Ilustração de Oadilos
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Greve Internacional de Mulheres: uma construção coletiva

 

Renata Vereza

O nome retirado de um artigo que saiu em um site argentino, me parece resumir bem, tanto o título quanto o artigo, o que tem sido esse processo de construção da Greve Internacional de Mulheres ao redor do mundo[1]. A partir de um chamado de mulheres argentinas e polonesas que tiveram expressivos movimentos de mobilização em outubro de 2016, passando pelo valioso apoio de importantes feministas americanas, o movimento foi sendo construído ao largo (mas não contra e nem prescindido) de partidos, sindicatos, movimento sociais e tradicionais organizações feministas. Hoje, quando escrevo, grupos de mulheres em mais de 50 países pelo mundo se comprometeram com a divulgação do movimento e com ações relacionadas a ele no dia 08 de março.

O que tem de novo nesse cenário? Parece que muita coisa. Por um lado concreto, a insistência em não permitir que nenhum dos citados organismos acima monopolize ou instrumentalize o movimento, mas sim, faça parte dele de forma horizontal e cooperativa. E, mesmo com alguns percalços, tem-se conseguido manter o dialogo entre mulheres do mundo todo de forma aberta e franca, com a possibilidade de todas opinarem e contribuírem a partir das inúmeras assembléias locais, públicas e abertas a todas. Esse horizontalismo me parece ser o principal fator de atração mulheres (jovens em sua maioria) que não tinham uma experiência anterior de engajamento em movimentos sociais e feministas.

Um segundo fator que me parece relevante é a capacidade organizativa em nível mundial. De certo que o 8 de março sempre foi cenário de um sem fim de ações feministas e protestos por todo o mundo. Mas que grupos de mulheres de em mais de 50 países, somando atos, ações e protestos em mais de duas centenas de cidades, se organizem de forma coletiva, unitária e coordenada, em torno de uma mesma pauta, me parece revolucionário. É também é indicativo da potencia que o movimento feminista tem no mundo atual e das possibilidades que as redes sociais oferecem hoje em termos de comunicação. A diferença organizativa e de mobilização nos diferentes espaços ao redor do mundo é patente, mas a possibilidade de nos colocarmos todas em contato e o nível de solidariedade que é possível estabelecer, principalmente com os grupos menores ou em espaços politicamente inóspitos e por isso mais fragilizados, é fundamental e define bem a cara do movimento.

Por fim, e o que parece mais crucial, o novo está em tantas mulheres abraçarem uma pauta que tem claras conotações anticapitalistas. Trazer à baila a questão do trabalho produtivo e reprodutivo feminino não é pouca coisa, e isto mesmo justifica o nome de Greve ao movimento. A invisibilidade do trabalho doméstico e de cuidado e do trabalho reprodutivo, especialmente nos países tidos como “periféricos”, é alarmante. O nível de violência contra as mulheres, e a sua sub-notificação, é igualmente hediondo. Denunciar a exploração capitalista e as políticas neo-liberais como causadoras primeiras de nossa desigualdade em confronto direto com movimentos feministas mais conservadores e para fora dos movimentos sociais de esquerda, me parece uma tarefa importante que a Greve toma para si.

Mas nem tudo são flores. Cinzia Arruzza em um artigo publicado aqui fala dos questionamentos em relação à utilização da palavra Greve[2]. E esse foi o primeiro obstáculo que o movimento encontrou em Portugal. Movimentos feministas tradicionais[3], unidos em uma Rede formada para pensar o dia 08 de março, questionaram o uso do termo alegando a necessidade da convocatória por parte de sindicatos. Mesmo diante da argumentação de que “a greve das mulheres surge da reflexão política e teórica sobre as formas concretas do trabalho feminino nas sociedades capitalistas”[4], não sendo portanto, uma greve nos moldes tradicionais, houve intensa pressão no sentido que qualificar o movimento em Portugal como Paralisação Internacional de Mulheres e não como greve. De qualquer forma, a formação de uma rede de movimentos feministas deve ser considerada um avanço, principalmente por nela convergirem grupos de diferentes matrizes, filiações políticas e focos de luta. O que, sem dúvida, não só permite um diálogo mais alargado, mas o reconhecimento das diferentes demandas.

