Fotografia de André Rodrigues
Fotografia de André Rodrigues

Festa imodesta: notas sobre a cerimônia de abertura das Olimpíadas

 

Romulo Mattos e Rejane Carolina Hoeveler

A cerimônia de abertura das Olimpíadas 2016 foi um sucesso, em termos técnicos. Não houve falhas perceptíveis e, em certos momentos, os efeitos de projeção impressionaram. Porém, conceitualmente, a festa teve muitos pontos questionáveis, da trilha sonora ao brevíssimo discurso de Temer, passando pelos personagens e pelo tipo de discurso exaltado ao longo do espetáculo. A grande mídia foi tomada por um orgulho patriótico que não era visto por aqui desde a conquista da Copa de 1970, provavelmente. “Fizemos bonito para o estrangeiro”, ok. Mas, e para dentro?

Notas ufanistas

Um ponto que deve ser abordado se relaciona com a parte musical. A maior crítica nesse sentido deve ser feita à promoção do ufanismo. Jorge Benjor levantou o público com “País tropical” (1969), sucesso gravado por Wilson Simonal, conhecido por suas ligações perigosas com a ditadura militar. Trata-se originalmente de uma canção de exaltação ao Brasil em pleno governo Médici, que se ligava a um sistema de propaganda política que amparava ideologicamente a repressão e buscava encobri-la. Benjor é autor de músicas que manifestam adesão à ditadura, como “Brasil, eu fico” (1970), também gravada por Simonal.

O cancioneiro ufanista foi representado ainda por duas composições de Ary Barroso. O desfile dos atletas brasileiros teve como trilha sonora “Aquarela do Brasil” (1939), que tão bem se coadunava com as orientações culturais emanadas do Departamento de Imprensa e Propaganda, do Estado Novo. Já “Isto aqui o que é” (1942) foi cantada por Caetano Veloso, Gilberto Gil (combalido pelas sucessivas internações decorrentes de complicações renais) e Anitta, que foi convidada pelo primeiro.

Quem conhece a trajetória artística de Caetano Veloso e o seu projeto estético não fica surpreendido com a sua atitude. No espetáculo Phono 73, promovido pela gravadora Phonogram, Caetano cantou “Vou tirar você desse lugar”, com Odair José, ícone da chamada música popular cafona. Vaiado pela plateia majoritariamente branca, universitária e de classe média, o baiano se retirou do palco indignado e, quando voltou para completar a sua apresentação, afirmou: “Não há nada mais Z do que um público classe A”. Antes de ser julgado como uma ofensa à tradição musical brasileira, o convite de Caetano a Anitta deve ser entendido como mais uma de suas “provocações culturais”, e uma forma de dar legitimidade ao funk, ainda que o de maior inserção comercial, como aquele promovido pela cantora.

Caetano tentou contornar a participação nessa “Festa imodesta” (na qual interpretrou uma música ufanista) com a publicação na rede uma foto sua segurando um cartaz com a inscrição “Fora Temer”. Seja como for, não pode passar despercebida a condição de centralidade do cancioneiro produzido em duas ditaduras na cerimônia de abertura.

Quanto à exaltação do “carioca way of life”, o neto de Tom Jobim, Daniel Jobim, cantou ao piano “Garota de Ipanema” (1962) – a segunda música mais executada de todos os tempos –, enquanto a modelo de feições europeias Gisele Bündchen desfilava em uma passarela de 128 metros, supostamente representando a beleza da mulher brasileira. Além disso, a imagem do compositor número um da bossa nova foi projetada um cenário de prédios. Nesse momento, foi reafirmada uma identidade praiana e relacionada com a zona sul do Rio. Outra famosa canção sobre a cidade, “Aquele abraço” (1969), de Gilberto Gil, foi a trilha do vídeo de abertura da festa. Mais plural, ela cita Realengo (bairro da zona oeste), o pessoal da Portela (escola de samba de Madureira, subúrbio da Central), a “moça da favela”, e não apenas a Banda de Ipanema. Mas as imagens do Rio mostradas no filme tinham mais a ver com aquela famosa composição de Tom.

