Ilustração de Mácia Teixeira
Ilustração de Mácia Teixeira

Feminismo marxista, alternativas políticas, histórias de bruxa: uma entrevista com Silvia Federici

George Souvlis e Ankica Čakardić

(Tradução de Fernando Pureza)

 Nesta entrevista exclusiva e inédita, a intelectual e ativista feminista italiana Silvia Federici falou de sua trajetória política, do engajamento na cultura antifascista ao contato com a luta das mulheres e o feminismo. A formação na cultura intelectual e política italiana e europeia, a vivência no ambiente acadêmico e ativista norte-americano, a experiência de aproximação com a América Latina. A entrevista passeia, ainda, pelo trabalho de Federici e por suas colaborações intelectuais ao longo do tempo, bem como por suas posições políticas na conjuntura atual.

 

George Souvlis e Ankica Čakardić. Você gostaria de se apresentar centrando nas experiências formativas (acadêmicas e políticas) que mais fortemente a influenciaram?

Silvia Federici. A primeira experiência formativa na minha vida foi a Segunda Guerra Mundial. Eu cresci no período do imediato pós-guerra quando a memória da guerra que durara anos, assim como a memória do fascismo na Itália, eram ainda frescas. Desde jovem eu já sabia que havia nascido em um mundo profundamente dividido e letal, que o Estado longe de proteger poderia ser nosso inimigo, que a vida era extremamente precária e, como cantaria mais tarde Joan Baez, “there but for fortune go you and I”.

Para quem crescia no pós-guerra e na Itália supostamente pós-fascista era difícil não se politizar. Mesmo quando pequena I não conseguia evitar ser antifascista ao escutar todas as histórias que meus pais contavam e as tiradas de meu pai contra o regime fascista. I também cresci em uma cidade comunista, no Primeiro de Maio os trabalhadores usavam cravos vermelhos no paletó e nós acordávamos ao som de Bella Ciao, e onde o embate entre comunistas e fascistas continuava, com os fascistas periodicamente tentando explodir o monumento do partigiani e os comunistas atacando, como forma de retaliação, a sede do Movimento Sociale Italiano – que todos sabiam ser a continuação do banido partido fascista. Quanto eu tinha 18 anos me via como radical numa época em que o protótipo da luta era ainda a dos trabalhadores na fábrica ou então da luta antifascista.

Vir para os Estados Unidos foi também um ponto de virada para minha formação política. Eu cheguei no verão de 1967. A Universidade de Buffalo onde eu estudaria pelos próximos três anos era um campus muito ativo, na fronteira com o Canadá, e um lugar de passagem de muitos ativistas contra a guerra que fugiam do alistamento. Eu cheguei no meio de um conjunto de mobilizações em defesa de Buffalo 9, que havia sido preso ao tentar cruzar a fronteira contra o enquadramento de Martin Sostre. Buffalo 9 era um ativista porto-riquenho muito respeitado pela comunidade negra que era perseguido pelo FBI. Logo eu passei a participar dos protestos contra a guerra. Eu comecei trabalhando com Telos e um jornal underground chamado Town Crier.

Nos Estados Unidos eu aprendi sobre o legado da escravidão, do racismo, do imperialismo. Nos Estados Unidos eu tomei contato com a “nova esquerda” italiana, com o operaísmo e os grupos extraparlamentares formados no contexto do ‘Maio de 1968’ francês e do Outono “quente” italiano. Eu estava particularmente inspirada pela leitura de Marx feita por Mario Tronti que dizia que primeiro vinha a classe trabalhadora, depois o capital – no sentido de que o capital não se desenvolve em uma lógica própria, mas o faz em resposta à luta da classe trabalhadora, o motor primordial da mudança social. Isto foi uma lição para mim, me ensinou a sempre procurar a luta, as contradições sociais como chaves para entender a realidade social. O operaísmo também permitiu uma crítica do materialismo histórico e da política dos partidos comunistas. Foi importante tomar contato com o novo pensamento político italiano nos Estados Unidos, porque aqui era impossível esquecer a história do colonialismo, da escravidão, a história dos não assalariados. Esta história – e o processo de minha experiência de crescimento em uma Itália ainda patriarcal do pós-guerra – modulou minha abordagem do feminismo, que foi outro momento revolucionário de minha vida.

