Ilustração Jaime Prades
Ilustração Jaime Prades

Fome e revolta: exploração de classe e o protesto popular

 

Kaio César Goulart Alves

“O carioca é envenenado diariamente com os gêneros adulterados; é perseguido pela fome, porque pelos preços atingidos pelos alimentos se vê forçado a não comer; se não atura as veleidades pagãs de um imperador, suporta diariamente o peso das ambições desregradas dos homens de negócios que preparam trusts, e organizam com o mais franco cinismo a alta dos gêneros alimentícios ou das mercadorias indispensáveis à sustentação da vida” (Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 21/01/1913, p. 1.)

Em meados de dezembro de 1912 teve início no então Distrito Federal o processo de retomada das atividades da maior central sindical de esquerda em atividade no país, a Confederação Operária Brasileira (COB). O que provavelmente os trabalhadores não imaginavam quando decidiram por reativar a sua associação era o fato de que um fenômeno já antigo na história do Rio de Janeiro funcionaria como um catalizador daquele processo de organização: a carestia de vida.

Fartamente noticiado na imprensa do período, tanto nos diários da elite carioca (em que se destaca o Correio da Manhã) quanto na imprensa operária (cujo representante evidente era o porta-voz da COB, A Voz do Trabalhador), o aumento do custo de vida fez-se sentir dramaticamente na mesa do trabalhador. Uma dieta baseada em parcos gêneros não era uma opção, especialmente entre 1913 e 1917, a ocasião em que os custo de vida esteve bem acima do índice de salários.[1]

Custear a vida, portanto, tornava-se naquela quadra uma tarefa genuinamente complexa para a classe trabalhadora. Se em situações “normais”, o salário representa a parcela minimamente suficiente para manter a força de trabalho em atividade, numa conjuntura de fome em expansão o costumeiro “direito à existência” perdia cada vez mais o seu suposto caráter de “inviolável”.[2]

Simultaneamente ao agravamento das condições de consumo dos trabalhadores, em 20 de fevereiro, na sede do Centro Cosmopolita (um associação que agrupava trabalhadores de hotéis, cafés, restaurantes e congêneres), situado à Rua do Senado, 215, reuniram-se 300 pessoas. Discussões acaloradas foram travadas. Lá encontravam-se, além daqueles trabalhadores comuns, sem ideologias políticas, lideranças de sindicatos e associações orientadas pelo socialismo e pelo anarquismo. Um nota foi tirada dessa reunião:

“Considerando que a alta do preço dos gêneros de primeira necessidade vem mais de perto agravar a situação precária em se encontra o povo dessa capital, já tão escravizado pelos impostos que sobre si pesam, e pela falta de liberdade tão lindamente escrita na Constituição da República, mas negada seja a quem for (por exceto aos graúdos) […] a Federação Operária do Rio de Janeiro incitará, após as festas carnavalescas, uma série de comícios públicos na cidade e nos arrabaldes, afim de protestar contra o desleixo, aliás comum, dos senhores da Prefeitura, e contra os trusts nacionais, que são a causa das dificuldades com que luta atualmente o povo do Rio de Janeiro”.[3]

A partir daquele momento todo um processo de enfrentamento contra a carestia pode ser observado. Boletins, cartas, artigos de jornais, manifestos, circulares e até mesmo fotografias e charges retrataram o sentimento de insatisfação popular que só se fazia crescer na então Capital Federal.

O “povo das ruas” levou à frente os comícios contra carestia, organizados por ao menos duas frentes, respectivamente, os socialistas sob a liderança do advogado Caio Monteiro de Barros, e os sindicalistas revolucionários, concentrados em torno da militância da COB e da Federação Operária do Rio de Janeiro (FORJ).

Num mesmo dia, em 9 de março, ocorreram ao menos três meetings contra a carestia. Acompanhando-os é possível identificar o que desejava a classe trabalhadora com aqueles protestos:

“Com verdadeira veemência, os oradores atacaram os trusts, os açambarcadores e proprietários, os quais sugam desumanamente as classes populares. Não se esqueceram de explicar a necessidade de agir pela ação direta como melhor meio de conseguir resultados práticos”.[4]

A partir dos comícios, anunciados para a população do Distrito Federal como protestos contra a “carestia de vida”, estrategicamente foi lançada uma campanha pela organização sindical no Rio de Janeiro, e sua penetração se deu no subúrbio (Vila Isabel, Inhaúma, Engenho de Dentro), em regiões limítrofes (Niterói), não ficando apenas no espaço central da cidade (Largo São Francisco de Paula, Praça da República, Largo da Carioca), como seria possível supor. Uma geografia do protesto popular permite observar a realização de impressionantes 61 comícios de protesto contra a carestia, cuja adesão contou com milhares de pessoas em dois movimentos, um em 1913, outro em 1917.

A parceria entre a FORJ e COB foi responsável pela realização da maior parte dos comícios, cabendo ao “Comitê de Agitação Contra a Carestia de Vida”, sob a liderança de Caio Monteiro de Barros, a condução dos demais protestos. Em certos meetings, como no “Comício Monstro” de 16 de março de 1913, no Largo São Francisco de Paula, a ocupação das ruas se deu na cifra impressionante de 10 mil pessoas. No comício de 1º de maio de 1917, por sua vez, um público surpreendente de 20 mil pessoas ocupou a Praça do Senado para protestar contra a carestia e fazer propaganda da organização sindical, cuja orientação era o sindicalismo revolucionário.