Se as favelas ficaram de fora do vídeo de introdução da cerimônia, apareceram numa representação hi-tech e multicolorida. Elas foram o cenário da sessão de funk carioca, durante a qual Ludmila cantou o clássico “Rap da felicidade”, de Cidinho e Doca, e Karol Conka e MC Soffia promoveram mensagens de empoderamento feminino (ao mesmo tempo que um capoeirista se exibia em meio a efeitos de projeção). A veterana Elza Soares cantou uma versão eletrônica de “Canto de Ossanha” (1965), de Baden Powell e Vinícius de Moraes, dançarinos do passinho deram a sua contribuição e até a Gang do Eletro, do Pará, teve a sua vez. A fusão samba/funk teve lugar na participação da dupla Zeca Pagodinho (com a voz prejudicada) e Marcelo D2, que improvisou em cima da base da música “Deixa a vida me levar” (2002), de Serginho Meriti, gravada com sucesso pelo primeiro. Ritmos das periferias, fusões musicais e artistas que não pertencem aos grandes centros (encontrados em um esforço de mapeamento cultural): essa foi a principal parte dedicada à “diversidade” no espetáculo.

Outro importante compositor brasileiro, Chico Buarque, foi lembrado com a versão instrumental de “Construção” (1971), em um arranjo orquestral que evoca o belo de trabalho do maestro Rogério Duprat na gravação original. A música, que aborda uma mazela do “milagre” econômico– o altíssimo índice de acidentes de trabalho– foi a trilha da representação do processo de urbanização. O fato de o espetáculo ter abordado esse tema não deixa de ser curioso, pois são conhecidas as consequências do capitalismo olímpico para a estrutura urbana das cidades: reformas que favorecem a empreiteiros e construtores civis, em detrimento do direito social à moradia da população pobre. Não obstante, o significado original daquela composição pode ser revalorizado segundo o tempo presente, lembrando os 11 operários que morreram em virtude das más condições de segurança[1], sem contar aqueles que foram encontrados trabalhando em condições análogas à escravidão.[2]

Por fim, pode ter sido agradável para muitos ouvir Paulinho da Viola cantar o hino nacional, acompanhado por uma orquestra, mas essa tentativa de emprestar um ar classicista ao samba é contraditória, a não ser que os versos de “Pra que discutir com madame” (1945), de Janet de Almeida e Haroldo Barbosa ainda tenham algum tipo de validade para os organizadores: “Madame diz que o samba democrata, é música barata sem nenhum valor”. Embora Paulinho tenha elegância musical a ponto de tornar palatável a letra do hino nacional, em certo momento, a sua performance acabou sendo o pano de fundo para o indigesto hasteamento da bandeira do Brasil por militares rodeados por ex-atletas enrolados ao tal símbolo nacional.

Mais um ponto a ser tratado se relaciona com o grande mote da cerimônia de abertura das Olimpíadas: a “sustentabilidade ambiental”. Houve atletas plantando mudas, arcos olímpicos que aludiam às florestas, bicicletas decoradas com vasos de plantas etc. Não deixa de ser irônico que esse tenha sido o tema central da festa, uma vez que os poderes públicos do Rio descumpriram todas as metas ambientais previstas para a realização dos jogos[3]. Nenhum avanço feito em relação ao saneamento dos municípios que contornam a Baía, e nem mesmo o plantio de mudas na Mata Atlântica, de fácil execução, atingiu as metas. Chega a ser surreal que, depois dessa mensagem de respeito ao meio ambiente lançada para o mundo, sejam realizadas competições de vela “com obstáculos” na Baía de Guanabara – para lembrar a frase do atleta Lars Grael sobre a sujeira ali encontrada.[4] Quanto à Lagoa Rodrigo de Freitas, outro local de provas, resta dizer que a falta de saneamento básico da região faz com que o esgoto seja lançado em suas águas sem tratamento. Nesse caso, resta aos canoístas olímpicos torcerem pelos bons hábitos alimentares e pela saúde estável dos moradores de um dos metros quadrados mais caros da cidade. Talvez os atletas deem um novo significado à letra de “Burguesia” (1989), de Cazuza, George Israel e Ezequiel Neves: “A burguesia fede”…

Filantropia e alteridade conciliatória

Outro aspecto digno de nota no discurso político abraçado pelo espetáculo de abertura foi a sua face filantropa, com a fartura de homenagens a figuras que se dedicam a “obras sociais”. Um dos destaques da noite foi o prêmio inédito dado ao ex-atleta queniano Kipchoge Keino, o Laurel Olímpico, que a partir dessas Olimpíadas será concedido a pessoas que se destacarem em obras de “educação, cultura, desenvolvimento e paz através do esporte”. O conselho que o elegeu foi formado pelo escritor Paulo Coelho, pelo ex-presidente do Timor Leste e premio Nobel da Paz, José Ramos-Horta, e pela diretora das mulheres da ONU, Phumzile Mlambo-Ngcuka, entre outros. Não foi por acaso que se planejou o lançamento dessa premiação nas primeiras Olimpíadas realizadas na América Latina, reconhecidamente um dos continentes mais desiguais do mundo.