Eu não preciso falar disso pois meu trabalho fala por si. Falarei do que significou para mim, no início dos anos 1980, ter passado um tempo dando aulas na Nigéria, meu primeiro encontro com a África subsaariana. Nesta época eu havia lido bastante sobre colonialismo, bem como sobre a político do desenvolvimento e subdesenvolvimento, mas a Nigéria foi um outro momento de transformação política subjetiva, não porque tenha alterado minha visão das relações sociais, mas por ter permitido o acesso a toda uma realidade imensamente diferente daquela vivida por meio do conhecimento dos livros. Na Nigéria eu aprendi sobre as relações comunais, sobre a importância contínua da terra, aprendi sobre a maldição do petróleo para os países onde é descoberto e sobre a grande criatividade do povo africano. As aulas que pude ministrar foram encerradas no contexto da escalada da “crise da dívida” e da repressão política. Contudo, de volta aos Estados Unidos, eu comecei a passar mais e mais tempo no México, e mais recentemente em outros países da América Latina, bem como a publicação na Argentina, Equador e Brasil do livro Caliban and the Witch. Menciono a América Latina porque apesar das duras condições que o povo (e especialmente as mulheres) enfrentam, apesar da política de extrativismo, da violência sempre presente – de exércitos, dos grupos paramilitares, do narcotráfico e da “guerra contra as drogas” – as lutas do povo por autonomia e pela recriação de formas coletivas e autônomas por reprodução e autogoverno – nascidas muitas vezes de situações de completa expropriação – representam uma inspiração (não um modelo) que afeta positivamente minha própria prática e pensamento políticos.

George Souvlis e Ankica Čakardić. Você esteve envolvida com o grupo Lotta Femminista durante os anos 1970, junto com Leopoldina Fortunati, Mariarosa Dalla Costa, Selma James e outras? Você poderia descrever para nós as relações políticas entre a Lotta Femminista e o Operaismo? De acordo com você, por que era importante para o grupo tomar uma posição crítica sobre o papel do Estado ou dos sindicatos?

Silvia Federici. Eu nunca fui parte da Lotta Femminista. Eu já estava nos Estados Unidos quando ela foi formada e as mulheres italianas com quem eu trabalhei na campanha para os salários para o trabalho doméstico já tinham rompido com a Lotta Femminista justamente por conta dessa questão. Eu não posso, portanto, falar de sua relação com Operaismo. Tanto Mariarosa Dalla Costa e Leopolda Fortunatti já falaram sobre o tema e eu as retomo sobre ele. Sobre mim, eu já falei acerca das minhas dívidas para com o Operaismo e como isso influenciou minha abordagem acerca dos salários para o trabalho doméstico. O que posso acrescentar é que o trabalho de Tronti, Operai e Capitale, além de ter introduzido o papel central da luta de classes na própria forma específica dos movimentos do capital, também introduziu o conceito de ‘fábrica social’. Ele não chegou a usar precisamente esse termo, mas argumento que em certo ponto do desenvolvimento capitalista, a fábrica passa a remodelar a sociedade segundo sua própria imagem e de acordo com suas próprias necessidades produtivas. Ele estava pensando particularmente em como os sistemas educacionais tinham sido reestruturados para preparar o jovem proletariado para o trabalho industrial. Isso ressoou na nossa análise sobre as comunidades, os lares e as famílias como centros para a produção de força de trabalho, como construções capitalistas mesmo, ao invés de serem legados das relações sociais pré-capitalistas, que na época era uma ideia dominante até mesmo dentro do movimento feminista.

