Ilustração de Pierre lapalu
Ilustração de Pierre lapalu

Hegemonia como “saturação da consciência”

Daniela Mussi

Em 1959, a crise de uma parte da intelectualidade inglesa com a “ortodoxia” marxista se expressou na fundação da revista New Left Review (NLR), que teve como seu primeiro editor Stuart Hall e da qual Raymond Williams participou como colaborador desde seu nascimento (Hall, 2010, p.184). Este projeto mantinha sua identidade marxista e socialista mais geral consciente, como diria Williams anos mais tarde, de que “não se tratava apenas da fundação de uma revista”, mas da abertura de espaço em que se pudessem desenvolver os debates políticos e culturais sobre o fracasso “das maiores tradições do socialismo” (Williams, 2014, p.100).[1] A NLR não reivindicava o “comunismo liberal”, mas tinha consciência de estar fundada nos escombros da crise do Partido Comunista da Grã-Bretanha no período pós-denúncias dos crimes stalinistas por Nikita Kruchev, e dos conflitos envolvendo o conflito militar pelo Canal de Suez e as revoltas anti-burocráticas na Hungria (Cevasco, 2003, p.82-85; Hall, 2010, p.183).[2]

O surgimento da revista coincidia com a necessidade sentida de organizar uma “nova esquerda” a partir dos ex-militantes e dissidentes dos partidos comunistas, bem como renovar sua referência cultural e política. Eram gerações que sofriam com o “acúmulo incessante de evidências esmagadoras de tudo o que havia falhado na Revolução Russa” (Williams, 2014, p.101). Este processo coincidia, no ambiente inglês, com o reconhecimento do efeito das lutas por “mudanças graduais” sobre a consciência, com o afastamento da perspectiva de criação de uma sociedade socialista por meio de uma ruptura (Ibid., p.102-103). Nos anos 1960, a derrota das organizações políticas socialistas e comunistas não era apenas política, em sentido institucional, mas profundamente cultural e moral. Em alguns anos este ambiente seria transformado, tanto na Europa como nos Estados Unidos, por um novo ciclo de lutas e mobilizações radicais, especialmente entre os estudantes, dando vazão ao desenvolvimento de novas experiências político-organizativas, cujos pressupostos e dilemas eram discutidos desde já e para os quais a referência às ideias de Antonio Gramsci foi recorrente (Ibid., p.109).

Neste sentido, “ênfase na cultura” por Raymond Williams se ligava ao esforço por compreender a emergência do que chamava por “Estado corporativista”, que tudo incorpora e absorve. Foi com esta conotação, do poder como “incorporação”, que o conceito de hegemonia de Gramsci foi interpretado pelo crítico literário (Ibid., p.111). A questão-chave, para Williams, era estudar a dimensão da “cultura vivida”, na qual uma classe predomina sobre as outras por meio da “saturação de hábitos, de experiências, de perspectivas desde a mais tenra idade e permanentemente renovada em vários estágios da vida” (Ibid., p.111).[3]

Em artigo de 1961 (resultado de uma aula magna proferida na Universidade de Londres), Communications and Community, Williams apresentou a ideia do poder como as pedras que reforçam uma grande muralha, cujo cimento seria composto pelas diferentes formas de comunicação (Williams, 2014, p.29-31). Como forma de enfrentar e discutir o poder, os críticos deveriam “colocar-se ao pé da muralha” e, ao avaliar o tamanho desta em relação ao próprio, “perceber o que é preciso fazer e o que deixou de ser feito” (Ibid., p.30). Neste artigo, Williams apresentou uma tipologia por meio da qual a comunicação é organizada nas diferentes sociedades – que passava pela forma autoritária, paternalista, comercial até a democrática – complementar ao modelo de uma “longa revolução” e da conformação da “estrutura de sentimento”, conceito desenvolvido nos anos anteriores. A atenção dada ao peso subjacente a cada uma destas formas comunicacionais em sua relação com o desenvolvimento da vida econômica e das instituições políticas dava um tom bastante original para o modelo de análise cultural pretendido por Williams.

