Ilustração de D. Muste
Ilustração de D. Muste

Grécia: um momento de grandes decisões

Stathis Kouvelakis

(Tradução de Alvaro Bianchi)

Meu “silêncio não característico” dos últimos dias, como alguém o descreveu em minha página do Facebook, deve-se simplesmente ao fato de que, desde que cheguei a Atenas para a campanha do “Não” no domingo [28 de junho], tenho dormido muito pouco e trabalhado muito. Hoje falei em duas concentrações (a estação central de trens em Atenas e o prédio central do metrô). Uma grande experiência. Minha agenda para amanhã [2 de julho] inclui discursos em várias concentrações na zona industrial de Moscato e um ato público em Petroupoli, na periferia oeste de Atenas..

Os trabalhadores sentem a pressão da situação criada pela histeria dos meios de comunicação e o fechamento dos bancos. Eles são bastante críticos às concessões feitas pelo governo durante aquelas exaustivas “negociações”, mas em geral estão confiantes na vitória do “Não”. Eles esperam que ela seja um novo começo para o governo de Syriza e que mais de seu programa seja implementado.

Gostaria de exortar todos os que acompanham o que está acontecendo na Grécia com a típica mistura de ansiedade e esperança a manter a cabeça o mais fria possível. A mídia grega está em um estado de histeria e a Ocidental não está muito diferente. Um de seus temas favoritos, no alto da atmosfera apocalíptica que estão propagando, é que o referendo não acontecerá, que o governo está de fato aceitando o plano Junker e deverá cancelar o referendo e assim por diante. Tenham cuidado com a desinformação.

É verdade que algumas iniciativas do governo são, para dizer o mínimo, ambíguas e contestáveis. Isso é particularmente verdadeiro para a proposta da última quarta-feira de um novo empréstimo do Mecanismo de Estabilidade Europeia e a carta do primeiro-ministro Alexis Tsipras para o Eurogrupo revelada hoje [1º de julho]. Seu objetivo é mostrar boa-fé e dar crédito à posição de que o que ocorrerá na próxima semana, depois de uma potencial vitória do “Não”, será um novo ciclo de “negociações”. Mas todos sabem que: a) isso é muito improvável que ocorra e b) que em qualquer caso não há propriamente nenhuma negociação em curso: Merkel deixou muito claro que nenhuma conversa é concebível antes de domingo.

Assim, há certa dimensão exagerada naquilo que os dois lados estão fazendo e de manobra tática do lado de Syriza, mas também é verdade que isso é um reflexo das contradições entre o governo e Syriza. Sua ala “realista”, liderada pelo vice-primeiro ministro Yannis Dragasakis, está tentando lançar a ideia de que o referendo é apenas um indesejável (e breve) parênteses no conflito e que as negociações recomeçarão novamente com base nas concessões muito graves que o governo aceitou pouco antes da interrupção nas negociações. A posição oficial, entretanto, é de que as negociações começarão a partir de uma “base zero”, o que significa que as propostas prévias do governo grego deverão agora ser consideradas obsoletas.

O discurso de Tsipiras hoje [dia 1º de julho] foi bem recebido e amplamente visto como desafiador, permitindo assim superar o impacto desmobilizador das últimas propostas. Mas, é claro, o melhor aliado do campo do “Não” é a atitude intransigente e arrogante dos credores, deixando pouco espaço para o “compromisso” mesmo aquele do pior tipo.

De acordo com as pesquisas de opinião publicadas hoje, o “Não” está na frente por 11% ou 13%, mas a distância está se estreitando desde segunda-feira devido ao fechamento dos bancos, as restrições para a retirada de dinheiro e os problemas que os pensionistas tiveram para receber seus pagamentos.

Isso tem criado inevitavelmente uma atmosfera de incerteza e medo, que é exatamente o que os líderes do Eurogrupo tinham em mente quando decidiram interromper qualquer provisão de liquidez. Entretanto também não é surpreendente que seja apenas entre pensionistas e donas-de-casa que o “sim” lidere ou esteja perto disso. Em todos os demais segmentos, inclusive entre pequenos empresários, o “Não” está an frente.

Muito dependerá da capacidade de mobilização de cada campo, particularmente do “Não”. As concentrações de votantes do “Sim” da terça-feira foram grandes e bem planejadas, mas quase exclusivamente de classe média alta e foram provavelmente o ápice daquilo que podem fazer em termos de mobilização. Levando em consideração que foi muito improvisado, o ato do “Não” de segunda-feira foi um bem sucedido começo. A campanha nas ruas começa hoje e será monopolizada quase inteiramente pelo campo do “Não”. O estado de espírito da sociedade grega é de um crescente polarização em nítidas linhas de classe nos centros urbanos e mais difusa no interior e nas pequenas cidades.

Falando qualitativamente as seções de Syriza estão galvanizando o processo e existe uma excelente relação com os camaradas de Antarsya. Outras forças, dos movimentos sociais e de várias campanhas, estão se unindo. Uma campanha do tipo de uma “frente única” está tomando forma, o que é uma excelente notícia.

Mas o grande passo atrás foi a atitude do Partido Comunista, a qual só pode ser qualificada como uma “traição”. (Geralmente eu não gosto desse termo, mas neste caso parece justificado.) Eles apresentarão sua própria cédula eleitoral afirmando um “duplo não” (ao plano da troika e ao governo, ambos vistos como “dois lados da mesma moeda”), uma cédula que obviamente será invalidada. Provavelmente farão sua própria contagem e, então, anunciarão o resultado como um tipo de “sucesso” de sua linha.

Se o “Não” vencer – o que parece provável mas não certo – e se vencer com uma clara maioria, o que ainda não se pode prever, é quase inevitável que ocorra uma escalada do confronto com a União europeia e a classe dominante interna. Grécia já se recusou a pagar o Fundo Monetário Internacional em junho e o default será declarado formalmente em trinta dias. As armas da liquidez e da moeda serão usadas de maneira cada vez mais pesada, com o Banco Central Europeu e o Fundo Europeu de Estabilização Financeira exigindo que seus empréstimos sejam pagos imediatamente. O momento das “grandes decisões” para Syriza virão inevitavelmente.

Uma vitória do campo do “Não” poderá galvanizar as forças populares. Mas este resultado não pode, sob circunstância alguma, ser considerado garantido. É o objeto de uma extraordinária batalha que está tendo lugar agora

(Publicado originalmente no blog da revista Jacobin.)