George Souvlis e Ankica Čakardić. Parece que é bastante plausível estabelecer uma linha entre algumas de suas posições com as de autoras como Paddy Quick, Maria Mies ou Wally Secombe. Todas vocês argumentam que, quando nós estamos analisando, por meio do processo materialista, a opressão da mulher no capitalismo, diversos pontos devem ser levados em consideração, tais como divisão sexual do trabalho, reprodução social, o controle dos corpos das mulheres e seu poder reprodutivo e a própria dinâmica da influência das formas familiares. Você explicitamente situa seu trabalho dentro da herança teórica do debate sobre o trabalho doméstico, amparando-se nos argumentos de Dalla Costa e James de que a exploração da mulher na divisão sexual capitalista e o trabalho não-remunerado têm uma função central no processo da acumulação capitalista. O que você considera ser “leis de movimento” específicas do capitalismo, diferenciando-as do feudalismo, ou melhor dizendo, quais processos históricos você considera que deram origem a distintos imperativos capitalistas?

Silvia Federici. Apesar de todas autoras que você citou discutirem a posição das mulheres na sociedade capitalista diante do processo de reprodução, considero que há grandes diferenças entre nós.

Uma diferença (por exemplo, entre a análise dos salários para o trabalho doméstico e a análise proposta por Maria Mies) é de que nós sempre definimos o trabalho doméstico como uma construção capitalista e especificamente como um trabalho cujo objetivo social é a reprodução da força de trabalho. Eu tenho constantemente salientado que na realidade doméstico/reprodutiva do trabalho, há um duplo caráter: ele reproduz nossa vida e ao mesmo tempo espera-se que seja capaz de reproduzir a força de trabalho e, por conta disso, é sujeito a limitações específicas. No trabalho de Mies, por sua vez, você nem sempre encontrará essa distinção. Em sua análise, há uma continuidade entre trabalho doméstico e a reprodução orientada para a subsistência nos chamados países ‘subdesenvolvidos’.

Isso é parcialmente verdadeiro. Mas há uma diferença entre trabalho reprodutivo/doméstico em condições nas quais as mulheres possuem acesso à terra ou outras formas de reprodução (como, por exemplo, em muitas comunidades indígenas) com o trabalho doméstico que não é remunerado e que depende do trabalho assalariado (majoritariamente masculino). Contudo, eu concordo em grande parte com Mies e sou grata pela forma como ela expandiu o conceito de reprodução, incluindo o trabalho agrícola de boa parte do chamado terceiro-mundo.

A distinção entre o sistema feudal e o sistema capitalista resulta da exploração radical a qual os trabalhadores são submetidos no capitalismo e sua separação dos meios de produção. Esse é o motor do desenvolvimento capitalista, assim como a intensa exploração do trabalho. Como destaquei em Caliban and the Witch, o capitalismo é o primeiro sistema de exploração que vê o trabalho, ao invés da terra, como a principal fonte de riqueza. Por esse motivo, ele desenvolveu todo um novo tipo de políticas acerca do disciplinamento do corpo – especialmente o corpo feminino, procurando controlar a reprodução a partir da procriação. O capitalismo deve controlar o trabalho de reprodução, pois ele é um aspecto central no processo de acumulação, de tal forma que o trabalho reprodutivo acaba funcionando como reprodutor da força de trabalho, ou, em outras palavras, de nossa capacidade de trabalhar – ao invés de, por exemplo, reproduzir nossa capacidade de lutar.

George Souvlis e Ankica Čakardić. Em Caliban and the Witch você se refere ao artigo de Robert Brenner, “As origens agrárias do capitalismo europeu”. Qual é a sua opinião a respeito da escola do Marxismo Político e de sua argumentação sobre a “grande transição”?

Silvia Federici. Eu agora não lembro de todos os argumentos de Brenner e da escola do Marxismo Político. Eu concordei com sua ênfase sobre a transformação das relações agrárias na Europa enquanto cruciais para o desenvolvimento capitalista, ainda que a formação de um mercado agrário e de terras também tenha sido possível graças ao rio de “plata” que escorria para a Europa a partir da conquista de vastas regiões da América do Sul. Mas eu tenho uma crítica a essa escola que é a mesma que tenho para com a abordagem de Marx: eles ignoram o papel da reconstrução do trabalho reprodutivo na guinada capitalista. Eles viram, corretamente, a separação dos camponeses de suas terras como uma condição essencial para a existência das relações capitalistas, mas eles ignoraram o aspecto da separação entre produção e reprodução, a desvalorização do trabalho reprodutivo e seu confinamento a uma esfera aparentemente não-econômica, assim como a consequente desvalorização da posição das mulheres que, com a transição do capitalismo, estariam destinadas a se tornar os principais sujeitos desse tipo de trabalho. Assim como Marx, Brenner e a escola do Marxismo Político ignoram a caça às bruxas nos séculos XVI e XVII em sua análise sobre o impacto do desenvolvimento capitalista nas relações agrárias, o que eu acredito ser um grande erro.

