max Horkheimer. Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

[11] Theodor W. Adorno. Educação após Auschwitz. In Educação e emancipação. São Paulo: Paz e Terra, 1995.

[12] Publicado no Brasil em Jürgen Habermas. Tendências apologéticas. Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, n.25, p. 16-27, 1989.

[13] Eley, Nazism, politics and the image of the past, op. cit., p. 177 e passin.

[14] Que é um dos principais ruídos produzidos pela direita nas redes sociais.

[15] Cf. “Morre aos 93 o historiador Ernst Nolte, que tentou justificar o nazismo.” Folha de S. Paulo, 18/08/2016. http://bit.ly/2bpZoOS