Aqui a “agenda olímpica” se insere completamente na nova “pedagogia da hegemonia”[5] do neoliberalismo, que ao longo das últimas décadas desenvolveu e sofisticou seu arsenal de respostas aos problemas sociais por meio da filantropia privada, sempre abraçada pelos megaeventos capitalistas como forma de contornar seus deletérios efeitos sociais. Nessa resposta, as mazelas sociais mais extremas, que foram criadas por um capitalismo selvagem, são atendidas de forma parcializada e, mesmo, lucrativa, dando um lado humano para esse mesmo capitalismo. Não à toa, a proliferação de ONGs especializadas em aspectos parciais dessas necessidades básicas, como o combate à miséria extrema, promovido pelo Banco Mundial, coaduna-se com a completa falência de sistemas públicos universais de saúde, saneamento e educação.[6]   As “histórias de superação” individuais, indiscutivelmente inspiradoras, passam a ser o único foco, em detrimento das políticas públicas universais de incentivo ao esporte.

Aqui pode ser feito um paralelo com o discurso do empoderamento, aceito e estimulado por essa mesma pedagogia da hegemonia. Na medida em que atende de maneira parcializada a necessidades urgentes dos setores oprimidos da sociedade – como mulheres, negros, LGBTs –, entre elas a necessidade premente e legítima de representatividade e reconhecimento, esse discurso promove uma operação simbólica complexa, que pode ser funcional à reprodução do capitalismo (mas um capitalismo que não deixa de ser machista, racista e homofóbico nas suas bases).

É nessa chave que se pode compreender a presença de Ellen Gracie, apresentada na cerimônia como a primeira mulher a ser indicada ao cargo de ministra do STF (no governo de Fernando Henrique Cardoso). Uma mulher que em sua atuação prática zela pela conservação das instituições da ordem, e que já teve mesmo diversas decisões que contrariaram o movimento feminista – como em 2004, quando votou contra a manutenção de uma liminar que havia liberado a interrupção de gravidez de fetos com anencefalia.[7]

Tal discurso de alteridade apaga as marcas mais profundas da brutalidade da exploração, da opressão e das formas de dominação em uma sociedade tão recordista em desigualdade social como a brasileira foi perfeitamente entoado, na cerimônia, por Regina Casé, cujo programa Esquenta, na Rede Globo, é um dos mais perfeitos símbolos dessa operação de hegemonia. A celebração acrítica da “diferença” se encaixa perfeitamente nessa resposta neoliberal aos problemas sociais, emoldurando-a no tradicional culto à conciliação política e social, à brasileira – o mesmo que apaga o conflito na história do Brasil.

Um ponto a ser destacado neste tópico tem a ver com a encenação da chegada dos diversos povos que hoje compõem a população brasileira. A vinda dos portugueses às nossas terras e a entrada em cena dos africanos foram abordadas de forma a não haver, nem nas entrelinhas, alusão à violência inerente a esses episódios de nossa História. O primeiro caso foi tratado dentro da chave interpretativa da alteridade, e o segundo como sendo o momento da representação do trabalho no espetáculo. A negação do conflito foi tão significativa a ponto de as duas passagens citadas não se diferenciarem da encenação da chegada dos árabes e japoneses ao país. Todos esses movimentos migratórios foram igualados como um fértil e harmonioso encontro entre os povos, que redundou em uma cultura rica e diversificada. Um desserviço para um entendimento minimamente crítico da História brasileira, ainda que para alguns seja um exemplo de “marxismo cultural”…

Velho mundo novo

Finalmente, não podemos deixar de mencionar o discurso do presidente do Comitê Organizador Rio-2016 e do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman, segundo o qual a “cidade maravilhosa” faria história, e que o mundo é carioca. Nesses termos, nem parece se referir à capital de um estado falido, que sequer honra o compromisso com os salários dos servidores. Quanto ao país, o seu nacionalismo ufanista lembrou os tempos da ditadura militar: “Desse Brasil gigante que aprendemos a adorar, nasce hoje um mundo novo. Lembrem-se, os filhos do Brasil não fogem à luta, são fortes”. Mas foi vaiado quando agradeceu “aos três níveis de governo” pela ajuda na organização dos Jogos.