George Souvlis e Ankica Čakardić. A campanha e movimento Salários para o trabalho doméstico deu um salto epistemológico na teoria feminista e marxista ao apontar a dialética entre o mercado e o espaço doméstico. Segundo essa linha de raciocínio, você acredita ser possível a acumulação de excedente ou mesmo a estabilização do mercado sem apropriar-se do trabalho doméstico feminino e não-remunerado? É possível comparar as diferenças e semelhanças entre o debate do movimento sobre trabalho doméstico com a teoria feminista “unitária” (na linha de Lise Vogel, Sue Ferguson, Cinzia Arruzza, etc.) quando se trata de entender as relações entre capitalismo e patriarcado?

Silvia Federici. Não, não acho que isso é possível, porque o trabalho não remunerado feminino que continua até hoje é a condição para a desvalorização da força de trabalho. Sem esse trabalho, a classe capitalista teria de fazer um grande investimento em todas as infraestruturas necessárias para a reprodução da força de trabalho e sua taxa de acumulação sofreria sérias consequências. Há também a questão do lado político subsequente a essa desvalorização e da consequente naturalização sobre o trabalho reprodutivo. Ele tem sido a base material para uma hierarquia na divisão do trabalho que divide mulheres e homens e que permite ao capital controlar a exploração do trabalho feminino de forma mais eficiente a partir do contrato de casamento e da relação marital, incluindo aí a ideologia do amor romântico, ao mesmo tempo que também pacifica os homens dando a eles uma serviçal a quem eles possam exercitar seu poder.

Eu não li os trabalhos de Sue Ferguson e Cinzia Arruzza. Quanto a Lisa Vogel, algumas das principais ideias que servem de sustentação a sua teoria foram retiradas do trabalho de Dalla Costa e James, que já tinham criado uma teoria unitária para explicar a reconstrução das relações patriarcais no capitalismo a partir da definição da função social das mulheres, assim como da questão da força de trabalho não remunerada na re/produção da sociedade. Eu acredito que Dalla Costa e eu nos distanciamos de Vogel no que diz respeito a visão sobre o socialismo enquanto um sistema liberatório. Marx e a tradição socialista-marxista tem uma visão otimista sobre o desenvolvimento capitalista por ele criar as condições necessárias para uma sociedade sem exploração.

Eu agora estou escrevendo no México, após ter viajado por vários meses e por vários países da América Latina e em todos os lugares eu me deparei com comunidades que estão lidando com a destruição promovida por companhias mineradoras e de agronegócio, que hoje são inclusive um dos setores de ponta do desenvolvimento capitalista. Ao falar de meu trabalho e de minha própria perspectiva, eu posso dizer que aprendi com Marx e continuo usando-o em meu trabalho acadêmico, mas eu estou menos preocupada em encontrar uma “teoria unitária” do que Vogel estava, a menos que os marxistas atuais estejam preparados para abandonar o viés desenvolvimentista que eles consideraram tão essenciais em parte de suas teorias e políticas. Ao redor do mundo, das áreas rurais até às favelas urbanas, num mundo em que a favelização é um processo crescente, o desenvolvimento capitalista é a morte. E o desafio hoje é encontrar uma alternativa para isso.