Entre 1965 e 1968, a NLR traduziu e publicou escritos de Gramsci sobre os “soviets na Itália” (de 1919-1920) e sobre o “princípio educativo” (escritos na prisão), compondo um arsenal gramsciano próprio, cujo foco estava na relação entre as estruturas políticas populares de base, assim como na dimensão educativa da vida social.[4] É bastante razoável, portanto, supor o contato direto de Williams com as ideias de Gramsci neste período. Apesar disso, a referência direta ao pensamento de Gramsci só se daria no início da década seguinte, por meio da apresentação do conceito de hegemonia como parte de uma operação de “renovação” ou “ressurgimento do marxismo” por meio da elaboração de uma teoria da cultura (Anderson, 1976, p.6-7; Williams, 2000, p.11).

Para isso também contribuiu a publicação, em 1971, das Selections from the Prison Notebooks, agora com tradução de Quintin Hoare and Geoffrey Nowell.[5] Segundo resenha de Eric Hobsbawm, publicada em 1974 na The New York Review of Books, a nova tradução permitia “ver Gramsci como um homem, não como uma sombra” (Hobsbawm, 1974).[6] Foi neste ambiente que, em 1973, no conhecido Base and Superstructure in Marxist Cultural Theory, Williams destacou como um mérito notável dos escritos de Gramsci a “ênfase” e esforço de entendimento da “noção de hegemonia” (Williams, 1973, p.8).

Ao ler e interpretar Gramsci, Williams não partia de uma investigação aprofundada do conceito elaborado nos Cadernos do Cárcere, mas buscava incorporar em seu novo “modelo” teórico – ao lado de ideias de outros intelectuais marxistas “não ortodoxos” – uma ideia de hegemonia de inspiração gramsciana (Id., 1986, p.26). Neste sentido, Williams apresentou a hegemonia como o resultado do processo de “saturação” da consciência que pode ser observado nos “fatos da dominação”, ou seja, um conceito prático de análise de fenômenos específicos da realidade cultural em determinado momento (Id., 1973, p. 8). Em seu modelo de “saturação da consciência”, em oposição à noção tradicional de ideologia, a hegemonia era pensada como conjunto de “estruturas internas complexas que precisam ser renovadas sempre, revividas, defendidas” e que, ao mesmo tempo, “podem ser desafiadas e modificadas” (Ibid., p.7).

Na interpretação de Williams, hegemonia expressaria “o sistema central de práticas, significados, valores” dominante e efetivo em uma sociedade determinada, identificado também com a noção “corporativa” (Ibid., p.9). Tradição, dispositivos e incorporação cultural seriam os três elementos deste sistema. Ciente de sua interpretação “livre” dos Cadernos do Cárcere, Williams deu destaque a uma dimensão específica do edifício das “relações de força” que Gramsci distinguira entre os níveis econômico-corporativo, político-estatal e estatal em sentido estrito (Q.13, §1). Para Williams, a realização da hegemonia deveria estar vinculada ao nível mais elementar destas relações, como experimento vivido e reforçado no cotidiano dos indivíduos, corpórea e corporativamente (Williams, 1973, p.9).

Esta elaboração consistia em uma subversão radical da arquitetura marxista comumente aceita de “base e superestrutura” para abrir espaço para a investigação da realização da cultura no mundo econômico-corporativo. A hegemonia consistiria exatamente nesta realização, sendo a “incorporação” seu modo elementar de funcionamento, como “cultura dominante efetiva”. Exercida de maneira dinâmica e sempre enraizada na dimensão corporativa, a hegemonia seria composta, em seu ápice, ao nível intelectual e teórico, por uma “tradição seletiva” continuamente ativa e adaptável, responsável pelo envolvimento de “forças” ou dispositivos culturais específicos, tais como “processos educacionais, família e organização do trabalho” (Ibid., p.9).

Williams viu no conceito de hegemonia uma ferramenta fundamental para o projeto de substituir as perspectivas “abstrata e imposta” de análise da cultura por “algo mais substancial e mais flexível” (Ibid., p.10). Apesar disso, para que a interpretação da hegemonia como realização corporativa não extinguisse de seu modelo a possibilidade de transformação social por meio da luta, percebeu também a necessidade de teorizar a respeito das expressões culturais desviantes daquela dominante ou hegemônica. Para tal, Williams distinguiu entre as expressões “alternativas” e as “de oposição” ou “emergentes”, sendo estas últimas vinculadas diretamente aos processos de questionamento e embate políticos. A distinção entre cultura alternativa e de oposição foi importante para Williams apresentar a contradição inerente ao mecanismo de “incorporação” hegemônico, um processo dinâmico que envolve uma gradação que vai da indiferença ao franco assédio da cultura dominante em relação às expressões desviantes.