Infelizmente não há o apoio de sindicatos, concentrados em grande parte em uma central sindical comandada pelo partido que ocupa o governo e que , ao menos formalmente, é de esquerda. Esta Central puxou manifestação própria, para o dia 11 de março, descolado do resto do mundo e da maior parte dos movimentos feministas atuantes na capital, Lisboa. A Rede formada para o dia 08 de março esboça um apoio tímido à Paralisação Internacional de Mulheres[5], mas parece estar mais confortável com uma marcha por ela convocada também para o dia 11 de março. A idéia de comemoração com alguma denúncia ainda prevalece sobre a idéia de protesto incisivo que uma greve subentende. Como se este significasse não reconhecer os avanços obtidos ao longo dos anos, como por exemplo a liberação do aborto que completa dez anos agora em 2017 em Portugal. Mas as taxas não parecem convidar a comemorações. O número de femininicídios no país não retraiu[6] e a confortável diferença media de 13% dos ganhos salariais entre os gêneros, esconde uma taxa que beira os 30% quando relativa às mulheres com mais escolaridade, que são majoritárias no país[7]. Isso sem contar a sobre exploração das mulheres negras e imigrantes, tão precarizadas e sem acesso a direitos, que muitas vezes nem entram nas estatísticas oficiais.

Mas se nem tudo são flores, nem tudo são espinhos. O movimento cresce em Portugal, impulsionado por um grupo de mulheres que se reuniu em torno da causa, sensíveis a exploração da mulher nas sociedades capitalistas. Reunidas em assembléia, autodenominada Assembléia Feminista, mulheres trabalhadoras com trajetórias e experiências dispares, algumas organizadas, algumas com inserções em alguns movimentos e outras (grande parte) estreando na militância, se engajaram no movimento e tomaram para si a tarefa de levar a frente a idéia de uma paralisação internacional da mulheres. Por si só uma proposta de feminismo internacionalista que tenha uma pauta anticapitalista, que busque congregar os diferentes grupos, que se organize de forma horizontal e seja aberto a toda e qualquer mulher que queira participar, já pode ser considerado um avanço diante deste cenário.

Ao movimento iniciado em Lisboa, somou-se um grupo de mulheres em Coimbra, que planeja um ato para o dia 8 de março, e um grupo que se formou espontaneamente em Setúbal, talvez em função da repercussão mundial do movimento, que também fará manifestação neste mesmo dia.

O resultado, e o sucesso, de toda essa mobilização, em Portugal e no mundo, está diretamente relacionado à capacidade do movimento não só em mantê-la de forma efetiva para além do dia 8 de março, mas em formular propostas concretas para superar as desigualdades de gênero nas práticas econômicas e sociais.

Notas

[1] Verónica Gago.Una creación colectiva. Página 12, 3 mar. 2017. Disponível em: http://bit.ly/2n5tA7f

[2] Cinzia Arruzza; Tithi Bhattacharya. O significado de uma greve de mulheres. Blog Junho, 3 mar. 2017. Disponível em: http://bit.ly/2lSeba7

[3] Aqui qualifico de tradicionais os grupos que já contam com certa trajetória dentro do movimento feminista em Portugal.

[4] Idem.

[5] Mesmo que inserida formalmente no seu calendário.

[6] União de Mulheres Alternativa e Resposta. OMA – Observatório de Mulheres Assassinadas da UMAR Dados Intercalares 2014 (01 de Janeiro a 30 Novembro de 2014). Disponível em: http://bit.ly/2mawqIH

[7] Eugénio Rosa. A situação atual da mulher em Portugal: alguns dados para reflexão. Disponível em: http://bit.ly/2maCtND