George Souvlis e Ankica Čakardić. Em um livro que você editou chamado Enduring Western Civilization você defendeu que o cânone ocidental andou junto com o processo de exclusão do “outro” – seja por sexo, por gênero, por etnia, por religião e por “raça”. Esse processo, entre outros, estava intimamente conectado com a formação das categorias analíticas ocidentais pelas quais nós percebemos o mundo, algo que também influenciou as ciências sociais e os conceitos utilizados por ela para apreender a realidade social. Vivek Chibber – ao tentar desconstruir a teoria pós-colonial que articulava críticas radicais sobre o cânone ocidental – em seu último livro, Postcolonial Theory and the Specter of Capital oferece uma forte defesa das abordagens teóricas que dão ênfase a categorias universalizantes como ‘capitalismo’ e ‘classe’. Sua obra, em outras palavras, constitui um argumento em defesa da continuidade da relevância do marxismo diante de seus críticos mais entrincheirados. O que você pensa sobre esse tipo de raciocínio e sobre o problema mais geral acerca do uso de categorias universais para a crítica do capitalismo que derivam desse estudo? Existe algum equilíbrio entre eles (no caso, da crítica ao mundo ocidental e quanto ao uso de um repertório analítico que deriva dele, ou será que ambos são mutuamente excludentes)?

Silvia Federici. Bem, novamente devo dizer que não me sinto confortável comentando obras que eu ainda não li ou que fazem muito tempo que consultei. Dessa forma, vou tentar manter meus comentários para esse conceito de Ocidente e a presunção de que precisamos de categorias universais. Eu, assim como outros autores, tentei mostrar em Enduring Western Civilization, que o conceito de Ocidente e Ocidental são produtos da Guerra Fria, quando no desfecho da revolução Bolchevique, Ocidental passou a referenciar o capitalismo, o desenvolvimento industrial/tecnológico, a inovação etc., no que então o comunismo passou a ser racializado, visto como ‘asiático’, entendido como atrasado, incapaz de se desenvolver. Por esse motivo, eu não costumo usar o termo ‘Ocidental’, pois ele esconde relações de classe e acaba passando por cima das diferenças e dos antagonismos em relação a Europa, os Estados Unidos – o assim chamado Ocidente –, mas também com os antagonismos de classe e de outras relações em regiões como a África e a América Latina. Ocidente e Ocidental são termos políticos, de conteúdo intangível e que tem como finalidade apresentar a política global como se fosse algo formado por mundos opostos, nos quais não existiriam divisões ou hierarquias internas e onde, em última instância, haveria um interesse comum que lhes daria unidade.

Quanto às categorias universais, eu posso afirmar que nós claramente precisamos de algum nível de abstração em nossas análises, mas nós não podemos entender o capitalismo e a história da economia global sem que olhemos pelo ponto de vista dos diferentes sujeitos. Em uma sociedade que é resultado de séculos de construção de hierarquias e, portanto, com experiências extremamente diversas, a ideia de um ponto de vista universal está falida. O capitalismo não pode ser entendido em sua totalidade se não houve aproximação sobre o ponto de vista dos escravos, dos colonizados, assim como como também dos trabalhadores industriais, das mulheres proletárias e também dos homens proletários, e eu também diria do ponto de vista das crianças e, é claro, de um ponto de vista ecológico.

George Souvlis e Ankica Čakardić. O que você acha sobre a atual situação com os refugiados e o que você pensa sobre a “nova onda” de nacionalismo e ideologias nacionais que estamos vendo na Europa e em outras partes do mundo? Como podemos lutar contra essas tendências?

Silvia Federici. É impossível expressar, em poucas palavras, a dor e a indignação que eu sinto após ver o que os governos e tanta gente na Europa estão fazendo com os refugiados de guerras feitas por governos que eles mesmo financiaram. É assustador ver que ano após ano, quase toda semana temos naufrágios no Mediterrâneo, com centenas de mortos, de tal forma que o mar é agora um grande cemitério – e isso está acontecendo na frente de todo mundo, não em campos de concentração. E isso sem falar nos centros de “hospitalidade”, que nada mais são do que prisões onde os imigrantes sem documentos são jogados e mantidos por tempo indeterminado e em condições terríveis.

É claro que é deplorável ver que a resposta dada por muitos, inclusive também trabalhadores, não é solidariedade, mas rejeição, perseguição e posturas nacionalistas. É particularmente assustador pois costuma ser uma guerra entre os pobres, pois aqueles que estão querendo criar barreiras são pessoas lutando para sobreviver e são aquelas que se protegem não a partir da solidariedade com os refugiados, mas sim com uma política de exclusão. E eu gostaria de acrescentar que, apesar de termos que saber mais sobre os neonazistas que atacaram refugiados na Alemanha, por exemplo, há evidências de cumplicidade por parte das autoridades e da polícia, de tal forma que os neonazis surgem como instrumento de controle para com os refugiados, que podem acabar servindo como mão-de-obra barata, desde que eles entendam que pertencem ao degrau mais baixo da hierarquia social.