A incorporação seria o processo no qual uma cultura desviante é tolerada (como cultura alternativa) ou combatida e incorporada (como cultura de oposição). A cultura alternativa seria aquela que carrega em si “resíduos” de formações sociais anteriores que a cultura dominante tolera e em relação a qual é indiferente até certo ponto (Ibid., p.8). A cultura de oposição, por sua vez, emergiria como contestação da cultura dominante e sua incorporação e destruição política seria resultado, no modelo de Williams, da fraca capacidade de contestação da hegemonia. Com a incorporação da cultura de oposição, a cultura dominante também sairia transformada, vivificada pelo combate. Justamente em virtude destas distinções, pode-se supor, pode ter emergido a noção de contra-hegemonia (ausente do léxico gramsciano) como sendo esta cultura de oposição ou contestação da política e cultura dominantes.

A noção de incorporação, que Williams concebia como mecanismo de funcionamento da hegemonia, possuía um forte eco da noção de gramsciana transformismo (embora Williams não tenha lançado mão deste termo). Aparte isso, Williams apresentou a ideia de que a cultura de oposição só encontra condições para nascer e resistir ao processo de absorção hegemônico à sombra da cultura dominante, no ponto cego desta (Ibid., p.10). Por consequência, Williams não desenvolveu profundamente a situação na qual a hegemonia poderia ser derrotada ou transformada integralmente. Da mesma forma, evitou elabora teoricamente a respeito da relação entre cultura e conflitos sociais, afirmando apenas que, no que diz respeito à hegemonia, a relação entre cultura e classes sociais é indireta, sendo sua coincidência uma possibilidade histórica (Ibid., p.11).

Referências bibliográficas

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[1] “Não precisamos apenas de grupos de discussão – afirmou o primeiro editorial da NLR, assinado por Stuart Hall – mas de centros socialistas de trabalho e atividade” (Hall, 1960, p.2. Grifo no original).

[2] Em sua fundação tomavam parte, ainda, intelectuais como Edward Thompson, Richard Hoggart, Charles Taylor e Isaac Deutscher e Perry Anderson. Em English Questions, Perry Anderson (1992) explicou o contexto intelectual que rondava as origens da revista marxista britânica New Left Review. Para Anderson, a empreitada como um todo devia sua principal inspiração intelectual ao pensador italiano Antonio Gramsci, que possuia, para este autor, dois aspectos centrais que falavam à situação inglesa. Em primeiro lugar, Gramsci havia sido o primeiro marxista a traçar as características nacionais de sua própria sociedade capitalista em suas formas particulares; em segundo, o primeiro revolucionário a apreender a necessidade por uma estratégia específica para o socialismo no Ocidente industrializado, pós-advento do sufrágio universal.

[3] A abordagem de Williams, é válido notar, remetia a um tema tradicional do moderno pensamento político inglês: a investigacão da natureza do consenso que forma a base para a estrutura do poder do Estado.

[4] O tradutor e comentador de Gramsci para a NLR era Quintin Hoare, ninguém menos que o co-responsável pela tradução e publicação na Inglaterra de uma nova e mais completa edição dos escritos carcerários em 1971. Hoare, além disso, foi autor do artigo What is fascism?, publicado pela NLR em 1963, pioneiro na introdução ao ambiente anglófono das discussões sobre o pensamento italiano a respeito do fascismo.

[5] Além da publicação, em 1973, das Letters from prison, traduzidas por Lynne Lawner. Os anos 1970, de resto, foram marcados pelo florescimento de um ciclo de pesquisas sobre as ideias de Gramsci fora da Itália, favorecidas pelas novas traduções e pela internacionalização dos debates ao redor da publicação da edição crítica dos Cadernos do Cárcere curada por Valentino Gerratana (Gramsci, 1975).

[6] Esta tradução se concentrava nos escritos carcerários e incorporava novos parágrafos, apesar de manter o caráter temático na organização interna. A seleção foi dividida em três grandes seções. A primeira, Problemas de História e Cultura, foi dividida em “Intelectuais”, “Educação” e “Notas sobre a história italiana. A segunda, Notas sobre a Política, foi dividida em “O Príncipe Moderno”, “Estado e Sociedade Civil” e “Americanismo e Fordismo”. A terceira, A Filosofia da Práxis, em “O estudo da filosofia” e “Problemas do Marxismo” (Gramsci, 1971).