O “Mundo novo” do slogan olímpico é uma cidade ainda mais segregada e militarizada, que destruiu a Mata Atlântica para construir campo de golfe; que desalojou 77 mil moradores em benefício exclusivo de empreendimentos imobiliários; que persegue os trabalhadores ambulantes de forma truculenta para atender a patrocinadores monopolísticos[8], mas é leniente no combate à exploração sexual de crianças e adolescentes, estimulado pelo turismo sexual olímpico. Um mundo onde ciclovia cai, piscinão transborda e transporte é controlado por máfia; onde o orçamento da repressão é maior do que o de saúde e educação juntos; onde o estádio do Maracanã é privatizado, e a universidade pública ao seu lado é sucateada. Um mundo onde ocorre um “genocídio lento”, ao qual a maioria da sociedade assiste indiferente, como afirmou a advogada e ativista norte-americana Deborah Peterson Small, referência em políticas contra drogas e em direitos dos negros nos Estados Unidos – que em sua visita recente ao país ficou espantada com a profundidade do racismo institucional brasileiro.[9]

É curioso como os críticos das Olimpíadas costumam ser taxados de “pessimistas”, ou “do contra”, pelos cronistas da grande imprensa e até por alguns que se consideram de esquerda. Como se fosse um absurdo mencionar que a conta para organizar os Jogos é alta demais e que os prejuízos serão cobertos com dinheiro público – o qual deveria ser direcionado a outras necessidades da cidade e do país, como saúde, educação, saneamento e transportes públicos dignos. Seja como for, este texto será encerrado de forma otimista, ao recordar a retumbante vaia de 105 decibéis que Michel Temer levou no Maracanã, apesar de ter pedido para o seu nome não ser citado e de ter reduzido o seu discurso para módicos 10 segundos. Independente das explicações para essa vaia, aqui vale parafrasear uma conhecida campanha publicitária da Mastercard, que não autorizou Pelé a acender a pira olímpica, porque o evento é patrocinado pela concorrente Visa. Organizar a cerimônia de abertura das Olimpíadas:R$ 220 milhões; ver um presidente golpista e amarelão ser esculachado por dezenas de milhares de pessoas, com transmissão ao vivo para o mundo inteiro: não tem preço.

Notas

[1]          COELHO, Henrique. “Onze operários morreram em obras olímpicas no Rio, diz relatório”. O Globo, 25 de abril de 2016. Disponível em: http://glo.bo/1Vyk1fB.

[2]          THOMÉ, Clarissa. “Fiscais resgatam 11 operários em condição de escravidão em obras da vila olímpica”. Estado de S. Paulo, 14 de agosto de 2015. Disponível em: http://bit.ly/1Et3HjS.

[3]          NOGUEIRA, Ítalo. Rio descumpre todas as metas ambientais para a Olimpíada. Folha de S. Paulo, 04 de julho de 2016. Disponível em: http://bit.ly/2aEZCXj.

[4]          “Competição com obstáculos, diz Lars Grael sobre lixo na Baía de Guanabara. Fantástico, 24 de julho de 2016. Disponível em: http://glo.bo/2aSvrHi.

[5]          NEVES, Lúcia Maria Wanderley (org.). A nova pedagogia da hegemonia. Estratégias do capital para educar o consenso. São Paulo: Xamã, 2005.

[6]          FONTES, Virgínia. O Brasil e o capital-imperialismo. Teoria e história. Rio de Janeiro: EPSJV-Fiocruz/UFRJ, 2010.

[7]                Sobre o assunto, ver CARDOSO, Bia. “O julgamento interrompido: Aborto e anencefalia”. Blogueiras Feministas, 28 de março de 2012. Disponível em: http://bit.ly/2aSM1s7.

[8]          Ver Comitê Popular da Copa e Olimpíadas do Rio de Janeiro. “O Rio de Janeiro dos Jogos da Exclusão”. 20 jul. 2016. Disponível em: http://bit.ly/2aSvAKz.

[9]          LAZZERI, Thais. “Os atletas negros deveriam boicotar Olimpíada no Brasil”. Época, 01 de agosto de 2016. Disponível em: http://glo.bo/2aDOwhS.