George Souvlis e Ankica Čakardić. Tivemos alguns acontecimentos políticos interessantes no mundo ocidental, tal como a candidatura de Bernie Sanders, pelo Partido Democrata, a eleição de Jeremy Corbyn para a liderança do Partido Trabalhista, a vitória do SYRIZA nas recentes eleições gregas e a emergência do Podemos na Espanha. Você crê que podemos ter esperança de que desses acontecimentos haja uma significante transformação social? A esquerda atual deveria organizar-se ao em torno da estratégia de “ocupar” esses papéis sociais dentro do Estado, ou deveria se auto-organizar em outros âmbitos políticos e espontaneístas (por exemplo, nas lutas comunitárias) que ocorrem por fora da política partidária formal?

Silvia Federici. Essa não é uma questão fácil de responder. Nós recentemente vimos – e isso causou grande surpresa para muitas pessoas – que os zapatistas propuseram participar das eleições de 2018 com uma candidata mulher e indígena. E não é como se eles tivessem mudado sua linha política, tal como parece, mas sim de que eles estão sob um cerco tão intenso que eles querem agora romper essa pressão para fazer com que setores ainda mais amplos da população fiquem cientes dos ataques massivos e violentos que eles vêm sofrendo desde a morte de Galeano. Dito isso, nós vemos que os governos com inclinação à esquerda e toda a política progressista, tanto na Europa como na América Latina, estão em crise. No Brasil, poucos se mobilizaram para exigir o retorno de Dilma Rousseff, ainda que muitos tenham condenado seu impeachment como um movimento fraudulento, praticamente um golpe. O registro dos governos progressistas é que na melhor leitura, eles atenuaram algumas das formas mais extremas de miséria, mas eles não fizeram mudaram os modos de produção, não implementaram as reformas que os movimentos sociais que os levaram ao poder tanto queriam, não conseguiram subjugar a violência das forças armadas e da polícia. Talvez possa se dizer algo diferente da experiência chavista, pois acabou respeitando mais o poder popular, mas ele também acabou caindo na política econômica extrativista, o que acabou tornando o país bastante dependente das oscilações do mercado mundial. E o que dizer de Bernie Sanders, que depois de passar meses dizendo aos seus seguidores que eles não deveriam votar em Hillary Clinton e que agora diz que não tem outra alternativa? Mas que lição de cinismo!

Porém, eu não chamo essa política comunitária de “espontaneístas”. Hoje em dia já sabemos que muitos regimes comunitários têm séculos de história. E não há muita espontaneidade na defesa dos bens comuns em muitos lugares do mundo em que eles tem de enfrentar a violência de forças paramilitares, exércitos e segurança privada. Parece óbvio que não devemos ser dogmáticos quanto a esses assuntos. Em âmbito local, é preciso bastante tempo para conseguir exercer influência sobre os governantes. Mas o que estamos de fato vivenciando é um distanciamento cada vez maior entre os centros de decisão e o alcance das pessoas. Nós estamos vendo a formação de uma estrutura de poder internacional que constantemente vem sobrexcedendo o poder do Estado-nação, como parece ser o caso da União Europeia.

Da constante interferência do FMI e do Banco Mundial na política dos países, especialmente (mas não exclusivamente) naqueles do chamado ‘terceiro mundo’, nós vimos surgir a proliferação de “Acordos de Livre Comércio” – tais como o TTP, ou TTIP (que felizmente não foi assinado) – e que estabelecem o mando direto do capital sobre a economia global, de tal forma que nenhuma decisão pode ser tomada em âmbito econômico sem ser antes aprovada pelas grandes corporações, eliminando assim a noção de soberania nacional. Sob essas condições, como ficar otimista acerca da instalação de governos de esquerda e/ou radicais?