A possibilidade da construção de uma frente única de combate à carestia foi levantada por Caio Barros logo no início das movimentações:

“Pode a carestia de vida ser sentida mais dolorosamente por uns do que por outros, mas a verdade é que o operário, o funcionário público, o jornalista, o agricultor, o empregado no comércio, o advogado, o médico, o soldado, todos sem exclusão, sentem-na muito. É necessário, pois, que, agindo, o povo ponha de lado, como inconvenientes, impróprias, inteiramente prejudiciais à sua ação e à vitória da causa em debate, outra questão qualquer. Nesse momento não se trata de civilismo ou de hermismo, de republicanismo ou de monarquismo, de socialismo ou de libertarismo, de clericalismo ou de anti-clericalismo, ou de coisa semelhante terminada em ismo. Não”.[5]

Ao menos uma dezena de comícios se deu nesse formato de “frente única”, ou seja, foi identificada a presença de trabalhadores e lideranças socialistas e anarquistas compartilhando o mesmo espaço de protesto contra a carestia. Um fato pouco comum, tendo em vista as rivalidades acirradas que existiam no movimento operário da época.

A mediação cultural

A fome se encontra no campo das condições de consumo da classe trabalhadora, sendo, portanto, uma forma de exploração de classe. É possível afirmar que sua vivencia representa a garantia de uma revolta? Em termos históricos, cabe deduzir a luta das formas de opressão?

E. P. Thompson, em seu Costumes em Comum (1998), observou com exatidão o que muitos historiadores das chamadas “multidões na história” haviam negligenciado até o momento: o conceito de “turba”, essencialmente pejorativo, não correspondia aos protestos conscientes, então baseados em noções legitimadoras, conduzidos pelos trabalhadores pré-industriais da Grã-Bretanha. Dentre estes protestos populares, constavam os food riots (motins da fome).[6]

Thompson concluiu que as lutas se desenvolveram a partir das concepções culturais dos trabalhadores, ou seja, tratava-se de uma economia moral – o modo em que as relações de classe são negociadas – o fator que pressionou a população à resistir contra aquilo que ela considerava evidentemente “injusto”: o estabelecimento de parâmetros capitalistas num mercado antes organizado segundo normas tradicionais que não visavam o lucro. As lutas pelo pão não foram, portanto, explosões inconscientes. Muito pelo contrário.

A avaliação dos movimentos contra a carestia no Rio de Janeiro durante a década de 1910 aponta para a mobilização de noções como “direito à vida”, “direito à existência” e “direitos de bem estar e liberdade”, exatamente vinculadas aos “produtores da riqueza social”, em suma, a classe trabalhadora.

“AO POVO! – Neste momento doloroso para as classes laboriosas, que se conservam em mera expectativa, vendo a fome invadir-lhe os lares, torna-se urgente deixarmos essa apatia e irmos para o campo da luta pela existência, fazendo valer os nossos direitos de produtores da riqueza social”.[7]

A mediação cultural responsável por dar legitimidade ao protesto parece estar dada em situações como essa, uma vez que nos enfrentamentos contra a carestia foram produzidos discursos – proferidos nos comícios mas também em boletins, manifestos e textos de jornais – cuja noção central era a de que o “direito à vida” é inerente aos “produtores da riqueza social”. E que por ele valia a luta. O mesmo Caio Barros afirmava em 1913:

“[…] Se o presidente faltar à sua promessa, coloca-se fora da lei. E é fora da lei que então deve ser tratado. Mentir ao povo é uma ignorância. Se o governo não seguir o caminho da honra e do brio, não prezar a sua palavra, há, então, só um meio de salvação: é o povo enxotar os traidores de sua causa, e reivindicar por si mesmo o direito à vida”.[8]

O processo histórico real dos movimentos contra a carestia em 1913 e 1917 no Rio de Janeiro permite afirmar que ao menos dois elementos se combinaram e influenciaram a agência da classe trabalhadora nos protestos públicos: a) a valorização do trabalho e do trabalhador como um sujeito que “produz a riqueza social”, e que, em função disso, tem o direito de lutar por sua vida; b) o uso estratégico que foi feito dos comícios, a partir da propaganda da organização sindical de orientação sindicalista revolucionária, fato esse que indica a possibilidade, em movimentos sociais, de se fazer uso de questões gerais – como a carestia que afetava a maior parcela da sociedade – para a difusão de interesses a princípio particulares. Dito isso, a mediação cultural constitui esse elo de ligação entre a exploração de classe e o protesto popular, e sua contribuição é exatamente criar uma noção legitimadora do enfrentamento, essencial para a organização e a luta contra a fome.

Notas

[1] MARAM, Sheldon Leslie. Anarquistas, imigrantes e movimento operário brasileiro, 1890-1920. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p. 121.

[2] Marx já observava em meados da década de 1860 o caso em que uma “dieta para evitar a desnutrição” era então elaborada por médicos contratados pela burguesia. O Sr. Smith, médico encarregado, baseava tal dieta em níveis mínimos de carbono e nitrogênio, com vistas a diminuir os custos com a manutenção da mão de obra. Ver MUSTO, Marcelo (organizador). Trabalhadores, uni-vos!: antologia política da I Internacional. São Paulo: Boitempo, 2014, p. 94.

[3] A Voz do Trabalhador. Rio de Janeiro, 01/02/1913, p. 3.

[4] A Voz do Trabalhador. Rio de Janeiro, 15/03/1913, p. 2.

[5] Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 25/02/1913, p. 3.

[6] THOMPSON, E. P. Costumes em comum. São Paulo: Companhia das letras, 1998.

[7] A Época. Rio de Janeiro, 21/01/1917, p. 1.

[8] Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 06/03/1913, p. 3.