George Souvlis e Ankica Čakardić. Uma onda de mudança atingiu a América Latina na virada do século XXI, livrando-se de governos neoliberais bipartidários e trazendo de volta o desejo de refundar os Estados a partir de uma participação política mais ampla e de constituições mais democráticas. Os aspectos cruciais dessa nova realidade progressista foram os novos movimentos sociais que emergiram exigindo tanto direitos econômicos como sociopolíticos. Ainda assim, emergiram conflitos entre diferentes polos, muitas vezes por conta do modelo de desenvolvimento político. Para ser mais preciso, os líderes desses países, particularmente Correa no Equador e Morales na Bolívia, expressaram atenção à “Pachamama” (Mãe Terra) e adotaram a linguagem do “socialismo do século XXI”, promovida pelo presidente venezuelano Hugo Chávez e pelo seu sucessor, o atual presidente Nicolás Maduro. Todavia, na prática suas políticas bateram de frente com as demandas expressas pelos movimentos sociais que os levaram ao poder, como por exemplo, da privatização dos recursos naturais nos seus países. Você acredita que essas tensões podem ser resolvidas de uma forma que enfim irá promover os interesses das classes trabalhadoras latino-americanas?

Silvia Federici. Eu visitei o Equador em abril desse ano e tive muitos encontros com grupos de mulheres e de ecologistas e seus relatos foram unânimes. As pessoas estão perguntando, afinal, por que a esquerda europeia ou americana se refere a Correa como um radical enquanto suas políticas estão bastante alinhadas com o neoliberalismo? O seu governo, mais do que os anteriores, não tem avançado ainda mais os ataques contra as terras dos povos indígenas? E o desrespeito às mulheres não é uma constante em seu governo? Ao chegar ao poder por meio de um movimento dos povos indígenas, Correa introduziu na constituição do país o princípio de que há também um direito da natureza. Inicialmente parecia que ele não iria, então, explorar os recursos petrolíferos, mas ele acabou mudando de ideia e agora está promovendo investimentos estrangeiros e permitindo a perfuração em busca de petróleo no parque de Yasuni’. Não surpreendentemente, ele repetidamente entrou em conflito com a mesma população indígena que ele apoiara e seu governo tem sido condenado por desdenhar dos movimentos dos de baixo, visto como autoritário e comprometido com o poder das grandes corporações. Evo Morales também fala de Pachamama quando ele vai para o exterior, mas segue uma política extrativista semelhante, além de destruir terras, florestas e rios, criando uma forma interna específica de colonialismo. Isso não significa, por outro lado, dizer que não há grupos de trabalhadores que apoiem essas políticas, já que o extrativismo significa salários para alguns deles, mas isso ocorre juntamente com o custo da destruição dos meios de vida de muitos – algo muito semelhante com o que ocorre nos Estados Unidos, com muitas comunidades de jovens trabalhadores apoiando o fracking.

Eu devo dizer que há um grande abismo entre, de um lado, a visão desses governos, elaborada por teóricos radicais da América Latina – como Luis Tapia, Raul Zibechi, Raquel Gutierrez, Silvia Ribera Cusicanqui e muitos outros – e, do outro lado, a visão que existe sobre eles pela esquerda nos Estados Unidos e na Europa.

George Souvlis e Ankica Čakardić. Você poderia comentar sobre as eleições dos Estados Unidos? O que você acha das atitudes e políticas de Hillary Clinton para com as mulheres, já que ela gosta de apresentar-se como “feminista” e ardente defensora dos direitos das mulheres.

Silvia Federici. As eleições americanas são um triste show, cujas perigosas implicações ficam evidentes, ainda mais confirmando as notícias de que dezenas de grupos supremacistas brancos emergiram agora, sentindo-se empoderados e legitimados pelos pronunciamentos de Trump.

É desmoralizante ver setores da classe trabalhadora americana caindo na conversa de alguém como Trump. Mas é claro, Clinton – com seus laços com Wall Street, a CIA e o complexo militar-industrial – não é uma alternativa. E ela só pode posar como feminista porque desde a década de 1970, o feminismo foi institucionalizado para que as mulheres pudessem ser integradas na economia global como mão de obra barata.